O Brasil e a China assinaram, em 13 de outubro de 2026, um acordo de cooperação em gestão de recursos hídricos que poderá abrir novas oportunidades para modernizar sistemas de abastecimento, ampliar o reúso de água, melhorar a previsão de secas e enchentes e incorporar tecnologias digitais à operação de grandes infraestruturas.
A iniciativa chega em um momento estratégico. O Atlas Águas, publicado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) em 2021, estimou a necessidade de R$ 110 bilhões em investimentos até 2035 para melhorar a segurança hídrica do abastecimento urbano brasileiro. O levantamento também identificou 50,8 milhões de pessoas vivendo em cidades classificadas com segurança hídrica baixa ou mínima.
Esses números ajudam a dimensionar a importância da cooperação. Entretanto, a assinatura não significa que recursos financeiros já tenham sido destinados ou que tecnologias chinesas serão imediatamente implantadas no Brasil.
O ponto central está na possibilidade de transformar experiências internacionais em soluções práticas para um problema cada vez mais complexo: como garantir água em quantidade, qualidade e regularidade diante das mudanças climáticas, da expansão das cidades e da crescente competição pelos recursos disponíveis?
Para as companhias de saneamento, a resposta envolve muito mais do que construir novos reservatórios ou ampliar estações de tratamento.
O que prevê o acordo entre Brasil e China?
O Memorando de Entendimento foi assinado em Pequim pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) e pelo Ministério dos Recursos Hídricos da China (MWR).
A ANA participou da agenda, representada pelas diretoras Cristiane Battiston e Larissa Rêgo, e poderá atuar na implementação da cooperação, inclusive no Comitê Gestor Conjunto e em grupos técnicos temáticos.
Segundo a comunicação oficial da Agência, o acordo contempla oito frentes principais:
- Adaptação às mudanças climáticas e prevenção de secas e inundações.
- Monitoramento hidrológico, previsão e sistemas de alerta.
- Planejamento e operação de infraestruturas hídricas, incluindo transposições.
- Governança e gestão de bacias hidrográficas.
- Uso sustentável da água.
- Inovação científica, tecnológica e transformação digital.
- Capacitação profissional e fortalecimento institucional.
- Mecanismos de financiamento, proteção ecológica e desenvolvimento sustentável de reservatórios e barragens.
A abrangência indica uma cooperação voltada à gestão integrada das águas, e não apenas à execução de obras.
Até a divulgação do comunicado de 13 de outubro, não haviam sido apresentados valores de investimentos, cronogramas de implantação ou projetos específicos já contratados no âmbito do memorando.
Trata-se, portanto, de uma agenda institucional cujo impacto dependerá dos projetos que forem desenvolvidos posteriormente.
Por que a gestão de recursos hídricos se tornou estratégica para o saneamento?
A segurança de abastecimento depende de uma cadeia de decisões que começa antes da captação e termina no imóvel do consumidor.
Uma companhia pode possuir uma estação de tratamento moderna, capacidade adequada de reservação e uma extensa rede de distribuição. Mesmo assim, poderá enfrentar dificuldades se houver redução persistente da disponibilidade do manancial.
O problema também acontece na direção contrária.
Uma região pode dispor de recursos hídricos suficientes, mas apresentar desabastecimento por perdas elevadas, limitações no sistema produtor, falta de investimentos ou deficiências na operação.
Essa distinção é fundamental.
Disponibilidade hídrica não é sinônimo de segurança do abastecimento.
A primeira está relacionada à quantidade e à qualidade da água existente. A segunda incorpora também a capacidade de captar, tratar, transportar, distribuir e manter o serviço funcionando, inclusive durante eventos críticos.
O Atlas Águas da ANA demonstra essa relação ao avaliar não apenas os mananciais, mas também os sistemas produtores e a distribuição.
No levantamento de 2021, 77,3 milhões de brasileiros viviam em cidades com segurança hídrica média. Outros 50,8 milhões estavam em municípios de segurança baixa ou mínima.
Os valores representam o diagnóstico daquela edição, e não uma medição atualizada para outubro de 2026.
Ainda assim, revelam a dimensão estrutural do desafio brasileiro.
É nesse contexto que a gestão de recursos hídricos precisa deixar de ser tratada exclusivamente como atribuição dos órgãos gestores de bacias e passar a integrar diretamente o planejamento estratégico das prestadoras de saneamento.
China: uma experiência de transposição em escala continental
Uma das experiências conhecidas pela delegação brasileira foi a Rota Central do Projeto de Transposição de Águas Sul-Norte, uma das maiores intervenções de transferência de água entre regiões do mundo.
O empreendimento foi concebido para transportar recursos hídricos de áreas mais úmidas do sul da China para regiões do norte, onde a disponibilidade natural é menor e a demanda urbana e industrial é elevada.
Segundo informações divulgadas pelo governo chinês em julho de 2025, as rotas Central e Leste do projeto haviam transferido, conjuntamente, aproximadamente 80 bilhões de metros cúbicos de água desde o início de suas operações, beneficiando diretamente cerca de 185 milhões de pessoas.
Esses volumes são acumulados e referentes ao conjunto das duas rotas, não ao abastecimento anual de um único sistema.
A dimensão do projeto evidencia o desafio de coordenar reservatórios, canais, estações de bombeamento, estruturas de controle e múltiplos usuários ao longo de grandes distâncias.
Mas a principal oportunidade de aprendizado para o Brasil não está simplesmente no tamanho da infraestrutura.
Está na gestão da infraestrutura.
Sistemas dessa complexidade exigem integração permanente entre previsão hidrológica, programação de demandas, segurança operacional, manutenção de ativos e decisões sobre distribuição dos volumes disponíveis.
Uma alteração significativa nas vazões de origem pode repercutir sobre diversas regiões atendidas.
Da mesma forma, uma falha em estruturas estratégicas pode comprometer uma cadeia de abastecimento distante do ponto onde ocorreu o problema.
Por isso, o desempenho desses empreendimentos depende da capacidade de antecipar cenários e coordenar respostas.
O que a Transposição do São Francisco pode aprender?
O Brasil possui uma experiência diretamente relacionada: o Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF).
A infraestrutura transporta água para sistemas associados aos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Em janeiro de 2025, o MIDR informou ter assumido integralmente a gestão operacional do empreendimento, com o objetivo de padronizar procedimentos e melhorar a administração das estruturas.
Em junho do mesmo ano, foi anunciada uma licitação para concessão administrativa das atividades de operação e manutenção do projeto.
As experiências brasileira e chinesa apresentam diferenças significativas de escala, condições geográficas, características climáticas e organização institucional.
Entretanto, compartilham desafios técnicos importantes: controle de vazões, previsão de demandas, operação de reservatórios, segurança de estruturas e articulação entre diferentes usuários.
A cooperação pode contribuir para discutir modelos mais eficientes de operação integrada, manutenção preditiva e suporte tecnológico à tomada de decisão.
Uma aplicação especialmente relevante seria o aprimoramento de ferramentas capazes de simular, antecipadamente, como diferentes cenários de seca ou aumento de consumo afetariam os volumes disponíveis ao longo dos sistemas.
Isso permitiria comparar alternativas operacionais antes de executar mudanças que possam comprometer o abastecimento.
Gêmeos digitais: a tecnologia chinesa que merece atenção
Outro campo de interesse é a transformação digital da gestão de recursos hídricos.
Em setembro de 2025, o governo chinês informou avanços na implantação de sistemas de gêmeos digitais aplicados a bacias hidrográficas, redes de água e infraestruturas hidráulicas.
Um gêmeo digital é uma representação computacional de um sistema físico, alimentada por dados operacionais e modelos matemáticos.
Em vez de apresentar apenas informações históricas, essa tecnologia pode ajudar a simular o comportamento futuro de uma infraestrutura.
Por exemplo, um sistema de reservatórios poderia utilizar dados de chuva, níveis armazenados, vazões afluentes e demandas previstas para avaliar diferentes estratégias de operação.
Em uma companhia de saneamento, o conceito também pode ser aplicado à distribuição de água.
A combinação entre macromedidores, sensores de pressão, sistemas supervisórios, informações cadastrais e modelos hidráulicos permite representar o funcionamento da rede.
Com isso, torna-se possível investigar cenários como rompimentos de adutoras, alterações de pressão, fechamento de setores e expansão do consumo.
Entretanto, existe uma condição fundamental: um modelo digital não será confiável se os dados utilizados para alimentá-lo forem inconsistentes.
Cadastro desatualizado, medidores sem calibração, equipamentos desconectados e informações operacionais incompletas comprometem as simulações.
Por essa razão, a introdução de inteligência artificial e gêmeos digitais precisa ser precedida por uma avaliação da qualidade dos dados disponíveis.
A lição para os gestores é objetiva: investir em tecnologia sem desenvolver a base de informações pode produzir sistemas sofisticados que não representam adequadamente a realidade operacional.
Huaifang: quando o esgoto tratado se transforma em recurso estratégico
A delegação brasileira também visitou a Estação de Reciclagem de Água de Huaifang, em Pequim.
O empreendimento representa uma abordagem na qual o tratamento de esgoto é associado ao reaproveitamento de recursos e à recuperação ambiental.
A unidade, operada pelo Beijing Drainage Group, integra uma estratégia de modernização do tratamento de efluentes e lodos na capital chinesa.
A instalação utiliza infraestrutura subterrânea, permitindo conciliar o tratamento avançado com limitações de espaço urbano.
Outro aspecto relevante é o aproveitamento energético dos resíduos do tratamento.
Segundo informações divulgadas pela fornecedora de tecnologia Cambi, o processo de hidrólise térmica aplicado ao lodo contribui para a produção de biogás, com geração informada de aproximadamente 18,8 milhões de kWh de eletricidade por ano na instalação.
Esse resultado é apresentado pela empresa fornecedora e deve ser interpretado como informação técnica declarada, não como medição independentemente auditada nesta reportagem.
A hidrólise térmica consiste em submeter o lodo a condições controladas de temperatura e pressão para facilitar a degradação da matéria orgânica durante processos posteriores.
Seu uso pode melhorar a digestão anaeróbia e ampliar o aproveitamento energético, dependendo das características da instalação.
Para companhias brasileiras, a experiência revela uma oportunidade que vai além do tratamento convencional.
Uma estação de esgoto pode integrar produção de água de reúso, valorização de subprodutos, recuperação energética e redução da pressão sobre os mananciais.
Contudo, nem toda tecnologia empregada em grandes instalações chinesas será economicamente adequada a uma estação brasileira de pequeno ou médio porte.
A escolha depende de escala, custos energéticos, características do efluente, capacidade operacional e mercado consumidor.
O Brasil já possui um exemplo importante: Aquapolo
O benchmarking internacional precisa ser confrontado com experiências brasileiras.
No ABC paulista, o Aquapolo demonstra como o efluente tratado pode ser transformado em insumo para atividades industriais.
O empreendimento utiliza água proveniente da Estação de Tratamento de Esgoto ABC, associada à Sabesp, e a submete a processos adicionais para atender às exigências de qualidade dos consumidores.
Segundo relatório de Análise de Impacto Regulatório publicado pela ANA em outubro de 2025, o Aquapolo possuía capacidade instalada de 650 litros por segundo, com possibilidade de expansão para 1.000 litros por segundo mediante adaptações já implementadas.
O mesmo documento informa que a operação fornecia aproximadamente 1 milhão de metros cúbicos de água de reúso por mês.
O sistema utiliza tecnologias como ultrafiltração por membranas e osmose reversa parcial, além de monitoramento contínuo.
A água é transportada por uma adutora de aproximadamente 17 quilômetros para atendimento a consumidores industriais.
A experiência comprova que o reúso pode constituir uma atividade comercial estruturada, com contratos de longo prazo e requisitos específicos de qualidade.
Mas existe um detalhe especialmente importante.
O relatório da ANA registra, com base em entrevistas realizadas com a empresa, utilização de aproximadamente 380 a 400 litros por segundo, abaixo da capacidade instalada.
A limitação está relacionada à demanda industrial regional.
A principal lição é que produzir água de reúso não significa, automaticamente, conseguir comercializá-la.
Antes de investir em novas instalações, a companhia precisa identificar clientes potenciais, avaliar o volume necessário, verificar a qualidade exigida e estudar a viabilidade econômica do transporte.
Um projeto tecnicamente excelente pode enfrentar dificuldades financeiras quando não existe demanda contratada suficiente.
Por outro lado, quando há consumidores próximos e previsibilidade de fornecimento, o reúso pode reduzir a competição pela água destinada ao abastecimento público e criar oportunidades de receitas adicionais.
Ceará mostra que a tecnologia precisa caminhar com a governança
Nem todas as soluções relevantes exigem grandes investimentos em automação.
No Ceará, a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) desenvolveu uma experiência consolidada de alocação negociada de água.
O modelo envolve reuniões com usuários e representantes dos comitês de bacias para avaliar os volumes armazenados, as perspectivas hidrológicas e as necessidades de utilização dos reservatórios.
A Cogerh apresenta cenários de operação que podem contemplar horizontes de seis a dezoito meses.
A partir dessas informações, os participantes discutem as vazões que deverão ser disponibilizadas e os riscos de cada alternativa.
As decisões são formalizadas e utilizadas como referência para a operação.
Em janeiro de 2026, por exemplo, o Comitê da Bacia do Curu aprovou parâmetros de liberação de água para doze açudes monitorados da região, considerando os resultados operacionais anteriores e as condições dos reservatórios.
A experiência demonstra que a gestão de recursos hídricos não depende exclusivamente de modelos computacionais.
Ela também exige capacidade de negociação, transparência dos dados e definição clara de responsabilidades.
Para companhias que atuam em regiões sujeitas à escassez, a integração entre equipes operacionais, órgãos gestores, municípios e grandes consumidores pode reduzir conflitos e melhorar a previsibilidade das decisões.
A tecnologia contribui para a construção dos cenários. A governança define como esses cenários serão discutidos e transformados em decisões legítimas.
Cidades-esponja: a experiência chinesa na gestão de chuvas
A agenda da delegação brasileira também prevê conhecer iniciativas de cidades-esponja na região do Delta do Rio Yangtzé.
O conceito busca recuperar parte da capacidade do ambiente urbano de absorver, armazenar, retardar e infiltrar a água da chuva.
Em vez de depender exclusivamente de estruturas convencionais que conduzem rapidamente toda a água precipitada para galerias e canais, essa abordagem combina soluções de drenagem com espaços verdes, superfícies permeáveis, áreas de retenção e recuperação ambiental.
Entre as experiências chinesas está a cidade de Suzhou.
Segundo informações oficiais publicadas pelo governo municipal em janeiro de 2024, uma área-piloto de 26,45 km² recebeu 61 projetos relacionados à infraestrutura de cidade-esponja.
Na região avaliada, o indicador de controle do escoamento superficial anual passou de 53,84% para 76,56%.
O balanço também informou a eliminação de cinco pontos de acúmulo de água associados a alagamentos na área-piloto.
Esses resultados dizem respeito ao perímetro analisado e não devem ser generalizados automaticamente para toda a cidade.
A experiência é relevante porque mostra como intervenções urbanas podem produzir resultados mensuráveis.
Para o Brasil, esse modelo apresenta oportunidades em cidades com crescimento desordenado, impermeabilização intensa e sistemas de drenagem insuficientes.
Entretanto, as cidades-esponja não substituem galerias, canais, reservatórios de amortecimento ou outras obras necessárias.
São estratégias complementares, que precisam ser dimensionadas conforme as características da bacia e os eventos de chuva considerados em projeto.
O aprendizado é integrar infraestrutura convencional, soluções baseadas na natureza e gestão territorial.
Singapura: outra referência internacional para segurança hídrica
Embora não participe do memorando Brasil-China, Singapura oferece um benchmarking relevante para compreender a importância da diversificação das fontes de água.
A agência nacional PUB desenvolveu um sistema baseado em quatro fontes de abastecimento, conhecidas como Four National Taps.
Elas incluem captações locais, água importada, reúso avançado por meio do programa NEWater e dessalinização.
O NEWater utiliza efluentes tratados submetidos a processos adicionais de purificação, incluindo tecnologias de membranas.
A água produzida atende principalmente a demandas industriais e também integra a estratégia de segurança hídrica do país.
Em setembro de 2024, a PUB informou planos de ampliação da capacidade de produção diante da perspectiva de crescimento significativo da demanda até 2065.
A experiência apresenta duas lições importantes.
A primeira é que diversificar fontes pode reduzir a dependência de um único manancial.
A segunda é que sistemas de reúso avançado e dessalinização possuem custos energéticos relevantes, exigindo investimentos em eficiência e inovação.
Portanto, a diversificação deve ser acompanhada de avaliações econômicas e ambientais.
Essa discussão também se aplica ao Brasil: antes de escolher uma nova fonte, é necessário comparar seu custo total com alternativas de redução de perdas, aumento de eficiência e otimização dos sistemas existentes.
O que muda para a regulação brasileira?
O memorando internacional não modifica, por si só, as obrigações legais das prestadoras de saneamento.
A gestão de recursos hídricos no Brasil permanece fundamentada na Lei nº 9.433/1997, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos.
Entre seus princípios estão o reconhecimento da água como recurso limitado, a gestão descentralizada e participativa e a prioridade do consumo humano e da dessedentação de animais em situações de escassez.
Já a Lei nº 11.445/2007, alterada pela Lei nº 14.026/2020, estabelece o marco legal dos serviços de saneamento básico.
O marco define metas de universalização de 99% para abastecimento de água e 90% para coleta e tratamento de esgotos até 2033, observadas as disposições legais aplicáveis.
Também contempla metas relacionadas à continuidade do abastecimento, redução de perdas e melhoria dos processos de tratamento.
Existe, portanto, uma relação direta entre a gestão dos mananciais e o cumprimento das obrigações regulatórias das prestadoras.
Essa relação ganhou outro elemento em outubro de 2026.
Em reunião realizada nos dias 7 e 8, o Conselho Nacional de Recursos Hídricos aprovou novas diretrizes relacionadas à adaptação às mudanças climáticas e à revisão dos instrumentos de planejamento das bacias hidrográficas.
Segundo a ANA, a Resolução CNRH nº 250/2026 atualiza as diretrizes para elaboração, implementação, monitoramento e revisão dos planos de recursos hídricos.
O movimento reforça a necessidade de aproximar planejamento hídrico, resiliência climática e acompanhamento de resultados.
Na área de reúso, a ANA também realizou em 2026 consultas e audiência pública sobre proposta de norma de referência relacionada ao aproveitamento não potável de efluentes sanitários tratados.
Essas iniciativas regulatórias são independentes do memorando com a China, mas demonstram convergência temática.
Impactos para empresas de saneamento: da operação ao faturamento
Os potenciais efeitos da cooperação precisam ser analisados sob diferentes perspectivas.
Na operação, sistemas mais avançados de previsão podem ajudar a melhorar a programação de captações, o gerenciamento de reservatórios e a preparação para situações de escassez.
A integração de dados também pode favorecer a identificação de anomalias e a priorização da manutenção.
Na engenharia, modelos hidrológicos e hidráulicos mais confiáveis podem ampliar a qualidade dos estudos de expansão, projetos de contingência e análises de alternativas de abastecimento.
Na gestão de perdas, a integração entre medição, pressão, cadastro e demanda pode permitir intervenções mais direcionadas.
A redução de perdas é especialmente relevante porque representa uma forma de ampliar a disponibilidade para consumo sem exigir, necessariamente, a mesma expansão da produção de água.
Na área comercial, surgem oportunidades relacionadas ao planejamento de grandes consumidores, previsão de demandas, desenvolvimento de produtos de reúso e revisão de estratégias de atendimento durante eventos críticos.
Por exemplo, uma indústria que utiliza água potável em processos que admitem água de reúso pode representar uma oportunidade de substituição parcial da fonte, desde que existam viabilidade técnica, qualidade adequada e condições contratuais.
A decisão, entretanto, deve considerar os reflexos sobre receitas, tarifas, custos operacionais e regulação.
Na dimensão financeira, projetos de segurança hídrica exigem avaliação do custo total de longo prazo, incluindo implantação, energia, manutenção, reposição de equipamentos e riscos de indisponibilidade.
Uma alternativa com investimento inicial menor nem sempre possui o menor custo ao longo de sua vida útil.
O critério econômico também precisa incorporar o custo dos eventos de desabastecimento, que podem provocar despesas emergenciais, interrupções de atividades econômicas, aumento de reclamações e impactos reputacionais.
Como aplicar esses aprendizados nas companhias brasileiras?
A oportunidade mais imediata não depende da chegada de equipamentos chineses.
Ela começa pela revisão da forma como as companhias utilizam seus próprios dados.
Uma agenda prática de modernização pode ser organizada em cinco etapas.
1. Construir um diagnóstico integrado de segurança hídrica. Reunir informações sobre disponibilidade dos mananciais, capacidade de produção, reservas operacionais, perdas, demanda atual e crescimento previsto. Esse diagnóstico deve identificar os pontos onde uma falha comprometeria maior parcela do abastecimento.
2. Incorporar cenários climáticos à programação operacional. Simular situações de estiagem prolongada, aumento de temperatura, crescimento da demanda e restrições de captação. O objetivo é estabelecer limites operacionais e medidas preventivas antes do agravamento das condições.
3. Identificar oportunidades de reúso com demanda real. Mapear estações de tratamento, indústrias próximas, possíveis volumes comercializáveis e padrões de qualidade exigidos. Estudos de viabilidade devem preceder decisões de implantação.
4. Desenvolver projetos-piloto de digitalização. Selecionar sistemas com dados relativamente confiáveis e problemas operacionais claramente identificados. Implantar soluções de monitoramento ou modelagem em escala controlada, acompanhando indicadores objetivos antes de expandir os investimentos.
5. Estabelecer uma governança integrada. Aproximar operação, engenharia, planejamento, meio ambiente, tecnologia, comercial, regulação e órgãos gestores dos recursos hídricos. A coordenação entre essas áreas evita decisões isoladas que resolvem um problema enquanto criam outro.
Uma proposta especialmente interessante seria desenvolver um painel corporativo de segurança hídrica.
O painel poderia reunir níveis de reservatórios, vazões captadas, capacidade de produção, autonomia de armazenamento, índice de perdas, consumo de grandes usuários e evolução da demanda.
O diferencial não estaria apenas na visualização.
Estaria na definição de alertas, responsáveis, limites de atuação e protocolos associados aos diferentes cenários.
Dessa forma, as informações passariam a produzir decisões operacionais concretas.
O que pode dar errado na transferência de tecnologias?
A cooperação internacional também exige cautela.
O primeiro risco é tentar replicar soluções sem considerar as diferenças entre os sistemas.
A dimensão das infraestruturas chinesas, suas condições institucionais, a disponibilidade de investimentos e a concentração populacional nem sempre encontram equivalentes diretos no Brasil.
O segundo risco envolve a dependência tecnológica.
Sistemas digitais precisam permitir integração com plataformas existentes, disponibilidade de manutenção, capacitação das equipes e continuidade operacional.
A contratação de tecnologias proprietárias sem requisitos adequados de interoperabilidade pode criar dificuldades futuras.
Outro ponto é a segurança cibernética.
Quanto maior a integração entre equipamentos de campo, sistemas supervisórios e plataformas digitais, maior deve ser a atenção à proteção de redes, controles de acesso e planos de contingência.
Na área de reúso, os riscos incluem qualidade inadequada para o uso pretendido, ausência de clientes, custos de transporte elevados e responsabilidades contratuais mal definidas.
Projetos de grande porte também exigem avaliações de impactos ambientais e sociais, especialmente quando envolvem transposição de águas entre bacias.
O erro mais comum seria confundir inovação com aquisição de equipamentos.
A inovação relevante é aquela que melhora resultados operacionais, reduz riscos ou cria valor mensurável para o sistema.
Como medir se a cooperação produziu resultados?
Um dos desafios da agenda Brasil-China será transformar o intercâmbio institucional em benefícios verificáveis.
Visitas técnicas e reuniões podem ampliar conhecimentos, mas não são indicadores suficientes de resultado.
Para demonstrar valor, eventuais projetos decorrentes do acordo deverão apresentar objetivos, responsáveis, cronogramas e indicadores.
Na gestão de eventos extremos, poderão ser avaliados o tempo de antecedência dos alertas, a precisão das previsões e a efetividade das respostas operacionais.
Na operação de reservatórios, indicadores poderão acompanhar aderência às regras de operação, confiabilidade das informações e capacidade de atendimento das demandas.
Em projetos de reúso, será importante medir volumes efetivamente fornecidos, qualidade, disponibilidade, custo unitário e receitas obtidas.
Na transformação digital, deverão ser observados os ganhos reais de produtividade, confiabilidade operacional e redução de custos.
A capacitação profissional também precisa produzir resultados.
O conhecimento adquirido em missões técnicas pode ser convertido em procedimentos, manuais, projetos-piloto e treinamentos destinados às equipes responsáveis pela operação diária.
Essa é uma forma de fazer a cooperação alcançar profissionais que não participaram diretamente das agendas internacionais.
Lições para quem trabalha no saneamento
A análise das experiências brasileiras e internacionais permite identificar uma mudança importante no perfil de competências exigidas pelo setor.
Profissionais de operação precisam compreender não apenas o comportamento dos equipamentos, mas também como suas decisões interferem na segurança de sistemas maiores.
Engenheiros precisam trabalhar com modelos, cenários de risco e análises de ciclo de vida, além do dimensionamento convencional de estruturas.
Especialistas comerciais precisam relacionar consumo, disponibilidade hídrica, comportamento dos grandes usuários e oportunidades de novas modalidades de fornecimento.
Profissionais de tecnologia precisam compreender os processos físicos que seus sistemas representam.
Reguladores precisam avaliar como novas soluções se relacionam com qualidade, tarifas, sustentabilidade econômica e proteção dos usuários.
E gestores precisam desenvolver a capacidade de integrar essas diferentes competências.
A experiência internacional demonstra que infraestrutura, tecnologia e governança não devem ser tratadas como iniciativas independentes.
A eficiência depende justamente da combinação entre elas.
Oportunidades que podem surgir nos próximos anos
A partir dos temas previstos no memorando, é possível identificar oportunidades de cooperação que merecem acompanhamento.
Entre elas estão o desenvolvimento de projetos-piloto de monitoramento hidrológico, intercâmbio de metodologias de previsão, estudos de operação integrada de reservatórios e avaliação de tecnologias voltadas ao reúso.
Também poderão surgir possibilidades de capacitação técnica, pesquisa aplicada e cooperação acadêmica.
Essas iniciativas são possibilidades decorrentes dos campos de atuação previstos no acordo, não projetos cuja execução já esteja confirmada.
Para as prestadoras brasileiras, o benefício potencial será maior se as experiências forem adaptadas às necessidades locais.
Uma companhia com problemas recorrentes de seca poderá priorizar previsão hidrológica e diversificação de mananciais.
Outra, com grandes consumidores industriais e estações de tratamento próximas, poderá encontrar oportunidades de reúso.
Empresas que apresentam elevada complexidade de distribuição poderão priorizar modelagem hidráulica e análise integrada de dados.
Não existe uma tecnologia única capaz de resolver todos esses problemas.
Existe, entretanto, uma metodologia comum: identificar o risco, medir sua dimensão, comparar alternativas e acompanhar os resultados.
Conclusão: o maior ganho poderá estar na maneira de decidir
O acordo entre Brasil e China representa uma oportunidade para ampliar o intercâmbio técnico em gestão de recursos hídricos, mas seu sucesso não deverá ser medido apenas pelo número de missões realizadas ou pelas tecnologias apresentadas.
O resultado mais importante será a capacidade de transformar conhecimento em decisões que melhorem efetivamente a segurança hídrica brasileira.
As experiências analisadas mostram caminhos complementares.
A China demonstra a complexidade de operar grandes sistemas de transferência de água, integrar informações e desenvolver infraestrutura urbana mais resiliente.
O Aquapolo evidencia o potencial do reúso e, ao mesmo tempo, a importância de existir demanda comercial suficiente.
O Ceará demonstra que decisões compartilhadas, apoiadas por cenários hidrológicos, podem melhorar a gestão de recursos escassos.
Singapura revela o valor da diversificação das fontes e do planejamento de longo prazo.
Em todos esses casos, existe uma conclusão comum: a segurança hídrica não depende apenas de produzir mais água, mas de gerir melhor cada recurso, infraestrutura e decisão.
Para os profissionais do saneamento, esse talvez seja o maior aprendizado da cooperação Brasil-China.
O futuro do abastecimento será construído tanto por novos empreendimentos quanto pela capacidade de antecipar riscos, interpretar dados, reduzir desperdícios, recuperar recursos e integrar equipes.
A pergunta estratégica deixa de ser apenas quanto uma companhia precisa investir para aumentar sua capacidade.
Passa a ser quanto ela poderá ganhar em confiabilidade, eficiência e sustentabilidade ao utilizar melhor a infraestrutura e os recursos de que já dispõe.
Fontes e referências
1. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
Brasil e China assinam Memorando de Entendimento para ampliar cooperação em gestão de recursos hídricos.
13 de outubro de 2026.
Consultar publicação oficial
2. ANA — Atlas Águas
ANA aponta ações e investimentos necessários em todas as cidades brasileiras para garantir abastecimento de água até 2035.
18 de outubro de 2021.
Consultar levantamento
3. ANA — Conselho Nacional de Recursos Hídricos
CNRH aprova revisão das diretrizes para elaboração dos planos de bacia e novo normativo para adaptação às mudanças climáticas.
13 de outubro de 2026.
Consultar publicação
4. ANA — Superintendência de Regulação de Saneamento Básico
Relatório de Análise de Impacto Regulatório: Norma de Referência sobre reúso não potável de efluentes sanitários tratados.
Outubro de 2025.
Consultar relatório técnico em PDF
5. ANA
Audiência pública reúne representantes do setor para discutir reúso não potável de água de esgoto.
26 de fevereiro de 2026.
Consultar publicação
6. Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR)
MIDR assume operação do Eixo Leste da Transposição do Rio São Francisco.
23 de janeiro de 2025.
Consultar publicação
7. Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR)
Aberta licitação para nova operadora da Transposição.
18 de junho de 2025.
Consultar publicação
8. Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh)
Perguntas frequentes — Alocação negociada de água.
Página institucional consultada em outubro de 2026.
Consultar metodologia
9. Cogerh
Comitê do Curu aprova operações de liberação de água dos açudes da região para o primeiro semestre de 2026.
2026.
Consultar experiência operacional
10. Governo da China — Portal Oficial / Xinhua
Eastern route of South-to-North Water Diversion Project in E China.
7 de julho de 2025.
Consultar dados do projeto
11. State Council Information Office of China
China advances digital twin systems in water conservancy sector.
30 de setembro de 2025.
Consultar publicação
12. Cambi — Fornecedora de tecnologia
Beijing — Huaifang: Customer Story.
Página técnica institucional, sem data de publicação identificada.
Consultar apresentação do projeto
13. Governo Municipal de Suzhou — Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano-Rural
Relatório sobre os resultados do projeto-piloto de cidade-esponja de Suzhou.
29 de janeiro de 2024. Publicação original em chinês.
Consultar resultados oficiais
14. PUB — Agência Nacional de Águas de Singapura
Singapore NEWater Journey.
Setembro de 2024.
Consultar experiência de reúso
15. Presidência da República — Brasil
Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997 — Política Nacional de Recursos Hídricos.
8 de janeiro de 1997.
Consultar legislação
16. Presidência da República — Brasil
Lei nº 11.445, de 5 de janeiro de 2007, com alterações da Lei nº 14.026/2020.
Texto compilado.
Consultar legislação
Reportagem técnica | Saneamento Pro | 14 de outubro de 2026.



