Conectividade IoT no saneamento: o que define a escala

Uma companhia pode comprar milhões de hidrômetros inteligentes, contratar plataformas analíticas sofisticadas e desenvolver algoritmos capazes de detectar vazamentos. Mas existe uma condição anterior a praticamente tudo isso: o dado precisa sair do hidrômetro e chegar ao sistema da companhia com confiabilidade.

Esse é o ponto central de uma análise publicada em 6 de outubro de 2026 pela Smart Water Magazine e assinada por Vadim Lyu, executivo da Netmore, operadora global de redes LoRaWAN. A discussão parece tecnológica, mas possui consequências diretamente comerciais, operacionais e financeiras.

Um hidrômetro que mede corretamente, mas permanece sem comunicação durante dias, transforma um investimento em medição inteligente em um equipamento parcialmente inteligente. Sem dados frequentes, deterioram-se a detecção de vazamentos, os alertas aos clientes, a análise de consumo, o balanço hídrico, a gestão de perdas e até a capacidade de faturamento.

É por isso que a conectividade IoT no saneamento começa a deixar de ser um item de telecomunicações escondido dentro dos projetos de tecnologia para se tornar uma decisão de infraestrutura.

E o Brasil já entrou nessa discussão em escala milionária.

A água inteligente começa antes da inteligência artificial

Quando se fala em smart water, é comum que as atenções se concentrem em inteligência artificial, gêmeos digitais, analytics, modelos preditivos e centros de operação.

Mas todos eles dependem de uma camada aparentemente menos sofisticada: comunicação.

O artigo da Smart Water Magazine chama atenção para uma característica específica do saneamento. Hidrômetros de água frequentemente estão instalados em caixas subterrâneas, calçadas, porões, áreas internas de edificações ou ambientes cercados por concreto, metal, solo e umidade. É um cenário de propagação de radiofrequência muito diferente daquele enfrentado por um smartphone utilizado acima do solo.

Uma tecnologia que apresenta excelente cobertura em um mapa convencional de telecomunicações pode ter desempenho bastante diferente dentro da caixa onde está instalado o hidrômetro. (Smart Water Magazine)

Por isso, cobertura geográfica e cobertura efetiva dos equipamentos não são exatamente a mesma coisa.

A fonte original apresenta um exemplo didático: em uma implantação de um milhão de medidores, atingir 72% de leitura significaria 280 mil dispositivos sem transmitir adequadamente. Trata-se de uma ilustração apresentada pelo autor, e não de um resultado atribuído a uma companhia específica. Ainda assim, o raciocínio é importante.

Uma diferença aparentemente pequena na taxa de comunicação pode representar dezenas de milhares de clientes sem dados.

Medição inteligente é muito mais que leitura automática

Durante décadas, digitalizar a medição significava principalmente eliminar a visita mensal do leiturista.

Essa visão está ficando ultrapassada.

Em uma infraestrutura AMI — Advanced Metering Infrastructure — o medidor deixa de gerar apenas um número mensal utilizado para faturamento. Ele pode produzir uma série temporal de consumo, alarmes, fluxos mínimos, eventos de possível vazamento e informações sobre seu próprio funcionamento.

O valor muda completamente.

Com leituras frequentes, uma companhia pode identificar consumo contínuo durante a madrugada, estimar vazamentos internos, detectar alterações de perfil, priorizar inspeções, identificar possíveis fraudes, melhorar estimativas de demanda e fornecer informações ao próprio consumidor.

Portanto, o objetivo não é simplesmente automatizar a leitura.

É transformar um parque de hidrômetros em uma rede distribuída de sensores de consumo.

Nesse modelo, a conectividade passa a fazer parte do próprio processo comercial.

Por que a conectividade IoT no saneamento é diferente

Aplicações de água possuem uma combinação pouco comum de requisitos.

O dispositivo precisa funcionar durante muitos anos utilizando bateria. Precisa transmitir pequenos volumes de informação. Pode estar enterrado. Pode estar distante de infraestrutura elétrica. Precisa custar pouco quando multiplicado por centenas de milhares ou milhões de unidades.

Além disso, o ciclo de vida do hidrômetro inteligente é muito maior do que o de boa parte dos equipamentos eletrônicos convencionais.

Uma arquitetura escolhida hoje pode precisar continuar funcionando em 2035 ou 2040.

Isso muda completamente a análise de contratação.

Não basta perguntar qual tecnologia possui melhor alcance atualmente. É necessário perguntar quem operará aquela rede, quem manterá a infraestrutura, como ocorrerão atualizações, qual será o nível de serviço, quanto custará cada dispositivo conectado e qual será o grau de dependência tecnológica da companhia durante uma ou duas décadas.

A conectividade IoT no saneamento, portanto, precisa ser analisada pelo custo total do ciclo de vida — e não apenas pelo custo inicial.

LoRaWAN: por que ganhou espaço no setor de água

LoRaWAN é uma tecnologia LPWAN — Low Power Wide Area Network — projetada para transportar pequenos volumes de dados a longas distâncias utilizando baixo consumo energético.

Uma de suas características estratégicas é permitir redes públicas, privadas ou modelos administrados por operadores especializados.

A LoRa Alliance destaca como vantagens para utilities a longa autonomia dos dispositivos, comunicação de baixa potência, possibilidade de redes próprias e utilização de um ecossistema aberto de equipamentos. A organização informa também que a especificação emprega mecanismos de criptografia AES de 128 bits. (LoRa Alliance®)

Para uma companhia de saneamento, a possibilidade de reduzir dependência de um único fabricante ou operador pode ter valor significativo.

Um contrato de medição pode atravessar várias gerações de produtos.

Quanto mais fechada for a arquitetura, maior pode ser o custo futuro de migração.

Mas existe uma ressalva importante.

LoRaWAN normalmente utiliza espectro de uso não exclusivo. No Brasil, equipamentos enquadrados nas regras de radiação restrita estão sujeitos às condições definidas pela Anatel e não possuem direito a proteção contra interferência prejudicial de outras estações. (Governo Federal)

Isso não inviabiliza a tecnologia. Significa apenas que engenharia de rádio, densidade de gateways, redundância e gestão da rede importam muito.

NB-IoT: a alternativa celular que também foi feita para sensores

Do outro lado está o NB-IoT, tecnologia padronizada pelo 3GPP e utilizada em redes celulares licenciadas.

A GSMA descreve o NB-IoT como uma tecnologia LPWA criada especificamente para equipamentos de baixo consumo, grandes quantidades de dispositivos e ambientes de cobertura difícil. Dependendo do perfil de utilização, pode suportar baterias superiores a dez anos. (GSMA)

A principal diferença estrutural está no modelo.

Em vez de a utility implantar gateways próprios, uma operadora móvel pode fornecer a infraestrutura de comunicação.

Isso reduz determinadas responsabilidades de infraestrutura e pode acelerar implantações onde a cobertura já existe.

Ao mesmo tempo, aumenta a dependência do operador celular, de seus planos comerciais, da disponibilidade regional da tecnologia e das condições de cobertura exatamente no ponto em que o hidrômetro está instalado.

Existe ainda o LTE-M, também integrante do ecossistema celular LPWAN. A GSMA considera NB-IoT e LTE-M tecnologias complementares: NB-IoT tende a se adequar especialmente a sensores simples e estáticos em locais de difícil cobertura, enquanto LTE-M pode atender casos que exigem maior velocidade, mobilidade ou transmissão de volumes superiores de dados. (GSMA)

A discussão correta, portanto, não é simplesmente “LoRaWAN ou NB-IoT?”.

É: qual arquitetura oferece o melhor desempenho técnico e econômico para cada território e aplicação?

O Reino Unido está virando um laboratório mundial de smart water

A escala britânica ajuda a compreender por que essa discussão ganhou importância.

A Ofwat, reguladora de água da Inglaterra e País de Gales, autorizou mais de £1,7 bilhão em custos relacionados à implantação de aproximadamente 10,4 milhões de medidores inteligentes entre 2025 e 2030. Ao mesmo tempo, estabeleceu expectativa de redução adicional de 17% nas perdas durante o ciclo regulatório. (Ofwat)

Smart metering deixou, portanto, de ser apenas projeto de inovação.

Virou componente da política de gestão de demanda e perdas.

A Yorkshire Water oferece um exemplo concreto.

Em julho de 2026, a companhia informou ter alcançado 250 mil trocas dentro de seu programa, que pretende substituir aproximadamente 1,4 milhão de hidrômetros até 2030.

Os dispositivos enviam mais de 20 leituras por dia.

Nos 12 meses anteriores à divulgação, a companhia informou ter contatado 12,8 mil clientes sobre possíveis vazamentos identificados a partir dos dados, registrado 9.387 correções realizadas pelos próprios clientes e associado a iniciativa à economia de 11,16 milhões de litros de água. (Yorkshire Water)

É aqui que se percebe algo essencial.

A comunicação não gera economia de água diretamente.

Ela reduz o tempo entre o início de uma anomalia e a capacidade de perceber e agir sobre ela.

Essa diferença pode ter enorme valor.

A frequência do dado muda a operação

Imagine dois sistemas.

No primeiro, um cliente é lido uma vez por mês. Um vazamento começa no dia seguinte à leitura. A companhia poderá levar quase 30 dias para observar a anomalia.

No segundo, o consumo é transmitido várias vezes por dia.

O problema pode ser identificado praticamente no início de sua curva.

É exatamente essa redução do chamado leak run time — tempo durante o qual o vazamento permanece ativo — que aumenta o valor da medição inteligente.

Entretanto, existe uma condição: a comunicação precisa funcionar.

É nesse ponto que a conectividade IoT no saneamento se transforma em indicador operacional.

Uma taxa de leitura deveria ser acompanhada com a mesma seriedade de outros indicadores estratégicos. Não basta contabilizar quantos medidores foram instalados. É necessário conhecer quantos efetivamente comunicam, com qual frequência, em quais regiões e com qual estabilidade.

E o Brasil? A escala já começou

A discussão deixou de ser teórica no mercado brasileiro.

A Telefônica Brasil informa que o projeto realizado com a Sabesp prevê a instalação de 4,4 milhões de hidrômetros inteligentes em São Paulo e São José dos Campos até 2029. (Telefónica)

Poucos projetos no mundo possuem escala comparável.

Isso significa que questões aparentemente pequenas ganham dimensões financeiras enormes.

Uma diferença de R$ 1 por mês no custo de conectividade de 4,4 milhões de dispositivos representa R$ 52,8 milhões por ano.

Da mesma forma, uma taxa de comunicação de 95% deixaria 220 mil dispositivos fora do desempenho esperado. A comparação é meramente matemática, não representa o desempenho do projeto da Sabesp, mas demonstra por que cada ponto percentual importa em um parque milionário.

A companhia já havia realizado experiências anteriores com telemedição. Em Morungaba, por exemplo, um projeto utilizou hidrômetros ultrassônicos e comunicação Sigfox, demonstrando que a trajetória de digitalização brasileira vem sendo construída por testes sucessivos de tecnologias e arquiteturas.

Iguá mostra que o valor está depois da instalação

A Iguá também acumulou experiência relevante.

Em seu Relatório Integrado de 2025, a empresa descreve o uso de smart meters combinado a uma plataforma denominada SmartMetric Sentinel, capaz de analisar anomalias de consumo com machine learning e regras operacionais. A companhia também informa integração de telemetria e macromedição com ferramentas analíticas voltadas à detecção de anomalias. (Iguá SA)

Esse exemplo mostra uma evolução importante.

Primeiro surge o medidor.

Depois vem a conectividade.

Na etapa seguinte, os dados começam a alimentar algoritmos.

Por último — e talvez mais importante — é necessário criar processos operacionais capazes de transformar os alertas em ações.

Sem essa última etapa, a companhia apenas substitui escassez de dados por excesso de dados.

Uberlândia traz uma pista sobre o futuro: multiconectividade

Um processo recente oferece uma indicação particularmente interessante para o mercado brasileiro.

Em 2 de outubro de 2026, a Prefeitura de Uberlândia publicou a homologação de uma contratação para fornecimento, manutenção e operação de dispositivos destinados a hidrômetros, medidores ultrassônicos e velocímetros utilizando IoT NB-IoT/LoRaWAN. (Diário Oficial)

A combinação merece atenção.

Em vez de assumir que um único protocolo solucionará todos os cenários, uma arquitetura pode trabalhar com mais de uma rede.

A própria Netmore, empresa que defende LoRaWAN no artigo que originou esta análise, anunciou em março de 2026 uma parceria brasileira com a Allcom Telecom para integrar LoRaWAN e NB-IoT em uma mesma estratégia de conectividade. (Netmore Group)

Talvez esteja justamente aí uma das principais tendências.

O futuro da conectividade IoT no saneamento pode ser menos uma batalha entre tecnologias e mais uma combinação inteligente delas.

A rede LoRaWAN também ganhou um novo capítulo no Brasil

Em setembro de 2025, a Netmore assumiu as operações comerciais da rede LoRaWAN anteriormente operada pela American Tower no Brasil.

Segundo a empresa, a estratégia prevê expansão, densificação da infraestrutura e aplicação em medição de água e gás, cidades inteligentes, agricultura e logística. (Netmore Group)

Isso é relevante porque altera o ecossistema disponível para companhias brasileiras.

Uma utility interessada em LoRaWAN não precisa necessariamente construir toda sua infraestrutura do zero. Podem existir modelos de Network-as-a-Service, redes privadas, redes operadas por terceiros ou combinações entre essas alternativas.

Consequentemente, o estudo econômico precisa comparar CAPEX, OPEX, SLA, cobertura e risco tecnológico de cada modelo.

O problema mais difícil: os últimos poucos por cento

Redes de IoT em saneamento enfrentam uma característica conhecida em projetos de infraestrutura: conectar os primeiros 90% pode ser relativamente simples; conectar os últimos pontos costuma ser mais caro.

Um hidrômetro pode estar sob tampa metálica.

Outro pode estar dentro de um edifício.

Outro em área rural.

Outro em uma rua cercada por construções de grande densidade.

Por isso, o projeto precisa ser dimensionado a partir dos locais reais onde estão os medidores, e não simplesmente de um mapa genérico de cobertura.

A proposta defendida pela Netmore é justamente realizar o desenho da rede considerando os endereços dos equipamentos, gateway density, posicionamento das antenas e redundância. (Smart Water Magazine)

Existe até uma evolução tecnológica recente para esses pontos difíceis.

Em setembro de 2026, Netmore, Itron e Abeeway anunciaram a validação de uma solução LoRaWAN Relay destinada a ampliar conectividade onde o enlace direto entre medidor e gateway enfrenta obstáculos. (LoRa Alliance)

É um sinal de maturidade do mercado: agora a discussão não é apenas como conectar milhões de dispositivos, mas como resolver economicamente as exceções difíceis dentro desses milhões.

O que gestores deveriam exigir antes de contratar

A especificação de um projeto de medição inteligente deveria começar por indicadores de resultado, e não pelo nome da tecnologia.

Entre os pontos que merecem ser definidos estão:

  1. Taxa mínima de leituras válidas, medida por períodos e por regiões; cobertura comprovada no ponto de instalação, inclusive caixas subterrâneas; frequência mínima dos dados necessária para faturamento, vazamentos e analytics; autonomia de bateria considerando o perfil real de transmissão; SLA e redundância da rede; interoperabilidade e possibilidade de troca de fabricantes; custos de comunicação durante toda a vida útil; integração com faturamento, CRM, GIS, SCADA e plataformas analíticas; política de atualização de firmware; segurança, criptografia, gestão de chaves e resposta a incidentes; procedimento para áreas sem cobertura; e indicadores de resultado capazes de relacionar conectividade a redução de perdas, leitura, faturamento e atendimento.

A diferença parece pequena, mas altera completamente a contratação.

Em vez de comprar “mil hidrômetros LoRaWAN” ou “mil hidrômetros NB-IoT”, compra-se um nível de desempenho operacional.

Isso protege a companhia contra escolhas tecnológicas inadequadas e obriga fornecedores a demonstrar resultado em campo.

O impacto comercial é maior do que parece

A conectividade IoT no saneamento também pode transformar a gestão comercial.

Leituras mais frequentes reduzem estimativas de consumo.

Podem facilitar alertas de consumo anormal.

Permitem comparar perfis antes e depois da substituição de medidores.

Ajudam a selecionar clientes para inspeção.

Podem indicar possível fraude.

Facilitam acompanhamento de grandes consumidores.

E criam condições para oferecer informações muito mais detalhadas no aplicativo da companhia.

O hidrômetro, portanto, deixa de ser apenas o equipamento que determina quanto cobrar.

Ele passa a participar da experiência do cliente.

Esse movimento altera inclusive o papel das áreas comerciais: hidrometria, faturamento, atendimento, perdas e tecnologia precisam trabalhar muito mais integradas.

Segurança e privacidade não podem entrar no final do projeto

Quanto maior a quantidade de equipamentos conectados, maior é a superfície digital da companhia.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados regula o tratamento de dados pessoais inclusive em ambientes digitais. Quando informações de consumo estão associadas a uma pessoa identificada ou identificável, o projeto precisa considerar governança e proteção adequadas desde sua concepção. (Planalto)

Ao mesmo tempo, o Decreto nº 11.856/2023, que instituiu a Política Nacional de Cibersegurança, estabelece entre seus princípios a prevenção de ataques direcionados a infraestruturas críticas e serviços essenciais e a necessidade de resiliência das organizações. (Presidência da República)

Isso significa que smart metering não pode ser tratado apenas como projeto comercial.

Arquitetura de autenticação, criptografia, gestão de credenciais, atualização de firmware, APIs, ambientes em nuvem, segregação de acessos e resposta a incidentes precisam fazer parte do desenho.

Quanto mais inteligente fica a infraestrutura, maior precisa ser sua maturidade de segurança.

O que pode dar errado

O erro mais comum talvez seja imaginar que a compra do equipamento conclui a transformação.

Na prática, os riscos aparecem em vários pontos.

Pode haver cobertura insuficiente justamente nos locais subterrâneos.

A bateria pode apresentar desempenho inferior ao estimado caso a comunicação exija muitas retransmissões.

A companhia pode ficar dependente de um único fornecedor.

O sistema de faturamento pode não conseguir consumir a nova quantidade de dados.

Milhares de alarmes podem ser gerados sem que exista equipe ou processo para analisá-los.

Clientes podem receber alertas de vazamento sem orientação adequada.

A comunicação pode funcionar bem durante o piloto e degradar quando centenas de milhares de equipamentos entram na rede.

Por isso, piloto tecnológico não é suficiente.

É necessário testar escala operacional.

A métrica mais importante talvez não seja o número de hidrômetros instalados

Durante muito tempo, projetos tecnológicos foram divulgados pelo número de equipamentos.

“100 mil hidrômetros inteligentes instalados.”

“500 mil dispositivos conectados.”

“Um milhão de medidores.”

Mas esses números dizem pouco sobre o valor realmente entregue.

Uma companhia deveria conseguir responder também:

Quantos medidores estão efetivamente comunicando?

Quantos entregam todos os pacotes esperados?

Quantos vazamentos foram identificados?

Quanto caiu o tempo entre ocorrência e detecção?

Quanto volume deixou de ser perdido?

Quanto caiu o custo de leitura?

Quantas contas deixaram de ser estimadas?

Quanto aumentou a recuperação de receita?

Quantas visitas de campo foram evitadas?

Só depois dessas respostas é possível avaliar o retorno da conectividade IoT no saneamento.

Lições para profissionais de saneamento

A principal mudança é conceitual.

O hidrômetro inteligente não deve ser visto isoladamente.

Ele faz parte de uma cadeia formada por medição, comunicação, plataforma, integração, analytics, processo operacional e ação.

Se um elo falha, o valor dos demais diminui.

Por isso, engenheiros de operação precisam compreender conectividade. Profissionais comerciais precisam compreender telemetria. Equipes de TI precisam conhecer as condições físicas de uma caixa de hidrômetro. Compras precisa entender ciclo de vida. Segurança da informação precisa participar do projeto desde o início.

É exatamente nessa interseção que surgirá boa parte das novas competências profissionais do saneamento digital.

A conclusão: não existe água inteligente sem rede confiável

A discussão provocada pela Netmore traz uma mensagem relevante, mesmo quando analisada com a necessária cautela de uma fonte comercial: o setor talvez esteja dedicando atenção demais à inteligência que acontece depois do dado e atenção insuficiente à infraestrutura que permite que esse dado exista.

LoRaWAN demonstra capacidade para grandes implantações e já sustenta programas expressivos de medição inteligente. NB-IoT e LTE-M, por outro lado, oferecem vantagens importantes das redes celulares licenciadas e também foram desenvolvidos para aplicações massivas de baixo consumo.

Não existe vencedor universal.

Existe arquitetura adequada ao caso de negócio.

A tendência mais interessante pode ser justamente a convivência das tecnologias, com redes híbridas escolhendo a melhor comunicação para diferentes territórios e dispositivos.

Para companhias brasileiras prestes a investir bilhões de reais em digitalização, a pergunta estratégica não deveria ser apenas “qual hidrômetro comprar?”

Deveria ser:

“Qual arquitetura consegue entregar o dado de cada hidrômetro, com segurança, custo sustentável e confiabilidade, durante os próximos 15 ou 20 anos?”

Porque, no fim, a conectividade IoT no saneamento não é apenas o caminho utilizado pelo dado.

Ela é a infraestrutura que determina quanto valor todo o restante do ecossistema digital será capaz de produzir.

Fontes e referências

Smart Water Magazine
How the right network connectivity unlocks Smart Water at scale
6 de outubro de 2026
Acessar a publicação

Ofwat — Water Services Regulation Authority
Leakage — investimentos, metas e programa de 10,4 milhões de smart meters
Acessar a fonte oficial

Yorkshire Water
Doncaster smart meter exchange starts as Yorkshire Water marks 250,000 milestone
23 de julho de 2026
Acessar a publicação

GSMA
Narrowband – Internet of Things (NB-IoT)
Acessar a referência técnica

GSMA
Massive IoT — NB-IoT e LTE-M
Acessar a referência técnica

LoRa Alliance
LoRaWAN for Smart Utilities
Acessar a referência técnica

Telefônica Brasil / Vivo
Resultados Vivo 3T25 — projeto de 4,4 milhões de hidrômetros inteligentes com a Sabesp
30 de outubro de 2025
Acessar a publicação

Prefeitura de Uberlândia — Diário Oficial
Pregão Eletrônico nº 001/2026 — IoT NB-IoT/LoRaWAN
2 de outubro de 2026
Acessar o documento oficial

Iguá Saneamento
Relatório Integrado 2025 — smart meters, SmartMetric Sentinel, telemetria e analytics
2026
Acessar o relatório

Netmore Group
Netmore Assumes Commercial Operations of American Tower LoRaWAN Network in Brazil
16 de setembro de 2025
Acessar a publicação

Netmore Group / Allcom Telecom
Netmore Expands Connectivity in Brazil Through Strategic Partnership with Allcom Telecom
25 de março de 2026
Acessar a publicação

LoRa Alliance / Netmore / Itron / Abeeway
Netmore and Itron Complete Validation of LoRaWAN Relay for Smart Water Metering
29 de setembro de 2026
Acessar a publicação

Anatel — Agência Nacional de Telecomunicações
Espectro — Radiação Restrita
Acessar a regulamentação

Presidência da República
Lei nº 13.709/2018 — Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais
14 de agosto de 2018
Acessar a LGPD

Presidência da República
Decreto nº 11.856/2023 — Política Nacional de Cibersegurança
26 de dezembro de 2023
Acessar o decreto