Uma nova configuração de destilação por membranas alcançou rejeição de sais superior a 99% e apresentou fluxos de produção de água de até 5,63 litros por metro quadrado de membrana por hora em experimentos de laboratório. A inovação pode abrir caminhos para o tratamento de efluentes industriais complexos e a recuperação de água em situações nas quais as tecnologias convencionais enfrentam limitações.
O avanço foi apresentado em estudo publicado em 19 de outubro de 2026 na revista científica Water Science & Technology, da International Water Association (IWA). Desenvolvido por pesquisadores de instituições indianas, o equipamento combina tubos concêntricos, membranas hidrofóbicas e circulação em múltiplas passagens para melhorar a transferência de calor e a separação de contaminantes.
Os resultados são promissores, mas ainda não representam comprovação de viabilidade comercial. O sistema foi avaliado em escala experimental, com soluções preparadas sob condições controladas.
Para companhias de saneamento, a questão estratégica vai além da eficiência de remoção: será possível transformar correntes salinas e efluentes de difícil tratamento em novas fontes de água para reúso, com custos competitivos e consumo energético aceitável?
Pesquisas desenvolvidas no Brasil, experiências internacionais e projetos de reúso industrial já em operação ajudam a entender onde essa tecnologia poderá encontrar aplicações reais — e quais obstáculos precisam ser superados.
O que os pesquisadores desenvolveram
O estudo, intitulado Multi-pass shell and tube concentric tubular module design for membrane distillation for desalination and wastewater treatment, apresenta um módulo tubular de destilação por membranas concebido para melhorar o aproveitamento da área de separação e ampliar a flexibilidade operacional.
A pesquisa foi realizada por Raj Vardhan Patel, Vinod Kumar Shahi, Pawan Labhasetwar, Anshul Yadav e Bipin G. Vyas, associados a instituições indianas como o CSIR-Central Salt and Marine Chemicals Research Institute e os institutos indianos de tecnologia de Roorkee e Madras.
A proposta utiliza três estruturas tubulares concêntricas, organizadas uma dentro da outra.
Membranas planas são instaladas ao redor de estruturas cilíndricas, formando canais específicos para circulação das soluções de alimentação e coleta do permeado.
Essa combinação procura reunir vantagens de dois modelos construtivos: a relativa simplicidade de fabricação das membranas planas e a compactação proporcionada por uma geometria tubular.
O equipamento possui outra característica importante: pode funcionar em duas configurações distintas de destilação por membranas, sem exigir módulos completamente diferentes.
Na primeira, chamada de destilação por membranas de contato direto, a diferença de temperatura entre correntes separadas pela membrana favorece a evaporação e a condensação da água.
Na segunda, denominada destilação por membranas a vácuo, uma bomba reduz a pressão do lado do permeado, favorecendo o transporte do vapor, que posteriormente é condensado.
O módulo também foi concebido para receber duas correntes de alimentação em canais separados, utilizando uma região compartilhada de coleta do permeado.
Essa flexibilidade pode ser interessante para instalações industriais que possuem efluentes com características diferentes.
Entretanto, o compartilhamento da corrente recuperada exige atenção: tratar duas alimentações simultaneamente não significa necessariamente produzir águas com especificações independentes.
Como funciona a destilação por membranas
A destilação por membranas combina princípios de separação térmica e tecnologias de membranas.
O equipamento utiliza uma membrana microporosa hidrofóbica, isto é, um material que dificulta a passagem de água líquida pelos poros, mas permite a passagem de vapor.
Quando a água de alimentação é aquecida, aumenta sua pressão de vapor.
Se existir uma diferença suficiente de pressão de vapor entre os dois lados da membrana, parte da água evapora, atravessa os poros e é recuperada após condensação.
Sais dissolvidos e outras substâncias não voláteis tendem a permanecer na corrente original.
Esse mecanismo permite obter água com baixa concentração de sais, dependendo das características da alimentação, da integridade da membrana e das condições operacionais.
Qual a diferença entre destilação por membranas e osmose reversa?
A diferença fundamental está na força que provoca a separação.
Na osmose reversa, bombas aplicam pressão hidráulica para forçar a passagem de água através de membranas seletivas.
Na destilação por membranas, a separação depende principalmente de um gradiente de pressão de vapor, normalmente associado à temperatura ou à aplicação de vácuo.
A primeira tecnologia utiliza predominantemente energia mecânica na forma de pressão. A segunda necessita de energia térmica e também pode consumir eletricidade em bombas, controles e sistemas auxiliares.
Isso não torna a destilação por membranas automaticamente mais eficiente.
A osmose reversa possui aplicações industriais consolidadas e pode ser economicamente mais vantajosa em muitos projetos de dessalinização.
Por outro lado, a destilação por membranas pode despertar interesse quando existem correntes altamente concentradas, fontes de calor residual ou exigências específicas de recuperação de água.
A escolha depende do balanço energético, da composição do efluente e do custo total da solução.
O diferencial da nova configuração tubular
Um dos problemas enfrentados pela destilação por membranas é a perda de produtividade associada à transferência inadequada de calor e massa.
Quando a água circula junto à superfície da membrana, podem surgir condições locais diferentes daquelas medidas no restante do equipamento.
Entre os fenômenos que prejudicam a operação estão a polarização de temperatura e a polarização de concentração.
A polarização de temperatura ocorre quando as temperaturas próximas à membrana reduzem a diferença térmica efetivamente disponível para produzir vapor.
Já a polarização de concentração acontece quando substâncias rejeitadas se acumulam nas proximidades da superfície, criando resistência adicional à transferência de massa e favorecendo incrustações.
Os pesquisadores procuram reduzir esses efeitos por meio de uma arquitetura que estimula a movimentação da água em diferentes direções.
As estruturas internas possuem perfurações que ajudam a criar movimentos radiais, perturbando a camada de fluido que normalmente se forma junto à membrana.
A circulação em múltiplas passagens aumenta as oportunidades de contato com as superfícies de separação.
Além disso, os materiais utilizados na construção do módulo foram escolhidos considerando sua baixa condutividade térmica, buscando limitar transferências indesejadas de calor.
A inovação, portanto, não depende exclusivamente de uma membrana mais sofisticada. Parte do avanço está na engenharia hidráulica e térmica do próprio equipamento.
Essa é uma lição importante para empresas de saneamento: melhorias de desempenho também podem resultar de alterações na geometria, na circulação e nas condições de operação de sistemas existentes.
Os resultados: eficiência superior a 99%, mas em qual escala?
Os pesquisadores utilizaram membranas de politetrafluoretileno (PTFE), com poros de 0,2 micrômetro, espessura de 140 micrômetros e porosidade de 80%.
As membranas foram testadas com soluções contendo cloreto de sódio, o corante vermelho neutro e o antibiótico ciprofloxacino, como representantes de desafios associados à dessalinização e ao tratamento de efluentes têxteis e farmacêuticos.
As concentrações de sal avaliadas foram de 1%, 3% e 5%. Também foram examinadas variações de temperatura e vazão de alimentação.
Na comparação realizada com concentração de NaCl de 3%, temperatura de 60 °C e vazão de 25 mililitros por minuto, o sistema apresentou:
- 5,63 L/m².h de fluxo de permeado na configuração a vácuo.
- 4,95 L/m².h na configuração de contato direto.
- Rejeição de sais superior a 99% nas condições avaliadas.
A operação a vácuo apresentou fluxo aproximadamente 13,7% maior nessa comparação específica.
Essa diferença não deve ser interpretada automaticamente como vantagem econômica.
O funcionamento a vácuo exige equipamentos auxiliares, incluindo bomba de vácuo e sistema de condensação, cujos custos e consumos precisam ser considerados.
Os pesquisadores também observaram elevada eficiência de remoção dos contaminantes-modelo utilizados nos ensaios com corante e antibiótico.
Entretanto, os resultados não comprovam desempenho equivalente em qualquer efluente industrial real.
Nos experimentos, foram utilizadas novas amostras de membrana para diferentes conjuntos de condições operacionais. Esse procedimento favorece a comparação científica dos parâmetros, mas não substitui testes prolongados de incrustação, limpeza, envelhecimento e durabilidade.
O número que merece atenção dos gestores
As duas membranas do módulo experimental possuem dimensões informadas de 70 × 58,5 milímetros e 70 × 121 milímetros.
A soma dessas superfícies corresponde a aproximadamente 0,0126 metro quadrado.
Aplicando matematicamente o fluxo de 5,63 L/m².h à área indicada, obtém-se uma produção equivalente da ordem de 70 mililitros de água por hora.
Esse cálculo é apenas uma ilustração baseada na área geométrica e no fluxo publicado, não uma medição adicional realizada pelos autores.
Ele revela a distância entre o estágio experimental e as vazões exigidas em instalações industriais.
Para produzir teoricamente 100 metros cúbicos por dia, mantendo continuamente o mesmo fluxo de 5,63 L/m².h, seriam necessários aproximadamente 740 metros quadrados de área ativa de membranas.
A extrapolação não representa um dimensionamento de engenharia: em módulos maiores, temperatura, concentração, perdas térmicas, condições hidráulicas e incrustações podem alterar significativamente o fluxo.
Ainda assim, o exercício mostra por que um resultado laboratorial promissor precisa passar por etapas adicionais antes de justificar investimentos industriais.
O Brasil também desenvolve destilação por membranas
A tecnologia não é novidade absoluta no Brasil.
Uma experiência particularmente relevante está relacionada à recuperação de calor residual de motores, desenvolvida no âmbito do Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM).
Em estudo disponibilizado em junho de 2026 na Revista Pesquisa Naval, pesquisadores descreveram o desenvolvimento de sistemas de destilação por membranas capazes de aproveitar energia térmica rejeitada por motores de combustão interna.
A proposta foi direcionada a aplicações navais, nas quais a recuperação de calor dos sistemas de propulsão ou geração elétrica poderia contribuir para a produção de água.
Nos ensaios laboratoriais, foram obtidos coeficientes de rejeição de sais superiores a 99,96%, inclusive em soluções com concentrações superiores às encontradas normalmente na água do mar.
Posteriormente, foi construído um protótipo utilizando um aquecedor industrial capaz de fornecer até 11 kW de energia térmica, simulando o calor que poderia ser recuperado de máquinas.
Na unidade piloto de demonstração instalada no IPqM, os fluxos de destilado ficaram entre 1,5 e 3,5 kg/m².h.
Os pesquisadores também verificaram concordância aproximada de ±10% entre resultados experimentais e previsões de seu modelo matemático.
O projeto avançou para o desenvolvimento de uma proposta de integração com o sistema de arrefecimento de motores.
Qual a principal lição dessa experiência?
O maior aprendizado está na integração energética.
A tecnologia deixa de ser avaliada apenas como um equipamento de tratamento e passa a fazer parte de um sistema que já possui uma fonte térmica.
Para companhias de saneamento, essa abordagem sugere oportunidades de avaliação em instalações próximas a processos industriais com calor residual disponível.
Também pode motivar estudos de integração com unidades de cogeração e processos de aproveitamento energético associados ao tratamento de resíduos e esgoto.
Contudo, é necessário avaliar a temperatura efetivamente disponível, a distância até a fonte térmica, a regularidade do fornecimento de calor e os custos de integração.
A existência de biogás em uma ETE, por exemplo, não significa automaticamente que haverá calor residual suficiente e economicamente recuperável para alimentar um sistema de destilação por membranas.
Essa possibilidade precisa ser demonstrada por balanços de energia e estudos de engenharia.
Aquapolo: o benchmarking brasileiro de reúso industrial
Embora não utilize a configuração de destilação por membranas apresentada pelos pesquisadores indianos, o Aquapolo, na Região Metropolitana de São Paulo, oferece uma referência importante de como transformar efluentes tratados em fornecimento comercial de água industrial.
O empreendimento utiliza efluentes secundários provenientes da Estação de Tratamento de Esgotos do ABC, da Sabesp.
A água passa por tratamento terciário, que inclui processos biológicos, ultrafiltração e osmose reversa aplicada a parte da corrente.
A combinação permite atender a exigências de qualidade de diferentes aplicações industriais.
Segundo informações divulgadas pela própria empresa em abril de 2025, o sistema possui capacidade instalada informada de até 1.000 litros por segundo e fornecia água aos clientes por meio de uma adutora de 17 quilômetros, com vazão média então divulgada de aproximadamente 350 litros por segundo.
A distinção tecnológica é fundamental: o Aquapolo não comprova o desempenho industrial da nova destilação por membranas. Ele demonstra a existência de um modelo de negócios consolidado para recuperar água de efluentes tratados e vendê-la à indústria.
A experiência oferece três aprendizados para uma eventual adoção da nova tecnologia.
Primeiro, a água recuperada precisa atender a especificações definidas pelos consumidores, não apenas apresentar elevado percentual de remoção de contaminantes.
Segundo, a disponibilidade de clientes e a contratação de volumes são fatores tão relevantes quanto a capacidade de produção.
Terceiro, a confiabilidade operacional e o monitoramento da qualidade são fundamentais para sustentar o fornecimento.
No caso do Aquapolo, as características do tratamento foram desenvolvidas para atender ao mercado industrial atendido.
A destilação por membranas poderia, em projetos futuros, ser avaliada como solução complementar para correntes específicas. Isso não significa que sua substituição pela osmose reversa seja tecnicamente necessária ou economicamente recomendável.
O que a Espanha está fazendo com a tecnologia
Na Espanha, a Plataforma Solar de Almería, vinculada ao centro de pesquisa CIEMAT, dispõe de infraestrutura experimental para avaliar aplicações de destilação por membranas utilizando energia solar térmica.
A instalação possui campos de coletores solares com áreas de 20 e 40 metros quadrados.
Esses sistemas estão associados a armazenamento térmico, controle de vazões e monitoramento das condições operacionais.
A infraestrutura permite fornecer potências térmicas máximas informadas de 7 e 14 kW, respectivamente, e trabalhar com água aquecida até aproximadamente 90 °C.
O objetivo é investigar a integração entre a tecnologia de separação e a disponibilidade de calor renovável.
A experiência espanhola representa um estágio de validação distinto daquele apresentado no estudo indiano.
Enquanto os pesquisadores da Índia propuseram uma nova arquitetura de módulo, a instalação espanhola permite examinar o funcionamento de sistemas térmicos integrados, com instrumentação e condições próximas de aplicações piloto.
A plataforma também participa de iniciativas de pesquisa relacionadas ao tratamento de correntes concentradas, recuperação de recursos e produção de água desmineralizada.
Uma delas é o projeto INTELWATT, que investigou soluções integradas para preservação de água e recuperação de recursos em atividades industriais.
O conhecimento produzido por essas experiências ajuda a identificar um dos caminhos para a evolução da destilação por membranas: integração de processos, recuperação de energia e avaliação conjunta de desempenho.
Uma pesquisa internacional mostra o que pode dar errado
Nem todos os resultados sobre destilação por membranas são positivos.
Um estudo publicado em 2025 na revista Case Studies in Chemical and Environmental Engineering, por pesquisadores ligados a instituições como a King Abdullah University of Science and Technology (KAUST), a Universidade de Salerno e a Delft University of Technology, analisou o tratamento de efluentes têxteis reais.
Os pesquisadores avaliaram uma configuração de destilação por membranas de contato direto.
Inicialmente, a composição do efluente provocou problemas de desempenho associados à presença de sólidos e ao molhamento da membrana.
A inclusão de sedimentação e filtração como pré-tratamento melhorou significativamente os resultados.
Após o tratamento, foram registrados:
100% de remoção de cor, 99,99% de remoção de turbidez, 92,5% de redução da demanda química de oxigênio e 87,82% de redução do carbono orgânico total, nas condições experimentais reportadas.
Entretanto, mesmo com a melhoria da qualidade da água, os pesquisadores identificaram a presença de contaminantes orgânicos voláteis e surfactantes no permeado.
O problema estava relacionado, entre outros aspectos, ao molhamento da membrana.
Esse fenômeno ocorre quando o líquido consegue penetrar em poros que deveriam transportar predominantemente vapor.
Como consequência, a seletividade do sistema pode ser comprometida.
A experiência traz uma advertência direta aos gestores: elevados percentuais de remoção de alguns parâmetros não garantem que a água recuperada esteja adequada à finalidade pretendida.
A segurança do processo depende da identificação dos contaminantes relevantes, do controle das condições operacionais e da integridade das membranas.
O maior desafio talvez seja a energia
A destilação por membranas apresenta uma vantagem potencial em situações com disponibilidade de calor de baixo custo.
Entretanto, a energia necessária para evaporar parte da água continua existindo, mesmo quando a temperatura operacional é relativamente moderada.
Um sistema pode consumir pouca eletricidade e, simultaneamente, exigir quantidades significativas de energia térmica.
Por isso, comparar apenas os quilowatts-hora consumidos por bombas seria inadequado.
O custo real depende também do fornecimento de calor, da recuperação térmica, da condensação, das perdas para o ambiente e das condições de operação.
Uma pesquisa publicada em 2023 na revista npj Clean Water, intitulada Towards the technological maturity of membrane distillation: the MD module performance curve, destacou justamente a distância existente entre os resultados de pesquisa e o desenvolvimento de projetos industriais confiáveis.
Os autores apontaram a necessidade de ferramentas de dimensionamento capazes de relacionar área de membrana, produtividade, temperaturas e consumo energético.
Esse diagnóstico continua relevante para a nova configuração apresentada em 2026.
Uma melhoria no fluxo de permeado não representa, isoladamente, uma solução industrial competitiva.
O sistema precisa entregar água na quantidade e qualidade necessárias, mantendo custos previsíveis durante sua vida útil.
Impactos para as empresas de saneamento
Operação e manutenção
Uma eventual implantação exigiria novas rotinas para acompanhamento de temperatura, pressão, vazão, qualidade do permeado e estado das membranas.
Incrustações, depósitos orgânicos e molhamento podem reduzir a produtividade e comprometer a qualidade da água.
Consequentemente, as equipes precisariam estabelecer procedimentos de inspeção, limpeza, substituição de membranas e controle dos contaminantes presentes na alimentação.
Engenharia e tecnologia
O principal desafio seria integrar a destilação por membranas aos processos existentes.
A tecnologia poderia atuar como etapa complementar em determinados sistemas industriais ou de reúso, mas não deve ser considerada substituta universal do tratamento biológico, da ultrafiltração ou da osmose reversa.
A engenharia também precisaria avaliar a destinação da corrente concentrada, que permanece após a recuperação de parte da água.
Gestão financeira
A atratividade econômica dependeria da relação entre o custo total da água recuperada e as alternativas disponíveis.
Precisariam ser considerados investimento inicial, área ocupada, consumo de energia, manutenção, membranas, pré-tratamento, limpeza e destinação do concentrado.
Além disso, a análise deveria incorporar o custo de oportunidade da energia térmica utilizada.
Mesmo quando o calor é classificado como residual, sua captação e transferência exigem equipamentos, intervenções e manutenção.
Gestão comercial
Uma aplicação potencial está na produção de água de reúso para consumidores industriais com exigências específicas de qualidade.
Isso poderia criar oportunidades de receitas adicionais ou contribuir para substituir volumes de água potável atualmente utilizados em atividades industriais.
Entretanto, a viabilidade comercial dependeria da localização dos clientes, da disponibilidade de infraestrutura, da garantia de qualidade e dos compromissos contratuais de fornecimento.
A produção de água tecnicamente recuperável não significa necessariamente existência de demanda economicamente viável.
Como uma companhia pode avaliar a destilação por membranas
O primeiro passo para utilizar o conhecimento apresentado no estudo não é adquirir o equipamento. É identificar uma aplicação em que a tecnologia possa resolver um problema real.
Uma metodologia de avaliação pode seguir seis etapas.
- Selecionar correntes com potencial de reúso. Mapear efluentes salinos, concentrados de tratamento e águas industriais cuja recuperação represente benefício operacional ou financeiro.
- Caracterizar a alimentação. Avaliar salinidade, temperatura, sólidos, matéria orgânica, surfactantes, compostos voláteis, potencial de incrustação e variações de composição.
- Identificar fontes de calor. Investigar disponibilidade térmica, temperaturas, regularidade da oferta, distância, custo de transferência e possibilidades de recuperação energética.
- Comparar alternativas tecnológicas. Examinar osmose reversa, eletrodiálise, evaporação convencional e outras soluções aplicáveis, considerando custo total, confiabilidade e qualidade exigida.
- Executar testes piloto. Medir produção real, consumo específico de energia térmica e elétrica, estabilidade do fluxo, recuperação de água, limpeza, durabilidade e qualidade do permeado.
- Validar a viabilidade comercial e ambiental. Verificar demanda, custos de investimento, preço da água recuperada, condições regulatórias, destino do concentrado e riscos de continuidade operacional.
Essa metodologia evita um erro recorrente na avaliação de tecnologias emergentes: transformar resultados de laboratório diretamente em premissas de investimento.
Regulação: rejeitar sais não significa produzir água potável
Um resultado de rejeição de sais superior a 99% demonstra o desempenho do processo para um parâmetro específico.
Não comprova, por si só, atendimento ao padrão de potabilidade.
No Brasil, a água destinada ao consumo humano deve atender às exigências sanitárias aplicáveis, incluindo a Portaria GM/MS nº 888/2021, que alterou o Anexo XX da Portaria de Consolidação nº 5/2017.
Já o lançamento de efluentes está sujeito a requisitos ambientais, incluindo a Resolução CONAMA nº 430/2011 e as disposições específicas do licenciamento e da legislação pertinente.
O reúso não potável também exige atenção às regras aplicáveis à finalidade pretendida, à qualidade da água e às responsabilidades do fornecedor e do usuário.
Em 2026, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) realizou consulta e audiência públicas sobre diretrizes para o reúso não potável de água proveniente de efluentes dos serviços públicos de esgotamento sanitário.
A Consulta Pública nº 11/2025 teve o prazo prorrogado até março de 2026.
A existência dessa discussão regulatória reforça a relevância de modelos que associem tecnologia, monitoramento da qualidade, gestão de riscos e segurança contratual.
É importante distinguir o processo de consulta pública da aprovação definitiva de uma norma. A documentação consultada confirma a realização da consulta e da audiência, não sendo utilizada aqui como comprovação de aprovação final daquela proposta.
Três lições para os profissionais de saneamento
A inovação pode estar no equipamento, não apenas no material
O estudo indiano mostra que uma nova geometria e uma estratégia diferente de circulação podem melhorar a transferência de massa e calor.
A lição se aplica a outras tecnologias do saneamento.
O desempenho de um sistema depende da interação entre seus componentes, da hidráulica, da instrumentação e dos parâmetros operacionais.
Água de alta qualidade precisa ser produzida de forma economicamente sustentável
Os resultados experimentais indicam boa capacidade de separação, mas não demonstram um custo competitivo de produção.
Para os gestores, a análise precisa integrar engenharia de processos, operação, finanças e mercado.
Uma tecnologia tecnicamente eficiente pode não ser a melhor alternativa econômica para determinada instalação.
Os resultados do laboratório precisam enfrentar os problemas do campo
O estudo com efluente têxtil real revelou que contaminantes presentes em uma matriz complexa podem comprometer o desempenho das membranas.
Assim, a validação em campo é indispensável.
A participação de operadores, técnicos de laboratório, engenheiros e profissionais de manutenção é fundamental para transformar um conceito experimental em um sistema confiável.
São esses profissionais que identificam as condições reais de funcionamento, acompanham falhas, interpretam parâmetros e desenvolvem soluções para problemas que nem sempre aparecem nos ensaios controlados.
Oportunidades e tendências para os próximos anos
A evolução da destilação por membranas poderá seguir diferentes caminhos.
Um deles é o desenvolvimento de módulos mais compactos, com melhores condições de circulação e redução de resistências à transferência de calor.
Outro é o aperfeiçoamento de membranas resistentes ao molhamento, às incrustações e ao contato com misturas complexas de contaminantes.
Também existe interesse crescente em sistemas híbridos, combinando diferentes processos de tratamento para ampliar a recuperação de água.
A integração energética é outro campo de desenvolvimento relevante.
A utilização de energia solar térmica, calor residual de processos industriais e sistemas de recuperação de calor poderá influenciar diretamente a competitividade dessas soluções.
No contexto brasileiro, projetos industriais localizados em regiões de maior restrição hídrica podem apresentar oportunidades de investigação, especialmente quando existe demanda por água recuperada e disponibilidade de fontes térmicas.
Porém, nenhuma dessas possibilidades elimina a necessidade de avaliação técnica, econômica e ambiental.
O avanço da tecnologia deve ser acompanhado de estudos de longa duração, ferramentas confiáveis de dimensionamento e demonstrações em escala piloto e industrial.
Conclusão: a próxima inovação dependerá de integração
O estudo publicado na Water Science & Technology representa um avanço experimental no desenvolvimento de módulos de destilação por membranas.
A combinação de geometria tubular concêntrica, circulação em múltiplas passagens e flexibilidade operacional apresenta uma alternativa para enfrentar limitações associadas à produtividade e à configuração dos equipamentos.
Os resultados de rejeição de sais superior a 99% demonstram a capacidade de separação nas condições investigadas.
Entretanto, o desempenho laboratorial ainda precisa ser confrontado com os desafios de dimensionamento, estabilidade, energia, manutenção e custos.
As experiências da Marinha do Brasil e da Plataforma Solar de Almería indicam que o aproveitamento de calor pode ocupar posição estratégica no desenvolvimento dessa tecnologia.
O Aquapolo demonstra, por outro lado, que o sucesso de um empreendimento de reúso não depende apenas do tratamento, mas da conexão entre qualidade da água, confiabilidade, infraestrutura e demanda comercial.
A pesquisa internacional com efluentes têxteis reais acrescenta um alerta: a composição da água pode determinar o sucesso ou o fracasso da aplicação.
A principal lição para o futuro da gestão do saneamento é que a inovação não deve ser avaliada isoladamente.
Membranas, energia, operação, engenharia, regulação e mercado precisam funcionar como partes de um mesmo sistema.
A destilação por membranas ainda não representa uma solução universal para o tratamento de esgoto ou para a produção de água de reúso.
Mas seu desenvolvimento amplia as possibilidades de recuperação hídrica e oferece oportunidades importantes para profissionais que procuram alternativas tecnológicas fundamentadas em resultados verificáveis.
A diferença entre uma inovação interessante e um investimento bem-sucedido continuará dependendo da capacidade das equipes de transformar conhecimento científico em desempenho operacional, segurança e sustentabilidade financeira.
Fontes e referências
1. International Water Association — IWA Publishing
Patel, R. V. et al. Multi-pass shell and tube concentric tubular module design for membrane distillation for desalination and wastewater treatment. Water Science & Technology. Publicado em 19 de outubro de 2026.
2. Marinha do Brasil — Revista Pesquisa Naval
Amaral, P. S. T. et al. Dessalinização via destilação por membranas a partir de calor residual de motores de propulsão ou geração. Revista Pesquisa Naval, volume 1, número 35. Disponibilizado em 3 de junho de 2026.
3. Aquapolo Ambiental
Efluente tratado é insumo-chave para água industrial reciclada. Publicado em 20 de abril de 2025.
Consultar publicação institucional
4. Aquapolo Ambiental
O que fazemos — Processo de produção. Página institucional consultada em outubro de 2026.
Consultar descrição do processo
5. CIEMAT — Plataforma Solar de Almería, Espanha
Test-Bed for Solar Membrane Distillation Applications at Pilot-Scale. Documentação técnica da instalação MDTF. Data de publicação não indicada.
Consultar documentação técnica
6. CIEMAT — Plataforma Solar de Almería
INTELWATT — Intelligent water treatment technologies for water preservation combined with simultaneous energy production and material recovery in energy intensive industries. Documentação institucional do projeto. Data de publicação não indicada.
7. Case Studies in Chemical and Environmental Engineering
Rodrigues, M. E. et al. Wetting challenges in treatment of raw textile wastewater by membrane distillation: A case study. Volume 11, artigo 101197. Publicado em 2025.
8. npj Clean Water — Nature Portfolio
López-Porfiri, P. et al. Towards the technological maturity of membrane distillation: the MD module performance curve. Publicado em 3 de março de 2023.
9. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Consulta pública sobre reúso não potável de água de esgoto é prorrogada até o dia 13 de março. Publicado em 27 de fevereiro de 2026.
10. Ministério da Saúde
Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021. Procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e padrão de potabilidade.
11. Conselho Nacional do Meio Ambiente — CONAMA
Resolução CONAMA nº 430, de 13 de maio de 2011. Condições e padrões de lançamento de efluentes.



