Rios brasileiros movimentaram 7 trilhões de m³ de água em um ano
O Dia Mundial dos Rios, celebrado neste domingo, 27 de setembro de 2026, chega com um número capaz de dimensionar o desafio brasileiro: cerca de 7 trilhões de metros cúbicos de água escoaram pelos rios do território nacional em 2024, segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Desse total, aproximadamente 2,1 trilhões de m³ vieram de outros países amazônicos.
Entretanto, abundância não significa segurança hídrica garantida.
No mesmo ano, mais de 10 milhões de brasileiros foram afetados por secas e 11,95 milhões por eventos de cheias. Além disso, o País retirou aproximadamente 2.098,7 m³ de água por segundo para usos consuntivos: 50,3% destinados à irrigação, 22,3% ao abastecimento humano e 9,9% à indústria.
Para uma empresa de saneamento, portanto, o rio não é apenas uma paisagem ou um ativo ambiental. É manancial, corpo receptor, variável de projeto, risco operacional, condicionante regulatório e parte central do custo futuro dos serviços.
É justamente por isso que o Dia Mundial dos Rios merece ser observado dentro das salas de controle, laboratórios, ETAs, ETEs, áreas comerciais, diretorias de engenharia e planejamento das companhias.
A pergunta estratégica é simples: as empresas estão administrando apenas suas redes ou também entendendo suficientemente as bacias das quais dependem?
O que é o Dia Mundial dos Rios
O World Rivers Day é realizado anualmente no quarto domingo de setembro. Criado a partir da iniciativa do conservacionista canadense Mark Angelo, o movimento começou em 2005 e atualmente mobiliza milhões de pessoas em até 100 países para chamar atenção para a conservação e recuperação dos cursos d’água.
Para o saneamento, porém, o Dia Mundial dos Rios pode ser interpretado por uma ótica muito mais operacional.
Um rio degradado a montante pode significar maior complexidade no tratamento da água. Um sistema de esgotamento incompleto pode transferir carga orgânica para córregos e rios. Uma rede de drenagem contaminada por ligações clandestinas pode comprometer anos de investimentos em despoluição.
Ao mesmo tempo, um manancial protegido pode aumentar a resiliência de um sistema de abastecimento.
É uma cadeia contínua.
O paradoxo brasileiro: muita água e enormes pressões
O Brasil concentra cerca de 12% da água doce superficial do planeta, segundo a ANA. Ainda assim, a própria Agência alerta que disponibilidade física não elimina desigualdades territoriais, períodos de escassez, conflitos de uso e dificuldades para garantir água em quantidade e qualidade adequadas.
Em 2024, por exemplo, a Rede Hidrometeorológica Nacional reunia mais de 23 mil estações operadas por diferentes entidades. Somente a rede gerenciada pela ANA possuía mais de 4,7 mil estações, entre pontos fluviométricos e pluviométricos.
Esse tipo de informação tem valor direto para o saneamento.
Vazão, chuva, nível dos rios, qualidade da água e disponibilidade hídrica influenciam decisões relacionadas a captações, reservatórios, bombeamento, tratamento, expansão urbana, outorgas e contingenciamento.
Portanto, o Dia Mundial dos Rios também reforça uma mudança de mentalidade: engenharia de saneamento não pode ser planejada isoladamente da hidrologia da bacia.
O esgoto continua sendo uma das questões centrais
Os dados mais recentes disponíveis no SINISA ajudam a entender essa relação.
O SINISA 2025, com dados de referência de 2024, informa que 62,3% da população total considerada pelo sistema era atendida por rede coletora de esgoto. O atendimento urbano chegava a 68,4%, enquanto no meio rural o indicador de atendimento por rede era de apenas 4,8% — lembrando que áreas rurais também podem utilizar soluções individuais adequadas.
Outra diferença é fundamental.
Segundo o mesmo relatório, 85,2% do volume de esgoto coletado era tratado. Entretanto, quando o volume tratado é comparado à água consumida, indicador utilizado como referência para estimar o esgoto potencialmente gerado, o percentual era de 51,8%.
Isso mostra por que simplesmente construir uma ETE não resolve, isoladamente, o problema dos rios.
É preciso completar a cadeia:
imóvel → ligação predial → rede coletora → coletor-tronco → elevatória → interceptor → ETE → tratamento adequado → lançamento compatível com o corpo receptor.
Uma falha em qualquer elo pode reduzir o resultado ambiental do investimento.
Para áreas comerciais das companhias, existe uma consequência particularmente relevante: ligar o cliente à rede também é política ambiental.
Rede disponível sem conexão efetiva significa infraestrutura ociosa, menor faturamento de esgoto e potencial permanência de despejos irregulares.
Qualidade do rio também é uma questão regulatória
A Política Nacional de Recursos Hídricos, instituída pela Lei nº 9.433/1997, estabelece que a água é um bem de domínio público, um recurso limitado e dotado de valor econômico. A legislação também estruturou instrumentos como enquadramento dos corpos d’água, outorga, cobrança e planos de recursos hídricos.
O enquadramento é particularmente importante para as companhias.
Segundo a ANA, ele estabelece a qualidade que determinado trecho deve alcançar ou manter de acordo com os usos pretendidos, e não simplesmente uma fotografia de sua condição atual. Além disso, influencia outorgas, licenciamento, monitoramento e planejamento de investimentos para controle da poluição.
As Resoluções CONAMA nº 357/2005 e nº 430/2011 complementam esse arcabouço, disciplinando a classificação dos corpos d’água e as condições de lançamento de efluentes. A CONAMA 430 determina que efluentes somente podem ser lançados diretamente após tratamento e atendimento às condições e padrões aplicáveis.
Portanto, proteger rios não é um componente periférico de ESG. É parte da operação regulada.
Como companhias brasileiras estão transformando rios em estratégia
Alguns casos brasileiros mostram abordagens diferentes para o mesmo desafio.
Sabesp: a conexão domiciliar virou instrumento de recuperação
No Programa Novo Rio Pinheiros, a Sabesp informou ter conectado, entre 2019 e 2022, mais de 650 mil imóveis ao sistema de coleta e tratamento de esgoto, beneficiando aproximadamente 2 milhões de pessoas.
Em áreas de urbanização complexa, nas quais redes convencionais enfrentavam obstáculos técnicos e territoriais, também foram implantadas cinco Unidades de Recuperação da qualidade da água de córregos.
A experiência deixou uma lição relevante: despoluir um rio exige chegar até o imóvel.
Posteriormente, o conceito foi ampliado pelo Integra Tietê. No Relatório de Sustentabilidade 2024, a Sabesp informou meta de conectar 1,5 milhão de imóveis no Alto Tietê até o fim de 2026. Documento da companhia também previa aproximadamente R$ 5,6 bilhões em investimentos até 2026 para expansão da capacidade de tratamento e complementação de redes e coletores.
Copasa: proteger antes de precisar tratar
Minas Gerais oferece outro modelo.
O Pró-Mananciais, criado pela Copasa em 2017, atua na proteção e recuperação de microbacias e áreas de recarga relacionadas aos sistemas de abastecimento.
Segundo a companhia, até agosto de 2026 aproximadamente R$ 210 milhões haviam sido investidos, com atuação em 347 bacias hidrográficas e alcance estimado de 9,7 milhões de pessoas.
A lógica é diferente da obra tradicional de saneamento: atuar também a montante da ETA.
Entre as intervenções aparecem proteção de nascentes, recuperação ambiental, estruturas para retenção e infiltração da água de chuva, conservação do solo e articulação com produtores e comunidades.
Sanepar: o desempenho da ETE chega diretamente ao rio
No Paraná, a relação entre tratamento e corpo receptor aparece de forma clara na ETE Belém.
A Sanepar informa capacidade de tratamento de cerca de 2,5 mil litros por segundo. Entre janeiro e outubro de 2025, a unidade tratou aproximadamente 40 milhões de m³ de esgoto que, sem tratamento, poderiam pressionar o sistema hídrico associado ao rio Iguaçu.
Entre 2021 e 2023, a companhia declarou investimentos de R$ 1,3 bilhão em modernização, melhoria e ampliação de ETEs e redes de coleta.
Os três casos demonstram algo importante para o Dia Mundial dos Rios: recuperação hídrica não possui uma única tecnologia. Pode envolver conexão comercial, coletor-tronco, ETE, proteção de nascente, recuperação de microbacia ou tratamento descentralizado.
Londres mostra o custo de corrigir um problema histórico
O benchmarking internacional reforça essa conclusão.
Londres construiu o Thames Tideway Tunnel para enfrentar descargas de redes combinadas de esgoto e águas pluviais que transbordavam para o rio Tâmisa durante chuvas.
O túnel possui cerca de 25 quilômetros e, após dez anos de construção, teve todas as 21 conexões ativadas em fevereiro de 2025.
Segundo a Tideway, a infraestrutura passou a impedir aproximadamente 95% dos extravasamentos que anteriormente chegavam ao Tâmisa, dependendo das condições meteorológicas. Até o fim de 2025, quase 13 milhões de toneladas de águas residuárias de tempo chuvoso haviam sido interceptadas.
O custo de capital reportado anteriormente pelo projeto era de aproximadamente £4,5 bilhões.
A lição não está em replicar um megatúnel no Brasil. Está em outra questão: problemas acumulados de drenagem, crescimento urbano e esgotamento sanitário podem exigir soluções extremamente caras quando não são enfrentados de forma integrada ao longo do tempo.
Singapura integrou drenagem, rios e espaço urbano
Singapura adotou uma abordagem diferente.
O programa Active, Beautiful, Clean Waters, da agência pública PUB, começou em 2006 com o objetivo de integrar canais, rios e reservatórios ao ambiente urbano.
O país administra uma rede de aproximadamente 8 mil quilômetros de cursos e canais de drenagem e 17 reservatórios.
No Kallang River, dentro do Bishan-Ang Mo Kio Park, um antigo canal de concreto foi transformado em rio naturalizado. Foram aplicadas técnicas de bioengenharia de solo, vegetação e materiais naturais, conciliando drenagem, controle de erosão, biodiversidade e convivência urbana.
Em outros projetos, jardins de chuva ajudam a reter e depurar o escoamento superficial antes que a água chegue aos cursos d’água.
Para cidades brasileiras sujeitas simultaneamente a enchentes, impermeabilização e rios urbanos degradados, essa integração entre saneamento, drenagem e infraestrutura verde merece atenção.
Nova York demonstra que proteger manancial também é infraestrutura
Há ainda outra referência relevante.
Nova York investe na proteção das bacias de Catskill e Delaware como parte de uma estratégia que permite manter uma das maiores fontes de abastecimento sem filtração convencional dos Estados Unidos.
Em 2022, o Departamento de Proteção Ambiental da cidade informou compromisso de aproximadamente US$ 1 bilhão até 2027 em programas de proteção da bacia. Os sistemas Catskill e Delaware fornecem cerca de 90% da água utilizada pela cidade em um dia típico.
O princípio é valioso para qualquer companhia: uma floresta protegida, uma nascente recuperada ou uma ocupação controlada na bacia também podem ser entendidas como ativos do sistema de abastecimento.
O que muda na prática para as empresas
O Dia Mundial dos Rios deveria estimular uma revisão das fronteiras tradicionais das companhias.
Uma operação moderna precisa enxergar além da ETA e da ETE. Isso significa integrar dados de qualidade de mananciais, chuva, vazão, ocupação urbana, redes de drenagem, ligações de esgoto, estações elevatórias, extravasamentos, eficiência das ETEs e reclamações de clientes.
Também significa conectar áreas que historicamente trabalharam separadas.
A engenharia projeta a rede. A operação mantém elevatórias e estações. O comercial precisa transformar rede disponível em ligação efetiva. O laboratório mede o impacto. A área ambiental acompanha licenças e corpos receptores. A regulação exige indicadores. A tecnologia transforma esses dados em inteligência.
Quando essas funções não conversam, o rio recebe a consequência.
O que gestores deveriam acompanhar
Alguns indicadores podem transformar a proteção dos rios em gestão cotidiana:
- percentual de imóveis efetivamente conectados onde existe rede de esgoto;
- volume coletado versus volume potencialmente gerado;
- percentual de esgoto tratado e eficiência de remoção nas ETEs;
- ocorrência e duração de extravasamentos;
- qualidade do efluente e do corpo receptor a montante e a jusante;
- consumo de produtos químicos e energia nas ETAs associado à qualidade do manancial;
- evolução da cobertura vegetal e ocupação das áreas de contribuição;
- eventos de baixa vazão, cheia e alterações de qualidade da água;
- reclamações relacionadas a esgoto, odor, lançamento irregular e drenagem.
O objetivo não é criar mais indicadores. É conectar indicadores comerciais e operacionais ao resultado ambiental final.
A principal oportunidade ainda é pouco percebida
Durante décadas, grande parte do setor enxergou o rio principalmente em dois pontos: na captação de água bruta e no lançamento do efluente tratado.
Essa visão está se tornando insuficiente.
Mudanças climáticas, expansão urbana, universalização, exigências ambientais, novas tecnologias de monitoramento e maior pressão sobre recursos hídricos obrigam as empresas a olhar a bacia inteira.
É uma oportunidade para GIS, sensoriamento remoto, estações automáticas de qualidade, telemetria, modelagem hidrológica, inteligência artificial, fiscalização baseada em dados e integração entre cadastro comercial e infraestrutura de esgoto.
Mas nenhuma tecnologia substitui o trabalho de campo.
Uma ligação clandestina encontrada, uma elevatória operada adequadamente, um interceptor mantido, uma ETE estabilizada ou uma nascente protegida podem representar, em escala acumulada, milhares de quilos de poluentes que deixam de alcançar um curso d’água.
É aí que a atuação dos profissionais de saneamento se torna concreta.
Dia Mundial dos Rios: a lição para o futuro do saneamento
O Dia Mundial dos Rios não deveria terminar em uma campanha ambiental.
Para empresas de saneamento, ele oferece um teste de gestão: a companhia sabe qual impacto produz nos rios dos quais depende?
Sabe quanto esgoto ainda não chega às suas ETEs? Conhece os principais contribuintes de carga poluidora das bacias? Mede a qualidade dos mananciais como variável econômica? Integra planejamento urbano, drenagem e esgotamento? Consegue identificar imóveis com rede disponível e sem conexão? Conhece os riscos climáticos de suas captações?
O Brasil possui uma vantagem hídrica extraordinária, mas os dados da ANA deixam claro que secas, cheias e competição pelo uso da água já fazem parte da realidade nacional.
Por isso, o maior aprendizado deste Dia Mundial dos Rios é que proteger um rio não significa escolher entre meio ambiente e eficiência empresarial.
Em muitos casos, significa justamente proteger o ativo que torna possível o próprio negócio do saneamento.
Uma empresa pode ampliar redes, modernizar ETAs, construir ETEs e digitalizar o atendimento. Porém, no fim da cadeia, duas perguntas continuarão revelando a qualidade de sua gestão: em que condição está a água que ela capta e em que condição ela devolve essa água ao ambiente?
Essa talvez seja a métrica mais simples — e mais poderosa — para compreender a relação entre rios e saneamento.
Fontes e referências
World Rivers Day
About World Rivers Day — origem, periodicidade e alcance da mobilização internacional.
Acessar fonte oficial
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil — Relatório Síntese, publicado em 23 de março de 2026.
Acessar publicação da ANA
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
ODS 6: entenda o objetivo da ONU voltado à água e ao saneamento, 2026.
Acessar publicação da ANA
Ministério das Cidades — SINISA
Relatório dos Serviços de Esgotamento Sanitário — SINISA 2025, ano de referência 2024.
Acessar relatório oficial
Presidência da República
Lei nº 9.433/1997 — Política Nacional de Recursos Hídricos.
Acessar legislação
Presidência da República
Lei nº 11.445/2007 — Diretrizes nacionais para o saneamento básico, texto atualizado.
Acessar legislação
Conselho Nacional do Meio Ambiente — CONAMA
Resolução CONAMA nº 357/2005 — classificação e enquadramento dos corpos d’água.
Acessar resolução
IBAMA / CONAMA
Resolução CONAMA nº 430/2011 — condições e padrões para lançamento de efluentes.
Acessar resolução
Sabesp
Relatório de Sustentabilidade 2024 — Programa Integra Tietê.
Acessar relatório da Sabesp
Copasa
Pró-Mananciais na São Paulo Climate Week — resultados acumulados do programa, agosto de 2026.
Acessar publicação da Copasa
Sanepar
ETE Belém e contribuição para a qualidade do Rio Iguaçu, novembro de 2025.
Acessar publicação da Sanepar
Tideway — Londres
London’s Super Sewer fully connected, fevereiro de 2025.
Acessar publicação da Tideway
PUB — Singapore’s National Water Agency
ABC Waters Programme e naturalização do Kallang River.
Acessar programa da PUB
New York City Department of Environmental Protection — DEP
Watershed Protection e Filtration Avoidance Determination, dezembro de 2022.
Acessar publicação oficial de Nova York



