Saneamento chega a 165 mil trabalhadores e entra em nova fase
O mercado brasileiro de saneamento está deixando de ser observado apenas pelos quilômetros de redes implantadas, pelas estações construídas e pelo volume de investimentos. Um indicador passa a chamar cada vez mais atenção: a quantidade e a qualificação dos profissionais necessários para fazer toda essa infraestrutura funcionar.
Em 2025, os empregos no saneamento cresceram 6,9% em relação a 2024, alcançando 165.425 trabalhadores, segundo o Panorama da Universalização do Saneamento 2026, da ABCON. O percentual supera o avanço de 5% registrado no estoque total de empregos formais brasileiros no mesmo período. (cnnbrasil.com.br)
Considerando matematicamente a variação divulgada, o setor teria passado de aproximadamente 154,7 mil trabalhadores em 2024 para 165,4 mil em 2025, o equivalente a cerca de 10,7 mil profissionais adicionais em apenas um ano.
Entretanto, o dado mais relevante talvez não seja somente o aumento quantitativo. A transformação tecnológica, regulatória e operacional do saneamento está aumentando também a necessidade de engenheiros, técnicos, operadores, profissionais comerciais, especialistas ambientais, analistas de dados, profissionais de automação, eletromecânica, eficiência energética, regulação e gestão de contratos.
Por isso, o crescimento dos empregos no saneamento representa muito mais do que uma estatística trabalhista. Trata-se de um sinal de transformação estrutural de um dos setores de infraestrutura mais importantes do país.
Os números que explicam essa transformação
O levantamento divulgado pela ABCON apresenta um conjunto de indicadores que ajuda a compreender o tamanho dessa mudança.
- 165.425 trabalhadores no saneamento em 2025
- 6,9% de crescimento do número de trabalhadores em um ano
- R$ 6.595 de remuneração média informada para o setor
- R$ 28,6 bilhões em remunerações ao longo de 2025
- R$ 29,1 bilhões investidos em água e esgoto em 2024
- 9% de crescimento dos investimentos em relação a 2023
- R$ 227 bilhões em investimentos contratados desde o Marco Legal
- 70 leilões realizados desde 2020
- 31 novos projetos em estruturação
- R$ 32 bilhões previstos nesses novos projetos
O investimento de R$ 29,1 bilhões registrado em 2024 representou o terceiro recorde anual consecutivo do setor, segundo os dados do Panorama. (Saneamento Ambiental)
Portanto, existe uma relação econômica facilmente compreensível: quando os investimentos aumentam, novas redes precisam ser projetadas, obras precisam ser executadas, sistemas precisam ser operados, clientes precisam ser cadastrados, ativos precisam ser mantidos e resultados precisam ser monitorados.
Consequentemente, os empregos no saneamento tendem a acompanhar esse novo ciclo de expansão.
Mais investimento significa muito mais do que novas obras
Durante décadas, uma grande parcela da discussão sobre saneamento esteve concentrada na construção de infraestrutura. Entretanto, uma estação de tratamento ou uma nova rede não funciona sozinha.
Depois da implantação começam outras atividades igualmente importantes.
É necessário realizar operação, manutenção preventiva, controle de perdas, monitoramento da qualidade da água, fiscalização de redes, leitura de hidrômetros, faturamento, atendimento ao cliente, gestão energética, automação, controle laboratorial, manutenção eletromecânica e gestão comercial.
Além disso, as empresas precisam atender indicadores regulatórios, metas contratuais, requisitos ambientais e compromissos relacionados à universalização.
Assim, cada real investido em infraestrutura cria uma cadeia de atividades que envolve profissionais de diversas áreas.
Esse fenômeno ajuda a explicar por que os empregos no saneamento passam a ganhar importância estratégica.
Qualificação profissional cresce junto com o setor
Outro dado merece atenção especial dos profissionais.
Segundo informações baseadas no Panorama da ABCON, a quantidade de trabalhadores do setor com ensino superior, mestrado ou doutorado aumentou 22,6% em comparação com 2019. (Taticca)
Portanto, a expansão não está acontecendo somente pela contratação de mão de obra operacional.
O saneamento brasileiro está se tornando cada vez mais intensivo em conhecimento.
Isso ocorre porque uma companhia moderna de saneamento precisa combinar hidráulica, engenharia sanitária, automação, inteligência artificial, geoprocessamento, telemetria, gestão comercial, ciência de dados, manutenção preditiva, eficiência energética e conhecimento regulatório.
Consequentemente, os empregos no saneamento tendem a exigir novas competências.
Um operador de sistema, por exemplo, passa a trabalhar com supervisórios e telemetria. Um profissional comercial pode utilizar inteligência de dados para localizar perdas aparentes ou inconsistências cadastrais. Já equipes de manutenção podem utilizar sensores e modelos preditivos para identificar falhas antes da interrupção do serviço.
A tecnologia, portanto, não necessariamente elimina a importância do profissional. Pelo contrário, ela aumenta o valor de trabalhadores capazes de compreender o processo e utilizar corretamente as novas ferramentas.
Remuneração chama atenção, mas comparação exige cuidado
O levantamento divulgado pela ABCON informa remuneração média de R$ 6.595 para os trabalhadores do setor e compara esse valor com uma média de R$ 3.783 da economia brasileira, indicando diferença de aproximadamente 74%. (CNN Brasil)
Entretanto, existe uma observação metodológica importante.
A RAIS 2025, divulgada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, informa remuneração média de R$ 4.434,38 para o conjunto dos vínculos formais do Brasil. Nessa comparação direta, R$ 6.595 ficaria aproximadamente 49% acima da média da RAIS. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso não significa necessariamente que algum dos dados esteja incorreto. Indicadores de remuneração podem utilizar universos, períodos e metodologias diferentes.
Para gestores e profissionais de saneamento, a principal lição é evitar comparar números de fontes diferentes sem verificar primeiro a metodologia utilizada.
Ainda assim, independentemente da base adotada, os dados reforçam que se trata de um setor com forte participação de mão de obra técnica e especializada.
Marco Legal criou um gigantesco cronograma de execução
O crescimento dos empregos no saneamento também precisa ser observado dentro das metas de universalização.
O Marco Legal estabelece como referência para 2033 o atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto. (CNN Brasil)
Para atingir esses números, não basta contratar investimentos.
Será necessário transformar contratos em projetos, projetos em obras e obras em sistemas funcionando adequadamente.
Desde 2020, foram realizados 70 leilões, envolvendo mais de R$ 227 bilhões em investimentos contratados. Além disso, outros 31 projetos estavam em estruturação, envolvendo aproximadamente R$ 32 bilhões e 636 municípios. (CNN Brasil)
Esse pipeline representa demanda futura por milhares de profissionais durante diferentes fases dos projetos.
Engenharia será necessária para projetar e ampliar sistemas. Equipes operacionais serão necessárias para assumir novas áreas. Áreas comerciais precisarão cadastrar clientes e aumentar a micromedição. Especialistas em perdas precisarão melhorar eficiência. Áreas de atendimento terão que administrar milhões de novas relações comerciais.
Portanto, os empregos no saneamento deverão acompanhar toda a jornada da universalização.
Área comercial também se torna estratégica
O avanço do saneamento cria uma oportunidade particularmente importante para profissionais da área comercial.
Universalizar não significa somente colocar tubulação na rua.
Depois que uma rede é implantada, é necessário transformar aquela infraestrutura em atendimento efetivo.
Isso envolve cadastro, ligação, instalação de hidrômetro, leitura, faturamento, cobrança, atendimento, atualização cadastral, combate às irregularidades e gestão da tarifa social.
Além disso, a redução das perdas aparentes depende diretamente da qualidade das informações comerciais.
Consequentemente, profissionais capazes de integrar operação, cadastro, medição, faturamento e análise de dados terão importância crescente nas empresas.
Nesse contexto, os empregos no saneamento não estarão restritos aos engenheiros responsáveis pelas grandes obras. A universalização depende igualmente de operadores, técnicos, agentes comerciais, laboratoristas, profissionais administrativos, gestores, analistas, especialistas regulatórios e equipes de atendimento.
Quais profissionais tendem a ganhar importância
O novo ciclo do saneamento aponta para algumas competências particularmente importantes.
Entre elas estão automação industrial, telemetria, inteligência artificial, ciência de dados, geoprocessamento, engenharia sanitária, controle de perdas, modelagem hidráulica, eficiência energética, manutenção eletromecânica, tratamento avançado de água e esgoto, reúso, gestão ambiental e segurança hídrica.
Além disso, cresce a necessidade de conhecimento em regulação, contratos de concessão, indicadores de desempenho, gestão comercial e relacionamento com clientes.
Isso significa que a discussão sobre empregos no saneamento também precisa passar pelas universidades, escolas técnicas, centros de treinamento e programas internos das próprias companhias.
Contratar será importante. Entretanto, capacitar os profissionais que já conhecem profundamente os sistemas será igualmente estratégico.
O profissional experiente passa a ter ainda mais valor
Existe uma característica que diferencia o saneamento de diversos outros setores.
Grande parte do conhecimento necessário para operar uma companhia não está apenas nos livros ou sistemas informatizados. Ele também está acumulado na experiência dos trabalhadores.
Um operador conhece o comportamento de determinada estação durante uma chuva intensa. Uma equipe de manutenção conhece pontos recorrentes de rompimento. Um profissional comercial identifica padrões de consumo suspeitos. Um laboratorista reconhece alterações que podem indicar problemas no processo.
Esse conhecimento operacional possui enorme valor.
Portanto, modernizar o saneamento não significa substituir experiência por tecnologia.
O caminho mais eficiente tende a ser combinar experiência, capacitação e tecnologia.
É justamente nesse ponto que os profissionais de saneamento precisam ser valorizados. São essas equipes que transformam bilhões de reais em investimentos em água chegando às torneiras, esgoto sendo tratado, perdas sendo reduzidas e serviços sendo prestados diariamente.
O maior desafio pode deixar de ser dinheiro e passar a ser gente
O Brasil ainda precisa investir fortemente para alcançar a universalização. Entretanto, à medida que dezenas de bilhões de reais entram na infraestrutura, outro gargalo pode ganhar importância: disponibilidade de mão de obra qualificada.
O problema já aparece de forma mais ampla na infraestrutura brasileira. Entidades ligadas ao setor alertaram em 2026 para dificuldades relacionadas à disponibilidade de engenheiros e trabalhadores qualificados para executar a carteira crescente de obras. (Folha de S.Paulo)
No saneamento, esse risco merece atenção antecipada.
Não basta conquistar concessões ou disponibilizar recursos financeiros se faltarem engenheiros, operadores, técnicos, profissionais comerciais, especialistas de manutenção e gestores capacitados para transformar o investimento em desempenho.
Por isso, planejamento de pessoas precisa caminhar junto com planejamento de investimentos.
A principal lição para as companhias de saneamento
Os empregos no saneamento cresceram 6,9% em 2025, porém esse número deve ser interpretado como o começo de uma transformação maior.
As companhias precisam mapear quais competências serão necessárias nos próximos cinco ou dez anos.
Além disso, programas internos de capacitação precisam acompanhar digitalização, automação, inteligência artificial, novas tecnologias de tratamento e mudanças regulatórias.
Também será cada vez mais necessário criar mecanismos para transmitir o conhecimento dos profissionais mais experientes às novas gerações.
Nesse sentido, desenvolver pessoas deixa de ser apenas responsabilidade da área de recursos humanos.
Passa a ser uma estratégia operacional.
Saneamento é feito por pessoas
Uma rede pode transportar água. Uma bomba pode gerar pressão. Um sistema automatizado pode emitir milhares de informações por segundo.
Entretanto, são profissionais capacitados que interpretam os dados, tomam decisões, realizam manutenção, controlam processos e garantem que o serviço chegue à população.
O crescimento dos empregos no saneamento confirma que a expansão da infraestrutura brasileira também está ampliando a responsabilidade e a importância dessas equipes.
Com 165.425 trabalhadores já registrados no setor em 2025, bilhões de reais contratados para os próximos anos e metas ambiciosas de universalização, a valorização profissional deixa de ser apenas uma questão trabalhista.
Torna-se uma questão estratégica para o próprio futuro do saneamento brasileiro.
Quanto maior for o investimento em infraestrutura, maior deverá ser também o investimento em quem projeta, opera, mantém, mede, fatura, fiscaliza e melhora os sistemas.
A universalização será construída com tubulações, estações, equipamentos e tecnologia. Porém, principalmente, será construída pelos profissionais do saneamento.
Fontes
- CNN Brasil — Trabalhadores no setor de saneamento cresceram 6,9% em 2025, aponta ABCON. Dados sobre trabalhadores, remuneração, investimentos e concessões. (CNN Brasil
)
- ABCON SINDCON — Panorama da Universalização do Saneamento 2026. Base do levantamento sobre evolução do setor e universalização. (Abcon Sindcon
)
- Ministério do Trabalho e Emprego — RAIS 2025. Dados oficiais sobre estoque de empregos e remuneração média do mercado formal brasileiro. (Serviços e Informações do Brasil
)
- Ministério das Cidades — Marco Legal do Saneamento. Informações institucionais sobre as diretrizes do marco regulatório. (Serviços e Informações do Brasil
)
- Saneamento Ambiental — Investimentos atingem R$ 29,1 bilhões. Informações complementares do Panorama 2026 sobre o terceiro recorde consecutivo de investimentos. (Saneamento Ambiental
)



