Somente três grandes companhias brasileiras ajudam a dimensionar o tamanho da responsabilidade envolvida no planejamento de uma empresa de saneamento. A Sabesp informa cerca de R$ 70 bilhões em investimentos entre 2024 e 2029. A Copasa apresenta um programa de aproximadamente R$ 21 bilhões entre 2026 e 2030. Já o plano plurianual da Sanepar aponta para cerca de R$ 13,1 bilhões entre 2026 e 2030. Somados, esses programas ultrapassam R$ 104 bilhões. Portanto, decidir onde, quando e como investir deixou de ser apenas uma função administrativa: tornou-se uma competência central do setor. (Sabesp RI)
É exatamente nesse ponto que o planejamento estratégico no saneamento ganha importância. Uma decisão equivocada pode significar uma estação construída antes da rede coletora, uma adutora dimensionada para uma demanda inadequada, milhões investidos em expansão enquanto as perdas continuam elevadas ou uma meta corporativa desconectada da capacidade financeira da empresa. Por outro lado, quando a estratégia funciona, metas regulatórias, investimentos, operação, área comercial, pessoas e tecnologia passam a trabalhar na mesma direção.

Além disso, o contexto brasileiro tornou o planejamento ainda mais crítico. A Lei nº 14.026/2020 estabelece metas de atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033. A legislação também inclui metas relacionadas à não intermitência, redução de perdas e melhoria dos processos de tratamento. A Norma de Referência da ANA sobre universalização reforçou o monitoramento dessas metas. (Serviços e Informações do Brasil)
Assim, o verdadeiro planejamento estratégico no saneamento precisa responder a uma pergunta muito maior do que “qual será a meta do próximo ano?”. A pergunta correta é: como transformar obrigações regulatórias, necessidades da população, riscos operacionais e disponibilidade financeira em uma sequência executável de decisões?
O que é planejamento estratégico no saneamento?
O planejamento estratégico no saneamento é o processo estruturado pelo qual uma companhia define onde está, identifica os cenários que podem afetá-la, estabelece onde pretende chegar e transforma essa visão em metas, indicadores, investimentos, projetos e responsabilidades.
Consequentemente, não se trata apenas de elaborar missão, visão e valores. Esses elementos são importantes, porém representam somente a camada superior da estratégia.
Uma estrutura completa precisa conectar:
- diagnóstico empresarial;
- ambiente regulatório;
- contratos e metas de universalização;
- segurança hídrica;
- expansão de água;
- expansão do esgotamento sanitário;
- redução de perdas;
- eficiência energética;
- faturamento e arrecadação;
- experiência do cliente;
- gestão de ativos;
- transformação digital;
- pessoas e competências;
- sustentabilidade financeira;
- riscos climáticos;
- CAPEX;
- OPEX;
- financiamento;
- portfólio de projetos;
- governança e acompanhamento.
Na prática, todos esses elementos precisam conversar entre si.
A Sanepar fornece um exemplo bastante didático. Em seu Plano Estratégico 2024–2028, a companhia estruturou objetivos relacionados a sustentabilidade, clientes e poder concedente, processos, aprendizado e crescimento. Além disso, relacionou o planejamento às mudanças climáticas, universalização, equilíbrio econômico-financeiro e programa de investimentos. (Sanepar)
1. Tudo começa pelo diagnóstico
Antes de definir metas, o planejamento estratégico no saneamento precisa produzir um verdadeiro raio-X da companhia.
Esse diagnóstico não pode ser construído apenas pela diretoria. Operação, engenharia, comercial, financeiro, tecnologia, regulação, meio ambiente, pessoas, suprimentos e unidades descentralizadas precisam fornecer informações.
No abastecimento de água, por exemplo, devem ser avaliados disponibilidade hídrica, capacidade de produção, reservação, macromedição, pressões, continuidade, perdas, idade das redes, quantidade de rompimentos e capacidade futura dos sistemas.
No esgotamento sanitário, a análise precisa considerar cobertura, adesão dos imóveis às redes disponíveis, capacidade das ETEs, eficiência do tratamento, estações elevatórias, interceptores, redes críticas, lançamento de efluentes e expansão necessária.
Entretanto, o diagnóstico não deve parar na operação.
A área comercial precisa avaliar hidrometração, faturamento, inadimplência, recuperação de receita, cadastro, fraudes, tempo de atendimento, canais digitais e eficiência dos processos comerciais.
Por sua vez, o financeiro precisa demonstrar geração de caixa, endividamento, custo de capital, capacidade de financiamento, projeção tarifária, OPEX e espaço disponível para investimentos.
A lógica utilizada pela Sanepar na formulação de seus investimentos ilustra essa conexão. A companhia já relacionou seu programa plurianual às necessidades identificadas em diagnósticos operacionais, compromissos contratuais, garantia do abastecimento, qualidade da água, universalização do esgoto, compliance ambiental e outros fatores. (Sanepar)
Portanto, um bom diagnóstico transforma milhares de dados dispersos em poucas perguntas executivas: onde existe maior risco? Onde existe maior déficit? Onde a empresa perde dinheiro? Onde o investimento gera maior benefício?
2. Regulação e contratos precisam entrar antes das metas
Em uma indústria convencional, uma empresa pode definir sua estratégia principalmente com base no mercado. No saneamento, isso não é suficiente.
Existem contratos, titulares, agências reguladoras, metas legais e compromissos de prestação de serviço.
Por isso, o planejamento estratégico no saneamento precisa começar pela criação de uma matriz de obrigações.
Para cada município ou bloco regional atendido, essa matriz pode reunir:
- meta de água;
- meta de esgoto;
- redução de perdas;
- continuidade;
- qualidade;
- investimentos obrigatórios;
- prazo contratual;
- indicadores regulatórios;
- compromissos ambientais;
- situação de licenciamento;
- necessidade de renovação de ativos.
Esse trabalho reduz um risco comum: estabelecer uma estratégia corporativa aparentemente correta, porém incompatível com os compromissos contratuais.
A própria Embasa já registrou oficialmente que políticas públicas e diretrizes governamentais são insumos relevantes para a definição e o cumprimento de sua estratégia. Em documento de governança, a companhia também explicou que seu Plano de Investimentos reúne decisões de curto, médio e longo prazos e suas respectivas curvas esperadas de execução, monitoramento e avaliação. (Embasa)
3. Depois do diagnóstico, entram os cenários
Planejar somente utilizando os números atuais é perigoso.
Uma companhia pode estar operando normalmente hoje e, ainda assim, enfrentar uma crise hídrica dentro de cinco anos. Da mesma forma, uma cidade pode apresentar cobertura elevada atualmente e exigir ampliação expressiva de produção devido à expansão urbana.
Portanto, o planejamento deve trabalhar com cenários.
Entre as variáveis relevantes estão crescimento populacional, expansão urbana, industrialização, inflação, juros, mudanças regulatórias, disponibilidade de financiamento, estiagens, enchentes, energia elétrica, evolução tecnológica e comportamento dos clientes.
A Sanepar já registrou que eventos climáticos extremos estão entre os desafios considerados no seu processo estratégico. A empresa possui, inclusive, Plano Estratégico de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas e relaciona o risco climático ao planejamento, projetos, operação e planejamento financeiro. (Sanepar)
Consequentemente, uma estratégia moderna não trabalha com apenas uma previsão. O ideal é construir pelo menos um cenário-base, um cenário de estresse e um cenário de expansão acelerada.
4. Propósito, missão e visão precisam orientar dinheiro
Depois de compreender o cenário, chega o momento de estabelecer a direção estratégica.
A Embasa oferece um exemplo atual e bastante claro. A companhia publica seu Mapa Estratégico 2026–2033, possui como propósito “Transformar vidas e promover o desenvolvimento” e estabelece como visão ser uma empresa pública de referência nacional na prestação e ampliação dos serviços de água e esgoto. (Embasa)
Entretanto, propósito e visão só possuem utilidade gerencial quando influenciam decisões.
Se a visão prevê ampliação dos serviços, o plano de investimentos precisa demonstrar quais sistemas serão expandidos.
Se a estratégia estabelece eficiência, indicadores de perdas, energia, produtividade, custos e processos precisam refletir essa prioridade.
Se a empresa declara foco no cliente, satisfação, reclamações, prazo de execução e digitalização precisam ser acompanhados.
Essa conexão é um dos princípios mais importantes do planejamento estratégico no saneamento.
5. A ferramenta: Balanced Scorecard e mapa estratégico
Entre as metodologias mais conhecidas para estruturar a estratégia está o Balanced Scorecard, ou BSC.
Existe evidência concreta de utilização dessa ferramenta no saneamento brasileiro. A Embasa registrou oficialmente em relatório de administração que a definição de suas estratégias se baseava na metodologia Balanced Scorecard e que o monitoramento ocorria por meio de reuniões mensais de análise crítica, com revisão anual das metas. O documento também mencionava um portfólio de projetos estratégicos com orçamento próprio. (Embasa)
O BSC organiza a estratégia em perspectivas conectadas.
Em uma companhia de saneamento, uma adaptação prática pode conter:
Sociedade e clientes: universalização, continuidade, qualidade, satisfação e atendimento.
Processos internos: perdas, faturamento, manutenção, obras, eficiência operacional e processos comerciais.
Pessoas e tecnologia: competências, sucessão, automação, digitalização, dados e inovação.
Sustentabilidade econômico-financeira: receita, custos, EBITDA, caixa, endividamento e capacidade de investimento.
A Sanepar, embora o documento consultado não denomine explicitamente sua estrutura atual como BSC, apresenta eixos de sustentabilidade, clientes e poder concedente, processos e aprendizado e crescimento. A estrutura guarda forte semelhança conceitual com as perspectivas clássicas do Balanced Scorecard. Essa comparação é uma interpretação metodológica, e não uma afirmação de que a companhia atualmente denomine formalmente o modelo dessa forma. (Sanepar)
Assim, o mapa estratégico consegue fazer algo essencial: demonstrar visualmente relações de causa e efeito.
Profissionais capacitados geram processos melhores. Processos melhores reduzem perdas e custos. Menores perdas aumentam disponibilidade de água e receita. Maior geração de caixa amplia a capacidade de investimento. Mais investimentos aceleram a universalização.
Essa é a lógica.
6. Como transformar objetivos em indicadores
Um dos maiores erros de estratégia ocorre quando são criados objetivos como “melhorar a eficiência”, “ampliar o atendimento” ou “reduzir custos” sem definir exatamente o que será medido.
Por isso, cada objetivo do planejamento estratégico no saneamento precisa possuir indicador, linha de base, meta, prazo, responsável e frequência de acompanhamento.
Para perdas, podem existir indicadores em percentual e litros por ligação por dia.
Para esgoto, cobertura e atendimento precisam ser acompanhados.
Para clientes, podem entrar satisfação, reclamações, prazo de execução e resolução no primeiro contato.
Para o comercial, podem ser acompanhados volume medido, índice de hidrometração, inadimplência, recuperação de receita, faturamento e eficiência de cobrança.
Para operação, continuidade, consumo de energia por metro cúbico, rompimentos, eficiência de tratamento e disponibilidade de equipamentos.
A Sanepar informou em sua Carta Anual referente a 2025 que utiliza um conjunto de indicadores para monitorar o desempenho, verificar metas e permitir ações preventivas e corretivas. O documento destaca, entre outros, o Índice de Perdas por Ligação. (Sanepar)
Portanto, indicador não deve existir apenas para produzir relatório. Ele precisa provocar decisão.
7. Estratégia precisa virar portfólio de projetos
Uma meta não executa nada sozinha.
Suponha que o objetivo seja reduzir perdas.
O programa estratégico correspondente poderá envolver:
- setorização;
- implantação de distritos de medição e controle;
- controle de pressão;
- macromedição;
- telemetria;
- pesquisa ativa de vazamentos;
- renovação de redes;
- substituição de ramais;
- troca de hidrômetros;
- análise de consumo;
- combate a irregularidades;
- melhoria cadastral.
Cada iniciativa precisa virar projeto, com escopo, prazo, custo, responsável, benefício esperado e indicador.
O mesmo raciocínio vale para esgoto, digitalização, atendimento, eficiência energética e crescimento de receita.
Além disso, projetos devem ser priorizados. Uma metodologia prática pode avaliar contribuição estratégica, obrigação regulatória, risco, custo, benefício social, retorno financeiro, capacidade de execução e urgência.
Nesse ponto, o trabalho dos profissionais de saneamento é decisivo. Nenhum modelo matemático substitui completamente o conhecimento de quem conhece a rede, a estação, o contrato, o cliente e a realidade operacional de cada sistema.
8. O ponto decisivo: estratégia precisa entrar no CAPEX
É aqui que muitos planejamentos fracassam.
A estratégia é aprovada, porém o orçamento segue outra lógica.
O planejamento estratégico no saneamento só se torna real quando os objetivos chegam ao Plano de Investimentos, ao orçamento anual e ao fluxo de caixa.
Os grandes exemplos brasileiros mostram a escala dessa conexão.
A Sabesp informa cerca de R$ 70 bilhões para 2024–2029, em contexto de antecipação da universalização para 2029 em sua área de cobertura. (Sabesp RI)
A Copasa apresenta, atualmente, R$ 3,1 bilhões para 2026, R$ 3,9 bilhões para 2027, R$ 4,8 bilhões para 2028, R$ 4,7 bilhões para 2029 e R$ 4,5 bilhões para 2030. Isso totaliza R$ 21 bilhões, sem incluir capitalizações. (COPASA RI)
Na Sanepar, o plano plurianual 2026–2030 aponta aproximadamente R$ 13,1 bilhões, dos quais cerca de R$ 5,85 bilhões são direcionados ao abastecimento de água, R$ 6,7 bilhões ao esgotamento sanitário e aproximadamente R$ 478 milhões a outros investimentos, segundo relatório de crédito baseado em informações da companhia. (Sanepar)
Isso demonstra que estratégia não é um documento paralelo ao orçamento. Estratégia é, em grande medida, uma disciplina de alocação de recursos escassos.
9. O planejamento precisa testar a capacidade financeira
Nem todo projeto necessário pode ser executado imediatamente.
Por isso, entram as análises econômico-financeiras.
Para cada cenário, precisam ser projetados CAPEX, OPEX incremental, receita adicional, geração de caixa, endividamento e necessidade de financiamento.
Também podem ser avaliados VPL, TIR, payback, WACC e impacto tarifário, dependendo da natureza do projeto.
Além disso, é necessário determinar de onde virá o dinheiro: geração própria de caixa, financiamentos, debêntures, bancos de desenvolvimento, recursos públicos, fundos ou PPPs.
A Sanepar oferece um caso bastante claro da relação entre estratégia, capital e execução. Em 2025, a companhia registrou R$ 2,65 bilhões em investimentos e relatou a captação de R$ 600 milhões em títulos sustentáveis e azuis. Para o ciclo seguinte, mantém um programa plurianual expressivo de investimentos. (Sanepar)
10. Quanto custa fazer um planejamento estratégico?
Não existe um preço padronizado para elaborar o planejamento estratégico no saneamento.
O custo depende do tamanho da companhia, quantidade de unidades, municípios atendidos, profundidade do diagnóstico, necessidade de estudos específicos, volume de workshops, maturidade dos dados, participação de consultorias e implantação de sistemas.
Entretanto, existe um exemplo público que ajuda a dimensionar a ordem de grandeza de uma contratação especializada.
Em 2022, um convênio envolvendo a CASAN, a Universidade Federal de Santa Catarina e a FEPESE para elaboração do planejamento estratégico, tático e operacional da companhia teve valor registrado de R$ 798.209,30. Esse número deve ser interpretado apenas como referência histórica de um escopo específico, e não como preço de mercado atual ou orçamento recomendado para outra companhia. (Conselho Curadores UFSC)
Na prática, o custo do processo estratégico pode ser dividido em quatro blocos.
Primeiro, existe o custo interno: horas de diretores, gestores, especialistas e equipes.
Segundo, pode existir consultoria externa para metodologia, facilitação, cenários ou modelagem.
Terceiro, surgem custos de dados e tecnologia, como BI, integração de bases, ferramentas de projetos e dashboards.
Finalmente, existe a estrutura permanente de acompanhamento, formada por planejamento, PMO, controladoria, gestão de desempenho ou áreas equivalentes.
O ponto mais importante, contudo, é diferenciar o custo de planejar do custo de executar a estratégia. Elaborar a estratégia pode consumir centenas de milhares ou milhões de reais, dependendo do porte e do escopo. Executá-la, entretanto, pode exigir dezenas de bilhões, como mostram os programas de Sabesp, Copasa e Sanepar. (Sabesp RI)
11. Quais ferramentas tecnológicas podem apoiar a estratégia?
Não existe um único “software de planejamento estratégico” utilizado por todo o setor.
Na prática, uma arquitetura madura tende a reunir diferentes ferramentas.
O ERP fornece informações financeiras, contratos, compras e custos.
O sistema comercial fornece faturamento, arrecadação, inadimplência, ligações e consumo.
GIS organiza redes, ativos e informação territorial.
SCADA e telemetria fornecem pressão, vazão, níveis, operação de bombas e reservatórios.
Sistemas de manutenção registram falhas e intervenções.
Ferramentas de Business Intelligence consolidam dados e criam dashboards executivos.
Sistemas de gestão de projetos acompanham cronograma, orçamento e entrega do portfólio.
A Embasa já estabeleceu em diretrizes de automação o uso conceitual de Business Intelligence como camada destinada a apoiar decisões que afetam o negócio como um todo. Documentos da Sanepar também registram Power BI entre ferramentas e sistemas corporativos utilizados pela companhia. (Embasa)
Portanto, a tecnologia não substitui o planejamento estratégico no saneamento. Ela cria a infraestrutura de dados necessária para que a estratégia seja acompanhada quase em tempo real.
12. Governança: quem cobra o resultado?
Uma estratégia sem governança tende a perder força depois dos primeiros meses.
Por isso, o modelo precisa definir quem decide, quem acompanha e quem executa.
Em uma estrutura típica, o Conselho de Administração aprova diretrizes de longo prazo. A Diretoria Executiva transforma essas diretrizes em prioridades. As gerências desdobram indicadores e projetos. Por fim, unidades operacionais e equipes executam as iniciativas.
A Copasa representa um exemplo concreto. A companhia informa que seu Conselho de Administração é responsável pela aprovação das políticas e diretrizes gerais dos negócios, incluindo a estratégia de longo prazo, e que o colegiado se reúne ordinariamente uma vez por mês. (COPASA RI)
A Sabesp possui atualmente, dentro de sua estrutura de governança, um Comitê de Estratégia e Novos Negócios, reforçando a institucionalização do tema dentro da governança corporativa. (Sabesp RI)
Dessa forma, o acompanhamento não deveria ocorrer apenas na revisão anual.
Indicadores críticos podem ser avaliados mensalmente. O portfólio de projetos pode passar por análise mensal ou trimestral. Cenários e metas podem ser revisados anualmente ou quando surgir uma mudança relevante.
13. Como implantar o planejamento estratégico no saneamento
Uma companhia que pretenda implantar ou modernizar o planejamento estratégico no saneamento pode estruturar o processo em doze movimentos.
1. Definir governança.
Patrocinador, unidade responsável, comitê executivo e regras de decisão precisam estar definidos antes dos workshops.
2. Consolidar obrigações regulatórias e contratuais.
Metas de cada concessão precisam estar organizadas em uma única base.
3. Construir o diagnóstico.
Operação, comercial, financeiro, engenharia, pessoas, tecnologia, ativos, regulação e sustentabilidade precisam ser avaliados.
4. Construir cenários.
Demografia, clima, economia, regulação, tecnologia e disponibilidade hídrica devem entrar na análise.
5. Rever identidade estratégica.
Propósito, missão, visão e valores precisam representar a direção real da empresa.
6. Elaborar o mapa estratégico.
Poucos objetivos, claramente conectados, são mais úteis do que dezenas de prioridades.
7. Definir indicadores.
Cada objetivo precisa ter forma objetiva de medição.
8. Estabelecer metas.
Linha de base, valor-alvo, prazo e responsável precisam ficar claros.
9. Criar programas e projetos.
A estratégia precisa gerar entregas concretas.
10. Priorizar e financiar.
CAPEX, OPEX, retorno, riscos e fontes de recursos precisam ser compatibilizados.
11. Desdobrar para as áreas.
A estratégia corporativa precisa chegar às unidades, gerências e equipes.
12. Monitorar e corrigir.
Dashboards, reuniões de análise crítica e planos de ação fecham o ciclo.
14. O maior erro: criar um plano que ninguém usa
O pior planejamento estratégico não é necessariamente aquele que possui uma meta imperfeita. É aquele que não altera nenhuma decisão.
Se uma companhia aprova como prioridade a redução de perdas, mas o orçamento não direciona recursos para macromedição, controle de pressão, renovação de redes e melhoria comercial, existe uma ruptura entre estratégia e execução.
Da mesma forma, se a universalização é prioridade, porém projetos, licenciamento, desapropriações, financiamento, contratação e execução não possuem cronogramas integrados, a meta permanece apenas institucional.
Por isso, o planejamento estratégico no saneamento precisa estar presente nas contratações, nos investimentos, nas reuniões, nos indicadores e na rotina dos gestores.
A própria Embasa estabelece em seu regulamento de contratações que as aquisições devem ser precedidas de planejamento em harmonia com o planejamento estratégico da companhia e com as previsões orçamentárias. Essa conexão demonstra como a estratégia pode sair do nível institucional e alcançar decisões administrativas concretas. (Embasa)
15. O profissional de saneamento continua sendo a peça central
Quanto mais dados, inteligência artificial, dashboards e modelos financeiros passam a ser utilizados, maior se torna a importância do conhecimento técnico.
Um algoritmo pode identificar um setor com alto volume perdido. Entretanto, o profissional experiente consegue interpretar pressão, idade da rede, intermitência, topografia, cadastro, vazamentos, fraudes e comportamento operacional.
Um modelo pode apontar uma ETE como prioridade de investimento. Porém, engenheiros, operadores, técnicos ambientais e equipes de manutenção conseguem avaliar limitações que não aparecem em uma planilha.
Da mesma forma, indicadores comerciais precisam ser interpretados por profissionais que entendem faturamento, leitura, cobrança, cadastro, atendimento e comportamento dos clientes.
Portanto, tecnologia e metodologia precisam ampliar a capacidade desses profissionais, e não substituí-la.
Esse é um dos pilares mais importantes do planejamento estratégico no saneamento: transformar conhecimento acumulado nas áreas em decisões corporativas estruturadas.
Planejamento estratégico transforma bilhões em resultados
Embasa, Sabesp, Sanepar e Copasa possuem características societárias, regulatórias e operacionais diferentes. Entretanto, os documentos públicos dessas empresas mostram elementos comuns: visão de longo prazo, metas, indicadores, governança, programas de investimento e necessidade de conectar estratégia à execução. (Embasa)
Por isso, o planejamento estratégico no saneamento não deveria ser visto como um ritual corporativo realizado periodicamente.
Ele representa o mecanismo que transforma um diagnóstico de perdas em um programa de redução de perdas; uma obrigação contratual em projeto; um projeto em CAPEX; CAPEX em obra; obra em infraestrutura; e infraestrutura em água disponível, esgoto tratado e qualidade de vida.
No final, bilhões de reais não são executados por apresentações. São executados por profissionais, projetos, contratos, obras, operação e acompanhamento permanente.
Quando o planejamento estratégico no saneamento funciona, cada indicador passa a ter um propósito, cada investimento passa a responder a uma prioridade e cada equipe consegue enxergar como sua atividade contribui para os resultados da companhia.
E é justamente nessa integração entre estratégia e execução que os profissionais do saneamento demonstram seu maior valor: transformar decisões tomadas hoje em sistemas capazes de atender milhões de pessoas durante décadas.
Fontes
- Lei nº 14.026/2020 – Presidência da República
- ANA – Resolução nº 192/2024 e universalização
- Embasa – Identidade Organizacional e Mapa Estratégico 2026–2033
- Embasa – Relatório com utilização do Balanced Scorecard
- Sabesp – Perfil Corporativo e investimentos
- Sabesp – Diretoria, Conselhos e Comitês
- Sanepar – Relatório da Administração e Plano Estratégico
- Sanepar – Carta Anual de Políticas Públicas e Governança 2025
- Sanepar – Programa de investimentos 2026–2030
- Copasa – Programa de Investimentos 2026–2030
- Copasa – Estrutura de Governança Corporativa
- UFSC – Projeto de planejamento estratégico, tático e operacional da CASAN



