Setor pede 90 dias de suspensão da fluoretação
A escassez de ácido fluossilícico deixou de ser apenas um problema de compras das companhias de saneamento e chegou à Justiça. Em 19 de agosto de 2026, a Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon) acionou a Justiça Federal para pedir a suspensão temporária, por 90 dias, da obrigatoriedade de adicionar flúor à água distribuída pelos sistemas de abastecimento afetados pela indisponibilidade do produto.
O movimento revela uma situação incomum: empresas responsáveis pela produção de água tratada continuam capazes de realizar coagulação, floculação, decantação, filtração, desinfecção, correções químicas e controle de qualidade, porém começam a enfrentar dificuldades para executar uma etapa específica ligada principalmente à saúde bucal coletiva — a fluoretação.
Segundo a CNN Brasil, fornecedores comunicaram formalmente a indisponibilidade do ácido às companhias em junho. Desde então, o preço do produto teria aumentado mais de 300%, enquanto os estoques existentes passaram a ser consumidos sem garantia de reposição. A Abcon afirma ainda ter procurado o Ministério da Saúde cinco vezes entre junho e agosto em busca de uma solução administrativa antes de recorrer ao Judiciário. (CNN Brasil)
A discussão, portanto, não é sobre retirar definitivamente o flúor da água. O pedido do setor é emergencial e temporário: criar segurança jurídica durante o período necessário para reconstruir a cadeia de fornecimento.
O que está acontecendo em poucas linhas
A crise pode ser resumida em seis pontos:
- a produção nacional de ácido fluossilícico foi interrompida;
- os estoques mantidos pelas empresas estão diminuindo;
- o preço do produto subiu mais de 300%, segundo o setor;
- a importação exige homologação, análises e logística especializada;
- o prazo estimado para disponibilizar um novo produto pode chegar a aproximadamente 90 dias;
- enquanto isso, existe uma obrigação legal relacionada à fluoretação da água. (CNN Brasil
)
Esse conjunto explica por que a escassez de ácido fluossilícico se transformou simultaneamente em problema operacional, regulatório, jurídico, financeiro e de saúde pública.
O que é o ácido fluossilícico?
O ácido fluossilícico, representado pela fórmula química H₂SiF₆, é um dos compostos utilizados para fornecer íons fluoreto durante a fluoretação da água.
Embora para a população o processo seja normalmente resumido como “colocar flúor na água”, tecnicamente o que ocorre é uma dosagem extremamente controlada de um composto fluoretado. Depois de adicionado à água, o objetivo é manter uma concentração adequada de fluoreto para contribuir com a prevenção da cárie dentária.
O CDC dos Estados Unidos reconhece o ácido fluossilícico e o fluossilicato de sódio entre os compostos empregados na fluoretação de sistemas públicos de abastecimento. (CDC)
No Brasil, o próprio Ministério da Saúde registra o ácido fluossilícico e o fluossilicato de sódio entre os produtos historicamente utilizados nas estações de tratamento. Além disso, destaca que a escolha da técnica depende tanto da substância empregada quanto das condições da ETA. (Serviços e Informações do Brasil)
Portanto, a escassez de ácido fluossilícico não significa necessariamente inexistência absoluta de outras fontes químicas de fluoreto. Entretanto, substituir um produto por outro não ocorre simplesmente trocando um tanque ou alterando uma linha de dosagem.
Por que faltou ácido fluossilícico no Brasil?
Uma particularidade industrial ajuda a explicar a crise.
O ácido fluossilícico está associado à cadeia de produção de fertilizantes fosfatados. Durante o processamento da rocha fosfática para produção de ácido fosfórico, compostos contendo flúor são liberados e podem ser recuperados, gerando ácido fluossilícico como subproduto.
Essa relação é tão importante que interrupções na indústria de fertilizantes podem provocar escassez de produtos destinados à fluoretação. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos já identificou esse tipo de vulnerabilidade na cadeia de químicos utilizados no tratamento de água. (EPA NEPIS)
No Brasil, a situação se agravou em 2026 com a redução da produção nacional relacionada à indústria de fertilizantes. Segundo a Abcon e a Aesbe, o conflito entre Estados Unidos e Irã também pressionou a cadeia internacional de matérias-primas, especialmente o enxofre utilizado na produção de ácido sulfúrico, fundamental para a indústria de fertilizantes fosfatados. (Agência iNFRA)
Como consequência, a escassez de ácido fluossilícico atingiu diretamente empresas de saneamento que dependiam de contratos regulares de fornecimento.
Esse episódio demonstra um risco frequentemente subestimado: uma ETA pode ter reservatórios, filtros, bombas, automação e equipes altamente qualificadas, mas continuar vulnerável se um insumo químico crítico desaparecer do mercado.
Água sem fluoretação continua potável?
Esse é um dos pontos mais importantes para evitar desinformação.
A eventual interrupção da fluoretação não significa automaticamente que a água se tornou imprópria para consumo.
A Aesbe destaca que a ausência temporária do ácido fluossilícico não compromete, por si só, a potabilidade da água. A fluoretação está associada sobretudo a uma política coletiva de prevenção da cárie dentária. As demais etapas necessárias para assegurar a qualidade sanitária da água permanecem operando e precisam continuar obedecendo aos parâmetros legais. (AESBE)
Essa distinção é fundamental.
Desinfecção e fluoretação não são a mesma coisa.
A desinfecção busca controlar organismos patogênicos capazes de provocar doenças transmitidas pela água. Já a fluoretação ajusta a concentração de fluoreto principalmente para benefício odontológico coletivo.
Assim, suspender temporariamente a fluoretação não equivale a suspender o tratamento da água.
Entretanto, isso também não significa que o flúor seja irrelevante. Pelo contrário, a medida faz parte de uma política consolidada de saúde pública.
Quanto flúor existe na água?
O controle precisa ser preciso porque tanto concentrações insuficientes quanto excessivas apresentam consequências distintas.
O Ministério da Saúde registra 1,5 mg/L de fluoreto como Valor Máximo Permitido no padrão de potabilidade brasileiro, valor também adotado como referência pela Organização Mundial da Saúde. Esse limite está relacionado principalmente à prevenção da fluorose dentária associada à exposição excessiva. (Serviços e Informações do Brasil)
Para fins de prevenção da cárie, entretanto, as concentrações utilizadas são inferiores ao limite máximo. Documento técnico do Ministério da Saúde aponta que, considerando as condições brasileiras, especialistas trabalham com valores aproximadamente entre 0,6 e 0,9 mg de fluoreto por litro, dependendo das características locais. (Serviços e Informações do Brasil)
É justamente por existir uma janela de operação relativamente estreita que os profissionais responsáveis pelo tratamento precisam controlar cuidadosamente dosagem, vazão, concentração do produto e resultados laboratoriais.
A fluoretação não pode ser tratada como simples adição química sem controle.
O que a legislação brasileira determina?
A base legal da discussão está na Lei Federal nº 6.050, de 24 de maio de 1974.
A norma determina que projetos destinados à construção ou ampliação de sistemas públicos de abastecimento de água onde exista estação de tratamento incluam previsões relativas à fluoretação.
Entretanto, existe um detalhe especialmente relevante para a discussão atual: a própria lei determina que sua regulamentação considere, entre outros aspectos, o teor natural de flúor existente e a necessária viabilidade econômico-financeira da medida. (Planalto)
Posteriormente, o Decreto nº 76.872/1975 regulamentou a lei e estabeleceu que as condições de obrigatoriedade devem considerar também a viabilidade técnica e econômica da fluoretação, além do teor natural de fluoreto e da situação odontológica da população. (Planalto)
É justamente nessa combinação de dispositivos que se concentra parte da argumentação apresentada pelo setor.
Se não existe produto disponível comercialmente e os fornecedores interrompem as entregas, surge uma questão jurídica importante: até que ponto uma companhia pode ser penalizada por descumprir temporariamente uma obrigação cuja execução material se tornou impossível?
Por que a Abcon foi à Justiça?
O pedido judicial procura criar uma espécie de proteção regulatória temporária.
Segundo a CNN, a Abcon pediu três pontos centrais:
1. Suspensão temporária da obrigatoriedade de fluoretação por 90 dias.
2. Possibilidade de prorrogação somente se a escassez continuar e for comprovada.
3. Proteção contra multas e autuações às empresas que precisarem interromper a fluoretação exclusivamente devido à indisponibilidade do insumo. (CNN Brasil)
O prazo de 90 dias não foi escolhido aleatoriamente.
Ele está diretamente relacionado ao tempo estimado para estruturar uma alternativa de importação.
Até a atualização da reportagem consultada em 19 de agosto de 2026, o que havia sido informado era o protocolo do pedido judicial; não havia sido divulgada na fonte pesquisada uma decisão definitiva autorizando a suspensão. (CNN Brasil)
Portanto, tecnicamente, é importante diferenciar pedido judicial de autorização judicial.
Importar ácido não resolve o problema imediatamente
Diante da escassez de ácido fluossilícico, empresas começaram a buscar fornecedores internacionais.
Uma das alternativas avaliadas envolve produto originário do Marrocos. Entretanto, importar uma carga química utilizada diretamente na produção de água para consumo humano exige muito mais do que contratar um navio.
Segundo as informações apresentadas pelo setor, o transporte internacional pode consumir de 45 a 60 dias. Antes de ser utilizado, o produto ainda precisa cumprir análises de segurança e procedimentos de homologação. Posteriormente, podem ser necessárias etapas adicionais de diluição, certificação e distribuição até as estações de tratamento. (CNN Brasil)
No melhor cenário apresentado pelas associações, todo o ciclo pode chegar a aproximadamente 90 dias.
Isso mostra por que estoque de segurança é tão estratégico quanto preço em contratos de produtos químicos.
Um produto pode representar parcela pequena do custo total de uma operação e, mesmo assim, tornar-se crítico caso sua indisponibilidade interrompa o cumprimento de uma obrigação regulatória.
É possível substituir o ácido fluossilícico?
Tecnicamente, existem outros compostos capazes de fornecer fluoreto.
O Ministério da Saúde menciona, entre os produtos tradicionalmente empregados no país, o fluossilicato de sódio além do ácido fluossilícico. (Serviços e Informações do Brasil)
Entretanto, a substituição exige engenharia.
O ácido fluossilícico normalmente chega como solução líquida e pode ser dosado por sistemas específicos de bombeamento. Já compostos sólidos podem exigir preparação de solução, saturadores, misturadores, alimentadores, balanças, modificações em tubulações, novos procedimentos operacionais e controles adicionais.
Recomendações técnicas do CDC para sistemas utilizando produtos sólidos incluem tanques apropriados de solução, sistemas de alimentação, mistura mecânica em determinadas aplicações e controle da quantidade efetivamente adicionada. (CDC)
Consequentemente, a troca não deve ser feita simplesmente porque outro produto contém flúor.
Antes da mudança, precisam ser avaliados:
- compatibilidade de materiais;
- capacidade de armazenamento;
- sistemas de dosagem;
- concentração comercial;
- segurança ocupacional;
- disponibilidade do produto;
- procedimentos laboratoriais;
- estabilidade operacional;
- certificações;
- custos de adaptação;
- treinamento das equipes.
É exatamente nesse ponto que a atuação dos profissionais de saneamento ganha ainda mais importância.
São operadores, laboratoristas, engenheiros, químicos, técnicos de segurança, compradores, gestores de contratos e especialistas em qualidade que transformam uma decisão administrativa em um processo seguro dentro da ETA.
Impactos financeiros podem ir além dos 300%
A alta superior a 300% mencionada pelo setor representa apenas o efeito mais visível da escassez de ácido fluossilícico. (CNN Brasil)
O custo real da crise pode envolver muito mais.
Uma companhia pode enfrentar necessidade de contratação emergencial, frete internacional, armazenamento especial, adaptação de instalações, novos sistemas de dosagem, ensaios laboratoriais, contratação de fornecedores alternativos e aumento de estoques de segurança.
Também podem surgir discussões sobre recomposição contratual quando fornecedores alegarem acontecimentos extraordinários que inviabilizem preços ou prazos anteriormente pactuados.
Além disso, processos de contratação baseados exclusivamente no menor preço mostram sua fragilidade quando existe concentração produtiva.
Em insumos críticos, segurança de abastecimento também possui valor econômico.
O que as companhias deveriam monitorar durante a crise?
A escassez de ácido fluossilícico oferece uma oportunidade para aperfeiçoar a gestão de produtos químicos no saneamento.
Uma estrutura preventiva deveria acompanhar pelo menos:
Estoque em dias: quantidade disponível dividida pelo consumo médio diário.
Cobertura contratual: volume efetivamente garantido por fornecedor, e não apenas previsto em contrato.
Lead time: número de dias entre o pedido e a chegada do produto.
Concentração de fornecedores: dependência de uma única indústria, região ou rota logística.
Consumo específico: quantidade de produto utilizada por volume de água produzida.
Preço por massa de fluoreto efetivamente disponível: comparação mais técnica entre diferentes produtos e concentrações.
Capacidade de armazenamento: autonomia máxima fisicamente possível em cada ETA.
Produto alternativo homologado: existência de solução técnica previamente estudada para contingências.
Plano de comunicação: procedimento para informar autoridades sanitárias, reguladores e população caso ocorram alterações temporárias no processo.
Quanto antes esses indicadores forem integrados à gestão operacional, menor será a probabilidade de uma crise industrial externa se transformar em crise de abastecimento.
Profissionais de saneamento estão no centro da resposta
Situações como essa ajudam a mostrar uma dimensão pouco percebida do saneamento.
Produzir água potável não significa apenas construir ETAs e instalar equipamentos. Todos os dias existem profissionais avaliando vazões, ajustando dosagens, realizando análises, inspecionando equipamentos, controlando estoques, planejando contratos e reagindo a mudanças na qualidade do manancial e no mercado de insumos.
Quando a escassez de ácido fluossilícico ameaça uma operação nacional, são essas equipes que precisam transformar incerteza em decisão técnica.
A continuidade do tratamento depende de profissionais capazes de equilibrar simultaneamente segurança sanitária, legislação, engenharia, disponibilidade química, custo e comunicação com a sociedade.
Por isso, o episódio também valoriza uma competência que tende a ganhar importância no saneamento moderno: gestão de riscos da cadeia de suprimentos.
A principal lição para o saneamento
A crise do flúor provavelmente será lembrada menos pela química e mais pelo alerta estratégico que deixa.
Companhias de saneamento administram infraestruturas críticas. Por isso, não podem analisar produtos químicos apenas pelo custo de aquisição. É necessário avaliar dependência industrial, concentração de fornecedores, origem das matérias-primas, rotas logísticas, capacidade de estoque e possibilidade de substituição.
A escassez de ácido fluossilícico mostra que acontecimentos ocorridos a milhares de quilômetros de uma ETA podem chegar rapidamente à operação.
Uma guerra afeta matérias-primas. A matéria-prima afeta a indústria de fertilizantes. A indústria reduz a produção. O subproduto desaparece. O fornecedor deixa de entregar. O estoque da companhia cai. Por fim, uma obrigação de saúde pública executada dentro de uma estação brasileira passa a depender de uma decisão judicial.
Essa sequência é uma demonstração prática de risco sistêmico.
Perguntas rápidas sobre a escassez de ácido fluossilícico
A água ficará sem tratamento se faltar ácido fluossilícico?
Não. A fluoretação é apenas uma etapa específica. As demais operações necessárias à produção e ao controle da qualidade da água continuam sendo executadas. A eventual ausência temporária da fluoretação, isoladamente, não significa que a água deixou de ser potável. (AESBE)
O flúor serve para desinfetar a água?
Não. A principal finalidade da fluoretação é contribuir para a prevenção da cárie dentária. A desinfecção microbiológica é outra etapa do tratamento.
A fluoretação é obrigatória no Brasil?
Existe obrigação legal prevista na Lei nº 6.050/1974 e regulamentação específica. A legislação também considera aspectos relacionados à viabilidade técnica e econômica da medida. (Planalto)
A suspensão por 90 dias já foi autorizada?
Até a atualização da reportagem da CNN em 19 de agosto, havia um pedido protocolado pela Abcon na Justiça Federal. A fonte consultada não informava decisão definitiva concedendo a suspensão. (CNN Brasil)
Por que são necessários 90 dias?
O prazo considera homologação e certificação do produto, transporte internacional estimado em 45 a 60 dias, além de preparação, análises e distribuição até as ETAs brasileiras. (CNN Brasil)
O que pode acontecer agora?
Existem três frentes principais a serem acompanhadas.
A primeira é jurídica: será necessário observar a resposta da Justiça ao pedido de suspensão temporária e de proteção contra penalidades.
A segunda é institucional: eventual manifestação do Ministério da Saúde pode estabelecer orientações nacionais para empresas, vigilâncias sanitárias e órgãos reguladores.
A terceira é operacional: a chegada de novos fornecedores ou a retomada da produção poderá determinar quanto tempo a escassez de ácido fluossilícico realmente permanecerá.
Até que a cadeia seja normalizada, empresas públicas e privadas precisarão manter diálogo permanente entre áreas de tratamento, suprimentos, jurídica, regulação, saúde pública e comunicação.
O episódio reforça que o saneamento é um serviço essencial sustentado diariamente por decisões técnicas que raramente aparecem para a população. Quando uma cadeia internacional de produtos químicos entra em crise, são os profissionais das companhias que mantêm as estações operando, a qualidade sendo monitorada e milhões de pessoas recebendo água segura em suas casas.
Fontes
CNN Brasil — Escassez de flúor leva setor de saneamento à Justiça
Consultar reportagem
CNN Brasil — Saneamento cobra suspensão temporária do uso de flúor
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Planalto — Lei Federal nº 6.050/1974
Consultar legislação
Planalto — Decreto nº 76.872/1975
Consultar legislação
Aesbe — Estratégias diante da escassez de insumos químicos
Consultar publicação
Aesbe — Risco de desabastecimento do produto utilizado na fluoretação
Consultar publicação
Ministério da Saúde — Guia de Recomendações para Uso de Fluoretos no Brasil
Consultar documento
Ministério da Saúde — Norma de qualidade da água para consumo humano
Consultar documento
CDC — Fluoretos utilizados na fluoretação da água
Consultar referência técnica
Organização Mundial da Saúde — Fluoreto e saúde pública
Consultar referência técnica
Agência iNFRA — Escassez de ácido fluossilícico no saneamento
Consultar reportagem



