Falta de água por falta de energia: de quem é a culpa?

Quando uma cidade fica sem água após uma interrupção elétrica, a explicação parece simples: as bombas pararam porque faltou energia. Entretanto, por trás dessa ocorrência existe uma cadeia complexa de responsabilidades, riscos operacionais, limitações técnicas e decisões de investimento.

A falta de água por falta de energia não deve ser tratada apenas como um problema da distribuidora elétrica. Da mesma forma, não se pode responsabilizar automaticamente a companhia de saneamento por uma falha ocorrida fora de suas instalações. Cada situação exige a análise da origem da interrupção, da duração do apagão, da criticidade das unidades paralisadas, das medidas de contingência disponíveis e da forma como o sistema foi recuperado.

Além disso, a interrupção elétrica não afeta somente o bombeamento. Uma queda abrupta pode provocar danos em motores, inversores de frequência, painéis, equipamentos de automação, bombas, válvulas e adutoras. Também pode causar transientes hidráulicos, entrada de ar nas tubulações, perda de pressão, risco de contaminação e demora significativa na normalização do abastecimento.

Por essa razão, a discussão não deve se limitar à pergunta “de quem é a culpa?”. A questão mais importante é identificar quem poderia ter evitado, reduzido ou administrado melhor os impactos sobre a população.

Por que o abastecimento de água depende tanto de energia?

Embora parte dos sistemas consiga transportar água por gravidade, a maior parte da infraestrutura moderna de abastecimento depende intensamente de eletricidade.

A energia é necessária desde a captação da água bruta até a entrega nos pontos mais altos das cidades. Ela alimenta bombas, motores, equipamentos de tratamento, sistemas de dosagem de produtos químicos, válvulas automatizadas, compressores, laboratórios, sensores, equipamentos de telecomunicação e centros de controle operacional.

Em um sistema convencional, a eletricidade pode ser necessária nas seguintes etapas:

  • captação da água em rios, barragens, canais ou poços;
  • bombeamento da água bruta até a estação de tratamento;
  • mistura rápida e dosagem de produtos químicos;
  • movimentação de equipamentos de floculação;
  • lavagem de filtros;
  • bombeamento da água tratada;
  • transferência entre reservatórios;
  • operação de estações elevatórias;
  • funcionamento de boosters para áreas elevadas;
  • controle de pressão;
  • monitoramento remoto e automação;
  • coleta e bombeamento de esgoto;
  • operação de estações de tratamento de esgoto.

Consequentemente, uma única falha elétrica pode afetar diferentes etapas ao mesmo tempo. Em sistemas pequenos, um apagão pode paralisar toda a produção de água. Em sistemas metropolitanos, a interrupção de uma grande elevatória pode reduzir a vazão de várias cidades ou impedir que determinados reservatórios sejam abastecidos.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos destaca que a perda de energia pode tornar bombas inoperantes, reduzir a pressão das redes, afetar hospitais e dificultar até o combate a incêndios. Além disso, a perda de pressão pode permitir a entrada de contaminantes pelas fissuras e conexões da rede. (EPA Nepis⁠)

O que acontece no instante em que a energia cai?

A paralisação de uma estação de bombeamento não é semelhante ao desligamento controlado de um equipamento doméstico. Em grandes sistemas, toneladas de água estão se movimentando dentro de tubulações extensas, muitas vezes com elevada velocidade e pressão.

Quando a energia desaparece subitamente, os motores deixam de fornecer força às bombas. Entretanto, a coluna de água continua em movimento por inércia. Dependendo da configuração do sistema, essa água pode perder velocidade rapidamente, inverter o sentido do fluxo ou criar ondas de pressão dentro da tubulação.

Esse fenômeno é chamado de transiente hidráulico. Em situações mais severas, ocorre o conhecido golpe de aríete.

Estudos técnicos mostram que o desligamento repentino de uma bomba pode produzir pressões negativas, cavitação transitória, reversão do escoamento e elevação posterior da pressão. Caso a tubulação ou os dispositivos de proteção não suportem essas variações, podem ocorrer rompimentos. (PubMed Central (PMC)⁠)

Portanto, a falta de água por falta de energia pode iniciar uma sequência de eventos:

  1. a alimentação elétrica é interrompida;
  2. bombas e equipamentos são desligados pelas proteções;
  3. a vazão cai rapidamente;
  4. válvulas de retenção começam a fechar;
  5. ondas de pressão percorrem adutoras e barriletes;
  6. reservatórios deixam de receber água;
  7. as redes continuam atendendo os consumidores enquanto possuem volume;
  8. a pressão começa a cair nas áreas mais elevadas;
  9. regiões distantes ou críticas ficam sem água;
  10. a normalização depende da recuperação elétrica e hidráulica.

Por isso, uma interrupção elétrica de poucos minutos pode gerar consequências operacionais que duram várias horas.

Uma adutora pode romper após o desligamento das bombas?

Sim. Entretanto, o rompimento não acontece em toda queda de energia. O risco depende do comprimento da adutora, da velocidade da água, da diferença de elevação, do material da tubulação, da resistência das conexões e da existência de dispositivos de proteção.

Quando uma bomba para abruptamente, uma onda de baixa pressão pode se formar logo após o equipamento. Em determinadas condições, a pressão interna pode cair abaixo da pressão atmosférica. Consequentemente, podem surgir bolsões de vapor ou separação da coluna de água.

Posteriormente, quando as colunas voltam a se encontrar, pode ocorrer uma elevação brusca da pressão. Esse impacto pode comprometer juntas, válvulas, conexões, suportes, ancoragens e trechos fragilizados da tubulação.

Além disso, a queda repentina de pressão pode favorecer:

  • entrada de ar por ventosas;
  • entrada de água do solo por fissuras;
  • colapso de tubulações menos resistentes;
  • cavitação em bombas e válvulas;
  • fechamento violento de válvulas de retenção;
  • vibrações excessivas;
  • deslocamento de peças;
  • fadiga acumulada em equipamentos.

Por isso, adutoras de recalque precisam ser analisadas por meio de estudos de transientes hidráulicos. Dependendo do resultado, podem ser instalados reservatórios hidropneumáticos, tanques de amortecimento, válvulas antecipadoras de onda, válvulas de alívio, chaminés de equilíbrio, volantes de inércia, ventosas adequadas ou sistemas de fechamento controlado.

A proteção deve considerar tanto a parada súbita quanto a retomada do bombeamento. Uma adutora pode suportar a queda inicial e, ainda assim, sofrer danos durante uma religação inadequada.

Equipamentos elétricos também podem queimar

A falta de energia nem sempre significa ausência total e instantânea de tensão. Antes ou depois da interrupção, podem ocorrer oscilações, afundamentos de tensão, sobretensões, perda de fase, desequilíbrio entre fases e sucessivas tentativas de religação.

Essas condições podem danificar equipamentos sensíveis e motores de grande porte.

Entre os componentes mais vulneráveis estão:

  • motores elétricos;
  • inversores de frequência;
  • soft starters;
  • controladores programáveis;
  • relés de proteção;
  • fontes de alimentação;
  • sistemas de automação;
  • instrumentos de medição;
  • equipamentos de telecomunicação;
  • contatores e disjuntores;
  • transformadores;
  • bancos de capacitores.

Em um motor trifásico, por exemplo, a falta de uma fase pode aumentar a corrente nas fases restantes e causar aquecimento. Além disso, uma tentativa repetida de partida pode elevar a temperatura dos enrolamentos e reduzir a vida útil do isolamento.

Já os inversores de frequência e sistemas de automação podem desligar por proteção ou apresentar falhas após uma sobretensão. Portanto, mesmo quando a rede elétrica retorna, a estação pode não voltar automaticamente.

Em muitos casos, torna-se necessária a presença de uma equipe para inspecionar painéis, reconhecer alarmes, verificar válvulas, confirmar níveis, testar bombas e reiniciar a unidade de maneira segura.

A energia voltou. Por que a água ainda não chegou?

Esse é um dos pontos mais difíceis de explicar à população. O retorno da energia não significa o retorno imediato da água.

Primeiramente, a equipe precisa confirmar se a alimentação elétrica está estável. Em seguida, precisam ser avaliados os equipamentos, os níveis dos reservatórios, o posicionamento das válvulas e as condições das bombas.

Depois disso, o bombeamento deve ser retomado gradualmente. Em determinadas instalações, ligar todos os conjuntos ao mesmo tempo pode causar elevado pico de corrente, nova atuação das proteções ou fortes oscilações hidráulicas.

Além disso, os reservatórios esvaziados precisam ser recuperados. Enquanto um reservatório está enchendo, a água continua sendo consumida pela população. Portanto, pode existir uma disputa entre a vazão que entra no sistema e a vazão que sai.

A normalização ainda pode exigir:

  • enchimento de adutoras;
  • expulsão do ar acumulado;
  • estabilização da pressão;
  • recuperação dos níveis dos reservatórios;
  • recomposição das zonas de abastecimento;
  • manobras de válvulas;
  • descargas para retirada de ar ou alteração de qualidade;
  • verificação do residual de desinfetante;
  • atendimento prioritário de hospitais e serviços essenciais.

As regiões mais baixas geralmente recebem água primeiro. Já as áreas elevadas, distantes ou localizadas no final das redes podem demorar mais.

Esse comportamento foi observado em julho de 2026, quando a falta de energia atingiu a ETA Iguaçu, uma das principais unidades da Sanepar. Mesmo após a atuação das equipes, a companhia informou que o sistema precisaria passar por reequilíbrio e pressurização gradual, com previsão de regularização completa apenas no período seguinte. (Sanepar⁠)

Assim, uma interrupção elétrica de uma hora pode provocar quatro, oito, doze ou mais horas de instabilidade no abastecimento, dependendo da autonomia dos reservatórios e das características hidráulicas da rede.

Grandes casos de falta de água por falta de energia

Grande São Paulo: elevatórias e boosters paralisados

Em outubro de 2024, um forte temporal provocou interrupções prolongadas no fornecimento de eletricidade na Grande São Paulo. A falta de energia afetou estações elevatórias e boosters responsáveis por transportar água para áreas mais altas.

Regiões da capital paulista e dos municípios de Cotia, Cajamar e Mauá tiveram o abastecimento afetado. A Sabesp orientou a população a utilizar de maneira econômica a água armazenada, principalmente porque o sistema metropolitano é integrado. (Sabesp⁠)

O caso mostrou que a existência de água nos grandes sistemas produtores não garante que ela consiga chegar a todos os bairros. Sem energia nos pontos intermediários, reservatórios e zonas elevadas deixam de receber vazão.

Em dezembro de 2025, uma nova ocorrência de grande porte voltou a afetar o bombeamento na Região Metropolitana de São Paulo. Na ocasião, cidades como Itapecerica da Serra, Guarulhos, Cajamar, Mauá e Santa Isabel foram citadas entre as áreas atingidas, além de regiões da capital e de outros municípios. (Band⁠)

Sistema Guandu: queda de energia reduziu a produção

Em fevereiro de 2026, uma interrupção no fornecimento de energia pela Light retirou temporariamente de operação a Elevatória do Lameirão, ligada ao Sistema Guandu.

De acordo com a Cedae, a produção foi reduzida e o sistema operou temporariamente com 75% da capacidade. Posteriormente, a produção foi retomada de maneira gradual até alcançar novamente a capacidade máxima. (CEDAE⁠)

O caso demonstra a dimensão que uma única elevatória pode ter em um sistema metropolitano. Mesmo quando a redução dura poucos minutos, concessionárias responsáveis pela distribuição precisam ajustar reservatórios, pressões e manobras para evitar impactos mais amplos.

Além disso, a retomada da produção não significa normalização imediata nas redes das empresas distribuidoras. O volume precisa percorrer adutoras, reservatórios e diferentes zonas de pressão.

Curitiba e Região Metropolitana: ETA afetada por apagões

Em julho de 2026, interrupções de energia atingiram a captação da ETA Iguaçu e outras instalações da Sanepar. A situação afetou Curitiba, São José dos Pinhais e Araucária.

A companhia informou que as equipes atuavam no reequilíbrio e na pressurização do sistema. Também destacou a importância da reservação domiciliar para reduzir os efeitos das interrupções temporárias. (Sanepar⁠)

Esse exemplo mostra que a falta de água por falta de energia não se limita a pequenas cidades. Grandes estações metropolitanas também estão expostas, sobretudo quando a interrupção atinge captações ou unidades responsáveis por elevada parcela da produção.

Salvador: falta de energia no reservatório do Cabula

Em janeiro de 2024, uma ocorrência na rede elétrica afetou o reservatório da Embasa localizado no Cabula, em Salvador. Segundo as informações divulgadas, a energia foi restabelecida após aproximadamente três horas.

Entretanto, durante a ocorrência, o abastecimento foi comprometido em bairros atendidos pela instalação. A Embasa informou a disponibilidade de abastecimento alternativo por carro-pipa, com prioridade para unidades de saúde. (Correio 24 Horas⁠)

Mesmo uma interrupção relativamente curta pode provocar efeitos relevantes quando atinge um reservatório estratégico. Isso ocorre porque a saída de água continua enquanto a entrada permanece interrompida.

Afinal, de quem é a culpa?

A resposta depende do caso concreto. Entretanto, a responsabilidade pode ser dividida em três níveis: causa elétrica, gestão operacional e fiscalização regulatória.

Quando a responsabilidade tende a ser da distribuidora de energia

A responsabilidade inicial tende a recair sobre a distribuidora quando a interrupção decorre de falhas em sua rede, demora injustificada no atendimento, manutenção inadequada, interrupções repetitivas, tensão fora dos padrões ou problemas na comunicação de desligamentos programados.

A continuidade do fornecimento elétrico é acompanhada pela ANEEL por indicadores como DEC e FEC, que medem a duração e a frequência das interrupções. Também existem indicadores individuais aplicáveis às unidades consumidoras. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Além disso, a Resolução Normativa nº 1.000 da ANEEL reúne direitos, deveres e procedimentos aplicáveis às distribuidoras e aos consumidores de energia. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Caso uma falha elétrica danifique motores, painéis ou outros equipamentos da companhia de saneamento, devem ser reunidos registros técnicos, históricos de tensão, alarmes, laudos, fotografias, ordens de serviço e informações sobre a ocorrência.

Esses documentos podem fundamentar pedidos administrativos, contratuais ou judiciais de ressarcimento. Entretanto, a responsabilidade precisa ser demonstrada tecnicamente, especialmente quando existem dúvidas sobre a origem do dano.

Quando a companhia de saneamento também pode responder

A companhia de saneamento não fica automaticamente isenta porque a energia veio de outra empresa.

A Lei nº 8.987 estabelece que o serviço adequado deve atender a condições de regularidade, continuidade, eficiência, segurança e atualidade. (Planalto⁠)

Da mesma forma, o Código de Defesa do Consumidor determina que órgãos públicos, empresas públicas, concessionárias e permissionárias devem fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e, quando essenciais, contínuos. Também prevê a reparação dos danos decorrentes do descumprimento dessas obrigações. (Consumidor⁠)

Por outro lado, isso não significa que toda interrupção gere automaticamente indenização ou penalidade. Eventos emergenciais e situações inevitáveis precisam ser analisados conforme suas circunstâncias.

A companhia de saneamento pode ter sua responsabilidade ampliada quando:

  • a falta de energia é recorrente e nenhuma medida é adotada;
  • uma unidade crítica opera sem redundância justificável;
  • geradores existem, mas estão sem manutenção ou combustível;
  • o plano de contingência não funciona;
  • as equipes demoram a ser acionadas;
  • não existe comunicação com a distribuidora elétrica;
  • a população não recebe informações claras;
  • hospitais não são priorizados;
  • o retorno do sistema é mal conduzido;
  • falhas conhecidas permanecem sem correção.

Portanto, a causa elétrica pode ser externa, mas a dimensão do desabastecimento depende da capacidade de resposta da empresa de saneamento.

Qual é o papel da agência reguladora e do titular?

O município, o estado ou a estrutura regional responsável pela titularidade dos serviços também possui deveres de planejamento e acompanhamento.

Já a agência reguladora deve estabelecer padrões de continuidade, comunicação, contingência, atendimento e recuperação.

A Norma de Referência ANA nº 11/2024 determina que as entidades reguladoras estabeleçam regras sobre interrupções, restabelecimento, responsabilidades, requisitos operacionais e medidas de segurança, contingência e emergência.

Além disso, a norma prevê que os prestadores apresentem procedimentos de gestão de riscos. Também determina o monitoramento de paralisações programadas ou não, com o objetivo de minimizar danos às pessoas, aos equipamentos e ao meio ambiente, além de favorecer o pronto restabelecimento dos serviços. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Portanto, a avaliação da responsabilidade não deve observar somente a atuação das duas concessionárias. Também precisa verificar se existiam regras claras, fiscalização efetiva e investimentos previstos nos planos e contratos.

Uma tempestade elimina toda responsabilidade?

Não necessariamente.

Chuvas intensas, vendavais, descargas atmosféricas, enchentes e quedas de árvores podem caracterizar situações extraordinárias. Entretanto, a ocorrência de um evento natural não afasta automaticamente a responsabilidade das empresas.

A análise precisa verificar:

  • se o evento era realmente imprevisível;
  • se a intensidade superou os parâmetros de projeto;
  • se a infraestrutura estava devidamente mantida;
  • se as interrupções já eram recorrentes;
  • se existia plano de contingência;
  • se os recursos disponíveis foram acionados;
  • se a comunicação foi adequada;
  • se o prazo de recuperação foi razoável.

Em outras palavras, força maior não deve ser confundida com falta de planejamento.

Quando uma região sofre tempestades todos os anos, torna-se necessário incorporar esse risco ao planejamento. Da mesma forma, quando uma elevatória apresenta histórico de quedas de energia, a ausência permanente de solução pode caracterizar vulnerabilidade conhecida.

A jurisprudência reconhece que a responsabilidade objetiva não elimina a análise de caso fortuito, força maior, culpa exclusiva de terceiros ou inexistência de defeito no serviço. Entretanto, uma demora excessiva e injustificada no restabelecimento pode manter o dever de reparação, mesmo quando o evento inicial decorre de fenômeno natural. (Supremo Tribunal de Justiça⁠)

Toda estação precisa ter um gerador?

Não. A instalação de geradores em todas as unidades pode ser tecnicamente desnecessária, ambientalmente inadequada ou economicamente inviável.

A decisão deve ser baseada em risco e criticidade.

Uma pequena estação que abastece um reservatório com grande autonomia não apresenta a mesma criticidade de uma captação que fornece toda a água de uma cidade. Da mesma forma, um booster que atende poucas ruas não pode ser avaliado da mesma maneira que uma elevatória metropolitana.

A análise precisa considerar:

  • população atendida;
  • vazão da unidade;
  • existência de reservação;
  • tempo de autonomia;
  • frequência das quedas;
  • duração histórica das interrupções;
  • hospitais e serviços essenciais atendidos;
  • possibilidade de alimentação elétrica alternativa;
  • disponibilidade de geradores móveis;
  • riscos hidráulicos da parada;
  • riscos ambientais;
  • custos de instalação e manutenção;
  • logística de abastecimento de combustível.

Além disso, um gerador não resolve todos os problemas. É necessário garantir compatibilidade de potência, partida dos motores, qualidade da energia, ventilação, segurança, manutenção e combustível.

Bombas de grande porte podem exigir geradores de elevada capacidade. Em alguns casos, a corrente de partida pode ser várias vezes superior à corrente nominal. Por isso, a seleção do equipamento deve considerar o método de partida, a sequência de acionamento e o comportamento do sistema.

O que as companhias estão fazendo para reduzir os riscos?

Instalação de geradores fixos e móveis

A utilização de geradores é uma das medidas mais conhecidas. Contudo, os equipamentos precisam ser instalados nos pontos realmente críticos.

Em 2025, a Sanepar anunciou a instalação de 31 geradores em captações, estações de tratamento, reservatórios e elevatórias estratégicas no litoral paranaense. O objetivo declarado foi reduzir interrupções causadas por quedas de energia durante o período de maior demanda. (Governo do Estado do Paraná⁠)

Em uma iniciativa anterior, a companhia havia informado a mobilização de 33 equipamentos para unidades de água e esgoto em Matinhos, Guaratuba e Pontal do Paraná. (Casa Civil⁠)

Esse modelo permite combinar equipamentos permanentes com geradores móveis, deslocados conforme o nível de criticidade.

Dupla alimentação elétrica

Outra alternativa é conectar instalações estratégicas a dois alimentadores ou subestações diferentes.

Quando uma fonte falha, a unidade pode ser transferida para a segunda alimentação. Entretanto, a redundância somente é efetiva quando as duas fontes não dependem do mesmo circuito, transformador ou ponto vulnerável.

A solução costuma ser mais adequada para grandes estações, nas quais a instalação de geradores para toda a carga seria muito cara ou complexa.

Sistemas integrados e reservação

Sistemas integrados conseguem transferir água entre diferentes áreas de produção. Assim, quando uma unidade perde capacidade, outra pode fornecer parte da vazão.

Além disso, reservatórios funcionam como uma proteção operacional. Quanto maior a autonomia, mais tempo a rede consegue continuar abastecendo após a parada das bombas.

Entretanto, reservação não substitui a contingência. Em horários de alto consumo, o volume pode acabar rapidamente. Além disso, determinados bairros dependem de bombeamento direto e possuem pouca proteção por reservatórios.

Proteção contra transientes hidráulicos

A companhia precisa analisar o comportamento da adutora em caso de desligamento abrupto.

Com base nos estudos, podem ser instalados:

  • vasos hidropneumáticos;
  • tanques de amortecimento;
  • válvulas de alívio;
  • válvulas antecipadoras;
  • chaminés de equilíbrio;
  • ventosas dimensionadas corretamente;
  • válvulas de retenção com fechamento controlado;
  • sistemas de partida e parada gradual.

Esses dispositivos não evitam a falta de energia, mas reduzem a probabilidade de que o apagão provoque rompimentos e danos ainda maiores.

Automação, telemetria e centros de controle

Sensores e sistemas supervisórios permitem identificar rapidamente a parada de uma instalação. Alarmes podem informar falta de fase, baixa tensão, falha de bomba, redução de pressão ou queda do nível de reservatórios.

Com dados em tempo real, o centro de controle consegue priorizar equipes, alterar manobras e utilizar volumes disponíveis de forma estratégica.

Entretanto, a própria automação precisa de proteção. Nobreaks e sistemas de alimentação ininterrupta devem manter equipamentos de controle, comunicação e telemetria funcionando durante a falta de energia.

Geração renovável e armazenamento

Companhias de saneamento vêm ampliando o uso de energia solar, biogás, pequenas centrais hidrelétricas e contratos de autoprodução.

Essas medidas podem reduzir custos e emissões. Contudo, é necessário fazer uma distinção importante: uma usina solar conectada à rede não garante energia durante um apagão.

Por segurança, muitos sistemas fotovoltaicos desligam quando a rede externa falha. Para manter uma estação operando de forma isolada, são necessários equipamentos de controle, capacidade de ilhamento e, geralmente, armazenamento por baterias ou outra fonte firme.

Portanto, geração renovável e resiliência elétrica podem caminhar juntas, mas não são sinônimos.

Acordos de prioridade com distribuidoras

Instalações de água e esgoto devem ser reconhecidas como infraestruturas críticas.

A companhia de saneamento precisa manter canais diretos com a distribuidora elétrica, fornecer uma lista atualizada das unidades prioritárias e informar as consequências de uma paralisação.

A EPA recomenda que empresas de água entendam quem define a ordem de restabelecimento elétrico e apresentem claramente suas necessidades mínimas de potência, geradores disponíveis e consequências para a comunidade. (EPA Nepis⁠)

Como deve funcionar um plano de contingência?

Um plano eficaz não pode existir somente no papel. Ele precisa ser testado regularmente.

O documento deve indicar quais instalações são críticas, quanto tempo cada reservatório suporta, quais unidades possuem geradores, onde estão os equipamentos móveis, quem fornece combustível e quais equipes devem ser acionadas.

Também deve estabelecer:

  • níveis de alerta;
  • cadeia de comando;
  • contatos da distribuidora elétrica;
  • sequência de partida das unidades;
  • prioridades de abastecimento;
  • pontos para instalação de geradores;
  • rotas para carros-pipa;
  • hospitais e unidades essenciais;
  • critérios de comunicação;
  • procedimentos de qualidade da água;
  • protocolo de retorno;
  • registro dos tempos de resposta;
  • investigação posterior da ocorrência.

Além disso, devem ser realizados exercícios simulados. Um gerador que nunca é testado pode falhar justamente durante uma emergência.

Testes com carga, inspeção das baterias, verificação do combustível e simulações de transferência automática são fundamentais.

Os impactos financeiros podem ser elevados

A falta de água por falta de energia gera custos que ultrapassam o valor da eletricidade não consumida.

Entre os principais impactos estão:

  • horas extras de equipes;
  • deslocamento de técnicos;
  • locação e combustível de geradores;
  • utilização de carros-pipa;
  • reparo de motores e painéis;
  • substituição de bombas;
  • conserto de adutoras;
  • descargas e perdas de água;
  • redução do faturamento;
  • atendimento de reclamações;
  • processos judiciais;
  • penalidades regulatórias;
  • danos à imagem da companhia;
  • paralisação de atividades comerciais e industriais.

Também podem ocorrer impactos indiretos. A falta de água aumenta a demanda sobre os canais de atendimento, gera pressão política, mobiliza órgãos de defesa do consumidor e afeta a confiança da população.

Caso o apagão provoque transbordamento de estações elevatórias de esgoto, ainda podem existir custos ambientais, multas e ações emergenciais de limpeza.

Como identificar quem realmente falhou?

Uma investigação técnica precisa reconstruir toda a ocorrência.

Os principais dados são:

  1. horário exato da interrupção elétrica;
  2. causa informada pela distribuidora;
  3. tensão registrada antes e depois da falha;
  4. unidades de saneamento atingidas;
  5. tempo de autonomia dos reservatórios;
  6. equipamentos danificados;
  7. existência de geradores;
  8. tempo de mobilização das equipes;
  9. horário de retorno da energia;
  10. horário de retorno das bombas;
  11. tempo de recuperação dos reservatórios;
  12. áreas afetadas;
  13. reclamações recebidas;
  14. comunicação realizada;
  15. medidas emergenciais adotadas.

Com essas informações, torna-se possível separar quatro situações.

Na primeira, a distribuidora elétrica causa uma interrupção imprevisível, enquanto a companhia de saneamento executa corretamente seu plano. Nesse caso, a responsabilidade tende a se concentrar no setor elétrico.

Na segunda, a falta de energia é breve, mas a companhia não possui manutenção, redundância ou capacidade de resposta. Nesse cenário, a responsabilidade operacional do prestador de saneamento ganha maior peso.

Na terceira, existe uma tempestade excepcional que danifica diversas infraestruturas. Nesse caso, pode existir força maior, embora permaneçam os deveres de comunicação e mitigação.

Na quarta, as duas empresas apresentam falhas. A distribuidora demora para recompor a energia, enquanto a companhia de saneamento não possui contingência adequada. Nessa hipótese, a responsabilidade pode ser compartilhada.

Falta de energia não pode ser usada como explicação genérica

Informar apenas que “o abastecimento foi interrompido por falta de energia” é insuficiente.

Uma comunicação adequada precisa informar:

  • qual unidade foi afetada;
  • quando ocorreu a interrupção;
  • quais bairros ou cidades foram atingidos;
  • qual é a situação da distribuidora elétrica;
  • quais medidas de contingência estão em andamento;
  • quando o bombeamento foi retomado;
  • quanto tempo a recuperação hidráulica pode levar;
  • quais regiões receberão água por último;
  • como serão atendidas as unidades essenciais.

A transparência reduz a insegurança e permite que hospitais, escolas, empresas e moradores adotem medidas preventivas.

Além disso, a comunicação deve distinguir retorno da energia, retorno da produção e normalização do abastecimento. São etapas diferentes.

A culpa pode ser de uma empresa, de ambas ou do planejamento

A resposta final depende das evidências.

Quando a falha ocorre exclusivamente na rede elétrica, a distribuidora pode ser responsável pela causa inicial. Contudo, a companhia de saneamento continua responsável pela gestão do risco, pela comunicação e pelas medidas necessárias para reduzir os impactos.

Por outro lado, não é razoável exigir geradores em todas as instalações sem análise técnica e econômica. O que deve ser exigido é planejamento compatível com a criticidade.

Uma unidade que abastece centenas de milhares de pessoas precisa ter nível de proteção superior ao de uma instalação pequena. Da mesma forma, locais com interrupções frequentes exigem soluções diferentes de regiões com fornecimento elétrico estável.

Portanto, a falta de água por falta de energia precisa ser analisada como um risco integrado entre dois serviços essenciais.

A companhia de energia precisa garantir continuidade e qualidade elétrica. A companhia de saneamento precisa conhecer suas vulnerabilidades e implantar contingências proporcionais. O titular e a agência reguladora precisam fiscalizar, estabelecer padrões e garantir que os investimentos necessários estejam previstos.

A população não deve arcar silenciosamente com a falta de coordenação entre setores.

Em síntese, a causa inicial pode estar na energia, mas o tamanho da crise depende da resiliência do saneamento. Quanto mais preparado estiver o sistema, menor será a duração do desabastecimento, menor será o risco de danos e mais rápida será a recuperação.

Fontes consultadas