Uma cidade norte-americana com menos de 4 mil habitantes conseguiu reduzir um processo de faturamento que consumia até duas semanas para apenas um dia, diminuiu em cerca de 90% as ordens de serviço relacionadas aos medidores e passou a registrar anualmente aproximadamente 8,4 milhões de galões de água que anteriormente não chegavam ao faturamento.
Esse volume equivale a aproximadamente 31,8 milhões de litros, ou 31,8 mil m³ por ano.
Entretanto, o ponto mais interessante do caso de Rocky Ford, no Colorado, não está apenas na medição inteligente de água. Está na maneira escolhida para contratá-la.
Em vez de realizar um grande investimento inicial para comprar hidrômetros, infraestrutura de comunicação, softwares e serviços, o município adotou o chamado Metering as a Service — MaaS, ou “medição como serviço”.
Segundo a Metron, empresa responsável pela solução, equipamentos, conectividade, plataforma digital, instalação e suporte passaram a fazer parte de um serviço recorrente, reduzindo a necessidade de um grande desembolso inicial para implantação de todo o sistema.
Essa mudança levanta uma questão especialmente relevante para companhias brasileiras:
a transformação digital da micromedição precisa obrigatoriamente começar por grandes investimentos em equipamentos ou poderia ser contratada cada vez mais como um serviço de desempenho contínuo?
A resposta exige mais cuidado do que parece.
Rocky Ford enfrentava um problema comercial e operacional
Rocky Ford possuía aproximadamente 1.680 hidrômetros ativos. O Censo dos Estados Unidos registrou 3.876 habitantes no município em 2020, confirmando a dimensão reduzida da utility quando comparada às grandes companhias brasileiras.
Segundo o estudo de caso divulgado pela Metron em setembro de 2026, a equipe de obras públicas conseguia realizar aproximadamente 800 leituras mensais por sistema drive-by em um universo próximo de 1.700 medidores.
Cerca de 600 leituras ainda exigiam verificações adicionais.
O processamento do ciclo de faturamento consumia entre uma semana e meia e duas semanas.
Portanto, o problema não era simplesmente “ter hidrômetros antigos”.
Existia uma cadeia de ineficiências envolvendo leitura, releitura, deslocamento de equipes, tratamento de exceções, geração das contas, atendimento aos clientes e identificação de consumos anormais.
Com o novo sistema, os dados passaram a ser transmitidos automaticamente por conexão celular e disponibilizados na plataforma WaterScope.
Depois de aproximadamente dois anos, a Metron afirma que o município reduziu o processamento do faturamento para um dia e diminuiu em cerca de 90% as ordens de serviço relacionadas aos medidores.
Há, contudo, uma ressalva jornalística importante.
Os indicadores de redução das ordens de serviço e de recuperação dos 8,4 milhões de galões são apresentados no estudo de caso produzido pelo próprio fornecedor da tecnologia.
Não foi localizada, nas fontes públicas consultadas, auditoria independente que valide integralmente esses resultados.
Por outro lado, a prefeitura de Rocky Ford confirma oficialmente a utilização dos novos medidores Metron e orienta os consumidores a cadastrá-los na plataforma WaterScope, o que comprova a efetiva implantação da solução.
MaaS não é uma nova tecnologia de hidrômetro
É importante separar dois conceitos.
A medição inteligente de água é a tecnologia.
O Metering as a Service é o modelo utilizado para disponibilizar, operar e manter essa tecnologia.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a EPA, define a infraestrutura avançada de medição, conhecida como AMI — Advanced Metering Infrastructure — como um conjunto de equipamentos e sistemas capazes de coletar, comunicar e analisar informações de consumo com frequência muito superior à leitura convencional.
Entre as principais aplicações estão:
- faturamento mais preciso;
- identificação de vazamentos;
- redução de deslocamentos;
- acompanhamento de consumo;
- gestão da demanda;
- melhoria da administração dos recursos hídricos.
Na leitura tradicional, um profissional precisa chegar fisicamente ao medidor.
No AMR, Automatic Meter Reading, um veículo ou dispositivo passa próximo ao imóvel e coleta o registro remotamente.
Já no AMI existe comunicação permanente ou periódica entre os dispositivos e os sistemas da companhia, reduzindo ou eliminando a necessidade de um leiturista passar mensalmente diante de cada imóvel.
O MaaS acrescenta outra camada.
Em vez de a utility montar separadamente toda essa infraestrutura, um fornecedor passa a entregar parte significativa do ciclo de vida da solução como serviço.
No modelo descrito pela Metron, estão reunidos hidrômetros inteligentes, comunicação celular, software, instalação, suporte e coleta dos dados mediante pagamento periódico.
Isso transforma uma discussão tradicionalmente conduzida pelas áreas de engenharia e suprimentos em um assunto que envolve simultaneamente operação, comercial, tecnologia, regulação, contabilidade, jurídico e finanças.
Os 8,4 milhões de galões escondem a principal lição
Talvez o número mais chamativo do caso seja o registro anualizado de 8,4 milhões de galões adicionais.
Mas é justamente nesse número que existe uma distinção essencial para profissionais de perdas.
A Metron informa que o volume passou a ser faturado principalmente pela captura de vazões baixas que não estavam sendo registradas anteriormente.
Portanto, não existe evidência de que Rocky Ford tenha fisicamente economizado 8,4 milhões de galões de água.
São coisas diferentes.
Quando um hidrômetro registra menos água do que realmente atravessa o equipamento, existe uma forma de perda comercial.
A água foi produzida, distribuída e consumida, mas uma parte não entrou corretamente na medição e, consequentemente, no faturamento.
A Norma de Referência ANA nº 15/2025 faz precisamente essa separação ao tratar das perdas reais e aparentes.
Entre as perdas aparentes podem existir problemas como submedição dos hidrômetros, falhas cadastrais, erros de leitura e usos não autorizados.
Portanto, o ganho de Rocky Ford relatado pelo fornecedor é especialmente interessante para gestão comercial e redução de perdas aparentes.
Essa diferença é estratégica.
Um projeto de medição inteligente de água pode encontrar consumos antes não registrados, detectar vazamentos internos, sinalizar fraudes, melhorar o faturamento e reduzir reclamações.
Porém, ele não substitui ações de redução de vazamentos nas redes, controle de pressão, setorização, pesquisa acústica, gerenciamento de ativos ou velocidade de reparo.
O que realmente muda no modelo Metering as a Service
A oportunidade pouco percebida está na transferência de parte do problema tecnológico.
No modelo convencional, uma companhia compra milhares ou milhões de medidores.
Depois precisa gerenciar:
- instalação;
- infraestrutura de comunicação;
- baterias;
- sistemas;
- integração;
- armazenamento de dados;
- manutenção;
- atualizações tecnológicas;
- substituições futuras;
- telecomunicações.
No MaaS, vários desses componentes podem ser agrupados dentro de um único contrato de longa duração.
Isso pode reduzir a necessidade de desembolso inicial.
Mas “sem investimento inicial” não significa “sem custo” e tampouco significa automaticamente “mais barato”.
O custo é distribuído ao longo do contrato.
Consequentemente, a análise correta não deve comparar apenas o preço unitário de um hidrômetro com a mensalidade do serviço.
Deve comparar o custo total do ciclo de vida.
No caso público de Rocky Ford, não foram divulgados valores suficientes sobre mensalidade, prazo contratual e custo total para permitir uma comparação independente do retorno financeiro do MaaS com a aquisição convencional.
Essa ausência é relevante.
O município já possuía compromissos financeiros associados ao sistema de água.
As demonstrações financeiras auditadas de 2024 mostram saldo principal de aproximadamente US$ 2,135 milhões referente a um título de receita emitido para melhorias no sistema de água, com vencimentos chegando até 2048.
Também existiam obrigações remanescentes relacionadas a um contrato anterior para medidas de conservação de água e energia.
Isso confirma a existência de endividamento relacionado à infraestrutura, embora não permita concluir isoladamente que essa dívida tenha sido a causa determinante da contratação do MaaS.
Medição inteligente de água ganha importância no Brasil
O contexto regulatório brasileiro torna o assunto especialmente atual.
A Norma de Referência ANA nº 15/2025 estabelece diretrizes para redução progressiva e controle das perdas de água e prevê que os planos dos prestadores considerem diagnóstico, perdas reais e aparentes, evolução da micromedição e macromedição, cronogramas físico-financeiros e justificativas técnico-econômicas.
A norma também reconhece o papel de tecnologias como medição inteligente, telemetria, sensores de pressão e vazão, sistemas de informação geográfica e outras ferramentas voltadas ao gerenciamento das perdas.
Além disso, admite diferentes mecanismos de financiamento e soluções associadas a desempenho e eficiência.
Isso não significa que a ANA tenha criado ou aprovado especificamente o modelo MaaS.
Significa que existe um ambiente regulatório cada vez mais orientado para desempenho, mensuração e eficiência — terreno no qual soluções desse tipo podem encontrar espaço.
Além disso, a Norma de Referência ANA nº 9/2024 incluiu indicadores relacionados às perdas e à micromedição entre aqueles utilizados na avaliação da prestação dos serviços.
Consequentemente, saber quanto efetivamente entra na rede e quanto chega ao cliente deixa de ser apenas uma preocupação operacional.
Torna-se componente cada vez mais importante da governança regulatória da companhia.
Sabesp mostra a dimensão que a medição inteligente pode alcançar
O benchmarking brasileiro mais evidente atualmente está em São Paulo.
A Sabesp iniciou um programa para substituir cerca de 4,4 milhões de medidores por equipamentos inteligentes em São Paulo e São José dos Campos.
O investimento anunciado é da ordem de R$ 3,8 bilhões, com utilização de conectividade NB-IoT em parceria com a Vivo.
O projeto permitirá aos clientes acompanhar o consumo com maior frequência e possibilitará identificação mais rápida de anormalidades e vazamentos, além de reduzir a dependência da leitura presencial.
A comparação com Rocky Ford deve ser feita com cautela.
O projeto paulista é milhares de vezes maior e não foi divulgado como possuindo exatamente a mesma estrutura financeira do MaaS adotado pelo município norte-americano.
Entretanto, existe uma semelhança estratégica:
o mercado está deixando de tratar o hidrômetro apenas como um equipamento e passando a tratá-lo como parte de uma solução integrada de dados, conectividade e serviços.
Esse movimento provavelmente será tão importante quanto a evolução do próprio medidor.
Cagece mostra que nem sempre é necessário começar pela base inteira
Outra estratégia aparece no Ceará.
A Cagece utiliza telemedição para grandes consumidores, permitindo acompanhamento remoto do consumo e disponibilização de informações aos clientes por meio de seus sistemas digitais.
Esse modelo apresenta uma lição prática.
Uma companhia não precisa necessariamente iniciar a medição inteligente de água substituindo milhões de hidrômetros residenciais simultaneamente.
Pode começar onde existe maior retorno potencial:
- grandes consumidores;
- usuários com histórico de inconsistências;
- regiões de elevado consumo;
- clientes estratégicos;
- segmentos nos quais uma falha de medição representa grande perda financeira.
Esse tipo de priorização reduz o risco tecnológico e permite construir conhecimento antes da expansão.
Sanepar reforça uma verdade básica: metrologia continua fundamental
A digitalização não elimina a importância da precisão metrológica.
A Sanepar informou ter substituído cerca de 364 mil hidrômetros em 2025 e estabeleceu meta próxima de 380 mil substituições em 2026.
A estratégia está relacionada à renovação preventiva do parque e à manutenção da precisão das medições.
Essa experiência lembra um princípio frequentemente esquecido em projetos digitais:
um medidor conectado que mede incorretamente continua sendo um medidor incorreto.
No Brasil, hidrômetros utilizados para faturamento estão sujeitos ao controle metrológico do Inmetro.
A Portaria Inmetro nº 155/2022 consolidou os requisitos técnicos e metrológicos aplicáveis aos medidores de água.
Portanto, qualquer projeto nacional de MaaS precisaria incorporar desde a licitação não apenas conectividade e software, mas também conformidade metrológica, critérios para substituição, rastreabilidade e responsabilidades pelas verificações.
Anglian Water mostra o que acontece quando a escala chega
No Reino Unido, a Anglian Water oferece outro parâmetro de comparação.
Em julho de 2026, a companhia informou ter ultrapassado 1,5 milhão de medidores inteligentes instalados e conectados, permitindo que aproximadamente 70% dos clientes acompanhassem seus consumos.
Segundo a empresa, a utilização da tecnologia estava contribuindo para reduzir em mais de 18 milhões de litros por dia a quantidade de água necessária no sistema, principalmente por meio da identificação de vazamentos e mudanças de comportamento dos consumidores.
A experiência britânica demonstra que o ganho não surge apenas da leitura automática.
O valor aumenta quando a informação gera uma ação.
Detectar um vazamento e deixá-lo aberto durante três meses produz pouca vantagem.
Detectá-lo, informar rapidamente o consumidor, oferecer ferramentas para acompanhamento e estimular o reparo transforma dados em redução efetiva de demanda.
É justamente nesse ponto que muitas iniciativas de medição inteligente de água podem fracassar: instala-se tecnologia, mas não se redesenham os processos.
O hidrômetro inteligente cria uma nova operação comercial
Em uma companhia tradicional, o ciclo comercial gira ao redor de uma fotografia mensal do consumo.
Com AMI, passa a existir uma série temporal.
Essa mudança aparentemente simples transforma diversas atividades.
Uma conta de consumo elevado pode ser investigada antes mesmo de o cliente reclamar.
Um consumo contínuo durante a madrugada pode gerar alerta de possível vazamento.
Um imóvel teoricamente desocupado que registra consumo pode entrar em uma fila de investigação.
Mudanças bruscas de perfil podem alimentar modelos de detecção de fraude.
Falhas de comunicação podem gerar ordens de manutenção automaticamente.
O planejamento da troca de hidrômetros pode considerar desempenho real do equipamento em vez de depender apenas da idade.
Nesse cenário, o valor deixa de estar simplesmente no “dado de leitura” e passa para a inteligência produzida a partir desse dado.
Existe também um risco de sobrecarga de dados
Uma companhia que possua um milhão de clientes e passe de uma leitura mensal para registros frequentes aumenta radicalmente o volume de informação gerenciado.
Isso cria uma nova pergunta:
quem analisará todas essas informações?
A EPA destaca que os benefícios da AMI dependem também da capacidade de gestão, interpretação e utilização dos dados.
Portanto, não basta instalar medidores.
É necessário construir mecanismos de exceção.
A equipe não precisa olhar milhões de curvas individualmente.
Precisa receber poucas ocorrências prioritárias:
- vazamento provável;
- consumo contínuo;
- fraude potencial;
- falha de comunicação;
- medidor possivelmente subdimensionado;
- comportamento fora do padrão.
A inteligência está na priorização.
MaaS também cria riscos contratuais
A vantagem de contratar todo o ecossistema como serviço pode transformar-se em vulnerabilidade caso o contrato seja mal estruturado.
Dados armazenados em plataforma proprietária, protocolos fechados ou integrações dependentes exclusivamente do fornecedor podem tornar uma futura migração cara e complexa.
Por isso, empresas brasileiras que avaliem Metering as a Service deveriam tratar desde o início de pelo menos nove questões:
- Quem é proprietário dos dados de consumo e dos históricos?
- Como os dados serão exportados caso o contrato termine?
- Quais APIs e padrões de integração estarão disponíveis?
- Qual percentual mínimo de leituras deverá ser efetivamente recebido?
- Quem assume a substituição de dispositivos defeituosos e baterias?
- Quais serão os tempos máximos para restabelecimento da comunicação?
- Como serão tratadas falhas de cobertura celular?
- Quais responsabilidades existem em segurança cibernética e proteção de dados?
- Quanto custa todo o ciclo contratual comparado à compra convencional?
Esses pontos podem ser mais importantes do que alguns recursos tecnológicos apresentados durante uma demonstração comercial.
Dados de consumo também exigem governança
Quanto maior a granularidade, maior a responsabilidade.
O histórico de consumo associado a um cliente pode revelar padrões e hábitos.
No Brasil, informações vinculadas a uma pessoa identificada ou identificável entram no campo de proteção da Lei Geral de Proteção de Dados.
A experiência de Singapura oferece um exemplo interessante.
A PUB informa que seus medidores inteligentes registram dados de consumo e os transmitem de forma segura para a companhia, sem armazenar informações pessoais do cliente no próprio equipamento.
Para utilities brasileiras, privacidade e cibersegurança precisam nascer junto com o projeto, e não ser adicionadas depois.
A contabilidade regulatória torna a discussão ainda mais atual
Em 31 de agosto de 2026 entrou em vigor a Norma de Referência ANA nº 16/2026, que estabelece diretrizes nacionais para contabilidade regulatória e controle patrimonial dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário.
A norma busca aumentar a padronização e a confiabilidade das informações sobre custos, ativos e desempenho econômico-financeiro.
Esse movimento adiciona outra dimensão ao MaaS.
Não seria tecnicamente adequado presumir que todo contrato por assinatura será simplesmente tratado como despesa operacional ou que deixará automaticamente de possuir efeitos patrimoniais e tarifários.
A classificação dependerá da estrutura contratual, das responsabilidades sobre os ativos, dos riscos assumidos, das normas contábeis aplicáveis e da regulamentação adotada pela agência competente.
Por isso, medição inteligente de água como serviço não deveria ser uma decisão exclusiva da área de tecnologia ou comercial.
Regulação, contabilidade e jurídico precisam participar desde a modelagem.
O que gestores deveriam comparar antes da contratação
O melhor indicador não é o preço do hidrômetro.
Também não é apenas a redução do número de leituristas.
Uma avaliação robusta deveria comparar, em horizonte de vários anos, dois cenários completos.
No modelo de aquisição, entram:
- equipamento;
- instalação;
- infraestrutura de comunicação;
- manutenção;
- baterias;
- licenciamento de software;
- atualização tecnológica;
- telecomunicações;
- integração;
- armazenamento de dados;
- reposições.
No modelo de serviço, entram:
- mensalidades;
- reajustes;
- eventual taxa de instalação;
- limites de suporte;
- níveis de serviço;
- duração mínima;
- multas;
- preço de expansão;
- integração;
- custo de saída;
- dependência tecnológica.
Depois disso, devem ser estimados os benefícios.
Quanto custa hoje realizar leituras?
Quanto custa uma releitura?
Quantas ordens de serviço são geradas por mês?
Qual volume estimado deixa de ser medido por submedição?
Qual receita pode ser recuperada?
Quanto um vazamento identificado antecipadamente economiza?
Quantos atendimentos podem ser evitados?
Qual o impacto de faturar corretamente desde o primeiro ciclo?
Sem essa linha de base, qualquer promessa de economia se torna difícil de provar.
A maior oportunidade pode estar nas perdas aparentes
O Brasil continua enfrentando perdas elevadas na distribuição.
O estudo “Perdas de Água 2025”, do Instituto Trata Brasil, elaborado com dados de referência de 2023 do SINISA, apontou indicador nacional próximo de 40% para perdas na distribuição.
Entretanto, é necessário evitar um erro comum:
nem toda essa água corresponde simplesmente a tubulações vazando.
Existem perdas reais e perdas aparentes.
Nesse segundo grupo entram submedição, fraudes, erros cadastrais e problemas comerciais.
É justamente nessa fronteira entre operação e comercial que a medição inteligente de água pode gerar resultados particularmente interessantes.
A área comercial passa a participar diretamente da estratégia de eficiência hídrica.
Não apenas porque fatura.
Mas porque a qualidade cadastral, o dimensionamento do hidrômetro, a análise dos consumos, a identificação de anomalias e a gestão dos equipamentos interferem no balanço hídrico da companhia.
O futuro provavelmente será híbrido
Rocky Ford não demonstra que todas as companhias deveriam abandonar a compra tradicional de hidrômetros.
Também não prova que MaaS seja financeiramente superior em qualquer contexto.
O que o caso demonstra é outra coisa.
A companhia não precisa mais necessariamente ser proprietária e operadora de cada componente tecnológico para utilizar medição inteligente.
Algumas empresas poderão preferir comprar toda a infraestrutura.
Outras poderão contratar comunicação.
Outras utilizarão plataformas externas.
Algumas poderão terceirizar praticamente todo o ciclo de vida.
E grandes utilities provavelmente combinarão diferentes modelos conforme perfil dos clientes, cobertura de telecomunicações, escala, infraestrutura existente e estratégia financeira.
A tendência mais provável não é a vitória absoluta de um modelo, mas a transformação do hidrômetro em uma plataforma de informação.
Lições para quem trabalha no saneamento
O caso de Rocky Ford entrega uma mensagem particularmente útil para profissionais do setor.
A inovação mais importante nem sempre está em inventar um novo equipamento.
Às vezes, ela está em reorganizar responsabilidades, custos e processos ao redor de uma tecnologia já disponível.
Para uma equipe comercial, isso significa utilizar consumo quase em tempo real para antecipar problemas.
Para profissionais de perdas, significa enxergar melhor perdas aparentes e comportamentos anormais.
Para operação, significa reduzir deslocamentos desnecessários e direcionar equipes às exceções.
Para tecnologia, aumenta a responsabilidade sobre integração, dados e cibersegurança.
Para o regulador, surge a necessidade de distinguir investimentos eficientes de contratos que apenas transferem custos para o futuro.
Para o jurídico e suprimentos, torna-se fundamental contratar desempenho, interoperabilidade e condições de saída — e não apenas dispositivos.
E para gestores surge talvez a pergunta mais importante:
o negócio da companhia é possuir hidrômetros ou garantir medições confiáveis, disponíveis e capazes de gerar decisões melhores?
Conclusão: o hidrômetro está deixando de ser apenas um ativo
A experiência de Rocky Ford aponta para uma transformação mais profunda na medição inteligente de água.
Durante décadas, a lógica era simples: comprar o hidrômetro, instalar, ler uma vez por mês e substituir quando necessário.
A digitalização está desmontando essa sequência.
O hidrômetro passa a produzir dados continuamente.
A leitura passa a alimentar faturamento, controle de perdas, atendimento, fiscalização, manutenção e relacionamento com o consumidor.
E o MaaS leva a mudança um passo adiante: questiona inclusive se a companhia precisa adquirir e gerenciar individualmente todos os componentes necessários para gerar essas informações.
Para o saneamento brasileiro, a oportunidade é relevante, mas não deveria ser reduzida ao discurso de “não precisar de Capex”.
A verdadeira comparação precisa ser entre custo total, desempenho, risco, receita recuperada, qualidade da informação, liberdade tecnológica e capacidade de gerar resultados ao longo de todo o contrato.
Rocky Ford mostra que até uma pequena utility pode utilizar tecnologia avançada quando o modelo econômico é redesenhado.
Sabesp mostra que a mesma transformação pode chegar à escala de milhões de ligações.
Cagece mostra que a implantação pode começar pelos clientes nos quais o dado possui maior valor.
Sanepar lembra que nenhum software substitui uma política consistente de precisão e renovação metrológica.
E a regulação brasileira indica que perdas, micromedição, desempenho e informação serão cada vez mais cobrados.
Por isso, o maior avanço da medição inteligente de água talvez não seja simplesmente eliminar o leiturista passando diante do hidrômetro.
Será transformar cada medição em informação acionável — e transformar essa informação em menos perdas, melhor faturamento, respostas mais rápidas, clientes mais bem atendidos e decisões empresariais melhores.
Fontes e referências
Metron
Rocky Ford Adopts Metron’s Metering as a Service Program
3 de setembro de 2026
https://metron-us.com/case-studies/rocky-ford-adopts-metrons-metering-as-a-service-program/
Metron
Metering as a Service — MaaS
Página institucional da solução
https://metron-us.com/metering-as-a-service/
City of Rocky Ford
Register Your New Water Meter Online
Página oficial do município
https://www.cityofrockyfordco.gov/register-your-new-water-meter-online
City of Rocky Ford
Financial Statements and Independent Auditor’s Report — 2024
Demonstrações financeiras oficiais do município
https://www.cityofrockyfordco.gov/files/0300a72ee/City%2Bof%2BRocky%2BFord%2B-%2BAudited%2BFinancial%2BStatements%2B2024%2B%282%29.pdf
U.S. Census Bureau
Rocky Ford City, Colorado — Census 2020
Dados oficiais do Censo dos Estados Unidos
https://tigerweb.geo.census.gov/tigerwebmain/Files/acs26/tigerweb_acs26_incplace_2020_tab20_co.html
United States Environmental Protection Agency — EPA
Advanced Metering Infrastructure
Referência técnica sobre AMI e medição inteligente
https://www.epa.gov/watersense/advanced-metering-infrastructure
ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
Resolução ANA nº 275/2025 — Norma de Referência nº 15/2025
Redução progressiva e controle das perdas de água
https://www.gov.br/ana/pt-br/legislacao/resolucoes/resolucoes-regulatorias/2025/275
ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
Resolução ANA nº 211/2024 — Norma de Referência nº 9/2024
Indicadores operacionais da prestação dos serviços
https://www.gov.br/ana/pt-br/legislacao/resolucoes/resolucoes-regulatorias/2024/211
ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
Resolução ANA nº 302/2026 — Norma de Referência nº 16/2026
Contabilidade regulatória e controle patrimonial
https://www.gov.br/ana/pt-br/legislacao/resolucoes/resolucoes-regulatorias/2026/302
Inmetro / Diário Oficial da União
Portaria Inmetro nº 155/2022 — Regulamento Técnico Metrológico para Medidores de Água
30 de março de 2022
https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/servlet/INPDFViewer?captchafield=firstAccess&data=31%2F03%2F2022&jornal=600&pagina=14
Governo do Estado de São Paulo
Sabesp inicia o maior projeto de hidrômetros inteligentes do mundo
11 de fevereiro de 2026
https://www.agenciasp.sp.gov.br/sabesp-inicia-o-maior-projeto-de-hidrometros-inteligentes-do-mundo-reforcando-o-uso-consciente-da-agua-em-periodo-de-estiagem/
Cagece — Companhia de Água e Esgoto do Ceará
Telemedição: clientes com maior consumo passam a contar com ferramenta remota de medição
30 de janeiro de 2025
https://www.cagece.com.br/comunicacao/noticias/telemedicao-clientes-com-maior-consumo-de-agua-passam-a-contar-com-ferramenta-remota-de-medicao/
Sanepar — Companhia de Saneamento do Paraná
Sanepar renova parque de hidrômetros com substituição de 380 mil equipamentos
17 de abril de 2026
https://www.sanepar.com.br/noticias/sanepar-renova-seu-parque-de-hidrometros-com-substituicao-de-380-mil-equipamentos-em-todo-o-parana
Anglian Water
1.5 million smart meters connected
7 de julho de 2026
https://prod-swd.anglianwater.co.uk/news/1.5-million-smart-meters
PUB — Singapore’s National Water Agency
Smart Water Meter Programme
Programa oficial de medição inteligente de Singapura
https://www.pub.gov.sg/Public/KeyInitiatives/Smart-Water-Meter
Instituto Trata Brasil
Estudo de Perdas de Água 2025
Dados baseados no SINISA, ano de referência 2023
https://tratabrasil.org.br/perdas-de-agua-2025/



