Escolher um software GIS para saneamento em 2026 deixou de ser uma decisão sobre qual programa produz os melhores mapas. A escolha pode determinar se uma companhia consegue descobrir rapidamente quais registros precisam ser fechados durante um rompimento, identificar os clientes afetados, devolver uma obra executada ao cadastro técnico, alimentar o modelo hidráulico, relacionar vazamentos com pressão e faturamento e transformar milhares de quilômetros de tubulações em ativos efetivamente gerenciáveis.
A questão ganhou ainda mais relevância no Brasil. A Norma de Referência nº 15/2025 da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) exige dos prestadores planos de gestão de redução e controle de perdas com diagnóstico, indicadores, cronograma físico-financeiro e justificativa técnico-econômica. A norma não obriga a adoção de GIS, mas cita expressamente softwares de georreferenciamento de perdas entre as tecnologias que podem ampliar a eficácia e a automação do controle. Em 14 de setembro de 2026, a ANA publicou ainda manuais orientativos relacionados às NRs 9 e 15. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso muda a pergunta.
O desafio já não é apenas “qual software faz mapas?”, mas sim: qual plataforma consegue transformar o cadastro geográfico em uma fonte confiável de informação para operação, engenharia, comercial, perdas, manutenção, regulação e gestão de ativos?
E é justamente nesse ponto que as diferenças entre ArcGIS, QGIS, HxGN NetWorks, OpenUtilities e outras soluções ficam muito maiores.
O que um software GIS para saneamento precisa fazer
GIS é a sigla para Geographic Information System, ou Sistema de Informações Geográficas. Na prática, é uma estrutura que relaciona cada ativo ou evento a uma localização e a um conjunto de informações.
Uma tubulação deixa de ser apenas uma linha azul no mapa. Ela pode possuir diâmetro, material, idade, pressão de operação, data de implantação, histórico de rompimentos, criticidade, setor de abastecimento, ordens de serviço associadas e vínculos com outros sistemas.
O mesmo vale para válvulas, hidrantes, boosters, reservatórios, estações elevatórias, poços de visita, coletores, interceptores, ligações, hidrômetros, vazamentos e reclamações.
A Environmental Protection Agency (EPA), dos Estados Unidos, já apontava que, para redes de esgoto, o GIS apresenta vantagens em relação a desenhos e mapas CAD porque consegue ligar informações de banco de dados aos elementos espaciais e, posteriormente, integrar esses dados a sistemas de gestão de ativos, modelos de esgoto e até sistemas de faturamento. A recomendação continua extremamente atual. (US EPA)
O Banco Mundial também trata a digitalização da água como uma trajetória de transformação da utility tradicional para uma empresa digitalmente integrada. O GIS é uma das peças dessa arquitetura, não uma aplicação isolada. (Banco Mundial)
Por isso, um bom software GIS para saneamento precisa ser avaliado por muito mais do que ferramentas de desenho.
A plataforma deve permitir trabalhar com topologia e conectividade das redes, múltiplos usuários, edição controlada, histórico e versionamento, operação em campo inclusive sem internet, integração com bases corporativas, APIs, dados de clientes, telemetria, sistemas comerciais, manutenção e modelagem hidráulica.
É nessa análise mais ampla que aparecem os principais candidatos.
ArcGIS Utility Network: referência para GIS corporativo
Para grandes companhias que pretendem construir um GIS corporativo integrado à operação, o ecossistema ArcGIS é atualmente uma das alternativas mais completas e com maior quantidade de aplicações documentadas no setor de utilities.
O diferencial não está apenas no ArcGIS Pro utilizado pelos profissionais de geoprocessamento. O ArcGIS Utility Network acrescenta um modelo específico para redes conectadas, capaz de representar tubulações, válvulas, equipamentos, zonas e relações entre ativos.
É possível, por exemplo, realizar rastreamentos de uma rede, identificar elementos conectados e trabalhar com subnetworks. O modelo é integrado ao ArcGIS Enterprise e permite que o GIS seja consumido por aplicações desktop, web e móveis. (Esri)
Essa característica é particularmente importante no saneamento.
Imagine o rompimento de uma adutora em uma área densamente ocupada. Um mapa convencional mostra onde passam as redes. Uma rede com topologia consistente pode ajudar a determinar o caminho hidráulico cadastral, localizar válvulas relacionadas ao trecho e apoiar a identificação da área potencialmente afetada.
Mas existe uma condição: a inteligência do sistema depende da qualidade da rede cadastrada.
Se válvulas estão ausentes, tubulações não estão conectadas, diâmetros estão incorretos ou obras executadas não retornam ao cadastro, o software mais avançado apenas automatizará uma representação incompleta da realidade.
Essa talvez seja a maior lição para empresas avaliando o ArcGIS Utility Network: a implantação é também um projeto de saneamento dos próprios dados.
Na versão atual do ciclo de gerenciamento de redes, ArcGIS Pro 3.7 e ArcGIS Enterprise 12.1 formam a edição de Network Management de 2026. A Esri destaca melhorias de desempenho, estabilidade, subnetworks e licenciamento, entre outras alterações. (Esri)
Um caso internacional mostra onde está o ganho
A Brabant Water, companhia holandesa que atende aproximadamente 2,4 milhões de pessoas e empresas, adotou o ArcGIS Utility Network depois de anos utilizando GIS.
Um dos ganhos relatados parece pequeno até ser convertido em horas de trabalho. Segundo o estudo de caso publicado pela Esri, uma atividade de atualização de listas consumia quatro horas por semana. Isso representava 208 horas anuais. Com os dados estruturados na nova arquitetura, a informação passou a ficar disponível diretamente no sistema. (Esri)
O benefício mais interessante não é economizar algumas horas de planilha. É retirar profissionais qualificados de atividades repetitivas de reconciliação de dados e colocá-los em análise, planejamento e decisão.
Esse é um indicador importante de maturidade GIS.
QGIS + PostGIS + QField: a arquitetura aberta
O QGIS merece atenção especial porque comparar simplesmente “ArcGIS versus QGIS” pode levar a uma conclusão equivocada.
Para uma implantação corporativa, a comparação correta frequentemente é:
ArcGIS Enterprise + Utility Network + aplicações móveis
contra
QGIS + PostGIS + QGIS Server + QField + integrações desenvolvidas pela organização.
O QGIS é software livre e permite construir uma arquitetura extremamente robusta sem a mesma lógica de licenciamento proprietário do desktop GIS.
O PostGIS acrescenta recursos geográficos ao banco PostgreSQL, permitindo armazenar, consultar e processar informações espaciais em uma estrutura corporativa. O QField leva projetos e dados do QGIS para atividades de campo, inclusive em cenários de coleta móvel.
O resultado pode ser particularmente atraente para autarquias, serviços municipais, empresas com equipes de desenvolvimento próprias, projetos específicos e organizações que querem maior controle sobre sua arquitetura tecnológica.
Em setembro de 2026, o QGIS 4.2.2 “Belém do Pará” é a versão regular mais recente, lançada em 28 de agosto. Entretanto, o próprio projeto recomenda o QGIS 3.44.14 LTR para quem prioriza estabilidade. A série 4.2 está prevista para tornar-se a primeira LTR da geração 4.x em outubro de 2026. (QGIS)
Esse detalhe é importante para companhias de saneamento.
Migrar centenas de usuários apenas porque existe uma versão mais nova pode ser uma decisão ruim. Aplicações corporativas devem testar plugins, rotinas Python, integrações, formulários, bancos e fluxos de campo antes de qualquer atualização em massa.
Ruanda mostra até onde uma arquitetura aberta pode chegar
Um caso da Water and Sanitation Corporation, de Ruanda, ajuda a dimensionar o potencial dessa abordagem.
A estrutura utilizou QGIS, QField, GeoPackage e PostGIS para mapear e manter sistemas rurais de abastecimento. Em 2018, equipes foram treinadas e iniciaram a coleta em 27 distritos. O levantamento inicial foi concluído em abril de 2019.
Posteriormente, os dados passaram a ser utilizados por mais de 30 operadores privados nos 27 distritos, com mais de 1.000 sistemas de abastecimento registrados na base. (QField)
O caso demonstra algo relevante para o Brasil: software livre não significa obrigatoriamente solução pequena.
Entretanto, existe uma contrapartida.
Com QGIS e ferramentas abertas, parte daquilo que uma plataforma proprietária entrega de maneira integrada precisa ser arquitetada, configurada, documentada e sustentada pela própria organização ou por fornecedores contratados.
Portanto, eliminar custos de licença não elimina o custo do GIS.
ArcGIS ou QGIS: onde realmente está a diferença?
Para uma empresa pequena que precisa cadastrar redes, realizar levantamentos em campo, produzir mapas e disponibilizar informações internamente, a arquitetura QGIS pode entregar excelente relação entre custo, flexibilidade e capacidade técnica.
Em uma companhia com milhões de clientes, milhares de usuários potenciais, integrações com CRM, ERP, sistemas comerciais, telemetria, gestão de ativos, ordens de serviço e modelos hidráulicos, a discussão muda.
O custo da licença passa a ser apenas uma parcela do custo total.
Entram na conta migração de dados, servidores ou nuvem, bancos de dados, integrações, suporte, segurança, treinamento, desenvolvimento, governança, atualização tecnológica e manutenção do cadastro.
Por isso, escolher o software GIS para saneamento apenas pelo preço da licença é um dos erros mais comuns de um processo de contratação.
O barato pode exigir desenvolvimento permanente. O software mais caro pode vir acompanhado de funcionalidades que jamais serão utilizadas.
A decisão correta depende da arquitetura da empresa.
HxGN NetWorks: rede e ativos no centro da plataforma
A Hexagon apresenta o HxGN NetWorks como uma plataforma de gestão geoespacial do ciclo de vida de ativos para redes de energia, gás, água, esgoto, telecomunicações e organizações multiutility.
Segundo a própria Hexagon, a solução é utilizada por mais de 600 clientes globalmente e permite gerenciar desde planejamento e projeto até manutenção, incluindo topologia e representação digital dos ativos. O número é uma informação do fabricante e deve ser entendido como tal. (Hexagon)
O conceito é interessante para o saneamento porque aproxima GIS e gestão de ativos.
Muitas empresas ainda mantêm duas realidades.
No GIS existe uma tubulação.
No sistema de manutenção existe um equipamento ou ativo.
No ERP existe um registro patrimonial.
No modelo hidráulico existe outro identificador.
Na ordem de serviço aparece uma descrição textual.
O resultado são diferentes versões da mesma infraestrutura.
Plataformas orientadas a redes de utilities tentam reduzir esse problema criando relações mais fortes entre localização, conectividade e ciclo de vida do ativo.
Para companhias com infraestrutura muito complexa ou que também operem outros serviços públicos, o HxGN NetWorks merece entrar em uma prova de conceito.
Bentley OpenUtilities: quando engenharia e CAD pesam
Outra arquitetura relevante é a da Bentley Systems.
O OpenUtilities Map combina recursos GIS com a base CAD do MicroStation e possui modelos destinados a diferentes tipos de utilities, incluindo água e esgoto. Entre as capacidades documentadas estão gestão de redes, análise, rastreamento e representação de ativos. (Bentley)
Esse posicionamento pode ser particularmente interessante para organizações nas quais projeto de engenharia, precisão geométrica e cadastro de ativos precisam conviver de forma muito próxima.
É comum encontrar no saneamento um problema histórico de fluxo de informações.
A engenharia projeta em CAD.
A obra realiza alterações em campo.
O “as built” chega semanas ou meses depois.
A equipe de cadastro redesenha a informação no GIS.
A operação, nesse intervalo, trabalha com uma rede que já mudou fisicamente, mas ainda não mudou digitalmente.
Quando projeto, execução e cadastro não formam um fluxo contínuo, a empresa acumula dívida de cadastro.
Nesse cenário, a discussão entre GIS e CAD deixa de ser tecnológica e passa a ser de processo.
GeoMonitora mostra que existem alternativas brasileiras
O mercado brasileiro também possui soluções especializadas.
Em apresentação realizada pela Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp), em janeiro de 2025, foi demonstrado o GeoMonitora 4.0, plataforma voltada à gestão de dados relacionados a água, esgoto, drenagem, resíduos e controle de perdas. (AESabesp)
Soluções nacionais desse tipo podem ter vantagens importantes em aderência a processos locais, proximidade do fornecedor e especialização no saneamento brasileiro.
Entretanto, a quantidade de documentação pública comparável encontrada durante esta apuração é menor do que a disponível para plataformas internacionais como ArcGIS e QGIS.
Por isso, uma companhia interessada deveria realizar prova de conceito com dados reais, conversar diretamente com operadores que utilizam a plataforma e testar integrações antes de tomar uma decisão corporativa.
O Brasil já mostra que GIS está deixando de ser ferramenta de uma área
Em julho de 2025, o GIS Day promovido pela Caesb reuniu representantes da ANA, Cagepa, Sabesp, Sanepar, Iguá e outras organizações para discutir geotecnologia aplicada ao saneamento. A BRK Goiás também foi reconhecida durante o evento. (BRK Ambiental)
A Caesb, por exemplo, disponibiliza serviços de dados de sua infraestrutura de abastecimento utilizando tecnologia ArcGIS, com camadas de adutoras, hidrantes, medidores de rede e válvulas, entre outros elementos. (Atlas CAESB)
É um sinal de mudança de maturidade.
Durante muito tempo, o geoprocessamento esteve associado à produção de plantas e mapas sob demanda.
Agora, a tendência é o GIS tornar-se infraestrutura de informação.
Quando isso acontece, operações diferentes começam a consumir a mesma referência espacial: planejamento de expansão, atendimento, manutenções, perdas, obras, fiscalização, modelagem hidráulica, investimentos e análise comercial.
Mas o ponto mais relevante para as companhias está em outro aspecto.
Modelagem hidráulica não é GIS — mas os dois precisam conversar
Um erro frequente em processos de aquisição é colocar na mesma categoria softwares que resolvem problemas diferentes.
O Autodesk InfoWater Pro, por exemplo, é uma aplicação de modelagem hidráulica construída dentro do ArcGIS Pro. O produto utiliza a estrutura geoespacial para criar e atualizar modelos de distribuição de água e permite análises relacionadas a pressão, criticidade de válvulas, transitórios e vazamentos. A Autodesk destaca uma relação 1:1 entre o modelo e dados no ambiente ArcGIS Pro. (Autodesk)
Já o InfoWorks ICM tem foco em modelagem hidrológica e hidráulica de sistemas de esgoto, drenagem pluvial e inundação, incluindo simulações 1D e 2D. (Autodesk)
São ferramentas poderosas, mas desempenham uma função diferente.
O GIS responde onde estão os ativos, quais são suas características e como eles se relacionam espacialmente. O modelo hidráulico procura responder como água ou esgoto se comportam dentro daquele sistema.
O melhor cenário não é escolher um ou outro.
É conectar os dois.
Manaus mostra o próximo estágio: GIS + SCADA + modelo + clientes
Um dos benchmarks mais interessantes no Brasil está em Manaus.
Caso documentado pela International Water Association mostra a utilização do OpenFlows WaterSight em um projeto da Aegea no Distrito de Medição e Controle São Jorge.
O piloto abrangia cerca de 10 mil clientes e 61,4 quilômetros de rede e integrava informações provenientes de GIS, SCADA, modelo hidráulico e sistemas de clientes em um ambiente operacional. (IWA Network)
Aqui aparece o caminho que provavelmente definirá os próximos anos do setor.
O GIS deixa de ser o destino final da informação e passa a funcionar como uma das bases de um gêmeo digital operacional.
Pressões medidas no campo podem ser comparadas com pressões previstas pelo modelo.
Eventos operacionais podem ser representados espacialmente.
Informações de clientes podem ser associadas à rede.
Anomalias podem gerar alertas.
A consequência é uma passagem do mapa estático para uma representação continuamente atualizada da operação.
Afinal, quais são os melhores softwares GIS para saneamento?
Não existe um vencedor universal. Entretanto, considerando as funcionalidades documentadas, maturidade tecnológica, orientação para utilities, integração e exemplos encontrados nesta pesquisa, é possível estabelecer perfis claros.
ArcGIS + Utility Network se destaca para companhias médias e grandes que querem transformar GIS em plataforma corporativa, principalmente quando topologia, aplicações web, campo, integrações e gestão avançada de redes são prioridades.
QGIS + PostGIS + QField é provavelmente a alternativa mais relevante para organizações que desejam uma arquitetura aberta, flexível e sem dependência do mesmo modelo de licenciamento proprietário, desde que exista capacidade interna ou contratada para governança, desenvolvimento e sustentação.
HxGN NetWorks merece avaliação quando gestão do ciclo de vida dos ativos, conectividade da rede e ambientes multiutility ocupam posição central.
Bentley OpenUtilities Map ganha força em estruturas nas quais engenharia, CAD, projeto e GIS precisam estar fortemente integrados.
GeoMonitora e outras soluções verticais nacionais podem ser interessantes quando a aderência aos processos específicos do saneamento brasileiro for mais relevante que a amplitude de um ecossistema global.
E InfoWater Pro, InfoWorks ICM, OpenFlows e plataformas de digital twin não deveriam ser avaliados como substitutos diretos do GIS corporativo, mas como camadas de engenharia e inteligência que recebem enorme valor quando alimentadas por um bom cadastro geoespacial.
O melhor software pode fracassar com um cadastro ruim
A tecnologia costuma receber a maior atenção durante uma contratação, mas talvez não seja o principal risco.
Uma empresa pode comprar uma plataforma sofisticada e continuar sem saber a posição correta de determinadas válvulas.
Pode possuir topologia avançada e manter obras concluídas fora da base por meses.
Pode ter milhares de registros e não possuir identificadores únicos consistentes.
Pode criar aplicativos móveis enquanto a equipe de campo continua registrando alterações apenas em papel ou WhatsApp.
Pode construir um modelo hidráulico extremamente detalhado sobre uma rede cadastral desatualizada.
A EPA recomenda que mapas sejam confrontados com inspeções físicas e técnicas de levantamento. O princípio é simples: o GIS precisa representar a infraestrutura real, e não apenas a infraestrutura que a empresa acredita possuir. (US EPA)
Essa é uma das razões pelas quais levantamento GNSS, inspeção de campo, aerofotogrametria, integração com obras e atualização cadastral devem fazer parte da estratégia GIS.
O que gestores devem exigir em uma prova de conceito
Antes de contratar um software GIS para saneamento, uma empresa deveria testar situações reais de sua própria operação, e não apenas assistir a uma demonstração preparada pelo fornecedor.
Entre os testes mais relevantes estão:
- importar uma área real do cadastro de água e esgoto da companhia;
- editar simultaneamente a rede com múltiplos usuários;
- identificar e tratar erros de conectividade e topologia;
- executar rastreamento de rede e simular isolamento por válvulas;
- trabalhar offline no campo e sincronizar posteriormente;
- registrar uma intervenção executada e devolver a informação ao cadastro;
- consumir dados de clientes, faturamento, ordens de serviço, manutenção ou ERP;
- integrar pressões, vazões ou outros dados de telemetria;
- alimentar um modelo hidráulico sem duplicar desnecessariamente o cadastro;
- verificar APIs, formatos abertos e possibilidades reais de extração de dados;
- testar gestão de identidade, perfis, auditoria e histórico;
- medir desempenho com o volume verdadeiro de ativos da companhia;
- calcular o custo total de cinco ou dez anos, incluindo implantação, integrações, suporte, infraestrutura e treinamento;
- avaliar como os dados serão recuperados caso a organização decida futuramente trocar de plataforma.
Uma prova de conceito desse tipo revela muito mais do que uma comparação de funcionalidades comerciais.
O GIS também é uma ferramenta comercial
Existe outro potencial frequentemente subestimado.
O mesmo GIS que mostra tubulações pode relacionar ligações ativas, inativas e factíveis; identificar imóveis próximos à rede; analisar regiões com baixa adesão ao esgoto; cruzar reclamações com ocorrências operacionais; apoiar roteirização de serviços; localizar concentrações de inadimplência; avaliar expansão de grandes consumidores; ou estimar clientes afetados durante interrupções.
Isso aproxima operação e área comercial.
Um rompimento deixa de ser apenas “uma ocorrência em uma rede DN 200” e passa a ser um evento potencialmente associado a determinado número de imóveis, clientes prioritários, hospitais, escolas ou grandes consumidores.
É justamente essa integração que transforma geoprocessamento em inteligência empresarial.
GIS, perdas e a nova pressão regulatória
A NR 15/2025 da ANA reforça essa oportunidade.
A norma estabelece indicadores relacionados a perdas, intermitência, macromedição e hidrometração e exige diagnóstico e acompanhamento das ações dos planos de perdas. Também admite telemetria, sensores de pressão, vazão ou ruído, modelos de previsão de vazamentos, medição inteligente e softwares de georreferenciamento como tecnologias de apoio. (Serviços e Informações do Brasil)
Nenhuma dessas tecnologias produz todo o seu potencial isoladamente.
Um sensor informa pressão.
Um macromedidor informa volume.
Um sistema comercial informa consumo faturado.
Uma ordem de serviço informa vazamentos encontrados.
O GIS permite responder onde cada informação ocorreu e qual parte da rede está relacionada a ela.
Essa capacidade tende a ser cada vez mais relevante para distritos de medição e controle, balanços hídricos, priorização de substituição de redes e avaliação de perdas reais e aparentes.
O que pode dar errado
O primeiro risco é comprar software antes de definir processos.
O segundo é acreditar que migrar desenhos CAD para uma geodatabase significa possuir um GIS confiável.
O terceiro é deixar o cadastro restrito a uma equipe especializada, sem criar mecanismos para que manutenção e obras atualizem a realidade física da rede.
Existe ainda o risco inverso: permitir edição excessivamente descentralizada sem regras de qualidade.
Outro problema é criar bancos paralelos. Engenharia possui um cadastro, operação outro, comercial outro e o modelo hidráulico um quarto.
A arquitetura deve definir claramente qual sistema é a fonte oficial de cada informação.
Para ativos espaciais, o objetivo deveria ser evitar múltiplas verdades concorrentes.
A tendência: GIS como núcleo do gêmeo digital
Os próximos avanços provavelmente ocorrerão menos na produção de mapas e mais na integração de dados.
Sensores, telemetria, Internet das Coisas, imagens, inteligência artificial, modelos hidráulicos e sistemas comerciais estão produzindo quantidades crescentes de informação.
Sem contexto espacial e sem uma representação confiável dos ativos, muitos desses dados permanecem fragmentados.
Com GIS estruturado, uma companhia pode começar a responder perguntas mais sofisticadas.
Onde estão as redes com maior combinação de idade, rompimentos e impacto potencial?
Quais válvulas precisam ser inspecionadas porque são essenciais para o isolamento de trechos críticos?
Quais clientes seriam afetados se determinado ativo falhasse?
Que áreas apresentam simultaneamente alta pressão, histórico de vazamentos e perdas elevadas?
Qual obra possui maior impacto esperado sobre continuidade, perdas e clientes?
É justamente nessa transição que o software GIS para saneamento passa de ferramenta cartográfica para infraestrutura de decisão.
Lições para quem trabalha no saneamento
O crescimento do GIS valoriza competências que vão muito além de saber operar um programa.
O profissional que compreende hidráulica, cadastro, banco de dados, operação de redes e processos de campo consegue interpretar o que um mapa realmente representa.
O profissional de perdas consegue transformar eventos dispersos em padrões espaciais.
O engenheiro consegue conectar projetos à infraestrutura existente.
A equipe comercial consegue relacionar clientes à rede que efetivamente os atende.
O profissional de tecnologia consegue integrar sistemas que historicamente funcionavam de forma independente.
E o gestor pode enxergar a infraestrutura não apenas como quilômetros de tubulação, mas como ativos associados a risco, custo, receita, nível de serviço e clientes.
A evolução tecnológica, portanto, não diminui a relevância das equipes. Ela aumenta o valor de profissionais capazes de combinar experiência de campo, conhecimento do negócio e análise de dados.
Conclusão: o melhor GIS é aquele que vira sistema de gestão
Não existe um único melhor software GIS para saneamento para todas as empresas.
Para grandes utilities que precisam de uma plataforma corporativa fortemente orientada a redes, o ArcGIS Utility Network apresenta hoje um conjunto particularmente abrangente de funcionalidades e referências de utilização.
Para organizações que possuem capacidade técnica para construir e sustentar sua própria arquitetura, QGIS, PostGIS e QField formam uma alternativa aberta extremamente poderosa.
HxGN NetWorks e Bentley OpenUtilities ocupam espaços relevantes em organizações que valorizam gestão avançada dos ativos e integração com engenharia. Soluções brasileiras especializadas também merecem avaliação conforme o problema a resolver.
Mas a principal conclusão não está no nome do software.
Uma empresa com um cadastro confiável, processo disciplinado de atualização, integração com o campo, identificadores consistentes e profissionais capacitados consegue extrair valor até de uma arquitetura relativamente simples.
Uma empresa sem esses fundamentos pode investir milhões em tecnologia e continuar procurando válvulas durante uma emergência.
O futuro do software GIS para saneamento não está em produzir mapas mais bonitos.
Está em criar uma representação confiável da infraestrutura capaz de conectar ativos, operação, engenharia, perdas, clientes, manutenção, investimentos e decisões.
Quando isso acontece, o mapa deixa de mostrar apenas onde a rede está.
Ele começa a ajudar a companhia a decidir o que fazer com ela.
Fontes e referências
ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
Resolução ANA nº 275, de 18 de dezembro de 2025 — Norma de Referência nº 15/2025.
18 de dezembro de 2025.
Acessar a Resolução ANA nº 275/2025
ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
Manuais orientativos da ANA voltados ao setor de saneamento básico são publicados.
14 de setembro de 2026.
Acessar a publicação da ANA
U.S. Environmental Protection Agency — EPA
Asset Management for Sewer Collection Systems.
Documento técnico sobre gestão de ativos e utilização de GIS em sistemas de esgotamento.
Acessar o documento da EPA
World Bank
Digital Water — Water Digitalization.
Acessar Digital Water
Esri
ArcGIS Utility Network — modelo de dados de rede para utilities.
Acessar a página do ArcGIS Utility Network
Esri
What’s New for ArcGIS Utility Network with the 2026 Network Management Release.
2026.
Acessar a atualização de 2026
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Dutch Water Company Brabant Water Leads the Way with ArcGIS Utility Network.
Estudo de caso da Brabant Water, Países Baixos.
Acessar o estudo de caso
QGIS Project
Download QGIS — versões atuais do QGIS.
Consulta em setembro de 2026.
Acessar página oficial do QGIS
QGIS Project
Update on QGIS 4.0 Release Schedule and LTR Plans.
7 de outubro de 2025.
Acessar planejamento de versões do QGIS
QGIS Documentation
Documentação sobre fontes de dados e integração com PostGIS.
Acessar documentação do QGIS
QField
Data collection by QGIS/QField for O&M work of rural water supply systems in Rwanda.
Estudo de caso da WASAC.
Acessar o caso de Ruanda
Hexagon
Hexagon announces HxGN NetWorks.
2022.
Acessar informações sobre o HxGN NetWorks
Bentley Systems
OpenUtilities Map — Utility Mapping and GIS Software.
Acessar OpenUtilities Map
Autodesk
InfoWater Pro — modelagem de sistemas de distribuição de água dentro do ArcGIS Pro.
Versão 2027.
Acessar Autodesk InfoWater Pro
Autodesk
InfoWorks ICM — modelagem integrada de esgoto, drenagem e inundação.
Versão 2027.
Acessar Autodesk InfoWorks ICM
International Water Association — IWA
DTHub: OpenFlows WaterSight — caso de Manaus, Brasil.
Acessar o caso publicado pela IWA
BRK Ambiental
BRK Goiás é premiada durante o GIS Day Caesb — Mapeando o Futuro do Saneamento.
17 de julho de 2025.
Acessar publicação da BRK
ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
ANA reforça integração e participação social durante o GIS Day Caesb.
4 de julho de 2025.
Acessar publicação da ANA sobre o GIS Day
AESabesp — Associação dos Engenheiros da Sabesp
Momentos de Tecnologia AESabesp 2025: soluções para gestão de redes e GeoMonitora 4.0.
31 de janeiro de 2025.
Acessar publicação da AESabesp



