Monitoramento de água vira franquia e mira R$ 30 milhões


Uma empresa brasileira que faturou R$ 72 milhões em 2025 decidiu transformar o monitoramento de água em um negócio de franquias, oferecendo sensores, inteligência artificial e serviços contínuos de tratamento para indústrias, condomínios e companhias de saneamento. A aposta da Biosolvit prevê unidades com faturamento anual projetado de até R$ 30 milhões e expansão para 15 operações até o fim de 2027.

A iniciativa chama a atenção por um motivo que ultrapassa o crescimento de uma empresa: ela propõe uma maneira diferente de comercializar, instalar e manter tecnologias essenciais para a qualidade da água.

Em vez de concentrar toda a operação em uma estrutura nacional, o modelo combina tecnologia desenvolvida pela empresa, acompanhamento centralizado e equipes regionais responsáveis pelo relacionamento com os clientes e pela execução dos serviços.

A questão estratégica é saber se essa combinação pode reduzir custos, acelerar o atendimento técnico e ampliar o acesso à automação em sistemas de abastecimento e tratamento de água.

Mas existe uma diferença importante entre vender uma solução tecnológica e garantir resultados operacionais. É justamente nessa distinção que estão as principais oportunidades e os riscos do novo modelo.

De resíduos vegetais ao monitoramento inteligente da água

A Biosolvit, fundada pelo empresário Guilhermo Queiroz, construiu sua trajetória transformando resíduos industriais e vegetais em soluções ambientais.

A origem está ligada ao aproveitamento de resíduos de palmeiras utilizados na indústria de palmito. Posteriormente, a companhia desenvolveu materiais absorventes para acidentes com petróleo e ampliou seu portfólio para filtração industrial, tratamento de água, controle de poeira e recuperação ambiental.

Segundo reportagem publicada pela Exame em 19 de outubro de 2026, a empresa possui seis fábricas, aproximadamente 170 funcionários e registrou faturamento de R$ 72 milhões em 2025.

A expansão também aparece nos números anteriores: a receita informada para 2024 foi de R$ 45,8 milhões, contra R$ 17,5 milhões em 2023, crescimento de aproximadamente 162,4%.

Esses resultados demonstram uma trajetória de expansão empresarial, mas não comprovam, isoladamente, a viabilidade financeira do novo negócio de franquias.

O projeto recebeu o nome de Biofranquia e foi lançado no fim do primeiro semestre de 2026.

A expectativa inicial era contratar três franquias ainda em 2026 e alcançar cinco unidades em 2027. Entretanto, cinco contratos já haviam sido assinados quando a Exame publicou sua reportagem, levando a empresa a elevar a meta para 15 operações até o final de 2027.

Um comunicado empresarial publicado pela Revista TAE em 23 de outubro também identificou territórios iniciais no Rio Grande do Norte, na região de Volta Redonda, no Oeste Paulista e no Rio de Janeiro.

A assinatura dos contratos representa uma etapa comercial. Ela não significa, necessariamente, que todas essas operações estejam funcionando plenamente ou gerando receitas recorrentes.

Esse será um dos principais indicadores a observar nos próximos meses.

Como funciona a franquia de monitoramento de água?

Diferentemente das franquias tradicionais, o modelo da Biosolvit não depende de lojas abertas ao consumidor.

O franqueado atua regionalmente na prospecção de clientes, comercialização, instalação e acompanhamento de soluções técnicas.

Os potenciais contratantes incluem indústrias, hospitais, condomínios e empresas de saneamento que necessitam controlar a qualidade da água ou operar sistemas de tratamento.

A proposta utiliza a vertical tecnológica Bio Water Care, combinando equipamentos de campo, sensores, softwares e inteligência artificial.

Segundo a comunicação da empresa, a solução permite acompanhar parâmetros de qualidade em tempo real, identificar desvios e automatizar determinadas correções operacionais.

Outro componente é a plataforma WeBio, apresentada como ferramenta para integrar processos comerciais e informações do controle operacional.

O conceito central é conhecido internacionalmente como Water as a Service (WaaS), ou Água como Serviço.

Nesse formato, o cliente contrata uma solução continuada, normalmente mediante pagamentos periódicos, em vez de limitar sua relação com o fornecedor à compra de equipamentos.

O serviço pode compreender instalação, monitoramento, manutenção, insumos, assistência técnica e acompanhamento de desempenho, conforme as condições de cada contrato.

A vantagem potencial está na redução da necessidade de o cliente administrar vários fornecedores separadamente.

Entretanto, o modelo exige atenção à definição das responsabilidades técnicas e contratuais. A terceirização de atividades não elimina automaticamente as obrigações legais do responsável pelo abastecimento ou pelo empreendimento.

A tecnologia por trás do modelo: sensores, dados e inteligência artificial

O monitoramento de água em tempo real não é uma novidade absoluta no saneamento.

Companhias brasileiras e operadores internacionais já utilizam analisadores de processo e sistemas supervisórios para acompanhar estações de tratamento, reservatórios e redes.

A inovação proposta pela Biosolvit está principalmente na combinação dessas tecnologias com um modelo descentralizado de comercialização e assistência técnica.

Entre os parâmetros que podem integrar sistemas de monitoramento estão:

  • Cloro residual: indica a concentração de desinfetante presente na água, contribuindo para avaliar o controle da desinfecção.
  • Turbidez: mede a presença de partículas que afetam a transparência da água e podem indicar alterações na eficiência do tratamento.
  • pH: identifica condições de acidez ou alcalinidade, importantes para processos químicos e estabilidade da água.
  • Condutividade elétrica: auxilia na avaliação de alterações na concentração de substâncias dissolvidas.
  • Vazão e pressão: permitem acompanhar condições hidráulicas e determinadas anomalias operacionais.

A seleção depende do tipo de água, do processo e do objetivo do monitoramento. Nem todos esses parâmetros foram confirmados como integrantes de cada configuração comercializada pela Biosolvit.

O que a inteligência artificial realmente acrescenta?

O principal benefício potencial está na capacidade de transformar medições contínuas em decisões mais rápidas.

Um algoritmo pode identificar tendências anormais, comparar variáveis, sinalizar falhas e recomendar ajustes.

Quando existe integração com controladores e equipamentos adequados, o sistema também pode executar determinadas ações automáticas, respeitando limites previamente definidos.

Um exemplo seria identificar uma variação de cloro residual e recomendar uma verificação do sistema de dosagem antes que a anomalia se prolongue.

Entretanto, inteligência artificial não substitui sensores calibrados, análises laboratoriais, procedimentos operacionais nem profissionais qualificados.

Também não existe garantia automática de potabilidade apenas porque um sistema mede cloro, turbidez e pH.

A avaliação da segurança da água exige considerar riscos microbiológicos, químicos e outras condições previstas nas normas de qualidade.

Essa distinção é essencial para gestores que pretendem contratar soluções automatizadas.

O grande diferencial pode estar no atendimento local

Uma dificuldade recorrente na implantação de tecnologias de saneamento está na manutenção dos equipamentos após a instalação.

Um analisador pode funcionar adequadamente durante a implantação e apresentar problemas meses depois por incrustação, envelhecimento de componentes, falhas de comunicação ou ausência de calibração.

Dependendo da localização do empreendimento, o deslocamento de uma equipe especializada pode representar parcela relevante do custo de atendimento.

É nesse ponto que a franquia regional apresenta uma proposta interessante.

A empresa busca parceiros que já atuem em segmentos como manutenção, limpeza de reservatórios e comercialização de produtos químicos.

Esses profissionais podem reunir conhecimento do mercado local, relacionamento com clientes e estrutura de atendimento.

No comunicado divulgado pela Revista TAE, a Biosolvit apresentou a perspectiva de atendimento técnico em prazo inferior a 24 horas.

Trata-se de uma meta ou proposta empresarial divulgada pela companhia, e não de um indicador de desempenho já comprovado publicamente para toda a rede de franquias.

Mesmo assim, a lógica operacional merece atenção.

Uma tecnologia de alta capacidade pode produzir pouco valor quando sua manutenção depende de longos deslocamentos e respostas demoradas.

A proximidade física das equipes, associada a suporte especializado central, pode ser tão importante quanto a sofisticação dos sensores.

Franquias de até R$ 30 milhões: o que os números realmente mostram?

A Exame informou que o investimento total previsto para uma Biofranquia varia entre R$ 300 mil e R$ 500 mil.

A reportagem também apresentou projeção empresarial de faturamento anual entre R$ 15 milhões e R$ 30 milhões por unidade madura, entre o segundo e o quinto ano de operação.

Esses números precisam ser interpretados com cautela.

O faturamento corresponde à receita obtida com vendas e serviços. Não representa lucro líquido, geração de caixa ou retorno do investimento.

Além disso, a reportagem informou que a rede ainda não possui histórico operacional suficiente para comprovar essas projeções e que não foram divulgadas margens de lucro nem prazo de retorno.

Existe outro ponto relevante.

O material empresarial publicado pela Revista TAE apresenta um cenário conservador de necessidade financeira de R$ 760 mil por território, considerando infraestrutura técnica, equipe e capital de giro para sustentar um ano de operação.

Isso não significa necessariamente que as duas informações sejam contraditórias: os valores podem refletir premissas e abrangências diferentes.

Entretanto, a diferença demonstra a importância de esclarecer exatamente quais despesas estão incluídas no investimento divulgado.

Para uma análise financeira adequada, seria necessário conhecer a composição dos custos de instalação, aquisição de equipamentos, manutenção, equipe técnica, insumos, logística, remuneração da franqueadora e capital de giro.

Também seria necessário identificar quem reconhece a receita de cada contrato: franqueado, franqueadora ou ambos, conforme a estrutura contratual.

A receita recorrente pode mudar a lógica econômica

Em serviços de tecnologia, a venda inicial de equipamentos costuma gerar receita concentrada no momento da implantação.

No modelo de assinatura, o pagamento pode ser distribuído durante a execução do contrato.

Isso cria possibilidades de previsibilidade de receitas, mas também obrigações contínuas de prestação de serviços.

Para empresas de saneamento, a avaliação deve considerar o custo total de propriedade da solução, e não apenas o preço inicial dos equipamentos.

Uma contratação mensal pode ser economicamente atraente quando transfere ao fornecedor atividades de manutenção, atualização e suporte. Contudo, pode se tornar onerosa se houver reajustes inadequados, baixa disponibilidade ou dependência excessiva do prestador.

A vantagem financeira precisa ser demonstrada em cada caso.

Como as companhias brasileiras estão enfrentando o mesmo desafio?

A experiência de empresas brasileiras mostra que a digitalização do monitoramento de água já está presente no setor, embora isso não signifique adoção do modelo de franquias.

A comparação mais relevante está nas tecnologias, na organização operacional e na integração entre dados e equipes.

Copasa: mais de 4 mil unidades monitoradas

Em junho de 2026, a Copasa divulgou resultados do projeto Copasa 4.0.

Segundo a companhia, a iniciativa utiliza dispositivos de Internet das Coisas (IoT) para acompanhar informações de reservatórios, poços, estações de tratamento de água, estações de tratamento de esgoto e redes.

A empresa informou que o sistema já monitorava mais de 4 mil unidades operacionais, abrangendo instalações em centenas de municípios mineiros.

Entre as funcionalidades divulgadas estão o acompanhamento de parâmetros relacionados à qualidade da água, incluindo cloro, e a identificação de problemas operacionais.

O projeto também envolve pesquisas com a Universidade Federal de Minas Gerais para desenvolvimento de sensores e algoritmos.

A principal lição é que o valor do monitoramento depende da integração com a rotina operacional.

Sensores não reduzem automaticamente o tempo de solução dos problemas. Eles precisam gerar alertas úteis, direcionar equipes e apoiar decisões técnicas.

A comunicação institucional da Copasa descreve benefícios operacionais, mas não apresenta, nessa publicação, uma avaliação financeira detalhada que permita calcular o retorno total dos investimentos.

Sanepar: padronização antes da expansão tecnológica

A Sanepar oferece outro exemplo relevante.

Seu Manual de Projetos de Saneamento, no módulo de diretrizes para definição do nível de automação, estabelece orientações para utilização de analisadores de processo.

O documento contempla variáveis como turbidez, pH, cloro e outras medições utilizadas no controle de tratamento.

Também apresenta orientações para integração de equipamentos, transmissão de dados e padronização entre fornecedores.

Um ponto especialmente importante é a recomendação de evitar estruturas separadas de comunicação para cada fabricante, priorizando a integração com os sistemas da companhia.

Além disso, o manual condiciona a aplicação de determinados analisadores à definição dos procedimentos de operação e manutenção e à justificativa técnica e econômica.

Essas diretrizes representam critérios de projeto, não resultados operacionais quantificados de uma implantação específica.

A lição é objetiva: a padronização tecnológica precisa acompanhar a expansão da automação.

Uma companhia que instala equipamentos incompatíveis entre si pode aumentar custos de integração, treinamento e manutenção.

Embasa: testes e validação antes da contratação em escala

A Embasa também apresenta iniciativas relacionadas à avaliação de tecnologias.

Em sua relação oficial de manifestações de interesse e provas de conceito, constam propostas de avaliação de sistemas de dosagem digital inteligente, telemetria e ferramentas de monitoramento operacional.

Em abril de 2025, por exemplo, foi registrada uma proposta de prova de conceito voltada à substituição de bombas dosadoras convencionais por um sistema digital inteligente.

O registro demonstra uma iniciativa de avaliação tecnológica, mas não comprova implantação definitiva nem resultados econômicos alcançados.

A experiência oferece um aprendizado relevante para o monitoramento de água: antes de ampliar uma tecnologia, é necessário comprovar sua aderência às condições reais de operação.

Isso inclui qualidade da água bruta, infraestrutura existente, capacidade de manutenção, qualificação das equipes e integração com sistemas corporativos.

O que o mundo está fazendo?

Os modelos internacionais permitem identificar dois caminhos complementares: operadores que digitalizam o controle de qualidade e fornecedores especializados que oferecem monitoramento como serviço.

Singapura: sensores e laboratório trabalhando juntos

A PUB, agência nacional de águas de Singapura, mantém uma estrutura integrada de controle da qualidade da água.

Segundo informações oficiais, o programa realiza aproximadamente 500 mil testes laboratoriais por ano, abrangendo parâmetros físicos, químicos, microbiológicos e radiológicos.

Paralelamente, sensores acompanham a qualidade em tempo real em etapas do tratamento e em reservatórios de serviço.

Esse modelo demonstra que o monitoramento contínuo e a análise laboratorial possuem funções complementares.

Os sensores permitem identificar rapidamente alterações em parâmetros operacionais. Os laboratórios fornecem análises necessárias à verificação da qualidade da água, inclusive de parâmetros que não podem ser medidos de maneira simples e contínua.

A PUB também reconhece um problema técnico frequentemente subestimado: o desvio gradual de leitura dos sensores.

Em um desafio de inovação, a agência destacou que analisadores de pH e cloro podem apresentar alterações de precisão antes da próxima calibração programada.

A instituição buscou soluções capazes de detectar essas anomalias utilizando correlação de dados, modelos estatísticos e outras técnicas.

A lição para o Brasil é direta: quanto maior a dependência da automação, maior deve ser o controle sobre a confiabilidade das medições.

Ecolab: monitoramento contínuo associado a serviços

No segmento industrial, a Ecolab, por meio da Nalco Water, oferece soluções de monitoramento e gestão de sistemas de água.

A tecnologia 3D TRASAR combina sensores, conectividade, controle operacional, acompanhamento remoto e suporte especializado.

Entre suas aplicações estão sistemas industriais de resfriamento, nos quais a qualidade da água influencia corrosão, incrustações, consumo de produtos químicos e desempenho dos equipamentos.

A empresa informa que determinados serviços contam com monitoramento e gerenciamento de alarmes durante 24 horas por dia.

Esse exemplo tem semelhanças com o conceito apresentado pela Biosolvit: tecnologia conectada, suporte especializado e serviços contínuos.

Entretanto, não se trata do mesmo modelo comercial de franquias.

Além disso, benefícios anunciados pelo fornecedor devem ser diferenciados de ganhos financeiros independentemente auditados em clientes específicos.

O benchmarking mostra que existe espaço para modelos de serviço contínuo, mas o desempenho depende da aplicação e da qualidade da execução.

Monitoramento de água: o que diz a regulação brasileira?

No Brasil, qualquer proposta de monitoramento da qualidade da água destinada ao consumo humano precisa ser analisada à luz das exigências sanitárias.

A Portaria GM/MS nº 888/2021, que alterou o Anexo XX da Portaria de Consolidação nº 5/2017, estabelece procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água e padrões de potabilidade. O texto também recebeu alterações posteriores, como a Portaria GM/MS nº 2.472/2021.

A regulamentação distingue duas responsabilidades fundamentais.

O controle da qualidade é exercido pelos responsáveis pelos sistemas ou soluções coletivas de abastecimento.

A vigilância da qualidade é desempenhada pelas autoridades de saúde pública.

O Ministério da Saúde também estabelece planos de amostragem e exigências específicas para diferentes parâmetros.

Portanto, um contrato privado de monitoramento não elimina as responsabilidades sanitárias aplicáveis.

Da mesma forma, um relatório produzido automaticamente por sensores não substitui todas as análises exigidas pelas normas.

O Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano, o Sisagua, reúne informações de controle e vigilância e possui mecanismos de integração por serviços digitais.

Isso abre oportunidades para automatizar a organização e transmissão de informações, desde que sejam preservados os requisitos oficiais de coleta, análise, consistência e registro.

Outra distinção importante envolve os efluentes.

Água para consumo humano, água industrial, água de reúso e efluentes tratados possuem finalidades e exigências diferentes.

Em setembro de 2026, o Conselho Nacional do Meio Ambiente aprovou atualizações relacionadas ao lançamento de efluentes, incluindo proposta de revogação da Resolução Conama nº 430/2011, além de diretrizes para reúso não potável.

A aplicação desses instrumentos exige verificação dos textos oficialmente publicados, da vigência e das regras ambientais específicas de cada empreendimento.

No caso das franquias, também deve ser considerada a Lei nº 13.966/2019, que disciplina o sistema de franquia empresarial.

Essa lei regulamenta a relação entre franqueador e franqueado, mas não substitui normas sanitárias, ambientais, técnicas ou contratuais aplicáveis aos serviços de saneamento.

O que muda para as empresas de saneamento?

A expansão de fornecedores capazes de oferecer monitoramento de água por contratos continuados pode ampliar as alternativas de contratação de serviços especializados.

Entretanto, seu efeito dependerá das características de cada sistema.

Na operação, a principal possibilidade é melhorar a identificação de desvios e reduzir o intervalo entre a ocorrência de um problema e a atuação da equipe.

Na gestão financeira, o modelo permite comparar a compra tradicional de equipamentos com soluções que incluem manutenção, insumos e suporte durante o contrato.

Na gestão comercial, indicadores de qualidade mais bem estruturados podem subsidiar respostas a reclamações relacionadas à aparência, odor ou qualidade da água, respeitando os resultados oficiais de controle.

Na regulação, a disponibilidade de dados históricos confiáveis pode facilitar auditorias e a demonstração do cumprimento de obrigações contratuais e sanitárias.

Na gestão de pessoas, cresce a necessidade de profissionais capazes de interpretar dados e identificar quando um resultado exige intervenção em campo.

O ponto central é que a automação não elimina o trabalho técnico. Ela modifica suas competências e prioridades.

Como aplicar: um piloto de monitoramento com critérios claros

Para uma companhia interessada em avaliar soluções semelhantes, a adoção pode começar com um projeto-piloto em unidades onde exista um problema operacional bem identificado.

Um exemplo hipotético seria selecionar um sistema de abastecimento que apresente variações recorrentes de qualidade da água, dificuldades de acompanhamento remoto ou custos elevados com deslocamentos técnicos.

A avaliação poderia seguir seis etapas:

  1. Diagnosticar o problema: identificar quais parâmetros apresentam maior variabilidade, a frequência das ocorrências e os impactos operacionais.
  2. Definir o resultado esperado: estabelecer metas mensuráveis, como disponibilidade dos sensores, tempo de detecção e tempo de resposta.
  3. Validar a tecnologia: comparar leituras dos equipamentos com métodos de referência e analisar a estabilidade das medições.
  4. Testar a integração: verificar compatibilidade com sistemas supervisórios, bases históricas e ferramentas corporativas.
  5. Medir custos e resultados: registrar despesas de instalação, manutenção, comunicação, insumos e equipes.
  6. Decidir sobre a expansão: ampliar a solução somente depois de comprovar viabilidade técnica, segurança e benefício econômico.

O projeto também deve definir responsáveis por calibração, tratamento de alarmes, validação de resultados e comunicação de não conformidades.

Sem esses elementos, o monitoramento pode gerar grande volume de dados sem melhoria efetiva no desempenho.

Os riscos que gestores não podem ignorar

O crescimento de empresas especializadas em monitoramento representa uma oportunidade, mas introduz riscos que precisam ser tratados desde a contratação.

Dependência tecnológica

Sistemas que utilizam plataformas proprietárias podem dificultar a migração para outros fornecedores.

Contratos devem estabelecer requisitos de interoperabilidade, acesso aos registros históricos e condições de continuidade do serviço.

Falha de sensores e comunicação

Sensores exigem calibração, limpeza e manutenção. Falhas de energia ou conectividade podem interromper o envio de informações.

É necessário prever procedimentos de contingência, especialmente quando a tecnologia participa do controle automático de dosagens.

Segurança digital

A conexão entre equipamentos de campo e plataformas remotas aumenta a necessidade de proteger acessos e comandos operacionais.

A separação entre ambientes de tecnologia da informação e de automação industrial, o controle de permissões e os registros de alterações são medidas relevantes.

Responsabilidade contratual

A atuação conjunta de franqueador, franqueado e cliente exige definir responsabilidades por manutenção, resultados analíticos, produtos químicos, falhas de equipamentos e resposta a emergências.

Nas contratações realizadas por companhias públicas, também deverão ser observadas as normas de contratação e governança aplicáveis.

Projeções financeiras sem histórico consolidado

Os faturamentos projetados pela Biosolvit ainda precisam ser confrontados com resultados reais das franquias.

A expansão comercial não deve ser confundida com rentabilidade demonstrada.

Para os investidores, a avaliação deve considerar capital de giro, concentração de clientes, inadimplência, necessidade de equipe especializada e duração dos contratos.

Uma oportunidade pouco percebida: transformar qualidade em informação gerencial

Uma das possibilidades mais interessantes do monitoramento de água está na conexão entre dados técnicos e decisões gerenciais.

Muitas companhias ainda analisam informações de qualidade, manutenção, reclamações, consumo de produtos químicos e custos operacionais em sistemas diferentes.

Quando esses dados podem ser relacionados, surgem novas formas de identificar problemas.

Uma elevação persistente no consumo de determinado produto químico, por exemplo, pode ser analisada em conjunto com a qualidade da água bruta, a vazão tratada e as condições dos equipamentos.

Da mesma maneira, reclamações recorrentes de consumidores podem ser comparadas com registros de manobras de rede, intervenções operacionais e medições de qualidade em pontos próximos.

Essas correlações não comprovam automaticamente uma relação de causa e efeito, mas ajudam a direcionar investigações.

A oportunidade está em transformar informações dispersas em diagnósticos mais precisos.

Para isso, é fundamental que gestores comerciais, operadores, engenheiros, profissionais de laboratório e equipes de tecnologia trabalhem com dados consistentes e critérios compartilhados.

Lições para quem trabalha no saneamento

A iniciativa da Biosolvit permite extrair cinco aprendizados profissionais.

1. A tecnologia precisa resolver um problema real.

Monitorar variáveis sem definir o que fazer diante de um desvio gera dados, mas não necessariamente produz ganhos operacionais.

2. A manutenção deve fazer parte do planejamento desde o início.

Sensores e analisadores exigem cuidados contínuos. O custo de manter a tecnologia funcionando precisa integrar a avaliação econômica.

3. O atendimento regional pode representar uma vantagem operacional.

A disponibilidade de profissionais próximos das instalações pode reduzir deslocamentos e facilitar intervenções, desde que haja capacitação e suporte adequados.

4. A padronização dos dados protege investimentos.

A possibilidade de integrar diferentes sistemas e fornecedores evita dependência excessiva e facilita futuras modernizações.

5. O conhecimento técnico continua sendo indispensável.

Algoritmos podem identificar tendências, mas é a competência profissional que permite interpretar situações complexas, avaliar riscos, validar medições e executar ações corretivas seguras.

Esses conhecimentos serão cada vez mais relevantes para técnicos, operadores, engenheiros, gestores e profissionais que atuam com inovação no saneamento.

O futuro do monitoramento de água será decidido pelo desempenho

A meta da Biosolvit de alcançar 15 franquias até o fim de 2027 representa uma aposta empresarial na expansão de serviços ambientais especializados.

O modelo busca combinar conhecimento regional, tecnologias digitais e contratos de prestação continuada.

Entretanto, seu desempenho ainda dependerá da implantação efetiva das unidades, da conquista de contratos, da manutenção dos equipamentos e da comprovação de resultados técnicos e financeiros.

As experiências da Copasa, da Sanepar, da PUB de Singapura e de fornecedores especializados demonstram que o monitoramento contínuo já possui aplicações relevantes no saneamento e na indústria.

A principal novidade está na possibilidade de ampliar a capilaridade comercial e operacional dessas soluções por meio de uma rede de parceiros regionais.

Para as companhias de saneamento, a decisão estratégica não deve ser simplesmente comprar sensores ou contratar plataformas de inteligência artificial. Deve ser identificar onde essas tecnologias conseguem elevar a segurança, a confiabilidade e a eficiência dos serviços.

O avanço do monitoramento de água também evidencia uma transformação profissional.

O operador que antes dependia exclusivamente de medições pontuais passa a trabalhar com séries históricas e alertas contínuos. O gestor ganha instrumentos adicionais para avaliar desempenho. O profissional de manutenção precisa dominar equipamentos conectados. E as equipes de laboratório continuam essenciais para validar os resultados e assegurar a qualidade.

A maior oportunidade, portanto, não está apenas em um novo modelo de franquia.

Está na capacidade de transformar monitoramento em ações corretivas, dados em decisões e tecnologia em desempenho comprovado.

No saneamento do futuro, o diferencial não será simplesmente medir mais. Será utilizar melhor cada informação para entregar água com qualidade, segurança e eficiência.


Fontes e referências

1. Exame — Negócios

Ele transformou resíduos em um negócio de R$ 72 milhões. Agora quer monitorar água com franquias.

Autora: Isabela Rovaroto. Publicado em 19 de outubro de 2026.

https://exame.com/negocios/ele-transformou-residuos-em-um-negocio-de-r-72-milhoes-agora-quer-monitorar-agua-com-franquias/

2. Revista TAE / Biosolvit

Biosolvit lança modelo de Biofranquia para expandir saneamento inteligente e deep tech.

Comunicado empresarial distribuído por assessoria de imprensa. Publicado em 23 de outubro de 2026.

https://www.revistatae.com.br/Noticia/94702/biosolvit-lanca-modelo-de-biofranquia-para-expandir-saneamento-inteli

3. Copasa — Companhia de Saneamento de Minas Gerais

Tecnologia 4.0 da Copasa é aliada para acabar com demora em consertos e evitar falta d’água.

Publicado em 18 de junho de 2026.

4. Sanepar — Companhia de Saneamento do Paraná

Manual de Projetos de Saneamento — Módulo 15: Diretrizes para Definição do Nível de Automação.

Versão 2023.

https://www.sanepar.com.br/sites/default/files/import/files/informacoes-tecnicas/mps-versao-2023/modulo_15_-_diretrizes_para_definicao_do_nivel_de_automacao.pdf

5. Embasa — Empresa Baiana de Águas e Saneamento

Ações realizadas em anos anteriores — Manifestações de Interesse Privado e Provas de Conceito.

Registros de 2023 a 2025.

https://www.embasa.ba.gov.br/w/a%C3%A7%C3%B5es-realizadas-anos-anteriores

6. PUB — Singapore’s National Water Agency

Water Quality — Water Quality Monitoring.

Página institucional consultada em outubro de 2026.

https://www.pub.gov.sg/Public/WaterLoop/Water-Quality

7. PUB — Singapore’s National Water Agency

Sensor Data Integrity Monitoring — Global Innovation Challenge.

Desafio técnico de identificação de erros e desvios em sensores.

https://www.pub.gov.sg/Industry/Events%20and%20Programmes/Global%20Innovation%20Challenge/Challenges/2020/Sensor%20Data%20Integrity%20Monitoring

8. Ecolab / Nalco Water

Tecnologia 3D TRASAR — Sistema avançado de gestão de águas.

Informações técnicas institucionais sobre monitoramento remoto, automação e suporte operacional.

https://pt-br.ecolab.com/nalco-water/offerings/3d-trasar

9. Ministério da Saúde

Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021.

Procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e padrão de potabilidade.

https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2021/prt0888_24_05_2021_rep.html

10. Ministério da Saúde — Vigiagua

Monitoramento da Qualidade da Água para Consumo Humano.

Página técnica institucional.

https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/saude-ambiental/vigiagua/monitoramento-da-qualidade-da-agua

11. Ministério da Saúde — Sisagua

Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano.

Página institucional sobre cadastro, controle, vigilância e integração de dados.

https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/saude-ambiental/vigiagua/sisagua/sisagua/

12. Organização Mundial da Saúde — OMS

Guidelines for Drinking-water Quality: Fourth Edition Incorporating the First, Second and Third Addenda.

Publicado em 17 de junho de 2026.

https://www.who.int/publications/i/item/9789240121225

13. Organização Mundial da Saúde — OMS

Water Safety Plan Manual: Step-by-step Risk Management for Drinking-water Suppliers, Second Edition.

Publicado em 1º de março de 2023.

https://www.who.int/publications/i/item/9789240067691

14. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima

Conama aprova normas sobre reuso de água, aquicultura e lançamento de efluentes.

Publicado em 11 de setembro de 2026.

https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias-defeso-eleitoral/conama-aprova-normas-sobre-reuso-de-agua-aquicultura-e-lancamento-de-efluentes

15. Presidência da República — Legislação Federal

Lei nº 13.966, de 26 de dezembro de 2019.

Dispõe sobre o sistema de franquia empresarial.

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/l13966.htm