A resposta mais importante para quem compara salários no saneamento é menos óbvia do que parece: não existe um vencedor absoluto entre companhias estatais e empresas privadas. Quando funções realmente equivalentes são colocadas lado a lado, surge um desenho bastante claro. Em atividades operacionais e técnicas, algumas companhias sob controle público apresentam remunerações e estruturas de carreira muito competitivas. Entretanto, conforme aumenta a especialização e, principalmente, a responsabilidade de gestão, as concessionárias privadas passam a apresentar tetos salariais significativamente maiores em várias funções.
A pesquisa aprofundada também exige uma correção de uma interpretação simplista: não seria tecnicamente adequado afirmar que “as estatais sempre pagam mais na operação” ou que “as privadas sempre pagam mais para engenheiros”. Há forte influência da região, do tempo de empresa, do turno, da especialidade, do porte da operação, da remuneração variável e do próprio desenho do cargo.
Por isso, a fotografia mais útil para o profissional do saneamento não é apenas descobrir onde existe o maior salário-base. O ponto central é entender como a remuneração evolui durante a carreira.
Por que os salários no saneamento ganharam ainda mais importância
O setor atravessa uma das maiores transformações de sua história. O Marco Legal estabelece metas de atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. Paralelamente, novos contratos, concessões, PPPs, programas públicos e grandes planos de investimento estão ampliando a demanda por capacidade técnica e gerencial.
Além disso, estudo publicado pelo Instituto Trata Brasil estimou que ainda seriam necessários aproximadamente R$ 451,1 bilhões para a universalização, equivalentes a cerca de R$ 45,1 bilhões anuais no período analisado. O montante é muito superior à média histórica recente de investimentos. Somente o Novo PAC direcionou R$ 22,1 bilhões ao saneamento em 2025 e acumulou R$ 61 bilhões em seleções desde 2023.
Consequentemente, cresce a necessidade de operadores, técnicos, engenheiros, especialistas em perdas, automação, regulação, planejamento, projetos, gestão comercial, experiência do cliente, dados e liderança. Entretanto, maior investimento não significa aumento automático dos salários no saneamento. Significa, sobretudo, maior competição por determinadas competências.
É justamente nesse ponto que as diferenças entre os modelos empresariais ficam mais interessantes.
Como comparar salários no saneamento corretamente
Uma comparação salarial séria precisa separar três tipos de informação.
Primeiramente, existem salários admissionais oficiais, publicados em concursos e processos públicos. Esses valores possuem elevado grau de confiabilidade, porém mostram a porta de entrada da carreira e não necessariamente a remuneração de empregados experientes.
Em segundo lugar, há planos de cargos, carreiras, remuneração e acordos coletivos, que demonstram como determinada companhia estrutura a evolução profissional.
Por fim, existem plataformas de mercado, como Glassdoor e Indeed. Elas são úteis porque mostram valores reportados por empregados, ex-empregados e anúncios de vagas. Contudo, precisam ser interpretadas com cautela. Algumas apresentam remuneração total anual, enquanto outras informam salário mensal. Além disso, determinadas amostras possuem dezenas de registros e outras apenas dois ou três.
Portanto, converter uma faixa anual para mensal dividindo-a por 12 serve apenas como equivalência comparativa, não como confirmação do salário-base mensal pago pela companhia.
Estatais mostram força já na remuneração de entrada
Do lado das empresas controladas pelo poder público, documentos oficiais ajudam a entender por que várias companhias permanecem competitivas.
No concurso da Sanepar de 2024, por exemplo, o salário inicial divulgado era de R$ 2.256,24 para nível médio, R$ 3.923,90 para nível técnico e entre R$ 4.410,85 e R$ 6.902,16 para nível profissional. Para determinadas categorias de engenharia enquadradas na legislação profissional, a companhia informou observar a remuneração mínima legal correspondente.
Já no concurso de 2022 da Embasa, o salário admissional divulgado para Técnico Operacional era de R$ 3.195,07. Para funções como Analista de Gestão e diversas posições de nível superior, inclusive engenharias, o valor informado chegava a R$ 8.390,89.
Esses exemplos mostram um aspecto importante dos salários no saneamento: em companhias estatais estruturadas, algumas carreiras técnicas e profissionais começam em patamares que já podem ser relevantes frente ao mercado privado.
Entretanto, o salário de entrada explica apenas uma parte da história.
Operadores: a comparação é mais complexa do que parece
Operadores de ETA, ETE e sistemas de água e esgoto exercem uma das funções mais críticas do setor. É uma atividade diretamente relacionada à segurança operacional, à qualidade da água, ao atendimento aos padrões de lançamento, à continuidade do abastecimento e à proteção ambiental.
Na Embasa, dados reportados ao Glassdoor em 2026 indicavam remuneração total anual entre aproximadamente R$ 19 mil e R$ 52 mil para o cargo genérico de operador. Isso equivaleria, numa divisão simples por 12, a cerca de R$ 1,6 mil a R$ 4,3 mil mensais. Na Cesan, operador de ETA aparecia entre R$ 23 mil e R$ 66 mil anuais, equivalentes a aproximadamente R$ 1,9 mil a R$ 5,5 mil.
Já a Aegea apresentava para Operador de ETE uma faixa anual reportada de aproximadamente R$ 16 mil a R$ 21 mil. Na BRK, o Indeed apontava cerca de R$ 1.762 mensais para operador de estação de tratamento de água, enquanto registros do Glassdoor para determinadas localidades mostravam valores na casa de R$ 2 mil a R$ 3 mil mensais. Por outro lado, a Iguá apresentava no Indeed aproximadamente R$ 2.863 mensais para Operador de Sistema de Tratamento de Esgoto.
Assim, a análise aprofundada dos salários no saneamento mostra que as estatais podem apresentar tetos operacionais elevados, porém não existe vantagem universal. Escala, turno, adicional, região e complexidade da instalação alteram bastante a remuneração.
Técnicos: aqui as estatais ficam especialmente competitivas
Nas funções técnicas, o resultado é mais consistente.
Dados reportados para Técnico Operacional da Sanepar variavam de R$ 26 mil a R$ 58 mil anuais, ou cerca de R$ 2,2 mil a R$ 4,8 mil na equivalência mensal. Na Embasa, Técnico Operacional aparecia entre R$ 33 mil e R$ 59 mil anuais, aproximadamente R$ 2,8 mil a R$ 4,9 mil por mês. Na Cesan, Técnico de Saneamento aparecia entre R$ 29 mil e R$ 46 mil anuais.
Além disso, o concurso oficial da Sanepar estabeleceu R$ 3.923,90 de salário inicial para vagas técnicas em 2024, enquanto o concurso da Embasa havia estabelecido R$ 3.195,07 para Técnico Operacional em 2022.
No setor privado, Técnico de Automação da Iguá aparecia entre R$ 34 mil e R$ 41 mil anuais, aproximadamente R$ 2,8 mil a R$ 3,4 mil mensais. Na BRK, a estimativa do Indeed para técnicos de manutenção mecânica e elétrica estava próxima de R$ 2.150 mensais.
Consequentemente, entre os salários no saneamento analisados, técnicos experientes em algumas companhias estatais encontram tetos particularmente competitivos.
Administrativo: diferenças diminuem
Nas áreas administrativas, comerciais e de suporte, a sobreposição é maior.
Na Embasa, Assistente Administrativo aparecia em 2026 com faixa total anual reportada de R$ 22 mil a R$ 32 mil. Na Sanepar, Auxiliar Administrativo aparecia entre R$ 24 mil e R$ 37 mil. Na Cesan, Assistente Administrativo variava de R$ 18 mil a R$ 42 mil anuais.
Entre as privadas, a Aegea apresentava Assistente Administrativo entre R$ 17 mil e R$ 22 mil anuais; a BRK, entre R$ 22 mil e R$ 30 mil; e a Iguá, entre R$ 24 mil e R$ 28 mil.
Portanto, nesse grupo, dizer apenas “pública paga mais” seria excessivo. Ainda existe alguma vantagem de teto em determinadas estatais da amostra, porém a diferença é muito menos pronunciada.
Analistas e especialistas mudam o comportamento da curva
A análise dos salários no saneamento se torna mais interessante quando aparecem especialização, senioridade e responsabilidade corporativa.
Na Aegea, por exemplo, a categoria Analista apresentava faixa anual de R$ 31 mil a R$ 68 mil. Analista Pleno subia para R$ 47 mil a R$ 79 mil; Analista Sênior, para R$ 73 mil a R$ 115 mil; e Especialista, para R$ 82 mil a R$ 152 mil.
Na BRK, Analista aparecia entre R$ 33 mil e R$ 52 mil anuais. Entretanto, Analista Sênior chegava a R$ 105 mil a R$ 163 mil, enquanto algumas posições de supervisão e coordenação alcançavam valores ainda maiores.
Na Iguá, a faixa reportada para Analista era de R$ 37 mil a R$ 59 mil anuais. Já Especialista aparecia entre R$ 109 mil e R$ 194 mil.
Isso evidencia um fenômeno importante: as empresas privadas ampliam bastante a dispersão salarial à medida que cresce a especialização.
Todavia, isso não significa que especialistas de companhias estatais recebam necessariamente menos. A própria Embasa, por exemplo, já apresentava salário admissional de R$ 8.390,89 para várias funções de analista de nível superior em seu concurso de 2022. Assim, nomenclaturas genéricas como “analista” não devem ser comparadas diretamente sem verificar formação, responsabilidade, senioridade e escopo.
Engenheiros: um dos maiores equilíbrios da comparação
Engenharia é provavelmente o melhor exemplo de como uma conclusão simplificada pode falhar.
Na Sanepar, Engenheiro Civil aparecia no Glassdoor entre R$ 111 mil e R$ 157 mil anuais, equivalentes aproximadamente a R$ 9,3 mil e R$ 13,1 mil por mês. Para o cargo genérico de Engenheiro, a faixa era de R$ 92 mil a R$ 140 mil anuais.
Na Embasa, Engenheiro Civil apresentava faixa muito ampla, de R$ 58 mil a R$ 192 mil anuais.
Entre as privadas, a Aegea apresentava Engenheiro entre R$ 76 mil e R$ 173 mil anuais. Na BRK, o Glassdoor estimava salário-base mensal de aproximadamente R$ 7 mil a R$ 12 mil, com remuneração variável adicional na amostra disponível. Na Iguá, Engenheiro CAPEX aparecia entre R$ 120 mil e R$ 146 mil anuais, aproximadamente R$ 10 mil a R$ 12,2 mil mensais.
Portanto, entre engenheiros, os salários no saneamento são muito mais influenciados pela especialidade, experiência, volume de CAPEX, gestão de contratos, complexidade dos projetos e responsabilidade técnica do que simplesmente pela natureza pública ou privada da companhia.
Coordenação e liderança: onde as privadas abrem o teto
É na liderança que aparece uma das diferenças mais relevantes.
Na Aegea, a faixa anual reportada para Coordenador chegava de R$ 79 mil a R$ 207 mil. Na BRK, a faixa estava em aproximadamente R$ 134 mil a R$ 217 mil. Na Iguá, coordenadores apareciam entre R$ 101 mil e R$ 201 mil anuais.
Na Sanepar, a estimativa disponível para Coordenador era de R$ 7 mil a R$ 12 mil mensais, porém havia somente três salários na amostra e o próprio Glassdoor classificava a confiança como baixa. Portanto, esse dado não permite concluir que toda coordenação de companhia estatal receba menos.
Ainda assim, existe um sinal relevante. As amostras privadas são maiores: 33 salários para coordenador na Aegea, 21 na BRK e 14 na Iguá nos levantamentos consultados. Consequentemente, há evidência mais consistente de que os salários no saneamento privado apresentam tetos elevados em coordenação, gestão e posições corporativas.
Isso faz sentido do ponto de vista organizacional. Empresas privadas frequentemente utilizam remuneração variável, metas, bônus e estruturas salariais mais flexíveis para funções críticas.
Salário-base não mostra quanto o profissional realmente recebe
Uma das maiores armadilhas na comparação dos salários no saneamento é observar somente o valor mensal.
A Sanepar, por exemplo, informou no concurso de 2024 auxílio-alimentação de R$ 1.627,91, PCCR, plano médico e odontológico, previdência complementar e vale-transporte. Além disso, foram citados PPR, abono anual, auxílio-creche, incentivo à educação e outros benefícios sujeitos às respectivas regras.
Por outro lado, as privadas também possuem pacotes robustos. A BRK informou em processos seletivos de 2026 mais de 23 benefícios, incluindo assistência médica e odontológica, vale-refeição ou alimentação, seguro de vida, previdência privada, programas de saúde, licença parental estendida e PLR. Sua política corporativa ainda prevê remuneração variável ligada a desempenho e política de participação nos lucros.
A Iguá informou em processo seletivo de julho de 2026 plano de saúde e odontológico para dependentes, vale-alimentação, seguro de vida, telemedicina e PLR.
Já a Aegea declara que suas faixas salariais são revisitadas anualmente com pesquisas de mercado e que avaliações de performance podem resultar em mérito, realinhamento salarial ou promoção.
Assim, uma oferta de R$ 8 mil em uma companhia pode ser economicamente superior a outra de R$ 9 mil, dependendo de PLR, previdência, alimentação, assistência médica, progressão, adicionais, estabilidade e perspectivas futuras.
Por que estatais e privadas remuneram de formas diferentes
As diferenças estruturais ajudam a explicar os salários no saneamento.
Companhias sob controle público normalmente possuem planos de cargos mais estruturados, acordos coletivos consolidados, critérios formais de progressão e menor liberdade para alterar rapidamente a remuneração individual. Como consequência, profissionais operacionais e técnicos com muitos anos de carreira podem acumular remunerações bastante competitivas.
Em contrapartida, empresas privadas possuem maior flexibilidade para contratar especialistas em condições específicas de mercado, criar cargos corporativos, pagar bônus mais agressivos e diferenciar remuneração por performance ou criticidade da função.
Por isso, os dois modelos podem valorizar competências diferentes em momentos diferentes da carreira.
O que deveria pesar em uma decisão profissional
Para avaliar uma oportunidade, o profissional do saneamento deveria considerar, além do salário-base, a remuneração variável, a progressão prevista, os benefícios, a previdência, a assistência médica, a jornada, os adicionais de turno ou periculosidade quando aplicáveis, a mobilidade geográfica, a responsabilidade técnica, o acesso a grandes projetos e as possibilidades reais de crescimento.
Além disso, funções aparentemente iguais podem esconder responsabilidades muito diferentes. Um coordenador responsável por uma única unidade não possui necessariamente o mesmo escopo de outro que responde por dezenas de municípios, contratos bilionários, grandes equipes ou indicadores regulatórios.
Da mesma maneira, um operador de pequena ETA não possui exatamente a mesma complexidade operacional de um profissional responsável por uma estação de grande porte, altamente automatizada e com operação contínua.
Portanto, comparar somente o nome do cargo é insuficiente.
Afinal, quem paga mais no saneamento?
A pesquisa ampliada permite uma conclusão mais precisa sobre os salários no saneamento.
Nas funções operacionais, algumas estatais apresentam faixas superiores e carreiras maduras, mas existem privadas competitivas e diferenças regionais importantes.
Nas funções técnicas, grandes companhias estatais se mostram particularmente fortes, tanto em salários de ingresso quanto nos tetos reportados.
Nas funções administrativas, há grande sobreposição.
Entre analistas e especialistas, a especialização passa a importar mais do que a natureza societária da empresa.
Na engenharia, o cenário é bastante equilibrado, com posições de alto valor tanto em empresas controladas pelo poder público quanto em grupos privados.
Entretanto, em coordenação, gestão e determinadas posições especializadas, as concessionárias privadas mostram uma capacidade maior de ampliar o teto salarial, principalmente quando remuneração variável e performance entram no pacote.
A principal conclusão, portanto, é que a pergunta “estatal ou privada paga mais?” precisa evoluir.
A pergunta tecnicamente correta é: qual função, qual nível de responsabilidade, qual remuneração total e qual trajetória de carreira?
E há um aspecto ainda mais importante. Independentemente do modelo societário, os profissionais do saneamento administram ativos essenciais, garantem água segura, operam sistemas 24 horas por dia, reduzem perdas, tratam esgoto, atendem milhões de clientes, asseguram conformidade regulatória e transformam investimentos em serviços que impactam diretamente saúde pública e qualidade de vida.
Por isso, discutir salários no saneamento não deveria ser entendido apenas como uma comparação financeira. É também uma discussão sobre atração, retenção e valorização das pessoas responsáveis por executar uma das maiores transformações de infraestrutura que o Brasil ainda precisa realizar.
Fontes
- Ministério das Cidades — Marco Legal do Saneamento. Acessar fonte oficial
- Instituto Trata Brasil — estudo sobre avanços e investimentos necessários à universalização. Acessar estudo
- Sanepar — Concurso Público 2024, salários e benefícios. Acessar Sanepar
- Embasa — Concurso Público 2022 e quadro de remuneração admissional. Acessar Embasa
- Embasa — Tabelas de Cargos e Salários. Acessar Transparência Embasa
- Aegea — Política de remuneração e igualdade salarial. Acessar Aegea
- BRK Ambiental — benefícios e oportunidades profissionais. Acessar BRK Ambiental
- Iguá — Processo seletivo e benefícios em 2026. Acessar Iguá
- Glassdoor — remunerações reportadas de Embasa, Sanepar, Cesan, Aegea, BRK Ambiental e Iguá. Acessar Glassdoor
- Indeed — salários e vagas reportados no setor de saneamento. Acessar Indeed



