A Corsan transformou um problema normalmente tratado como simples infraestrutura predial em uma operação de saneamento escolar em escala: 6.789 instituições de ensino já tiveram suas condições de água e esgoto mapeadas nos 317 municípios gaúchos atendidos pela companhia.
O diagnóstico revelou um ponto especialmente relevante para o setor. Embora 4.676 instituições estejam adequadamente conectadas ao abastecimento de água, outras 2.113 ainda exigem algum tipo de intervenção. No esgoto, 2.959 escolas não estão conectadas à rede da companhia — aproximadamente 43,6% das unidades analisadas. A meta divulgada é conectar metade desse grupo até 2028 e alcançar as 2.959 até 2033. Desde o início do trabalho, no fim de 2024, 289 estabelecimentos já foram ligados à rede de esgoto.
Mas talvez a principal lição da iniciativa não esteja nos números. Está no método: usar dados educacionais, cruzá-los com a infraestrutura de saneamento, realizar diagnóstico técnico individualizado e definir uma solução específica para cada escola.
Para companhias que buscam universalização, esse modelo pode ser muito mais relevante do que parece.
O que a Corsan está fazendo
O projeto começou em outubro de 2024, inicialmente em parceria com a Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul. Em 2025, o trabalho passou a abranger também escolas municipais e privadas. O Censo Escolar foi utilizado como ponto de partida para localizar instituições com problemas relacionados ao abastecimento de água, água potável, esgotamento sanitário ou disponibilidade de banheiros.
Depois da triagem de dados, entra a engenharia.
A solução pode ser relativamente simples, como uma regularização cadastral ou contratual, mas também pode exigir ligação à rede existente, extensão de rede, adequação das instalações internas da escola ou até implantação de sistemas individuais e compactos de tratamento de esgoto.
Essa abordagem é importante porque saneamento escolar não é um problema único.
Uma escola pode ter rede pública passando em frente e continuar usando uma solução individual. Outra pode estar conectada à rede de água, mas apresentar problemas nas instalações internas. Uma terceira pode estar distante de qualquer sistema coletivo e necessitar de solução descentralizada.
A universalização, portanto, começa com diagnóstico.
Um número exige atenção: 2.959 escolas sem ligação à rede
Há uma distinção técnica fundamental.
Dizer que 2.959 escolas mapeadas pela Corsan não estão conectadas à rede de esgoto não significa necessariamente que 2.959 escolas estejam sem qualquer forma de esgotamento sanitário.
Fossas, sistemas individuais e outras soluções podem existir onde a rede pública ainda não está disponível.
O próprio Censo Escolar ajuda a enxergar essa diferença. Em 2025, 58,2% das escolas brasileiras informaram esgotamento pela rede pública, 39,2% utilizavam outras soluções e 2,6% declararam inexistência de esgotamento sanitário. No abastecimento, 78,4% estavam conectadas à rede pública, mas 96,5% declaravam acesso a água potável.
Essa diferenciação é essencial para evitar diagnósticos equivocados.
Para uma companhia de saneamento, existem pelo menos três situações completamente diferentes: escola sem saneamento; escola saneada por solução individual porque não existe rede; e escola localizada diante de uma rede pública disponível, mas ainda não conectada.
É principalmente o terceiro grupo que representa uma oportunidade imediata de converter infraestrutura já disponível em serviço efetivamente utilizado.
Saneamento escolar ganhou novo peso legal
A discussão também mudou de patamar regulatório.
A Lei nº 15.276, sancionada em novembro de 2025, alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional para incluir a garantia de acesso à água potável nas instituições de ensino.
Poucos meses depois, a Lei nº 15.360/2026 estabeleceu entre as condições mínimas das escolas públicas de educação básica o abastecimento de água tratada, o esgotamento sanitário e o manejo de resíduos sólidos, além de banheiros e outras infraestruturas.
Há ainda uma interface direta com o Marco Legal do Saneamento. O artigo 45 da Lei nº 11.445/2007 determina que edificações permanentes urbanas devem ser conectadas às redes públicas de água e esgoto quando disponíveis. Na ausência dessas redes, são admitidas soluções individuais, desde que observadas as normas regulatórias, ambientais, sanitárias e de recursos hídricos.
Para água destinada ao consumo humano, a Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece padrões e procedimentos de controle e vigilância tanto para sistemas públicos quanto para soluções alternativas coletivas e individuais. Água de poço, portanto, não pode ser considerada segura simplesmente porque está disponível: sua potabilidade precisa ser controlada conforme o enquadramento aplicável.
É nesse ponto que o saneamento escolar passa a envolver simultaneamente educação, saneamento, vigilância sanitária, regulação e gestão municipal.
O Brasil avançou, mas o problema ainda não terminou
Os dados nacionais mostram evolução.
Entre 2024 e 2025, o número de escolas públicas ativas brasileiras sem qualquer acesso à água caiu de 2.512 para 1.203. Segundo o UNICEF, aproximadamente 100 mil crianças e adolescentes passaram a ter acesso à água na escola nesse período.
No conjunto de todas as escolas da educação básica, o Inep registrou crescimento daquelas com água potável de 95,3% em 2021 para 96,5% em 2025. Ao mesmo tempo, a proporção de escolas que declaravam inexistência de esgotamento caiu de 4,4% para 2,6%.
O avanço é significativo. Entretanto, os indicadores também mostram por que medir apenas a existência de alguma solução é insuficiente.
Uma escola pode possuir banheiro, água e algum sistema de esgoto e ainda enfrentar problemas de qualidade da água, manutenção, intermitência, capacidade hidráulica ou destinação inadequada dos efluentes.
O saneamento escolar precisa, portanto, evoluir de um indicador de “existe ou não existe” para um indicador de serviço seguro, funcional e sustentável.
Saúde e educação estão diretamente conectadas
O impacto não termina no portão da escola.
O estudo “Futuro em Risco”, produzido pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a EX Ante Consultoria, estimou que 6,6 milhões de crianças de até seis anos tiveram afastamentos de atividades como creche, escola e atividades sociais associados a problemas relacionados à falta de saneamento. O estudo também estimou atraso médio de 1,8 ano de escolaridade, aos 19 anos, entre jovens privados do acesso adequado ao saneamento.
Em outro levantamento, o Instituto identificou mais de 100 mil internações de crianças de zero a nove anos por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado em 2024 — cerca de 70 mil entre crianças de zero a quatro anos e mais de 30 mil entre cinco e nove anos.
Esses números não significam que uma ligação de água ou esgoto isoladamente resolverá todos os problemas educacionais. A relação envolve renda, habitação, alimentação, acesso à saúde e inúmeros outros determinantes.
Mas demonstram por que saneamento escolar precisa ser tratado como infraestrutura educacional e de saúde pública, e não somente como obra hidráulica.
O caso de Cuiabá mostra onde está um dos gargalos
Há um benchmarking brasileiro particularmente próximo ao modelo gaúcho.
Em julho de 2026, a Águas Cuiabá, concessionária do grupo Iguá, anunciou uma parceria com a prefeitura para executar gratuitamente as ligações intradomiciliares de esgoto de três unidades educacionais. Segundo a empresa, as intervenções beneficiam diretamente 1.144 crianças.
O caso traz uma lição importante.
Ter rede disponível não significa ter cliente conectado.
Entre a rede pública instalada na rua e o esgoto efetivamente chegando à estação de tratamento pode existir uma barreira técnica e financeira dentro do próprio imóvel: caixas, tubulações, declividades, separação de águas pluviais, adequações sanitárias e recursos para executar a obra.
Em escolas públicas, isso ainda adiciona interfaces administrativas entre concessionária, prefeitura, secretaria de Educação, direção escolar, engenharia e orçamento público.
A experiência de Cuiabá e o diagnóstico da Corsan indicam que políticas de universalização precisam acompanhar não apenas quilômetros de rede construídos, mas também ligações efetivamente ativadas.
Quando a rede não chega, a solução precisa mudar
Outro aprendizado vem das escolas rurais, ribeirinhas e indígenas.
Em 2025, iniciativas apoiadas pelo UNICEF beneficiaram 2.600 estudantes de 25 escolas rurais de Barcarena, no Pará, com intervenções que incluíram captação de água da chuva, cloração, estruturas de lavagem das mãos, banheiros e sistemas de esgoto. Em Manaus, melhorias de WASH — sigla internacional para água, saneamento e higiene — alcançaram mais de 2.400 estudantes de 43 escolas ribeirinhas. Em território Munduruku, oito escolas receberam intervenções que incluíram bombeamento solar e sistemas de filtragem.
Esse benchmarking ajuda a entender um aspecto do projeto gaúcho.
Extensão de rede não pode ser a resposta automática para todo estabelecimento.
Dependendo de densidade, distância, topografia, disponibilidade hídrica e condições ambientais, uma solução descentralizada pode ser técnica e economicamente mais racional.
O desafio passa a ser garantir projeto adequado, controle de qualidade, operação, manutenção e definição clara de responsabilidades.
O que o mundo ensina sobre saneamento escolar
O problema está longe de ser exclusivamente brasileiro.
Os dados globais mais recentes consolidados pelo Programa Conjunto de Monitoramento da OMS e do UNICEF mostram que, em 2023, 447 milhões de crianças frequentavam escolas sem serviço básico de água potável, 427 milhões sem serviço básico de saneamento e 646 milhões sem serviço básico de higiene.
A Índia oferece uma experiência interessante de escala.
O programa Jal Jeevan Mission e iniciativas anteriores de WASH nas escolas levaram água encanada a praticamente todas as escolas e pré-escolas do país segundo informações divulgadas pelo UNICEF referentes a 2022. Paralelamente, o modelo indiano desenvolveu sistemas de avaliação que não verificam apenas a presença da infraestrutura, mas funcionalidade, higiene, manutenção, instalações para meninas e práticas de uso.
Esse detalhe muda completamente a lógica de gestão.
Instalar não é o mesmo que prestar um serviço adequado.
Uma torneira quebrada, um reservatório contaminado, um banheiro interditado ou uma estação compacta abandonada podem transformar um investimento concluído em benefício praticamente inexistente.
O que muda para as companhias de saneamento
A iniciativa da Corsan pode ser vista como um laboratório de micro-universalização.
Em vez de olhar apenas o indicador municipal agregado, a empresa desce para o nível do imóvel, identifica cada estabelecimento e pergunta: há rede disponível? Há ligação? Há água potável? O sistema interno é adequado? Existe capacidade de atendimento? É necessário prolongamento? A solução coletiva é realmente a melhor alternativa?
Para a área operacional, isso gera uma carteira objetiva de obras e serviços.
Para a engenharia, permite diferenciar extensão de rede, ligação predial e solução individual.
Para a área comercial, traz regularização cadastral, ativação de novas economias e maior utilização de infraestrutura já instalada. O eventual impacto sobre faturamento dependerá das regras tarifárias, contratos e características de cada unidade.
Para a área regulatória, melhora a rastreabilidade entre disponibilidade de rede e efetiva conexão.
E para as equipes socioambientais, transforma a própria escola em espaço permanente de educação sobre uso responsável da água, descarte de resíduos, redes de esgoto e proteção dos mananciais.
O que gestores devem observar
Um programa de saneamento escolar bem estruturado tende a funcionar melhor quando acompanha cinco dimensões simultaneamente:
- Disponibilidade: existe rede de água ou esgoto próxima à escola?
- Conexão: o imóvel está efetivamente interligado e com cadastro regular?
- Qualidade: a água atende aos padrões de potabilidade e o esgoto tem destinação adequada?
- Funcionalidade: reservatórios, banheiros, instalações internas e sistemas descentralizados funcionam continuamente?
- Sustentabilidade: estão definidos responsável, orçamento, manutenção, monitoramento e resposta a falhas?
Esse painel é mais poderoso do que simplesmente perguntar quantas escolas “possuem saneamento”.
O que pode dar errado
O primeiro risco é confiar exclusivamente em bases declaratórias.
O Censo Escolar é um instrumento essencial, mas o próprio Inep informa que suas informações são declaradas pelas instituições e redes de ensino. Por isso, utilizar o banco como ferramenta de triagem e depois realizar validação técnica em campo, como ocorre no modelo relatado pela Corsan, é uma prática particularmente importante.
Outro risco é confundir rede disponível com serviço entregue.
Também é possível executar uma ligação externa e encontrar instalações internas inadequadas, ou implantar uma solução compacta sem estabelecer quem realizará manutenção e controle operacional.
Há ainda um ponto estratégico: obras precisam considerar capacidade hidráulica e de tratamento. Conectar rapidamente grandes consumidores institucionais sem avaliar redes, elevatórias e estações pode apenas deslocar o gargalo para outra parte do sistema.
A oportunidade pouco percebida
Escolas podem funcionar como clientes prioritários na estratégia de universalização.
A prioridade não decorre apenas do volume consumido. Uma intervenção em uma escola reúne impacto sanitário, educacional, ambiental e reputacional em um único ponto.
Além disso, crianças e adolescentes podem atuar como multiplicadores.
A própria Corsan desenvolve ações como Portas Abertas, Saúde Nota 10 e Sanear é Viver, levando estudantes a conhecer sistemas de tratamento e abordando temas como consumo responsável, esgoto e preservação ambiental.
Assim, a conexão física pode se transformar também em relacionamento com a comunidade.
Para companhias que enfrentam resistência à ligação ao esgoto, descarte indevido de resíduos ou baixa percepção de valor do saneamento, essa dimensão educativa merece atenção.
Lições para quem trabalha no saneamento
A principal lição do caso gaúcho é que universalização pode ser gerenciada como uma carteira de casos concretos.
É possível imaginar a mesma metodologia aplicada a unidades de saúde, creches, equipamentos públicos, conjuntos habitacionais, grandes consumidores e comunidades vulneráveis.
Primeiro vêm os dados. Depois, a segmentação. Em seguida, diagnóstico técnico e comercial. Por fim, uma solução específica e um acompanhamento até a efetiva entrada em operação.
O profissional de saneamento passa, nesse modelo, de executor de solicitações para gestor ativo da universalização.
Isso exige conhecimento de redes e ramais, instalações prediais, qualidade da água, regulação, cadastro comercial, contratos, planejamento de investimentos, relacionamento institucional e trabalho socioambiental.
A tecnologia ajuda. Mas o resultado depende da capacidade das equipes de transformar dados em prioridades e prioridades em ligações efetivamente funcionando.
Conclusão
O projeto da Corsan mostra que saneamento escolar pode deixar de ser uma agenda fragmentada entre escolas, municípios e companhias e passar a ser tratado como programa estruturado de universalização.
Mapear 6.789 instituições e descobrir que aproximadamente 43,6% ainda não estão conectadas à rede de esgoto cria um problema visível — e, justamente por isso, gerenciável.
O caminho mais promissor não parece ser simplesmente “construir redes”. É descobrir onde a rede existe, por que a ligação não ocorreu, quais adequações faltam, onde uma extensão é justificável e onde uma solução descentralizada é tecnicamente superior.
A experiência de Cuiabá mostra a importância das instalações internas. Projetos apoiados pelo UNICEF demonstram alternativas para áreas onde redes convencionais não são viáveis. E a experiência internacional reforça que infraestrutura sem manutenção e funcionalidade não representa necessariamente serviço adequado.
Para o futuro da gestão do saneamento, essa talvez seja a maior contribuição do caso: universalização não acontece quando a tubulação passa diante do imóvel. Acontece quando o serviço chega, funciona, é seguro e permanece funcionando.
Fontes e referências
GAZ — Gazeta do Sul
“Corsan quer ampliar acesso a água potável e esgoto em escolas gaúchas”
14 de setembro de 2026.
Acessar a reportagem
Inep — Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
“Censo Escolar da Educação Básica 2025 — apresentação dos resultados”
2026.
Acessar os resultados do Censo Escolar 2025
UNICEF Brasil
“Dia Mundial da Água: Brasil reduz pela metade o número de escolas sem acesso a água”
19 de março de 2026.
Acessar publicação
Presidência da República — Casa Civil
Lei nº 15.276, de 28 de novembro de 2025 — garantia de acesso a água potável nas instituições de ensino.
Acessar a Lei nº 15.276/2025
Presidência da República — Casa Civil
Lei nº 15.360, de 25 de março de 2026 — condições mínimas das escolas públicas de educação básica.
Acessar a Lei nº 15.360/2026
Presidência da República — Casa Civil
Lei nº 11.445/2007 — Diretrizes Nacionais para o Saneamento Básico, texto compilado.
Acessar a Lei nº 11.445/2007
Ministério da Saúde
Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021 — procedimentos de controle, vigilância e padrão de potabilidade da água.
Acessar a Portaria GM/MS nº 888/2021
Instituto Trata Brasil / EX Ante Consultoria
“Futuro em risco: os impactos da falta de saneamento para grávidas, crianças e adolescentes”
Outubro de 2024.
Acessar o estudo completo
Instituto Trata Brasil
“Mais de 100 mil crianças de 0 a 9 anos foram internadas pela precariedade do saneamento”
2025.
Acessar publicação
Conselho Nacional do Ministério Público — CNMP
“Empresa de saneamento básico adere a acordo de cooperação do projeto Sede de Aprender”
15 de dezembro de 2025.
Acessar publicação
Águas Cuiabá / Iguá Saneamento
“Parceria entre Águas Cuiabá e Prefeitura conecta escolas à rede de esgoto e beneficia cerca de 1,1 mil crianças”
20 de julho de 2026.
Acessar o caso de Cuiabá
UNICEF Brasil
“Resultados do UNICEF no Brasil em 2025” — intervenções de água, saneamento e higiene em escolas rurais, ribeirinhas e indígenas.
Acessar os resultados
WHO/UNICEF Joint Monitoring Programme — JMP
“Progress on drinking water, sanitation and hygiene in schools 2015–2023”
2024.
Acessar relatório global sobre WASH nas escolas
UNICEF Índia
“Clean India — Clean Schools” — infraestrutura, funcionalidade, manutenção e monitoramento de WASH nas escolas.
Acessar o benchmarking internacional



