Seca avança e coloca o Abastecimento de Água em alerta no Nordeste

A área atingida pela seca diminuiu no Brasil entre maio e junho de 2026. Entretanto, a melhora no resultado nacional não significa que o risco tenha desaparecido. Pelo contrário, o fenômeno avançou ou ganhou intensidade em estados importantes do Nordeste, criando um cenário que exige atenção imediata das companhias responsáveis pelo Abastecimento de Água.

Segundo a atualização do Monitor de Secas, a área brasileira com algum grau do fenômeno caiu de aproximadamente 4,21 milhões para 3,79 milhões de quilômetros quadrados. Dessa forma, a seca passou de 50% para 45% do território nacional. Ainda assim, dez estados apresentaram aumento da área atingida, entre eles Bahia, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Sergipe e Maranhão. 

Portanto, a leitura dos dados exige cuidado. Um percentual nacional menor pode esconder situações críticas em determinadas bacias, reservatórios ou sistemas produtores. Para o setor de saneamento, a análise precisa avançar além do mapa nacional e chegar ao nível do manancial, da captação, da estação de tratamento, do reservatório de distribuição e de cada setor operacional.

A melhora nacional não elimina os riscos locais

A seca não afeta todas as regiões da mesma maneira. Enquanto parte do Centro-Oeste, do Sul e do Sudeste registrou redução da severidade, o Nordeste apresentou intensificação em Alagoas, Bahia, Pernambuco, Piauí e Sergipe.

Além disso, uma mesma região pode apresentar aumento da área com seca e, ao mesmo tempo, redução da intensidade em determinados pontos. Foi o que ocorreu no Rio Grande do Norte. A área atingida aumentou de 53% para 69% do território estadual, porém a parcela com seca moderada caiu de 21% para 15%.

Essa diferença é essencial para o planejamento do Abastecimento de Água. A expansão territorial indica que mais áreas estão enfrentando anormalidade climática. Entretanto, a redução da severidade mostra que parte dessas áreas pode estar em uma categoria menos intensa.

Por isso, não se recomenda analisar apenas um indicador. O planejamento operacional precisa considerar, simultaneamente, extensão, severidade, duração, armazenamento dos reservatórios, vazão dos rios, nível dos poços, qualidade da água e capacidade real do sistema produtor.

O que o Monitor de Secas realmente mostra

O Monitor de Secas acompanha continuamente a intensidade e a evolução do fenômeno no Brasil. O mapa é produzido mensalmente e utiliza indicadores climáticos, hidrológicos e informações sobre impactos observados.

As categorias começam na seca fraca, identificada como S0, e avançam para seca moderada, grave, extrema e excepcional. Entretanto, o mapa apresenta uma seca relativa. Isso significa que a condição observada é comparada ao histórico climático da própria região.

Assim, uma área classificada com seca moderada não está necessariamente sem água. Da mesma forma, uma área com seca fraca pode possuir um sistema de Abastecimento de Água vulnerável, especialmente quando depende de um pequeno reservatório, de um único manancial ou de uma infraestrutura sem alternativas operacionais.

O Monitor também diferencia impactos de curto e de longo prazo. Déficits de precipitação acumulados em até seis meses são considerados de curto prazo. Acima desse período, os impactos passam a ser classificados como de longo prazo. 

Como está a seca nos estados do Nordeste

A situação de junho de 2026 apresenta diferenças importantes entre os estados nordestinos.

Piauí

O Piauí possuía seca em 85% de seu território, o maior percentual entre os estados do Nordeste. Além disso, a área com seca moderada aumentou de 41% para 65%, indicando intensificação relevante do fenômeno.

Pernambuco

Em Pernambuco, a área com seca subiu de 75% para 81%. A seca moderada aumentou de 67% para 69%, fazendo com que o estado apresentasse a condição mais intensa do Nordeste em junho.

Bahia

Na Bahia, a área atingida passou de 75% para 78%. Ao mesmo tempo, a seca moderada aumentou de 56% para 58% do território estadual. Trata-se da condição mais severa registrada no estado desde março de 2026.

Paraíba

A Paraíba manteve 74% do território com seca. A severidade permaneceu estável, com aproximadamente 40% do estado sob seca moderada.

Rio Grande do Norte

A área com seca aumentou de 53% para 69%. Contudo, como já observado, a seca moderada diminuiu de 21% para 15%.

Alagoas

Em Alagoas, a área atingida aumentou de 34% para 37%. A seca moderada passou de 9% para 19%, demonstrando intensificação.

Maranhão

No Maranhão, a área com seca aumentou de 28% para 40%. Entretanto, foi registrada apenas seca fraca, a categoria mais branda do Monitor.

Ceará

O Ceará apresentou melhora. A área atingida caiu de 48% para 30%, enquanto a seca moderada diminuiu de 8% para 3%.

Sergipe

Sergipe possuía o menor percentual de área com seca no Nordeste, com 12% do território. Mesmo assim, a seca moderada voltou a aparecer em aproximadamente 1% do estado. 

Como a seca afeta o Abastecimento de Água

A seca meteorológica começa com a redução das chuvas. Entretanto, seus efeitos sobre o Abastecimento de Água geralmente aparecem de forma progressiva.

Primeiramente, ocorre a diminuição da umidade do solo. Em seguida, reduz-se o escoamento da água da chuva para rios e reservatórios. Consequentemente, as vazões dos cursos d’água diminuem e a recuperação dos açudes fica mais lenta.

Nos sistemas que dependem de reservatórios, a falta de aportes pode reduzir o volume útil disponível. Já nos sistemas abastecidos por rios, podem surgir dificuldades para manter a vazão captada. Por sua vez, os sistemas subterrâneos podem enfrentar rebaixamento do nível dos poços, perda de produtividade ou necessidade de aumentar o tempo de bombeamento.

Portanto, o impacto não depende apenas da chuva registrada sobre a cidade. Grande parte dos sistemas capta água em bacias hidrográficas localizadas a dezenas ou centenas de quilômetros da área atendida.

Captação e bombeamento ficam mais vulneráveis

A redução do nível dos mananciais pode exigir mudanças na posição das bombas, instalação de captações flutuantes, prolongamento de tubulações ou realização de obras emergenciais.

Além disso, quanto menor o nível da água, maior pode ser a altura necessária de bombeamento. Consequentemente, há possibilidade de aumento do consumo de energia elétrica e redução da eficiência dos equipamentos.

Também podem surgir problemas de entrada de ar, cavitação, formação de vórtices e arraste de sedimentos. Dessa maneira, equipamentos que operavam normalmente durante períodos de maior armazenamento podem começar a apresentar falhas.

Por isso, a segurança do Abastecimento de Água depende de inspeções frequentes nas estruturas de captação, bombas, válvulas, painéis elétricos e adutoras de água bruta.

A qualidade da água bruta também pode piorar

A seca não provoca apenas redução da quantidade disponível. A qualidade da água também pode ser afetada.

Com menor volume no reservatório, determinados compostos ficam mais concentrados. Além disso, o aumento da temperatura e a maior permanência da água podem favorecer o crescimento de algas e cianobactérias.

Também podem ocorrer alterações de cor, odor, sabor, matéria orgânica, turbidez, ferro, manganês e outros parâmetros. Como resultado, a estação de tratamento pode precisar aumentar ou ajustar a aplicação de coagulantes, oxidantes, carvão ativado, desinfetantes e demais produtos.

Por outro lado, dosagens excessivas não resolvem problemas de operação mal diagnosticados. Portanto, recomenda-se intensificar os ensaios de tratabilidade, o monitoramento laboratorial e a análise da água em diferentes profundidades do manancial.

O objetivo central permanece o mesmo: assegurar que o Abastecimento de Água continue entregando água dentro do padrão de potabilidade, mesmo quando a água bruta apresenta condições mais difíceis.

Menor produção aumenta o risco de baixa pressão

Quando a produção disponível se aproxima da demanda máxima, o sistema perde margem de segurança. Qualquer vazamento de grande porte, falha elétrica ou manutenção emergencial pode causar desabastecimento.

Inicialmente, os efeitos costumam aparecer nas áreas mais altas, distantes ou localizadas nas extremidades da rede. Em seguida, podem surgir baixa pressão, demora na recuperação dos reservatórios e aumento das reclamações.

Caso a situação evolua, pode ser necessário implantar manobras, redução controlada de pressão, rodízios ou interrupções programadas. Entretanto, essas medidas exigem planejamento. Uma operação improvisada pode gerar pressões negativas, entrada de contaminantes, rompimentos e distribuição desigual.

Perdas de água ampliam o risco da seca

O controle de perdas representa uma das respostas mais rápidas e eficientes para aumentar a disponibilidade do sistema. Cada metro cúbico recuperado reduz a necessidade de captar, bombear, tratar e distribuir água adicional.

Os dados do SINISA 2025, referentes a 2024, indicam que aproximadamente 39,5% do volume produzido no Brasil foi perdido na distribuição. No Nordeste, o índice ficou próximo de 46,7%.

Isso significa que, em média, quase metade da água inserida nas redes nordestinas dos prestadores participantes não chegou ao consumo autorizado ou não foi corretamente medida.

Além disso, as regras federais estabelecem, para o período de 2026 a 2032, referência de perdas iguais ou inferiores a 30% e a 263 litros por ligação por dia para determinadas condições de acesso a recursos da União. 

Em um cenário de seca, portanto, combater perdas deixa de ser apenas uma ação de eficiência financeira. A medida passa a integrar diretamente a segurança do Abastecimento de Água.

Macromedição e micromedição precisam funcionar

Não se reduz aquilo que não é medido. Dessa forma, a gestão da seca exige balanço hídrico confiável, macromedição nas saídas das estações, medição nos reservatórios, acompanhamento dos setores e hidrômetros adequados nas ligações.

O SINISA apontou que 86,7% do volume consumido no Brasil era micromedido e 84,3% do volume de entrada na distribuição era macromedido. Embora os percentuais nacionais sejam elevados, ainda existem diferenças significativas entre regiões e prestadores. 

Por isso, recomenda-se conferir a calibração dos equipamentos, a qualidade dos dados de telemetria e a compatibilidade entre volume produzido, distribuído, consumido e faturado.

O impacto financeiro pode ser elevado

A seca tende a elevar os custos do Abastecimento de Água. Entre os principais impactos estão o aumento do consumo de energia, a maior utilização de produtos químicos, a realização de horas extras, o reforço das equipes de manutenção e a contratação de serviços emergenciais.

Além disso, podem ser necessários carros-pipa, novos poços, captações temporárias, interligações, geradores, bombas adicionais e obras em adutoras.

Ao mesmo tempo, a redução do volume distribuído pode diminuir a receita. Portanto, a prestadora pode enfrentar uma combinação desfavorável: despesas maiores e faturamento menor.

O Atlas Águas estima a necessidade de R$ 110 bilhões em investimentos até 2035 para ampliar a segurança hídrica urbana, incluindo produção, distribuição, reposição de ativos, controle de perdas e medidas de gestão. Nordeste e Sudeste concentram 76% dessa demanda estimada. 

Plano operacional para enfrentar o avanço da seca

Ações imediatas

Nos primeiros 30 dias, recomenda-se atualizar o balanço hídrico de cada sistema, revisar a autonomia dos reservatórios e confirmar a vazão efetivamente disponível nos mananciais.

Também se mostra necessário mapear hospitais, escolas, unidades de saúde, presídios, abrigos e outras estruturas prioritárias. Paralelamente, devem ser reforçadas as equipes de pesquisa e correção de vazamentos.

Ações de curto prazo

Entre 30 e 90 dias, convém intensificar a setorização, o controle de pressão, a macromedição e a substituição de hidrômetros com problemas.

Além disso, recomenda-se revisar estoques de produtos químicos, peças, bombas, motores, válvulas e equipamentos elétricos. Contratos emergenciais e alternativas de fornecimento também precisam ser avaliados antes do agravamento da situação.

Ações estruturantes

No horizonte de médio e longo prazo, torna-se necessário ampliar a diversificação dos mananciais, construir interligações, aumentar a capacidade de reservação e recuperar ativos antigos.

Também podem ser estudadas soluções como recarga de aquíferos, reúso não potável, proteção de nascentes, recuperação de matas ciliares e ampliação da capacidade dos sistemas produtores.

Essas medidas fortalecem a resiliência do Abastecimento de Água diante de secas prolongadas e eventos climáticos mais frequentes.

Indicadores que precisam ser acompanhados

Uma gestão eficiente do Abastecimento de Água depende do monitoramento contínuo dos principais indicadores operacionais. Quanto mais rapidamente forem identificadas alterações nesses parâmetros, maior será a capacidade de prevenir interrupções no fornecimento e reduzir impactos para a população.

Entre os indicadores considerados essenciais estão:

  • Volume útil dos reservatórios, que demonstra a quantidade de água efetivamente disponível para abastecimento.
  • Vazão de entrada nos reservatórios, responsável por indicar a recuperação ou a redução da disponibilidade hídrica dos mananciais.
  • Vazão captada e produzida pelas Estações de Tratamento de Água (ETA), permitindo verificar se a produção continua atendendo à demanda do sistema.
  • Consumo diário de água, importante para identificar aumentos inesperados da demanda e antecipar possíveis déficits de produção.
  • Índices de perdas na distribuição, fundamentais para localizar setores prioritários para combate a vazamentos e desperdícios.
  • Pressões mínima e máxima da rede de distribuição, que ajudam a evitar rompimentos, pressões negativas e falta de água em regiões mais altas.
  • Autonomia dos reservatórios de distribuição, permitindo estimar por quanto tempo o sistema consegue operar em caso de interrupção da produção.
  • Qualidade da água bruta, incluindo parâmetros como turbidez, cor, matéria orgânica, temperatura e presença de algas, possibilitando ajustes preventivos no tratamento.
  • Consumo de energia elétrica das estações elevatórias e das ETAs, utilizado para identificar perda de eficiência operacional e possíveis problemas mecânicos.
  • Quantidade de reclamações relacionadas à falta de água, que funciona como um importante indicador de desempenho operacional e pode revelar problemas antes mesmo que eles apareçam nos relatórios técnicos.

O acompanhamento integrado desses indicadores permite decisões mais rápidas, melhora o planejamento operacional e aumenta significativamente a segurança do Abastecimento de Água, principalmente durante períodos de estiagem prolongada e redução da disponibilidade hídrica.

Comunicação reduz conflitos e desinformação

A comunicação precisa ocorrer antes da interrupção do serviço. Informações vagas ou divulgadas apenas após o desabastecimento aumentam a insatisfação e dificultam o trabalho das equipes.

Por isso, recomenda-se informar com clareza quais áreas podem ser afetadas, quais medidas estão sendo adotadas, quanto tempo a recuperação pode levar e quais canais devem ser utilizados.

Também é importante diferenciar seca, escassez hídrica, racionamento e interrupção operacional. Nem toda seca provoca racionamento. Entretanto, toda seca relevante precisa ser acompanhada como risco para o Abastecimento de Água.

Perguntas frequentes

A presença de seca significa que haverá racionamento?

Não necessariamente. O racionamento depende do volume dos mananciais, da demanda, da capacidade de produção, das perdas e da existência de fontes alternativas.

Qual é a diferença entre seca e escassez hídrica?

A seca representa uma anormalidade climática ou hidrológica. A escassez ocorre quando a água disponível não é suficiente para atender às demandas existentes nas condições necessárias.

A redução das perdas pode evitar rodízios?

Em determinados sistemas, sim. A redução de vazamentos e fraudes pode recuperar volumes suficientes para ampliar a segurança operacional. Entretanto, sistemas com mananciais críticos também podem exigir novas fontes ou restrições temporárias.

O Monitor de Secas substitui o acompanhamento dos reservatórios?

Não. O Monitor oferece uma visão regional do fenômeno. O planejamento do Abastecimento de Água precisa combinar o mapa com dados de chuva, vazões, volumes armazenados, níveis de poços, qualidade da água e desempenho das redes.

Quais estados nordestinos exigiam maior atenção em junho de 2026?

Piauí, Pernambuco, Bahia e Paraíba possuíam os maiores percentuais de território atingido. Entretanto, a análise precisa considerar as condições específicas de cada manancial e sistema produtor.

Seca exige antecipação, não improviso

A redução da área nacional com seca representa um sinal positivo, mas não autoriza o relaxamento do planejamento. O avanço observado em estados nordestinos mostra que os riscos permanecem distribuídos de forma desigual.

Portanto, a segurança do Abastecimento de Água dependerá da capacidade de transformar informações climáticas em decisões operacionais. Medição, controle de perdas, manutenção, comunicação, diversificação de mananciais e planos de contingência precisam funcionar de maneira integrada.

Quanto mais cedo forem identificadas as ameaças, menor será a necessidade de medidas emergenciais. Em consequência, haverá maior possibilidade de preservar a continuidade, a qualidade e a sustentabilidade econômica dos serviços.


Fontes consultadas

  1. ANA — Seca fica mais branda no Centro-Oeste, Sudeste e Sul e se intensifica no NordesteAttachment.png 
  2. Monitor de Secas do BrasilAttachment.png 
  3. Monitor de Secas — Classificação de severidadeAttachment.png 
  4. ANA — Atlas Águas: segurança hídrica do abastecimento urbanoAttachment.png 
  5. Ministério das Cidades — Relatório SINISA 2025 de Abastecimento de ÁguaAttachment.png 
  6. ANA — Conjuntura dos Recursos Hídricos no BrasilAttachment.png