Sistema Cantareira em alerta limita a retirada a 27 m³/s em agosto

O Sistema Cantareira continuará operando na Faixa 3 — Alerta durante agosto de 2026. A decisão foi tomada porque o conjunto de reservatórios encerrou 31 de julho com 36,67% do volume útil, percentual situado entre 30% e 40%. Um mês antes, em 30 de junho, o armazenamento estava em 39,87%. Portanto, houve redução de 3,2 pontos percentuais no período. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Na prática, o Sistema Cantareira em alerta passa a operar com limite máximo médio mensal de retirada de 27 metros cúbicos por segundo para o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. Em situação normal, esse teto pode chegar a 33 m³/s. Assim, a diferença regulatória é de 6 m³/s, equivalente a uma redução de aproximadamente 18% no limite máximo autorizado.

A medida não representa, por si só, anúncio de racionamento. Entretanto, indica que a operação exige maior cautela, porque agosto está inserido no período seco, que vai de 1º de junho a 30 de novembro. Nesse intervalo, as chuvas tendem a ser menores e a recuperação dos reservatórios se torna mais difícil. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

O que significa a Faixa de Alerta

A Resolução Conjunta ANA/DAEE nº 925, publicada em 2017, criou cinco faixas operacionais para o Cantareira. O enquadramento considera o volume útil acumulado no último dia útil de cada mês e determina a condição de operação do mês seguinte.

A Faixa Normal é aplicada quando o armazenamento é igual ou superior a 60%. A Faixa de Atenção corresponde ao intervalo entre 40% e 60%. Já a Faixa de Alerta abrange volumes iguais ou superiores a 30% e inferiores a 40%.

Abaixo disso, existem ainda a Faixa de Restrição, utilizada quando o armazenamento está entre 20% e 30%, e a Faixa Especial, aplicada quando o volume fica abaixo de 20%.

Os limites máximos médios mensais de retirada para a Região Metropolitana de São Paulo são:

  • Normal: 33 m³/s;
  • Atenção: 31 m³/s;
  • Alerta: 27 m³/s;
  • Restrição: 23 m³/s;
  • Especial: 15,5 m³/s.

Desse modo, manter o Sistema Cantareira em alerta funciona como um mecanismo preventivo. A regra reduz a pressão sobre o manancial antes que o armazenamento alcance níveis mais críticos. Além disso, oferece previsibilidade para a Sabesp, para os órgãos gestores e para os usuários das Bacias PCJ. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Quanto de água está armazenado

O volume útil total do Sistema Cantareira é de 981,56 hectômetros cúbicos, o que corresponde a aproximadamente 981,56 bilhões de litros. Com 36,67% de armazenamento, havia cerca de 360 bilhões de litros de volume útil em 31 de julho.

Em comparação com os 39,87% registrados no fim de junho, a diferença representa aproximadamente 31,4 bilhões de litros. Esse cálculo não significa que todo o volume tenha sido consumido exclusivamente no abastecimento, pois o balanço também envolve entradas naturais de água, evaporação, descargas para jusante, transferências e outros componentes operacionais.

Ainda assim, a redução mostra que as saídas superaram as entradas durante o período analisado. Consequentemente, o armazenamento diminuiu mesmo com os mecanismos de controle e integração existentes. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

O Sistema Cantareira em alerta exige, portanto, uma leitura integrada dos dados. Apenas observar o percentual do reservatório não é suficiente. Também precisam ser acompanhadas as vazões afluentes, as chuvas acumuladas, as retiradas para a Região Metropolitana de São Paulo, as liberações para as Bacias PCJ e a eventual transposição de água do reservatório Jaguari, na bacia do rio Paraíba do Sul.

Como funciona o Sistema Cantareira

O Cantareira é formado pelos reservatórios Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro. Essas estruturas são interligadas por túneis, canais e estações de bombeamento, formando um sistema capaz de transferir água entre diferentes bacias hidrográficas.

Os quatro primeiros reservatórios estão localizados nas Bacias PCJ. Já o reservatório Paiva Castro está inserido na bacia do Alto Tietê. A água segue por estruturas de transferência até a Estação Elevatória Santa Inês, um dos pontos centrais da operação destinada ao abastecimento metropolitano. (Comites PCJ⁠)

Além disso, o manancial possui importância regional. Suas águas também sustentam usos múltiplos nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, incluindo o abastecimento de municípios como Campinas. Por isso, as decisões não podem considerar apenas a demanda da Região Metropolitana de São Paulo.

É necessário equilibrar abastecimento humano, manutenção das vazões dos rios, atividades econômicas e preservação ambiental. O Sistema Cantareira em alerta evidencia justamente esse desafio. Quanto menor o armazenamento, menor se torna a margem para atender simultaneamente todos os usos sem aumentar o risco para os meses seguintes.

Por que o limite caiu para 27 m³/s

A lógica das regras operacionais é simples: quanto menor o armazenamento, mais conservadora deve ser a retirada. Consequentemente, o Sistema Cantareira em alerta obriga a operação metropolitana a depender mais do planejamento integrado, da gestão de pressão, do combate às perdas e do controle da demanda.

A redução de 33 m³/s para 27 m³/s parece pequena quando observada apenas como um número. Entretanto, a diferença de 6 m³/s representa aproximadamente 518 milhões de litros por dia.

Esse volume diário seria suficiente para demonstrar a dimensão operacional da medida. Por outro lado, os 27 m³/s não significam que a companhia necessariamente retirará o limite máximo durante todo o mês. Trata-se de um teto médio mensal autorizado, e a retirada efetiva depende das condições operacionais e do planejamento do sistema.

A norma também permite que, nas faixas de Atenção, Alerta e Restrição, a água eventualmente bombeada do reservatório Jaguari, no rio Paraíba do Sul, seja acrescentada ao limite de retirada, desde que seja respeitada a outorga correspondente. Essa interligação amplia a flexibilidade operacional, porém não elimina a necessidade de preservar o Cantareira. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Qual é o papel da interligação Jaguari-Atibainha

A interligação entre o reservatório Jaguari, pertencente ao Sistema Hidráulico do Paraíba do Sul, e o reservatório Atibainha entrou em operação para ampliar a segurança hídrica da Região Metropolitana de São Paulo.

Na prática, a estrutura permite transferir água entre os sistemas de acordo com regras técnicas, disponibilidade hídrica e limites de outorga. Portanto, durante uma condição de Sistema Cantareira em alerta, essa infraestrutura pode contribuir para complementar a disponibilidade destinada ao abastecimento.

Entretanto, a transposição não deve ser interpretada como uma fonte ilimitada. A água transferida também pertence a uma bacia com usuários, cidades, atividades econômicas e exigências ambientais. Por esse motivo, o volume movimentado precisa respeitar as condições do reservatório Jaguari e as regras estabelecidas pelos órgãos gestores.

O que os dados anteriores já indicavam

O cenário de 2026 vinha exigindo atenção desde o início do ano. Em 31 de dezembro de 2025, o Cantareira possuía 20,18% do volume útil e começou janeiro de 2026 na Faixa de Restrição.

Posteriormente, as chuvas do período úmido permitiram recuperação. O sistema encerrou maio de 2026 com pouco mais de 40% do volume útil, ficando próximo do limite entre as faixas de Atenção e Alerta.

Entretanto, o aumento não foi suficiente para criar uma grande folga antes da estiagem. Dados discutidos pelos Comitês PCJ indicaram que as afluências médias de maio de 2026 estavam abaixo da média histórica analisada. A afluência é a quantidade de água que chega naturalmente aos reservatórios por meio dos rios, córregos e chuvas. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Além disso, projeções hidrológicas apresentadas em reuniões técnicas mostraram forte sensibilidade ao comportamento das chuvas durante o período seco. Em uma simulação crítica, com precipitação 50% abaixo da média histórica, o sistema poderia atingir aproximadamente 26% em setembro, já dentro da Faixa de Restrição.

Por outro lado, em um cenário com chuvas dentro da média histórica, a projeção indicava aproximadamente 35% de armazenamento em setembro. Já com precipitação 25% acima da média, o volume poderia chegar próximo de 41%. Essas simulações não representam certezas, mas ajudam os gestores a planejar diferentes respostas operacionais. (Comites PCJ⁠)

Impactos operacionais para o saneamento

O Sistema Cantareira em alerta gera implicações diretas para a gestão operacional. A primeira delas é a necessidade de reduzir perdas reais, especialmente vazamentos em adutoras, redes de distribuição e ramais.

Cada metro cúbico economizado reduz a pressão sobre os mananciais, as estações de tratamento e as unidades de bombeamento. Além disso, a redução de perdas pode diminuir custos com energia elétrica, produtos químicos e manutenção corretiva.

Ao mesmo tempo, torna-se necessário intensificar o controle de pressão. Pressões excessivas aumentam vazamentos, rompimentos e consumo. Entretanto, reduções mal planejadas podem provocar baixa pressão, desabastecimento localizado, entrada de contaminantes e aumento de reclamações.

Portanto, a setorização deve ser acompanhada por telemetria, modelagem hidráulica, válvulas redutoras de pressão e monitoramento de pontos críticos.

Outra frente envolve a integração entre sistemas produtores. Quando tecnicamente possível, a redistribuição da produção pode reduzir a dependência de um único manancial. Contudo, essa estratégia depende da disponibilidade hídrica dos demais sistemas, da capacidade das estações de tratamento, das adutoras e das estações elevatórias.

Gestão comercial também precisa participar

A segurança hídrica não depende apenas da área operacional. A gestão comercial exerce papel relevante por meio da medição, identificação de consumos atípicos, combate a fraudes, regularização de ligações e comunicação com grandes consumidores.

Com o Sistema Cantareira em alerta, campanhas genéricas de economia tendem a produzir resultados limitados. Por isso, a comunicação deve ser orientada por dados.

Consumidores com aumento repentino de consumo, imóveis com indícios de vazamentos internos e unidades classificadas como grandes consumidoras podem receber mensagens específicas, alertas digitais e orientações práticas.

Além disso, hidrômetros antigos, parados ou inadequadamente dimensionados devem ser substituídos conforme critérios técnicos. A medição confiável melhora o balanço hídrico, reduz perdas aparentes e oferece informações mais precisas para a gestão da demanda.

Também se torna importante analisar imóveis com consumo incompatível com o perfil cadastrado. Entretanto, qualquer ação fiscalizatória deve seguir normas, procedimentos técnicos e direitos dos usuários.

Indicadores que precisam ser acompanhados diariamente

A gestão do Sistema Cantareira em alerta deve combinar indicadores de quantidade, operação e consumo. Entre os principais estão:

  • Volume útil armazenado;
  • Chuva acumulada;
  • Vazões afluentes aos reservatórios;
  • Vazão retirada para abastecimento;
  • Liberações destinadas às Bacias PCJ;
  • Transposição do reservatório Jaguari;
  • Produção das estações de tratamento;
  • Pressão nas redes de distribuição;
  • Número de vazamentos e rompimentos;
  • Índice de perdas de água;
  • Consumo médio por ligação;
  • Ocorrências de baixa pressão e falta de água.

Também deve ser monitorada a diferença entre água produzida, água disponibilizada e água faturada. Entretanto, a análise não pode se limitar ao indicador mensal consolidado.

Os dados precisam ser segmentados por setor de abastecimento, zona de pressão, distrito de medição e controle, município e perfil de consumo. Nesse sentido, painéis de controle com atualização frequente permitem identificar tendências antes que os problemas se transformem em crises.

Além disso, protocolos de contingência devem estabelecer gatilhos objetivos para cada nível de armazenamento e para mudanças relevantes nas vazões.

Faixa de Alerta exige prevenção, não pânico

O Sistema Cantareira em alerta não significa colapso imediato do abastecimento. O volume registrado ainda está acima das faixas de Restrição e Especial. Além disso, existem regras operacionais, integração com outros mananciais e possibilidade de aporte pela interligação Jaguari-Atibainha.

Por outro lado, a condição não deve ser tratada como uma situação de rotina sem consequências. Agosto integra a fase de estiagem, e a recuperação expressiva dos reservatórios depende principalmente do retorno das chuvas do período úmido.

Portanto, decisões tomadas agora influenciam a segurança de abastecimento dos meses seguintes. Adiar ações pode exigir respostas mais severas caso o armazenamento continue diminuindo.

A resposta mais adequada combina redução de perdas, planejamento da produção, gestão de pressão, comunicação transparente, monitoramento hidrometeorológico e uso racional.

Assim, o Sistema Cantareira em alerta deve ser entendido como um sinal técnico para agir com antecedência, proteger o armazenamento disponível e evitar medidas mais restritivas no futuro.

Fontes