Principal manancial da Região Metropolitana de São Paulo passa a operar com limite menor de captação em julho; medida reforça importância do controle de perdas, uso racional da água e gestão integrada dos reservatórios
O Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, passa a operar em julho de 2026 na Faixa 3 — Alerta. A mudança foi informada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e pela Agência de Águas do Estado de São Paulo (SP Águas), conforme as regras da Resolução Conjunta nº 925/2017.
A alteração ocorre porque, em 30 de junho, último dia útil do mês, o Cantareira registrou 39,87% de seu volume útil. Em 29 de maio, o índice era de 40,52%, o que mostra uma redução no armazenamento durante a entrada do período seco.
Pelas regras operacionais vigentes, quando o volume útil do sistema fica entre 30% e 40%, o manancial passa a operar na Faixa de Alerta. Com isso, a Sabesp fica autorizada a captar até 27 metros cúbicos por segundo (m³/s) do Cantareira. Em situação de normalidade, esse limite pode chegar a 33 m³/s.
O que muda na prática
A entrada na Faixa de Alerta não significa, por si só, risco imediato de desabastecimento generalizado. No entanto, representa um sinal técnico importante para o setor de saneamento, pois reduz a disponibilidade operacional do sistema e exige maior atenção à gestão da demanda.
Nesse cenário, ganham importância medidas como:
- redução de perdas reais e aparentes;
- controle operacional das pressões nas redes;
- incentivo ao uso racional da água pela população;
- monitoramento diário dos reservatórios;
- planejamento integrado entre mananciais;
- preservação dos volumes armazenados durante o período seco.
Além dos 27 m³/s autorizados do Cantareira, a Sabesp poderá utilizar, como medida de mitigação, a vazão eventualmente transposta a partir do reservatório da Usina Hidrelétrica Jaguari, na bacia do rio Paraíba do Sul, respeitado o limite outorgado.
Período seco exige atenção operacional
O período seco considerado para a operação do sistema vai de 1º de junho a 30 de novembro de 2026. Durante esse intervalo, a definição das vazões liberadas para as Bacias PCJ — Piracicaba, Capivari e Jundiaí — é realizada por meio de comunicado dos Comitês PCJ à SP Águas.
A gestão do Cantareira é compartilhada entre ANA e SP Águas. As instituições acompanham diariamente dados de níveis, vazões e armazenamento, que servem de base para as decisões operacionais.
Sistema estratégico para São Paulo e Bacias PCJ
O Cantareira abastece cerca de metade da população da Região Metropolitana de São Paulo e também contribui para os usos múltiplos da água, com destaque para o abastecimento de Campinas e das Bacias PCJ.
O sistema é formado por cinco reservatórios interligados: Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro. Ao todo, possui volume útil de 981,56 bilhões de litros. Desde 2018, conta também com a interligação entre a represa da UHE Jaguari, no rio Paraíba do Sul, e a represa Atibainha, estrutura que ampliou a segurança hídrica para a Região Metropolitana de São Paulo.
Embora os reservatórios estejam localizados em território paulista, parte das águas que alimentam o sistema vem de rios de domínio da União, com nascentes e trechos em Minas Gerais. Por isso, a operação envolve uma governança regulatória compartilhada.
Leitura técnica do Saneamento Pro
A entrada do Cantareira na Faixa de Alerta reforça uma lição conhecida do setor: segurança hídrica não depende apenas de reservatórios cheios, mas de gestão permanente da demanda, eficiência operacional e planejamento preventivo.
O episódio também mostra a importância de regras claras de operação, como as estabelecidas após a crise hídrica de 2014/2015. Ao limitar as vazões de retirada conforme o volume armazenado, o modelo busca evitar decisões tardias e dar previsibilidade aos operadores, reguladores, usuários e prestadores de serviços.
Para o saneamento, o recado é direto: em períodos de menor disponibilidade hídrica, reduzir perdas e estimular o consumo consciente deixam de ser ações complementares e passam a ser medidas estratégicas para preservar a segurança do abastecimento.



