Super El Niño 2026: saneamento entra em alerta

O Super El Niño 2026 está deixando de ser apenas um tema meteorológico para se transformar em uma questão operacional, financeira e estratégica para as companhias de saneamento brasileiras. A NOAA aponta probabilidade superior a 90% de o El Niño atingir intensidade muito forte ao longo dos próximos meses. Mais relevante ainda: para o trimestre outubro-dezembro de 2026, a projeção oficial norte-americana indica 69% de chance de um evento de magnitude histórica, considerando o critério utilizado pelo Climate Prediction Center. 

Para o saneamento, entretanto, o número mais importante não é a temperatura do Pacífico. O que realmente interessa é saber quanto de água continuará chegando aos mananciais, como ficará a qualidade dessa água, até onde subirão os rios durante eventos extremos, quanto aumentará o consumo nas ondas de calor e quais instalações conseguirão continuar operando em uma seca ou inundação.

Esse desafio já deixou de ser hipotético. Em 27 de agosto, os reservatórios monitorados pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico no Nordeste e semiárido armazenavam, em conjunto, 49,7% da capacidade. Contudo, 71 dos 358 açudes monitorados estavam abaixo de 20%, dos quais 47 tinham menos de 10%. O Jucazinho, em Pernambuco, aparecia com somente 3,9%. Ao mesmo tempo, no Sudeste, o Sistema Cantareira encerrou agosto com 32,99% do volume útil e seguirá em setembro na Faixa de Alerta. 

Por outro lado, principalmente no Sul, a preocupação pode ser exatamente a inversa: chuva excessiva, rios em rápida elevação, turbidez extrema nos mananciais, inundação de instalações, interrupção de energia e sobrecarga das estruturas de esgotamento sanitário.

Portanto, o Super El Niño 2026 apresenta ao setor uma equação incomum: enquanto algumas companhias precisarão lutar para encontrar água suficiente, outras poderão ter dificuldade para continuar produzindo água potável justamente porque estará chovendo demais.

E, no centro dessa resposta, estarão os profissionais do saneamento.

“Super El Niño” exige uma explicação técnica importante

Embora a expressão Super El Niño 2026 seja amplamente compreendida pelo público e tenha forte capacidade de comunicação, “Super El Niño” não é a classificação técnica oficial utilizada pelo INMET ou pela NOAA.

A terminologia oficial trabalha, entre outras classificações, com eventos fortes e muito fortes. No diagnóstico de 13 de agosto, o Climate Prediction Center informou que o El Niño estava se fortalecendo e apresentava probabilidade superior a 90% de atingir a categoria muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026–2027.

Em julho, as anomalias de temperatura da superfície do mar chegaram a +1,4°C na região Niño 3.4, +1,7°C na Niño 3 e +2,9°C na Niño 1+2. Além disso, o calor armazenado abaixo da superfície do Pacífico Equatorial também chamava atenção, com anomalias subsuperficiais chegando a +10°C em determinados pontos. 

A NOAA ainda calculou 69% de probabilidade de, entre outubro e dezembro, o indicador RONI de três meses atingir pelo menos +2,5°C, patamar que poderia superar em intensidade os eventos anteriores da série considerada desde 1950. 

Entretanto, existe uma ressalva essencial para qualquer comunicação tecnicamente responsável.

El Niño muito forte não significa automaticamente desastre muito forte em determinada cidade ou bacia.

A própria NOAA ressalta que uma intensidade maior aumenta a possibilidade de impactos coerentes com El Niño, mas não garante que eles ocorram em determinado local. O INMET faz alerta semelhante. Portanto, previsão climática deve ser tratada em termos de probabilidade, vulnerabilidade e exposição, e não como sentença.

Para uma companhia de saneamento, essa diferença é fundamental. Uma ETA protegida, com redundância energética, duas captações, boa reservação, perdas controladas e plano de contingência pode atravessar um evento severo melhor do que outro sistema submetido a uma anomalia climática menor, porém sem redundância.

Super El Niño 2026 pode produzir dois Brasis do saneamento

A previsão divulgada pelo INMET em 1º de setembro apresenta um desenho bastante relevante para a operação das companhias.

No Sul, sobretudo no Rio Grande do Sul, aumenta a possibilidade de precipitação acima da média. Áreas de São Paulo e Mato Grosso do Sul também podem receber chuvas superiores à climatologia em determinados períodos. Em contrapartida, Norte e Nordeste tendem a apresentar maior risco de condições secas, enquanto partes do centro do país, de Minas Gerais e do Espírito Santo também apresentam sinal de precipitação abaixo da média.

Além disso, há expectativa de temperaturas acima da média em praticamente todo o Brasil. No centro e no norte do território, a combinação entre calor e períodos secos prolongados também eleva o risco de incêndios. Na Amazônia e no Pantanal, a transição para a estação chuvosa pode sofrer atraso. 

Consequentemente, não existe um único “plano El Niño” que possa ser simplesmente copiado por todas as concessionárias.

No Nordeste, segurança hídrica, disponibilidade dos reservatórios, redundância de fontes, redução de perdas e gestão da demanda ganham protagonismo.

No Sul, proteção contra inundações, drenagem, resiliência elétrica, turbidez da água bruta, acessibilidade às instalações e capacidade das elevatórias tornam-se prioridades.

No Norte, níveis fluviais, capacidade das captações, navegação e logística podem assumir peso decisivo.

No Centro-Oeste, seca hidrológica, temperatura e incêndios precisam entrar na matriz de risco.

Já no Sudeste, podem coexistir redução da disponibilidade hídrica em determinadas bacias e episódios intensos de chuva em outras áreas.

É justamente essa diversidade que transforma o Super El Niño 2026 em um desafio de gestão para o saneamento brasileiro.

Reservatório cheio no país não significa segurança para cada cidade

Uma das armadilhas da interpretação dos dados nacionais é analisar apenas grandes médias.

Em 26 de agosto, por exemplo, Três Marias armazenava 87,3% do volume útil, enquanto Sobradinho registrava 73%. Ambos estavam na faixa normal de operação. Portanto, não existe fundamento para afirmar que todo o Nordeste esteja às portas de um colapso hídrico. 

Entretanto, a análise local muda completamente o cenário.

Dos 358 açudes monitorados pela ANA no Nordeste e semiárido, 71 estavam abaixo de 20% e 47 abaixo de 10%. Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará concentravam grande parcela desses reservatórios críticos. 

Esse é um conceito essencial para o profissional do saneamento: segurança hídrica precisa ser analisada sistema por sistema e manancial por manancial.

Uma companhia pode possuir uma situação global confortável e, simultaneamente, operar municípios extremamente vulneráveis.

Por isso, médias corporativas escondem riscos. Um painel estratégico deveria chegar à escala da captação, relacionando nível do manancial, vazão disponível, qualidade da água bruta, produção necessária, demanda projetada, reservação, perdas e autonomia do sistema.

Cantareira mostra por que antecipação vale mais que improviso

O Sistema Cantareira oferece um exemplo particularmente didático.

Em 31 de julho, o sistema possuía 36,67% do volume útil. Em 31 de agosto, caiu para 32,99%. Por isso, continuará em setembro na Faixa 3 — Alerta. Nessa condição, a Sabesp pode retirar até 27 m³/s do Cantareira, enquanto em condições normais o limite pode chegar a 33 m³/s. 

Entretanto, existe redundância. Como medida de mitigação, pode ser utilizada água eventualmente transposta a partir do reservatório da Usina Hidrelétrica Jaguari, na bacia do Paraíba do Sul, respeitando os limites regulatórios estabelecidos. A interligação Jaguari-Atibainha, disponível desde 2018, ampliou a segurança hídrica do sistema. 

Esse caso revela uma mudança importante no conceito de segurança operacional.

Não basta construir uma grande ETA.

Segurança significa possuir fontes alternativas, interligações, regras de operação, monitoramento contínuo, reservação e capacidade de reduzir a retirada antes que o problema se transforme em crise.

É exatamente nesse ponto que planejamento hídrico, engenharia e operação passam a trabalhar como uma única disciplina.

Super El Niño 2026 também ameaça a qualidade da água

A discussão frequentemente fica limitada à pergunta: haverá água suficiente?

Entretanto, a segunda pergunta deveria ser: a água disponível continuará tratável nas mesmas condições?

Durante períodos prolongados de seca, a redução da vazão dos rios e do volume dos reservatórios pode alterar significativamente as características da água bruta. Dependendo do manancial, nutrientes, matéria orgânica, sais e outros componentes podem se concentrar.

Além disso, temperaturas elevadas, menor renovação de água e presença de nutrientes podem favorecer florações de algas e cianobactérias. Consequentemente, parâmetros como clorofila-a, turbidez, pH, condutividade, oxigênio dissolvido e temperatura passam a merecer atenção ainda maior.

Esse cenário já aparece na prática.

Em fevereiro de 2026, a Sanepar informou que a escassez de chuvas e as temperaturas elevadas estavam relacionadas a uma hiperfloração de algas na Represa de Alagados, utilizada no abastecimento de Ponta Grossa. Segundo a companhia, a vazão citada naquele momento era de aproximadamente 2 m³/s, diante de 16 m³/s registrados em fevereiro do ano anterior. 

O exemplo mostra a importância dos laboratoristas, operadores, técnicos químicos, biólogos, engenheiros e equipes responsáveis pela segurança da água. Esses profissionais formam uma das primeiras linhas de defesa contra os efeitos climáticos.

Um operador experiente que percebe uma mudança de cor, odor, turbidez ou comportamento da coagulação pode identificar um problema antes de qualquer grande indicador corporativo.

Chuva demais também pode interromper o abastecimento

Existe outro paradoxo pouco compreendido fora do setor.

Uma cidade pode ficar sem água durante uma enchente.

Quando chuvas intensas arrastam solo e sedimentos para o manancial, a turbidez da água bruta pode crescer rapidamente. Com isso, aumenta a necessidade de coagulante, cresce a produção de lodo, as carreiras de filtração podem diminuir e as lavagens de filtros tornam-se mais frequentes. Consequentemente, a produção líquida da ETA pode cair justamente quando existe enorme quantidade de água disponível no ambiente.

Em situações extremas, a qualidade da água bruta pode ultrapassar temporariamente a capacidade operacional segura do tratamento.

Foi exatamente o que ocorreu em Ibateguara, Alagoas, em julho de 2026. Após fortes chuvas elevarem a turbidez do manancial do Sistema Severo, a Casal suspendeu temporariamente a operação. A medida foi preventiva para assegurar o padrão de qualidade da água. O manancial permaneceu monitorado até apresentar condições adequadas à retomada da captação, bombeamento e tratamento. 

Esse tipo de decisão valoriza um princípio central do saneamento: produzir água rapidamente nunca pode ser mais importante do que produzir água segura.

Portanto, no contexto do Super El Niño 2026, estoques de coagulantes, capacidade de armazenamento de produtos químicos, tratamento de lodo, redundância de filtros e monitoramento em tempo real passam a integrar a preparação climática.

Inundação pode atingir muito mais que a ETA

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul deixaram uma extensa coleção de aprendizados para o saneamento brasileiro.

O risco não está apenas na água entrando diretamente na ETA. A inundação pode atingir poços de visita, sistemas elétricos, cabines, transformadores, motores, geradores, painéis de automação, telecomunicações, elevatórias, acessos, adutoras e reservatórios.

Por isso, Porto Alegre vem executando intervenções específicas de resiliência.

Em agosto de 2026, o DMAE concluiu obras de proteção nas Estações de Bombeamento de Água Bruta Moinhos de Vento e Menino Deus. Foram construídas câmaras de descarga destinadas a impedir que a elevação do Guaíba faça a água retornar pelas tubulações e comprometa as unidades. Também foram instaladas comportas e tampas herméticas em pontos vulneráveis identificados durante a cheia histórica de 2024. 

Essa resposta representa uma mudança de paradigma.

Em vez de simplesmente reconstruir o que foi danificado, a infraestrutura passa a ser redesenhada considerando o evento extremo como uma possibilidade operacional real.

É adaptação climática aplicada ao saneamento.

Esgotamento sanitário não pode ficar fora do plano

O Super El Niño 2026 não representa somente um problema de abastecimento de água.

Redes coletoras, elevatórias e ETEs também podem sofrer intensamente.

Em períodos de chuva extrema, infiltrações e entradas indevidas de águas pluviais podem elevar muito a vazão transportada pelas redes de esgoto. Elevatórias podem trabalhar próximas do limite, enquanto equipamentos elétricos ficam expostos a alagamentos.

Além disso, uma ETE dimensionada para determinada vazão média pode receber picos hidráulicos muito superiores. Como consequência, aumentam os riscos de extravasamentos, perda de eficiência e dificuldades na operação.

Durante secas, surge outro problema. Com vazões menores nos corpos receptores, a capacidade de diluição dos efluentes tratados pode diminuir. Ao mesmo tempo, em determinadas redes, menores vazões podem favorecer maior deposição de sólidos, odores e necessidade de manutenção.

Portanto, planejamento climático no saneamento precisa contemplar água e esgoto.

Calor pode elevar o consumo exatamente quando existe menos água

Temperatura elevada acrescenta uma terceira pressão ao sistema.

Quando o calor aumenta, tende a crescer a demanda por água para banho, hidratação, limpeza, irrigação de jardins e outras atividades. Assim, justamente quando alguns mananciais podem estar perdendo volume, a companhia pode ser chamada a produzir mais.

Na prática, a operação precisa acompanhar não apenas o consumo médio mensal, mas também os picos horários e diários.

O reservatório que parece suficiente quando se analisa uma média de 30 dias pode se mostrar inadequado durante uma sequência de tardes extremamente quentes.

Além disso, maiores volumes bombeados significam mais consumo de energia. Caso seja necessário buscar uma fonte alternativa mais distante ou com maior desnível, a intensidade energética do abastecimento também pode aumentar.

Consequentemente, segurança hídrica, segurança energética e eficiência operacional tornam-se cada vez mais conectadas.

Perdas de água se transformam em uma reserva hídrica virtual

Durante décadas, combate às perdas foi tratado principalmente como tema de eficiência operacional e financeira.

Com eventos climáticos extremos, essa visão se torna insuficiente.

Cada metro cúbico produzido e não aproveitado representa água retirada do manancial, tratada, bombeada, muitas vezes novamente bombeada na distribuição e, ainda assim, não utilizada adequadamente.

Por isso, reduzir perdas equivale, em determinadas situações, a criar uma espécie de nova fonte virtual de água.

A Cagece oferece um exemplo de como infraestrutura de distribuição pode aumentar resiliência. Em Juazeiro do Norte, a companhia anunciou investimento superior a R$ 130 milhões envolvendo Distritos de Medição e Controle, controle de pressão e vazão, reservatórios com capacidade de 25 milhões de litros, 14 novos poços e mais de 150 quilômetros de redes. O projeto foi estruturado para reduzir perdas e ampliar a segurança hídrica. 

No Sertão do Araripe, a Compesa também vem atuando sobre confiabilidade operacional. Em junho de 2026, anunciou aproximadamente R$ 3,7 milhões para substituir 1.200 metros de trecho deteriorado do Sistema Adutor do Oeste. A intervenção busca reduzir vazamentos e interrupções e beneficiar aproximadamente 153 mil moradores. 

O significado técnico é claro: em cenário de escassez, perda real deixa de ser apenas dinheiro perdido e passa a ser segurança hídrica desperdiçada.

Companhias brasileiras já estão construindo defesas

Nem todas as iniciativas atualmente em execução foram criadas especificamente em resposta ao Super El Niño 2026. Entretanto, várias delas são exatamente o tipo de investimento capaz de reduzir seus impactos.

A Sanepar desenvolve o Programa Água Segura com abordagem de gestão de riscos do manancial ao consumidor. A iniciativa trabalha com disponibilidade hídrica em condições severas, proteção de microbacias, monitoramento quali-quantitativo e integração com o Plano de Segurança da Água. Além disso, a companhia implantou sondas multiparamétricas para monitorar características da água bruta em tempo real. 

Na Bahia, a Embasa informou em março de 2026 uma ampliação da estratégia de segurança hídrica, com R$ 23 milhões destinados ao monitoramento e à gestão dos mananciais utilizados em sua área de atuação. 

Em Mundo Novo, diante da estiagem prolongada que afetou a Barragem do França, foram apresentadas medidas preventivas, entre elas a incorporação de outra fonte de captação. Em março, após chuvas, a barragem saiu do nível crítico e chegou a 42% da capacidade, embora a situação ainda fosse de atenção. 

Outra frente baiana é estrutural. A Barragem do Catolé, destinada a ampliar a segurança hídrica de Vitória da Conquista e Belo Campo, recebe investimento de aproximadamente R$ 347 milhões. O empreendimento terá volume máximo normal de 23,73 bilhões de litros e vazão regularizada estimada em 670 litros por segundo, com conclusão prevista para fevereiro de 2027. 

No Ceará, além do controle de perdas e aumento da reservação, a Cagece avança na diversificação de fontes por meio de reúso e dessalinização. A Dessal do Ceará, planejada para a Região Metropolitana de Fortaleza, representa justamente a busca de uma fonte menos dependente da regularidade das chuvas continentais. 

Esses exemplos mostram uma tendência: a adaptação está migrando da resposta emergencial para uma combinação de monitoramento, redundância, eficiência, diversificação de fontes e obras resilientes.

O profissional de saneamento passa a operar risco climático

Talvez a maior transformação trazida pelo Super El Niño 2026 não seja tecnológica.

Ela está na função das pessoas.

O operador de ETA deixa de acompanhar somente vazão e dosagem e passa a interpretar mudanças no comportamento do manancial.

O laboratorista não verifica apenas conformidade; ajuda a identificar a aproximação de uma condição crítica.

O técnico de manutenção deixa de trabalhar apenas com disponibilidade mecânica e passa a verificar se motores, painéis, transformadores e geradores resistirão a uma inundação.

A engenharia precisa considerar cotas de cheia, fontes alternativas, redundâncias, autonomia energética e cenários hidrológicos futuros.

As equipes de perdas passam a exercer uma função de segurança hídrica.

Profissionais de automação, telemetria, geoprocessamento, dados e tecnologia tornam previsões meteorológicas utilizáveis pela operação.

Enquanto isso, áreas comerciais e de atendimento assumem um papel igualmente crítico. Em uma situação de intermitência ou redução de pressão, informação ruim pode transformar dificuldade operacional em crise de confiança.

Portanto, valorizar os profissionais do saneamento significa reconhecer que adaptação climática não acontece apenas em barragens e computadores. Ela acontece na capacidade de centenas de profissionais interpretarem dados, anteciparem falhas e tomarem decisões corretas sob pressão.

Tecnologia sem conhecimento operacional continua sendo somente tecnologia.

Dez prioridades que deveriam estar em andamento agora

  1. Classificação de risco por sistema e por manancial. Cada captação deveria receber uma avaliação própria para seca, inundação, turbidez, incêndio, energia, acesso, qualidade da água e disponibilidade hídrica. Uma classificação corporativa ampla não identifica onde ocorrerá a primeira falha.
  2. Cenários de 30, 60, 90 e 180 dias. Volume armazenado, vazão afluente, consumo, perdas, capacidade de produção e precipitação prevista deveriam alimentar projeções atualizadas periodicamente. Dessa forma, a decisão deixa de ser reativa.
  3. Gatilhos de operação previamente definidos. Níveis de atenção, alerta e emergência precisam estar vinculados a ações concretas. Atingido determinado volume, por exemplo, uma fonte complementar poderia ser acionada; atingida determinada turbidez, outro protocolo operacional deveria entrar em vigor.
  4. Teste real das redundâncias. Bombas reserva, poços, geradores, válvulas, interligações e captações alternativas precisam funcionar quando exigidos. Equipamento instalado, mas nunca testado em carga, não representa redundância confiável.
  5. Aceleração do controle de perdas. Setorização, controle de pressão, pesquisa ativa de vazamentos, telemetria e redução do tempo de reparo deveriam ganhar prioridade nos sistemas mais vulneráveis à escassez.
  6. Revisão dos estoques críticos. Coagulantes, desinfetantes, carvão ativado quando aplicável, polímeros, combustíveis, motores, inversores, bombas e materiais para reparo de adutoras precisam ter autonomia compatível com interrupções logísticas.
  7. Proteção física das instalações. Cotas de painéis, geradores, transformadores e servidores deveriam ser confrontadas com mapas de inundação. Também precisam ser avaliados retorno de água por tubulações, galerias, poços de visita e acessos.
  8. Integração entre clima e operação. Previsão de chuva não pode terminar no e-mail de uma equipe ambiental. O dado precisa alimentar decisões de captação, reservação, produção, manutenção, drenagem, esgoto e comunicação.
  9. Plano comercial de contingência. Hospitais, unidades de saúde, escolas, abrigos, grandes consumidores essenciais e regiões críticas precisam estar previamente identificados. Mensagens de falta d’água, baixa pressão e recuperação do sistema também devem ter protocolo.
  10. Simulados antes da emergência. Uma companhia resiliente deveria exercitar cenários como “ETA inundada”, “captação com vazão crítica”, “turbidez fora da capacidade de tratamento”, “48 horas sem energia” ou “adutora principal indisponível”. O simulado transforma uma vulnerabilidade escondida em uma ação corretiva antes da crise.

Plano de Segurança da Água ganha uma nova dimensão

A Organização Mundial da Saúde recomenda uma abordagem de gestão de riscos que considere toda a cadeia, desde o manancial até o consumidor. Além disso, sua orientação específica para Planos de Segurança da Água resilientes ao clima destaca a necessidade de incorporar variabilidade climática, eventos extremos e mudanças futuras ao gerenciamento do sistema. 

Para o Super El Niño 2026, essa lógica é especialmente adequada.

Em vez de perguntar somente se a água tratada atende ao padrão, passa-se a perguntar quais perigos podem surgir antes que a água chegue à ETA, como o sistema detectará esses perigos, quais barreiras existem e qual será a resposta se uma delas falhar.

É uma mudança da inspeção para a prevenção.

Além disso, permite integrar conhecimento de profissionais que normalmente trabalham em áreas diferentes. Hidrólogos, operadores, laboratoristas, engenheiros, técnicos de manutenção, equipes comerciais, ambiental, automação, comunicação e gestão precisam compartilhar a mesma visão de risco.

Super El Niño 2026 precisa entrar no orçamento

Adaptação climática também é uma questão financeira.

Seca pode diminuir volumes faturados, aumentar o custo de bombeamento, exigir novas fontes, ampliar despesas com produtos químicos e provocar abastecimento emergencial.

Chuva extrema também custa caro. Pode aumentar consumo de coagulante, geração de lodo, lavagem de filtros, manutenção eletromecânica, horas extras, mobilização de geradores, reparo de redes e recuperação de instalações.

Além disso, interrupções prolongadas afetam receita, indicadores regulatórios, imagem institucional e relacionamento com o consumidor.

Portanto, planejamento orçamentário precisa separar gastos emergenciais de investimentos permanentes em resiliência.

Um gerador, uma interligação, uma segunda captação, uma comporta, um sensor ou um Distrito de Medição e Controle podem parecer custos adicionais em um ano normal. Em um evento crítico, contudo, podem representar a diferença entre continuidade e colapso operacional.

O melhor painel climático é aquele que provoca uma decisão

Companhias possuem cada vez mais dados. Entretanto, excesso de informação não significa capacidade de antecipação.

Um painel corporativo para acompanhar o Super El Niño 2026 deveria conectar meteorologia, hidrologia e saneamento.

Precipitação prevista precisaria conversar com nível do reservatório. Nível deveria estar associado à autonomia. Autonomia deveria ser comparada à demanda. A demanda, por sua vez, precisaria ser relacionada à produção, reservação e perdas.

Da mesma forma, turbidez da água bruta deveria se conectar à dosagem de coagulante, duração da carreira dos filtros, consumo de água de lavagem, produção líquida e estoque químico.

A inteligência aparece justamente na ligação entre essas informações.

Um gráfico que mostra apenas que o reservatório caiu de 40% para 38% informa.

Um sistema que identifica a tendência, estima quantos dias existem até o próximo patamar de risco e indica quais ações precisam começar imediatamente decide.

É essa evolução que deverá marcar o saneamento mais resiliente.

Não é necessário esperar a crise para descobrir as fragilidades

O aspecto mais favorável do Super El Niño 2026 é também o mais fácil de ignorar: existe antecedência.

O setor não sabe exatamente quanto choverá sobre cada captação brasileira daqui a três meses. Entretanto, já conhece grande parte de suas próprias vulnerabilidades.

São conhecidas as ETAs sem redundância.

São conhecidos os sistemas com perdas elevadas.

São conhecidos os geradores que precisam de manutenção.

São conhecidos os reservatórios com pouca autonomia.

São conhecidas as captações que sofrem com turbidez.

São conhecidas as regiões com abastecimento intermitente.

São conhecidas muitas elevatórias vulneráveis a alagamento.

Portanto, a principal diferença entre preparação e improviso está no que será feito com esse conhecimento antes do evento.

O maior ativo continua sendo o profissional de saneamento

Barragens, sensores, inteligência artificial, telemetria, modelagem hidrológica e automação serão cada vez mais importantes. Entretanto, nenhum desses recursos elimina a necessidade de conhecimento acumulado pelas equipes.

O profissional que conhece o som de uma bomba funcionando fora do padrão, percebe alteração na floculação, identifica uma pressão anormal, reconhece um manancial mudando rapidamente ou sabe qual válvula precisa ser operada durante uma emergência possui conhecimento operacional de enorme valor.

Por isso, enfrentar o Super El Niño 2026 também exige treinamento, procedimentos claros, valorização técnica, autonomia responsável e integração das equipes.

A segurança hídrica brasileira será construída em grandes obras, mas também será preservada diariamente em salas de controle, laboratórios, ETAs, ETEs, elevatórias, redes, oficinas, centros de operação e atendimentos aos consumidores.

Super El Niño 2026: a antecipação será o divisor

O cenário atual não justifica alarmismo. No entanto, justifica preparação.

Há mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte, segundo as referências oficiais consultadas, e existe possibilidade relevante de magnitude histórica. Ao mesmo tempo, os impactos não serão uniformes e não podem ser previstos com precisão para cada município apenas a partir da intensidade do fenômeno. 

Essa combinação deveria conduzir o saneamento a uma postura equilibrada: nem pânico, nem complacência.

No Norte, Nordeste e em parte do Centro-Sudeste, atenção especial deverá ser dada à disponibilidade hídrica, temperatura, mananciais e demanda. No Sul, o foco precisa incluir chuva extrema, turbidez, cheias e proteção física das instalações. Em todo o país, eficiência, perdas, energia, qualidade da água, redundância e planejamento ganham importância.

Além disso, as experiências de Sabesp, Sanepar, DMAE, Embasa, Compesa, Cagece e Casal mostram que já existem diferentes caminhos sendo utilizados: interligação de mananciais, redução de perdas, monitoramento, proteção contra cheias, novas barragens, fontes alternativas, reservação, controle de pressão, dessalinização e decisões preventivas de operação.

Porém, nenhuma infraestrutura será suficiente sem equipes preparadas.

O Super El Niño 2026 pode se tornar um dos grandes testes recentes de resiliência para o saneamento brasileiro. Ao mesmo tempo, pode acelerar uma transformação necessária: a passagem de um saneamento predominantemente reativo para um setor que antecipa riscos, cruza dados, protege seus ativos e reconhece seus profissionais como parte central da estratégia climática.

No final, a pergunta mais importante não será se o El Niño atingiu +2,0°C ou +2,5°C no Pacífico.

A pergunta será muito mais prática:

quando o manancial baixar, a chuva extrema chegar ou a demanda disparar, a companhia saberá exatamente o que fazer — e seus profissionais terão estrutura para executar a resposta?

Fontes consultadas

Foram utilizadas informações oficiais e técnicas atualizadas até 2 de setembro de 2026. As principais referências são: Painel El Niño nº 3 — INMET⁠ • ENSO Diagnostic Discussion — NOAA/CPC⁠ • Panorama hidrológico do Painel El Niño — ANA⁠ • Situação do Sistema Cantareira em setembro — ANA⁠ • Plano de Segurança da Água resiliente ao clima — OMS⁠ • Programa Água Segura — Sanepar⁠ • Proteção contra cheias nas captações — DMAE Porto Alegre⁠ • Segurança hídrica e monitoramento de mananciais — Embasa/Governo da Bahia⁠ • Sistema Adutor do Oeste — Compesa⁠ • Investimentos em segurança hídrica — Cagece⁠ • Suspensão preventiva por alta turbidez — Casal⁠.