Unesp e Sabesp criam tecnologia para detectar vazamentos

No dia a dia das companhias, reduzir perdas deixou de ser apenas uma meta operacional e passou a ser um requisito estratégico para a sustentabilidade do saneamento. Afinal, quando parte relevante da água tratada não chega ao consumidor, há desperdício de insumos, energia, tempo de equipe, capacidade produtiva e, além disso, há impacto direto na percepção do serviço. Por isso, a detecção rápida e precisa de vazamentos se torna um dos caminhos mais eficazes para melhorar indicadores sem necessariamente depender de grandes obras de substituição de rede.

Além disso, quanto mais complexa é a malha urbana, maior tende a ser a dificuldade de localizar vazamentos subterrâneos. Ruído de tráfego, interferências de outras redes (drenagem, gás, telecom) e variações de material e diâmetro da tubulação podem reduzir a confiabilidade de métodos tradicionais. Ainda assim, mesmo com esses obstáculos, a tecnologia vem avançando de forma consistente. Nesse cenário, ganha destaque a colaboração entre universidade e operadora, que aproxima pesquisa aplicada das demandas reais do saneamento brasileiro.

O que a colaboração Unesp-Sabesp traz de novo

A colaboração entre a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Sabesp, construída ao longo de mais de uma década, foi direcionada para um objetivo prático: criar, testar e aprimorar tecnologias que aumentem a eficiência na detecção de vazamentos em redes de distribuição. Consequentemente, o conhecimento científico foi colocado a serviço de um problema operacional clássico do saneamento: identificar, com precisão, onde a água está escapando antes que o vazamento evolua para rompimento, afundamento de pavimento, erosão de solo ou interrupções prolongadas.

Esse tipo de parceria é especialmente relevante porque equilibra duas necessidades: de um lado, a realidade de campo com pressão por resultados, padronização e custo; de outro, o rigor de testes, a capacidade de prototipagem e a exploração de métodos mais avançados que normalmente não entram na rotina das equipes por barreiras de preço, importação e treinamento. Assim, a cooperação cria um caminho mais curto entre pesquisa e aplicação, o que acelera ganhos no saneamento.

Entendendo o problema: perdas na distribuição e seus efeitos

Em termos operacionais, perdas na distribuição não são apenas “água que some”. Na prática, são horas de produção e bombeamento que não se transformam em faturamento, além de elevarem o custo unitário do serviço. Portanto, reduzir vazamentos ajuda a aliviar a necessidade de ampliar captação, tratamento e energia. Da mesma forma, diminui a pressão por investimentos emergenciais e reduz riscos de eventos críticos, como colapsos de pavimento e danos a imóveis.

Além disso, há um efeito em cadeia sobre a qualidade do serviço. Quando vazamentos persistem, ocorre perda de pressão em determinados setores, aumento de reclamações, instabilidade do abastecimento e, em alguns casos, maior chance de intrusão em condições específicas. Por isso, a detecção eficiente contribui para indicadores técnicos e também para a confiança do usuário no saneamento.

Do método tradicional ao método instrumental: como a detecção evoluiu

Historicamente, grande parte da detecção de vazamentos foi baseada em técnicas de escuta, como hastes e geofones, nas quais o técnico interpreta sons e vibrações. Embora ainda sejam úteis, esses métodos dependem intensamente da experiência humana e, além disso, sofrem com interferências ambientais. Em ruas movimentadas, por exemplo, o ruído pode mascarar sinais de vazamento, enquanto em solos muito compactados ou com camadas heterogêneas a propagação sonora pode distorcer a origem do problema.

Por outro lado, à medida que a instrumentação evoluiu, ganharam espaço os equipamentos capazes de medir, comparar e calcular sinais. Assim, a detecção deixou de depender apenas da percepção e passou a se apoiar em análise de dados, filtragem de ruído e correlação entre sensores. Esse avanço é decisivo para o saneamento, porque torna a busca mais rápida, reduz escavações desnecessárias e melhora a produtividade das equipes.

Correlacionadores acústicos: como funcionam e por que importam

Entre as soluções mais relevantes está o uso de correlacionadores acústicos. Em termos simples, trata-se de um sistema que utiliza dois (ou mais) sensores instalados em pontos da rede, como hidrantes, registros ou conexões acessíveis. Esses sensores captam vibrações e ruídos gerados por vazamentos. Em seguida, o sistema compara os sinais e calcula a localização provável do vazamento com base em diferenças de tempo de chegada e características do sinal.

Na prática, isso muda o jogo: em vez de “procurar até achar”, o correlacionador direciona a equipe para um trecho mais específico. Consequentemente, o tempo de campo cai, a assertividade aumenta e o custo de recomposição de pavimento tende a diminuir. Para empresas de saneamento, essa lógica de precisão é essencial, porque cada intervenção não planejada custa caro e afeta a mobilidade urbana.

O desafio do custo e da dependência de importação

Um dos pontos críticos é que correlacionadores de alta performance podem custar muito caro, e frequentemente dependem de importação, manutenção especializada e peças com prazos longos. Assim, mesmo quando são tecnicamente superiores, a adoção em larga escala se torna limitada. Nesse contexto, a iniciativa de desenvolver versões mais acessíveis, com foco em viabilidade operacional, tende a aumentar o uso real da tecnologia no saneamento, e não apenas em projetos pontuais.

Bancada de simulação: por que “testar antes” evita erros em campo

Outro avanço importante é a criação de uma bancada de simulação (também descrita como “bancada virtual”) para testes controlados. Em linguagem simples, essa estrutura permite reproduzir condições de vazamento e avaliar como diferentes sensores e equipamentos se comportam. Assim, é possível calibrar sistemas, comparar tecnologias e entender limitações antes de levar o equipamento para ruas, calçadas e áreas com grande variabilidade.

Esse tipo de validação é crucial porque evita falsas expectativas. Em vez de depender apenas de demonstrações comerciais ou testes isolados, a companhia pode verificar desempenho em condições controladas e, depois, planejar melhor o uso em setores mais críticos. Portanto, a bancada reforça a confiabilidade do processo e acelera a maturidade tecnológica no saneamento.

Detectores de superfície: detecção menos invasiva e com mais alcance

Além dos correlacionadores, a pesquisa avançou para um ponto ainda mais estratégico: sensores capazes de identificar vazamentos por vibrações detectadas na superfície, sem necessidade de acesso direto à tubulação. Isso é especialmente valioso em áreas onde a rede é difícil de acessar, seja por pavimento rígido, seja por interferências urbanas, ou ainda por restrições de operação e segurança.

Na prática, a proposta é ampliar a capacidade de varredura e reduzir a dependência de pontos de acesso. Consequentemente, abre-se a possibilidade de inspeções mais rápidas, com menor impacto no trânsito e menor necessidade de intervenções preliminares. Se essa linha evoluir para escala comercial, o saneamento pode ganhar uma ferramenta que combina produtividade e precisão em ambientes complexos.

O “vale da morte” da inovação: por que protótipos não viram produto facilmente

Mesmo com resultados promissores, existe um obstáculo comum na inovação tecnológica: transformar protótipos em produtos fabricáveis, padronizados e escaláveis. Essa etapa, muitas vezes chamada de “vale da morte” da inovação, ocorre quando a solução já funciona em laboratório e em testes controlados, porém ainda não encontrou um caminho de mercado, seja por falta de indústria parceira, seja por desafios de certificação, suporte e cadeia de suprimentos.

No saneamento, essa barreira costuma ser ainda mais relevante porque as empresas precisam de equipamentos robustos, com manutenção previsível, treinamento estruturado e garantia de continuidade. Portanto, não basta “funcionar”; é necessário funcionar de forma repetível, com rastreabilidade e custo total compatível com a operação. Por isso, a aproximação com fabricantes, startups e integradores pode ser decisiva para que as soluções cheguem ao campo em larga escala.

Como essas tecnologias podem entrar na rotina das companhias

Para gerar impacto real no saneamento, a tecnologia precisa se encaixar na operação. Dessa forma, algumas aplicações práticas se destacam:

  • Setorização e varredura por prioridade: direcionar inspeções para setores com maior histórico de perdas, baixa pressão e alta reincidência de reparos.
  • Inspeção após eventos críticos: aplicar detecção instrumental após oscilações de pressão, manobras e paradas de bombeamento, reduzindo tempo de resposta.
  • Plano de manutenção orientado por dados: usar resultados de correlação e sensores para priorizar substituição de trechos e reduzir “troca no escuro”.
  • Redução de escavações desnecessárias: aumentar assertividade na localização, diminuindo recomposição de pavimento e conflitos com prefeituras.
  • Integração com indicadores: conectar achados de campo a KPIs de perdas reais, tempo de reparo e eficiência por equipe e por distrito.

Com isso, a tecnologia deixa de ser uma “ação isolada” e passa a ser um processo contínuo. Consequentemente, o saneamento ganha eficiência sustentável, e não apenas ganhos pontuais.

O que o setor aprende com experiências internacionais

Embora o contexto brasileiro tenha particularidades, a redução de perdas é um objetivo global. Países e cidades com baixos índices de perdas costumam combinar gestão de pressão, manutenção preventiva, instrumentação e resposta rápida. Assim, a tecnologia de detecção se torna apenas uma parte de um sistema maior. Ainda assim, ela é uma parte decisiva, porque melhora a capacidade de localizar e corrigir vazamentos antes que virem falhas maiores.

Portanto, a mensagem prática é clara: a tecnologia acelera resultados quando é acompanhada de processos, padronização e priorização. No saneamento, isso significa planejar rotas de inspeção, manter cadastro técnico atualizado, treinar equipes e estruturar indicadores que mostrem o ganho real obtido com cada método.

Benefícios diretos para eficiência, custo e sustentabilidade

Quando a detecção evolui, os benefícios aparecem em várias camadas. Primeiro, reduz-se a água produzida que não vira serviço entregue, o que melhora eficiência energética e operacional. Em seguida, diminui-se o número de intervenções longas, porque a localização é mais precisa. Além disso, a recomposição de pavimento tende a ser menor, o que reduz custo e atritos com a cidade.

Do ponto de vista ambiental, a redução de perdas significa menor pressão sobre mananciais e menor necessidade de ampliar sistemas de produção. Consequentemente, o saneamento se fortalece como política pública de sustentabilidade, e não apenas como infraestrutura. Por fim, em termos de percepção do usuário, o serviço se torna mais estável e confiável, com menos reclamações e menos interrupções.

Perspectivas: o que esperar nos próximos passos

À medida que novas versões de sensores e correlacionadores se tornam mais acessíveis, cresce a chance de adoção por companhias de diferentes portes. Além disso, com protótipos avançando para patentes e testes em campo, aumenta a proximidade entre pesquisa aplicada e operação. Ainda assim, para que o impacto seja amplo, será necessário vencer a barreira de fabricação e suporte, ou seja, transformar tecnologia em produto com disponibilidade contínua.

Se esse caminho se consolidar, o Brasil pode reduzir dependência de importações e ampliar o uso de soluções ajustadas às condições locais de rede, solo e ruído urbano. Dessa forma, o saneamento ganha autonomia tecnológica e aumenta a capacidade de atacar perdas com consistência, setor por setor, ano após ano.

Fontes

  • Jornal da Unesp — Colaboração entre Unesp e Sabesp impulsiona avanços tecnológicos na detecção de vazamentos de água no Brasil:
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  • Na Mídia (Fapesp) — Unesp e Sabesp criam tecnologias para detectar vazamentos:
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  • Revista Pesquisa Fapesp — Novas tecnologias para conter o desperdício de água:
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