Cinco milhões de litros de água dessalinizada por dia já estão entrando no sistema público de abastecimento de Metro Cebu, nas Filipinas. O volume ainda representa apenas 25% dos 20 milhões de litros por dia — 20 MLD — contratados, mas o projeto mostra algo que interessa diretamente ao saneamento brasileiro: uma fonte que até pouco tempo era tratada como solução de nicho começa a ser incorporada à matriz hídrica de grandes sistemas urbanos.
A dessalinização em Cebu é operada pela Isla Mactan Cordova Corporation (IMCC), subsidiária da Vivant Water, e fornece água em atacado ao Metropolitan Cebu Water District (MCWD). O abastecimento inicial de 5 MLD começou em 1º de julho de 2026. Em setembro, uma nova conexão passou a levar esse volume também a Lapu-Lapu City e a outras comunidades da ilha de Mactan. A meta continua sendo alcançar gradualmente os 20 MLD previstos no contrato.
O caso merece atenção não apenas porque utiliza osmose reversa de água do mar. A questão estratégica está no modelo inteiro: fonte alternativa + contrato de longo prazo + operador privado + integração à rede existente + alívio sobre aquíferos + exposição ao custo de energia + necessidade de controlar a salmoura.
E há uma pergunta especialmente relevante para gestores brasileiros: em regiões litorâneas sujeitas a seca, crescimento urbano e pressão sobre mananciais, quando a dessalinização deixa de ser uma tecnologia cara demais e passa a funcionar como uma espécie de “seguro hídrico” do sistema?
O que realmente aconteceu em Cebu
A reportagem publicada em 8 de setembro destaca a chegada da água dessalinizada a novas áreas de Mactan. Entretanto, o início do fornecimento não ocorreu em setembro. Segundo a própria Vivant, a injeção dos primeiros 5.000 m³/dia começou em 1º de julho de 2026.
A planta está instalada em Cordova, na província de Cebu. O projeto foi estruturado para fornecer até 20.000 m³/dia ao MCWD por meio de uma parceria de longo prazo. O relatório anual de 2025 da Vivant registra que o empreendimento decorre de uma parceria de 25 anos, que o desenvolvimento da instalação começou em 2022 e que a construção estava concluída em 2025, entrando depois nas etapas finais de testes e comissionamento.
O fornecimento não saltou imediatamente para 20 MLD. A Vivant informa que a elevação será feita em fases, à medida que os sistemas de captação sejam estabilizados. Esse detalhe aparentemente operacional talvez seja uma das informações mais importantes do projeto.
Capacidade instalada não significa, automaticamente, volume efetivamente entregue.
Em projetos de dessalinização, a confiabilidade da captação marinha, do pré-tratamento, das membranas, das bombas de alta pressão, da pós-tratação e da infraestrutura de entrega é tão importante quanto a capacidade nominal da unidade.
Por que Cebu precisa de outra fonte de água
Metro Cebu vive uma combinação conhecida por vários sistemas brasileiros: crescimento urbano, expansão econômica, mananciais pressionados e elevada dependência de fontes naturais sujeitas à variabilidade climática.
A própria Vivant informou que, durante a crise associada ao El Niño em 2024, o déficit do sistema chegou inicialmente a aproximadamente 40.000 m³/dia e depois alcançou 50.000 m³/dia.
Isso coloca os 20 MLD da planta em perspectiva. Caso se compare apenas a capacidade da instalação com aquele déficit histórico de 50 MLD, a usina poderia representar o equivalente a 40% daquela insuficiência diária. Não significa que eliminará sozinha os problemas de abastecimento, porque a demanda e a disponibilidade das demais fontes mudam continuamente, mas mostra que o projeto possui escala operacional relevante.
Além disso, documentos oficiais das Filipinas já identificavam Metro Cebu entre os centros urbanos submetidos a estresse hídrico e relacionavam urbanização, exploração de aquíferos e risco de intrusão salina.
Em julho de 2026, o próprio MCWD voltou a alertar que um novo El Niño poderia reduzir a recarga subterrânea, diminuir a produção das fontes, elevar a demanda durante períodos de calor e aumentar as interrupções no abastecimento.
É justamente nesse ponto que a dessalinização em Cebu muda a lógica do sistema.
Enquanto chuva, reservatórios, rios e aquíferos dependem fortemente do ciclo hidrológico, a disponibilidade física do oceano é muito menos afetada pela seca. A vulnerabilidade passa a ser outra: energia, manutenção, membranas, qualidade da água captada, infraestrutura marítima e custo operacional.
Como funciona a dessalinização em Cebu
A tecnologia confirmada para o projeto é a SWRO — Seawater Reverse Osmosis, ou osmose reversa de água do mar.
Em termos simplificados, a osmose reversa utiliza pressão para forçar a passagem da água salgada através de membranas capazes de reter a maior parte dos sais e outras substâncias dissolvidas.
Uma planta moderna normalmente possui várias etapas.
Primeiro ocorre a captação da água do mar. Depois vem o pré-tratamento, fundamental para retirar sólidos suspensos, matéria orgânica e outros contaminantes que poderiam provocar incrustação ou biofouling das membranas.
Na etapa central, bombas elevam significativamente a pressão da água. Parte dela atravessa as membranas e se transforma em permeado de baixa salinidade. O restante permanece mais concentrado e forma a corrente de rejeito, conhecida como salmoura.
Posteriormente, a água produzida precisa passar por etapas de condicionamento, que podem incluir remineralização, correção de pH e desinfecção antes da distribuição.
A literatura técnica é clara sobre outro ponto: o pré-tratamento é decisivo para o desempenho do sistema. Fouling, incrustação e deterioração das membranas podem aumentar consumo energético, reduzir produção e elevar os custos de limpeza e substituição.
Para o profissional de operação, portanto, dessalinização não é simplesmente “instalar membranas”.
É controlar continuamente pressão, qualidade da água de alimentação, índice de incrustação, condutividade, recuperação, perda de carga, integridade das membranas, consumo específico de energia e qualidade do permeado.
O número que toda companhia deveria acompanhar: kWh por m³
A maior fragilidade econômica da dessalinização continua sendo a energia.
A agência nacional de água de Singapura, PUB, informa que suas plantas de osmose reversa consomem atualmente aproximadamente 3,5 kWh para produzir cada metro cúbico de água dessalinizada. A instituição pesquisa tecnologias capazes de reduzir esse valor para cerca de 2 kWh/m³.
Esse dado não deve ser aplicado diretamente à planta de Cebu, porque a Vivant não divulgou nas fontes consultadas o consumo energético específico da instalação.
Mas ele permite entender a ordem de grandeza.
Se uma planta de 20.000 m³/dia operasse hipoteticamente com o indicador de Singapura de 3,5 kWh/m³, o tratamento demandaria aproximadamente 70 MWh de eletricidade por dia, ou cerca de 25,5 GWh por ano.
Trata-se apenas de uma comparação técnica, não do consumo confirmado da IMCC.
A conta explica por que engenheiros e gestores não podem analisar uma planta de dessalinização apenas pelo CAPEX. O custo da eletricidade durante 20 ou 30 anos pode alterar substancialmente a competitividade da água produzida.
Por isso, consumo específico de energia deveria ser tratado quase como um indicador de perdas em uma companhia convencional: quanto menor o kWh/m³, melhor a eficiência estrutural do ativo.
A dessalinização em Cebu também é um projeto comercial
Outro aspecto pouco percebido é que a planta não funciona isoladamente como uma companhia de água.
A IMCC produz água em atacado. O MCWD recebe esse volume e o integra ao sistema que atende Cebu, Mandaue, Talisay, Lapu-Lapu, Cordova e outras localidades de sua área de atuação.
Portanto, o produto comercial não é simplesmente água dessalinizada.
É água potável entregue em determinado ponto, com volume, pressão, qualidade, disponibilidade e condições contratuais previamente definidas.
Essa distinção importa para projetos brasileiros de água de atacado.
Uma planta pode operar perfeitamente e ainda assim não produzir todo o benefício esperado se a rede a jusante não possuir capacidade hidráulica, reservação, setores adequados ou controle de pressão suficiente para distribuir aquele volume.
Da mesma forma, produzir água adicional enquanto grandes volumes continuam sendo perdidos fisicamente pode reduzir parte do benefício econômico do investimento.
A lição é conhecida, mas frequentemente esquecida: nova produção e redução de perdas não são estratégias concorrentes. Precisam ser planejadas conjuntamente.
Quanto custou a planta? É preciso cautela com o número
Diversas publicações associaram a instalação de Cordova a aproximadamente 2 bilhões de pesos filipinos.
Entretanto, há uma razão para cautela.
Uma divulgação feita à Philippine Stock Exchange em 2023 tratou de uma reportagem que classificava o empreendimento como uma planta de P2 bilhões. A Vivant confirmou as características do projeto e os 20 MLD, mas registrou que os impactos financeiros e empresariais ainda estavam em avaliação. Em 2024, a companhia informou que sua unidade de água havia investido cerca de P2 bilhões em infraestrutura hídrica, conceito mais amplo do que apenas essa planta.
Por isso, não é tecnicamente seguro apresentar P2 bilhões como o CAPEX final auditado e isolado da usina sem ressalva.
Essa diferença parece pequena, mas representa uma prática importante de inteligência setorial: números de investimento divulgados durante a construção não devem ser automaticamente tratados como custo final do ativo.
Há, entretanto, um indicador financeiro interessante. O Relatório Integrado 2025 da Vivant informa que sua unidade de água passou de contribuição negativa de aproximadamente P9 milhões em 2024 para contribuição positiva de P218 milhões em 2025. Parte disso decorreu do reconhecimento de receita financeira associada ao ativo de concessão do projeto de Cebu, mesmo antes da operação comercial plena.
Isso mostra como projetos de saneamento de longo prazo também precisam ser compreendidos por profissionais de finanças, regulação e contratos — não apenas pela engenharia.
Brasil já possui experiências diretamente comparáveis
A dessalinização em Cebu não deve ser vista como uma realidade distante do saneamento brasileiro.
O Brasil já utiliza dessalinização para abastecimento humano e prepara projetos em escala muito maior.
Fernando de Noronha: dessalinização já integrada ao abastecimento
Fernando de Noronha é provavelmente o exemplo brasileiro mais consolidado de uso de água do mar em sistema público.
A infraestrutura ampliada possui capacidade informada de 72 m³/h, contra 15 m³/h anteriormente. Isso equivale a aproximadamente 1,7 milhão de litros por dia. O investimento divulgado foi de R$ 13 milhões, e a administração do arquipélago relaciona a ampliação do sistema ao fim do rodízio no abastecimento.
O caso tem escala muito menor que Cebu, mas oferece uma lição importante: em territórios insulares, a comparação econômica da dessalinização não deve ser feita apenas contra o custo de produzir água convencional. Deve considerar também escassez, logística, transporte, turismo e consequências econômicas da falta de água.
Ceará prepara escala quatro vezes superior à de Cebu
O projeto brasileiro mais relevante para comparação é a Dessal do Ceará, estruturada pela Cagece.
A planta foi projetada para produzir 1 m³/s, equivalente a 86.400 m³/dia ou 86,4 MLD. Isso representa aproximadamente 4,3 vezes a capacidade contratada da planta de Cebu.
Segundo o programa oficial de PPPs do Ceará, a instalação deverá elevar em aproximadamente 12% a oferta de água da Região Metropolitana de Fortaleza e beneficiar cerca de 720 mil pessoas. A concessão administrativa possui prazo de 30 anos e valor global contratual de aproximadamente R$ 3,14 bilhões, que envolve não apenas implantação, mas a prestação dos serviços ao longo do contrato.
A Cagece informa que a tecnologia será também baseada em osmose reversa e que o projeto contempla captação marítima, sistema de descarga da salmoura e medidas ambientais específicas.
O Ceará oferece ainda uma segunda lição.
A implantação exigiu anos de estudos, licenciamento, discussões sobre interferência com cabos submarinos e alteração da localização do empreendimento. O projeto obteve Licença de Instalação em setembro de 2025 e avançou em 2026 para a fase de execução.
Ou seja: o desafio da dessalinização não termina quando a engenharia de processo é resolvida. Uso do território, infraestrutura costeira, licenciamento, comunidades, telecomunicações e ambiente marinho podem alterar cronogramas e custos.
O que Singapura ensina sobre dessalinização
Singapura talvez ofereça um dos melhores benchmarks mundiais porque não trata a dessalinização como solução isolada.
O país trabalha com uma matriz diversificada de abastecimento e atualmente possui cinco plantas de dessalinização. Ao mesmo tempo, desenvolve reúso avançado, captação de chuva e gestão de demanda.
A meta tecnológica da PUB de reduzir o consumo de aproximadamente 3,5 para 2 kWh/m³ revela onde provavelmente estará uma das próximas disputas do setor: eficiência energética.
Para utilities, isso significa que a inovação em membranas, recuperação de energia, automação e otimização operacional poderá ter impacto financeiro equivalente ao de grandes projetos de eficiência eletromecânica.
Austrália conecta segurança hídrica e energia renovável
Perth, na Austrália Ocidental, oferece outra comparação relevante.
A Water Corporation está implantando a planta de Alkimos, que deverá chegar a 100 bilhões de litros de água por ano, em duas etapas. A primeira terá capacidade de 50 bilhões de litros anuais.
A estratégia, porém, vai além da produção de água.
A utility pretende contratar até 400 MW de nova energia renovável para compensar as necessidades energéticas das plantas de dessalinização de Alkimos e das instalações já existentes em Kwinana e Binningup.
A mensagem para o setor é clara: projetos futuros de dessalinização tendem a aproximar cada vez mais planejamento hídrico e planejamento energético.
Para uma companhia brasileira, isso pode significar estudar conjuntamente contratos de energia, geração distribuída, autoprodução, fontes renováveis, armazenamento e estratégias de compra no mercado livre.
A salmoura é o ponto ambiental que não pode ser secundário
De cada fluxo de água marinha tratado, parte se transforma em água potável e parte retorna como solução com concentração de sais superior à original.
Essa corrente é a salmoura.
Uma revisão científica publicada em 2026 reforça que despejos inadequados podem modificar salinidade, temperatura e composição química do ambiente receptor, afetando ecossistemas marinhos. A literatura também mostra que o impacto depende fortemente da localização do lançamento, hidrodinâmica, diluição e sistema de dispersão utilizado.
Portanto, a discussão correta não é simplesmente “a dessalinização gera salmoura, logo é ambientalmente ruim”.
A pergunta técnica é:
Como a captação e a descarga foram projetadas, onde estão localizadas e como serão monitoradas durante décadas de operação?
Difusores adequados, modelagem hidrodinâmica, distância de ecossistemas sensíveis, controle dos produtos utilizados no pré-tratamento e monitoramento ambiental permanente fazem diferença.
Nas Filipinas, projetos sujeitos ao sistema de avaliação ambiental precisam observar o Philippine Environmental Impact Statement System e, conforme sua categoria e localização, obter Environmental Compliance Certificate. A água destinada ao consumo humano também precisa cumprir os padrões nacionais definidos pelo Department of Health.
Um detalhe de Cebu que deveria chamar atenção dos operadores
Em 2024, quando a Vivant anunciou as primeiras operações parciais, a empresa dizia que os 20 MLD representariam água para cerca de 20 mil domicílios. Em 2026, suas divulgações passaram a falar em quase 30 mil domicílios.
Não é necessariamente uma contradição.
Equivalências em número de residências dependem da hipótese utilizada para consumo médio, ocupação e disponibilidade.
Por isso, para benchmarking entre companhias, o indicador mais confiável não é “quantas casas a planta abastece”.
É m³/dia.
Essa é uma pequena lição de análise de dados que vale para vários projetos de saneamento.
Impactos para empresas de saneamento
A dessalinização em Cebu oferece aprendizados que alcançam praticamente todas as áreas de uma utility.
Na operação, acrescenta uma fonte menos dependente das chuvas, mas cria novos ativos críticos: captação marítima, bombas de alta pressão, membranas, pré-tratamento e sistemas de descarga.
Na engenharia, exige integração entre planta, adutoras, reservatórios e rede de distribuição.
Na área financeira, adiciona forte exposição ao preço da eletricidade, produtos químicos, membranas e manutenção especializada.
Na gestão comercial, uma maior confiabilidade de abastecimento pode reduzir reclamações por falta d’água, necessidade de soluções emergenciais e impactos sobre grandes consumidores. Entretanto, esses benefícios somente aparecem se a água produzida efetivamente alcançar o cliente.
Na regulação, surge a necessidade de avaliar prudência do investimento, custo da água, riscos contratuais, qualidade, continuidade e impacto tarifário.
Na gestão ambiental, captação e salmoura passam a ser variáveis permanentes de monitoramento.
E na tecnologia da informação, plantas desse tipo tendem a depender de grande volume de dados operacionais para controlar pressão, qualidade, produção e eficiência energética em tempo real.
O que gestores devem acompanhar
Para uma companhia que estude dessalinização em Cebu como benchmark, a principal pergunta não deveria ser simplesmente “quanto custa construir uma planta?”.
Deveria existir um painel muito mais amplo de indicadores:
- m³/dia efetivamente entregues versus capacidade nominal;
- kWh por m³ produzido;
- disponibilidade operacional da planta;
- taxa de recuperação das membranas;
- custo operacional por m³;
- vida útil e frequência de substituição das membranas;
- qualidade e estabilidade da água produzida;
- qualidade da água marinha captada;
- qualidade e dispersão da salmoura;
- custo do contrato de água de atacado;
- perdas entre o ponto de entrega e o consumidor;
- quantidade de horas de abastecimento e interrupções;
- impacto sobre reclamações dos clientes;
- evolução da extração dos aquíferos após entrada da nova fonte.
Essa última variável merece especial atenção.
Se um dos objetivos é aliviar a pressão sobre os aquíferos, a companhia precisa medir se a entrada da nova água realmente resulta em redução de captação subterrânea ou se simplesmente acompanha o crescimento da demanda sem permitir recuperação das reservas.
O que pode dar errado
O caso de Cebu também ajuda a evitar uma visão excessivamente otimista da tecnologia.
A primeira vulnerabilidade é energia. Uma escalada dos preços pode aumentar consideravelmente o custo da água.
A segunda é fouling e incrustação das membranas, capazes de reduzir produtividade e aumentar consumo energético.
A terceira é a captação marítima. O próprio cronograma de Cebu mostra uma implantação gradual enquanto os sistemas de intake são estabilizados.
A quarta é a salmoura, principalmente se projeto, dispersão ou monitoramento ambiental forem inadequados.
A quinta é confundir produção com abastecimento. Uma estação capaz de produzir 20 MLD não necessariamente entrega 20 MLD aos clientes se houver gargalos hidráulicos ou perdas elevadas.
A sexta é estrutura contratual. Em projetos de 25 ou 30 anos, definições sobre reajuste, energia, disponibilidade, volume mínimo, força maior, qualidade, expansão e divisão de riscos podem ser tão importantes quanto a escolha das membranas.
A oportunidade pouco percebida: dessalinização como seguro hídrico
Não é provável que a dessalinização substitua rios, barragens e aquíferos na maior parte do Brasil.
Provavelmente nem deveria.
Mas essa pode ser a pergunta errada.
O papel mais estratégico da tecnologia talvez seja complementar sistemas vulneráveis.
Uma companhia não necessariamente precisa produzir 100% da demanda com água do mar. Uma fonte de 10%, 15% ou 20% relativamente independente da chuva pode mudar significativamente a capacidade de enfrentar uma seca severa.
O Ceará trabalha justamente com essa lógica: a Dessal deverá acrescentar aproximadamente 12% à oferta da Região Metropolitana de Fortaleza.
Em outras palavras, segurança hídrica não significa escolher uma única fonte perfeita.
Significa construir um portfólio de fontes com riscos diferentes.
Lições para quem trabalha no saneamento
A principal contribuição da dessalinização em Cebu para profissionais brasileiros não está na membrana de osmose reversa.
Está no sistema de decisões ao redor dela.
Primeira lição: capacidade nominal não é produção real. O comissionamento e a estabilização da captação determinam quanto da planta realmente chega à rede.
Segunda: produção precisa conversar com distribuição. Não faz sentido investir bilhões em nova água e ignorar reservação, hidráulica, perdas e controle de pressão.
Terceira: energia deve entrar no estudo desde o primeiro dia. kWh/m³ precisa ser indicador estratégico, não apenas informação técnica da operação.
Quarta: água e energia caminharão cada vez mais juntas. Singapura e Austrália mostram por que eficiência energética e renováveis estão entrando no planejamento hídrico.
Quinta: a salmoura não pode ser tratada no final do projeto. Captação, lançamento e monitoramento ambiental precisam fazer parte da concepção.
Sexta: contratos de longo prazo são ativos técnicos. Engenheiros, operadores, comerciais, reguladores, jurídicos e financeiros precisam participar de sua estruturação.
Sétima: profissionais especializados serão ainda mais importantes. Operar SWRO exige conhecimento de membranas, química da água, automação, manutenção eletromecânica, eficiência energética, qualidade e gestão ambiental.
Dessalinização em Cebu mostra para onde o setor pode caminhar
O fato de 5 MLD já estarem entrando na rede de Metro Cebu é importante. Mas o verdadeiro teste começa agora.
Será necessário observar quanto tempo a IMCC levará para atingir os 20 MLD contratados, qual será sua disponibilidade operacional, quanto custará produzir cada metro cúbico, como a instalação responderá a variações na qualidade da água marinha e se a nova fonte ajudará efetivamente a reduzir a pressão sobre os aquíferos.
Esses resultados serão mais valiosos para o setor do que qualquer cerimônia de inauguração.
A dessalinização em Cebu reforça uma mudança importante: diante de crescimento urbano, mudanças climáticas e aumento da competição pelos mananciais, companhias de saneamento tendem a precisar de matrizes hídricas mais diversificadas.
Reúso, redução de perdas, gestão da demanda, águas superficiais, aquíferos, interligações, armazenamento e dessalinização não devem ser tratados como soluções rivais.
São ferramentas diferentes para riscos diferentes.
Para o Brasil, principalmente em grandes regiões metropolitanas litorâneas e territórios insulares, a pergunta já não deveria ser simplesmente “dessalinização é cara?”.
A questão profissionalmente mais útil é outra:
quanto custa não possuir uma fonte resiliente quando a próxima crise hídrica chegar?
Fontes e referências
Context.ph
Vivant Water desalination project boosts Cebu water supply
8 de setembro de 2026
Acessar a reportagem original
Vivant Corporation
New OPAV Chief joins Vivant Water tapping as Cebu strengthens water security
3 de setembro de 2026
Acessar publicação da Vivant
Vivant Corporation
MCWD boosts water supply with Vivant desal plant partnership
1º de julho de 2026
Acessar publicação da Vivant
Vivant Corporation
Integrated Report 2025
2026
Acessar Relatório Integrado 2025
Vivant Corporation
SEC Form 17-A — Annual Report 2025
Abril de 2026
Acessar relatório anual
Vivant Corporation
Vivant Water 20MLD Desalination Plant Partners with MCWD for Water Supply in Metro Cebu
10 de abril de 2025
Acessar publicação
Philippine Stock Exchange — PSE EDGE
Vivant Corporation — Clarification of News Reports
2023
Acessar divulgação à bolsa
Metropolitan Cebu Water District — MCWD
Portal institucional e informações sobre El Niño e abastecimento
2026
Acessar MCWD
PUB — Singapore’s National Water Agency
Desalinated Water
Página institucional
Acessar referência da PUB
PUB — Singapore’s National Water Agency
3Rs Decarbonisation Strategy
Atualização de 2024
Acessar estratégia de eficiência energética
Water Corporation — Western Australia
Alkimos Seawater Desalination Plant
Página institucional
Acessar projeto de Alkimos
Governo do Ceará — Programa de Alianças Público-Privadas
Dessalinização
Projeto da Cagece para a Região Metropolitana de Fortaleza
Acessar dados oficiais da PPP
Cagece — Companhia de Água e Esgoto do Ceará
Critérios técnicos, logísticos e ambientais garantem viabilidade da Dessal na Praia do Futuro
4 de maio de 2026
Acessar publicação da Cagece
Administração de Fernando de Noronha — Governo de Pernambuco
Infraestrutura e Sustentabilidade
Página institucional
Acessar informações sobre o dessalinizador
Department of Health — Philippines
Philippine National Standards for Drinking Water of 2017
Administrative Order No. 2017-0010
Acessar norma de potabilidade
Environmental Management Bureau — Philippines
Environmental Compliance Certificate Application Processing and Issuance
Página institucional
Acessar regras do sistema ambiental
Current Opinion in Environmental Sustainability / Elsevier
Impact of brine discharge from desalination plants on marine ecosystems: A review
2026
Acessar revisão científica
Water Research / Elsevier
Impacts of desalination plant discharges on the marine environment: A critical review of published studies
2010
Acessar revisão científica



