Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, deve se tornar um marco para o saneamento brasileiro ao receber a primeira usina pública de dessalinização de água voltada ao abastecimento humano no Estado. A iniciativa, divulgada pela Sabesp e reforçada pela Prefeitura de Ilhabela, chama atenção porque transforma um desafio histórico das cidades insulares em uma oportunidade técnica: usar a água disponível no entorno da ilha como fonte complementar para produzir água potável.
Segundo a Prefeitura de Ilhabela, o investimento previsto é de R$ 56,4 milhões, com expectativa de beneficiar aproximadamente 60 mil moradores e turistas. A nova estrutura deve ampliar em cerca de 20% a capacidade de produção do Sistema Água Branca, com incremento de 20 litros por segundo na oferta de água. A obra atenderá a região entre Barra Velha/Piúva e Ponta das Canas, incluindo bairros como Green Park, Reino, Itaguaçu, Itaquanduba, Engenho D’Água, Saco da Capela, Centro, Barreiros, Siriúba, Pedra do Sino e Armação.
O caso é relevante porque Ilhabela possui características comuns a muitos municípios costeiros brasileiros: alta variação de demanda, forte pressão turística, restrição ambiental para novas captações de água doce e necessidade de garantir segurança hídrica mesmo em períodos de estiagem. Portanto, a dessalinização não deve ser vista como substituta automática dos mananciais tradicionais, mas como uma fonte complementar dentro de uma matriz de abastecimento mais resiliente.
Na prática, a nova usina deverá reforçar o saneamento local ao reduzir a dependência exclusiva de rios, córregos e chuvas. Em cidades turísticas, essa dependência costuma gerar um problema recorrente: a infraestrutura é dimensionada para a população permanente, mas precisa suportar picos de consumo em feriados prolongados, férias e alta temporada. Quando a população flutuante aumenta, o sistema opera sob maior pressão, os reservatórios baixam mais rapidamente e qualquer falha na captação ou no tratamento pode causar desabastecimento.
A escolha pela dessalinização em Ilhabela também tem um fator geográfico importante. De acordo com reportagem baseada em informações da Sabesp, a captação não será feita diretamente em mar aberto, mas em trecho próximo à foz do Ribeirão Água Branca, onde há influência das marés e presença de água salobra. Essa condição pode facilitar o tratamento em relação à água oceânica plena, embora ainda exija tecnologia avançada para retirada de sais dissolvidos. A previsão divulgada é de conclusão da obra em dezembro de 2027.
O processo escolhido será a osmose reversa, tecnologia amplamente utilizada em sistemas modernos de dessalinização. De forma simples, a osmose reversa funciona como uma “peneira molecular” de alta precisão. A água salobra ou salgada é pressionada contra membranas semipermeáveis. Essas membranas permitem a passagem das moléculas de água, mas retêm grande parte dos sais, partículas, microrganismos e impurezas dissolvidas. Assim, de um lado sai água tratada; do outro, permanece uma corrente concentrada em sais, chamada salmoura ou concentrado.
Para que esse processo funcione com segurança, a usina não depende apenas das membranas. Antes da osmose reversa, normalmente ocorre o pré-tratamento, etapa essencial para remover sólidos, matéria orgânica, algas, areia fina e outras partículas que poderiam entupir ou danificar as membranas. Em projetos desse tipo, o pré-tratamento pode incluir gradeamento, filtração, ultrafiltração, dosagem de produtos químicos, controle de incrustação e ajustes operacionais conforme a qualidade da água bruta. Quando o edital do projeto foi divulgado em 2024, havia previsão de osmose reversa precedida por ultrafiltração ou tecnologia equivalente.
Depois da osmose reversa, a água produzida geralmente precisa passar por pós-tratamento. Isso ocorre porque a água dessalinizada pode sair com baixa mineralização, baixa alcalinidade e características químicas que exigem correção antes da distribuição. Por isso, podem ser necessárias etapas como remineralização, ajuste de pH, correção de alcalinidade e desinfecção. Esse cuidado é fundamental para proteger a saúde dos consumidores, evitar corrosão nas redes e garantir estabilidade da água no sistema de distribuição.
Para o saneamento, esse ponto é decisivo. A água dessalinizada não deve ser analisada apenas pelo critério “retirou o sal”. Ela precisa cumprir integralmente o padrão de potabilidade exigido no Brasil. A norma vigente de qualidade da água para consumo humano é o Anexo XX da Portaria de Consolidação GM/MS nº 5/2017, atualizado pela Portaria GM/MS nº 888/2021 e pela Portaria GM/MS nº 2.472/2021. O Ministério da Saúde define água potável como aquela que atende ao padrão de potabilidade e não oferece riscos à saúde.
Isso significa que a operação da futura usina deverá monitorar parâmetros como turbidez, cor, pH, cloro residual, fluoreto quando aplicável, presença de Escherichia coli, coliformes, compostos químicos, metais e outros indicadores de controle. Além disso, em sistemas com dessalinização, a condutividade elétrica e os sólidos dissolvidos totais ganham relevância operacional, porque indicam o nível de sais remanescentes na água tratada.
A Organização Mundial da Saúde também destaca que sistemas de dessalinização exigem avaliação de riscos, gestão adequada da água de origem, controle do tratamento e planos de segurança da água. Ou seja, a tecnologia pode produzir água segura, mas depende de projeto, operação, manutenção, monitoramento e resposta rápida a desvios de qualidade.
Outro ponto essencial é o consumo de energia. A osmose reversa é mais eficiente do que processos térmicos antigos de dessalinização, mas ainda consome mais energia do que o tratamento convencional de água doce superficial. Isso acontece porque o sistema precisa de bombas de alta pressão para forçar a passagem da água pelas membranas. Portanto, a eficiência energética será um dos principais indicadores de desempenho da usina.
Em termos simples, quanto maior a salinidade da água captada, maior tende a ser a pressão necessária para vencer a barreira osmótica. Consequentemente, maior pode ser o consumo energético por metro cúbico produzido. Por isso, se a água captada em Ilhabela tiver característica salobra, e não exclusivamente marinha, o processo pode operar em condições diferentes das grandes usinas de água do mar. Mesmo assim, o controle energético seguirá como desafio técnico e econômico.
A reportagem do Metrópoles informou que, segundo a Sabesp, a operação da futura unidade deverá custar cerca de 30% mais do que um sistema convencional de produção de água. Ainda assim, a companhia indicou que o impacto financeiro será absorvido pela estrutura operacional e não deverá provocar aumento tarifário direto para os consumidores.
Esse dado é importante para profissionais de saneamento, porque mostra que a viabilidade da dessalinização não depende apenas da engenharia de tratamento. Ela envolve análise tarifária, planejamento de longo prazo, demanda futura, custos operacionais, energia, licenciamento ambiental e capacidade de integração com a rede existente. Em outras palavras, a tecnologia precisa fazer sentido dentro do sistema como um todo.
Além disso, o projeto não é apenas uma estação isolada. A estrutura prevista envolve captação, bombeamento, tratamento, reservação, adução e distribuição. A Prefeitura de Ilhabela informou que o investimento contempla sistemas de bombeamento, novas tubulações, reservatórios e toda a infraestrutura necessária para integrar a produção ao Sistema Água Branca.
Essa integração é um ponto crítico. Produzir água é apenas uma parte do problema. Depois de produzida, a água precisa chegar aos reservatórios, ser misturada ou distribuída de forma adequada, manter qualidade ao longo da rede e atender áreas de consumo com pressão suficiente. Para o operador de saneamento, isso exige modelagem hidráulica, setorização, controle de perdas, monitoramento de pressões e planejamento de manobras operacionais.
A dessalinização também traz uma discussão ambiental inevitável: o destino da salmoura. Toda usina de osmose reversa gera uma corrente concentrada com os sais removidos da água. Se essa salmoura for lançada de forma inadequada, pode alterar a salinidade local, afetar organismos aquáticos e gerar impactos no entorno do ponto de descarte. Por isso, o licenciamento ambiental e o monitoramento do lançamento são partes fundamentais do projeto.
Estudos internacionais estimam que as usinas de dessalinização produzem cerca de 141,5 milhões de metros cúbicos de salmoura por dia no mundo, volume superior ao total de água dessalinizada produzida. O dado reforça a importância de estratégias adequadas de gestão, diluição, dispersão e monitoramento ambiental do concentrado.
No caso de Ilhabela, a Sabesp informou que o material concentrado será devolvido ao mar conforme os parâmetros do licenciamento ambiental conduzido pela Cetesb, com estudos prévios e monitoramento permanente da água produzida e dos resíduos gerados. A empresa também informou que, após a conclusão das obras, deverá solicitar licença de operação para início das atividades.
Para que o projeto seja considerado uma referência positiva em saneamento, a transparência desses dados será essencial. Indicadores como vazão captada, vazão produzida, taxa de recuperação, consumo específico de energia, condutividade da água produzida, volume de salmoura, qualidade do lançamento, disponibilidade operacional e custo por metro cúbico deveriam ser acompanhados com rigor. Esses números permitirão avaliar se a usina entrega segurança hídrica de forma eficiente, sustentável e economicamente justificável.
A imagem utilizada pela Sabesp no Instagram também revela uma tendência de comunicação no setor: transformar temas técnicos em mensagens compreensíveis para a população. A dessalinização envolve membranas, bombas, salmoura, remineralização, licenciamento e controle laboratorial. Contudo, para o usuário final, a mensagem central é direta: mais água potável, mais segurança e menos risco de falta d’água. Essa ponte entre linguagem técnica e comunicação pública é cada vez mais necessária no saneamento.
Ao mesmo tempo, é importante evitar simplificações excessivas. A água do mar não “vira potável” apenas por passar por uma máquina. Ela passa por uma cadeia de processos físicos, químicos, hidráulicos e laboratoriais. Há consumo de energia, geração de rejeito, necessidade de operadores capacitados, manutenção preventiva, troca de membranas, controle de incrustação e monitoramento contínuo. Portanto, o mérito da tecnologia está justamente na combinação entre engenharia, gestão e operação qualificada.
A implantação em Ilhabela pode abrir caminho para discussões em outras cidades brasileiras. O país possui uma extensa costa, ilhas habitadas, regiões turísticas e comunidades com dificuldades de acesso à água doce. Entretanto, a dessalinização não deve ser tratada como solução universal. Em muitos casos, pode ser mais eficiente investir primeiro em redução de perdas, proteção de mananciais, reservação, reúso, setorização, telemetria, controle de pressão e melhoria da eficiência operacional.
Por outro lado, em locais onde há restrição real de novas captações, forte sazonalidade turística e risco de escassez, a dessalinização pode se tornar uma alternativa estratégica. Ilhabela parece se enquadrar nesse perfil. A própria Sabesp apontou limitações ambientais para novas captações de água doce, inviabilidade técnica de poços profundos e necessidade de reforçar a segurança hídrica diante do crescimento da demanda.
O projeto também dialoga com a agenda de adaptação climática. A mudança no comportamento das chuvas, os eventos extremos e a maior pressão sobre mananciais tornam o planejamento do saneamento mais complexo. Sistemas que antes dependiam apenas de fontes convencionais precisam considerar redundância, flexibilidade e diversificação. Nesse cenário, a dessalinização funciona como uma espécie de “seguro operacional” para momentos de maior estresse hídrico.
O investimento também possui valor simbólico. Durante décadas, o saneamento brasileiro foi marcado principalmente pela expansão de redes, estações de tratamento convencionais e obras de infraestrutura básica. Agora, além de universalizar o acesso, o setor precisa incorporar inovação, dados, automação, eficiência energética e novas fontes de água. A usina de Ilhabela representa esse movimento: não se trata apenas de captar e tratar, mas de redesenhar a matriz de abastecimento para um território específico.
Para os profissionais do setor, o aprendizado principal é claro: projetos de saneamento precisam ser cada vez mais personalizados ao território. Uma solução adequada para uma região metropolitana pode não servir para uma ilha. Uma tecnologia viável em uma área industrial pode não ser adequada para uma comunidade isolada. Uma captação simples em um rio pode ser suficiente em um município, mas impossível em outro por restrições ambientais, salinização, estiagem ou sazonalidade.
Por isso, a dessalinização em Ilhabela merece acompanhamento técnico. O sucesso do projeto não será medido apenas pela inauguração da obra, mas pela capacidade de entregar água com qualidade, regularidade, custo controlado e baixo impacto ambiental ao longo dos anos. Também será necessário avaliar se a operação realmente reduz episódios de desabastecimento nos períodos de maior demanda e se o Sistema Água Branca ganha maior estabilidade.
O caso mostra que o futuro do saneamento passa pela integração de soluções. A água dessalinizada pode complementar a água doce captada em mananciais. A energia fotovoltaica pode ajudar a reduzir parte dos custos energéticos. A automação pode melhorar o controle da operação. O monitoramento ambiental pode dar segurança ao descarte da salmoura. A comunicação pública pode aproximar a população da tecnologia. E a gestão eficiente pode transformar uma obra inovadora em resultado prático.
Ilhabela, portanto, não está apenas recebendo uma usina. Está testando um modelo de resposta para um problema que tende a crescer em muitas regiões: como garantir água potável em um cenário de pressão urbana, turismo intenso, restrições ambientais e incerteza climática. Para o saneamento brasileiro, a resposta não estará em uma única tecnologia, mas na capacidade de combinar planejamento, inovação, regulação, operação e transparência.
Fontes
- Prefeitura de Ilhabela — anúncio de 2026 sobre investimento, capacidade, bairros atendidos e tecnologia de osmose reversa.
- Prefeitura de Ilhabela — anúncio de 2024 sobre edital, previsão inicial e estrutura do projeto.
- Metrópoles — detalhes sobre prazo, captação salobra, custo operacional, licenciamento e monitoramento ambiental.
- Saneas Online — resumo técnico sobre investimento, vazão e atendimento aos padrões de potabilidade.
- Ministério da Saúde — norma vigente de qualidade da água para consumo humano.
- Organização Mundial da Saúde — orientações sobre água potável produzida por dessalinização.
- Science of the Total Environment / estudo global sobre salmoura em dessalinização.



