Saneamento digital: SAGAL da Sanepar vence prêmio global

A Companhia de Saneamento do Paraná conquistou, em 13 de julho de 2026, o prêmio internacional Special Achievement in GIS, conhecido como SAG Award. O reconhecimento foi concedido pela Esri durante sua conferência mundial de usuários, realizada em San Diego, nos Estados Unidos.

A Sanepar foi a única organização brasileira incluída entre os vencedores internacionais da edição de 2026. A companhia foi reconhecida pelo desenvolvimento do SAGAL Esgoto — Sistema de Análise e Gestão de Ativos Lineares de Esgoto, uma plataforma criada para avaliar a condição das redes coletoras e apoiar a definição das prioridades de manutenção e investimento. 

Mais do que premiar um mapa digital, o reconhecimento destaca uma mudança importante na gestão do saneamento. Em vez de depender exclusivamente de inspeções pontuais, históricos isolados ou decisões baseadas apenas na experiência das equipes, o SAGAL reúne diferentes informações para mostrar onde estão os trechos mais críticos da infraestrutura.

Consequentemente, o saneamento passa a contar com um processo de decisão mais estruturado, rastreável e orientado por risco.

O que é o SAGAL Esgoto

O SAGAL Esgoto é uma plataforma de gestão de ativos lineares. No saneamento, ativos lineares são estruturas que se desenvolvem ao longo do território, como redes coletoras, interceptores, emissários, linhas de recalque e tubulações de distribuição.

Esses ativos apresentam um desafio específico: grande parte da infraestrutura está enterrada e não pode ser observada diretamente durante a operação cotidiana. Além disso, uma companhia pode administrar milhares de quilômetros de tubulações construídas em épocas diferentes, com materiais, diâmetros, profundidades e condições operacionais variadas.

O sistema desenvolvido pela Sanepar combina duas tecnologias principais:

  • o Sistema de Informações Geográficas, conhecido pela sigla GIS;
  • o método de decisão multicritério AHP, ou Analytic Hierarchy Process.

Segundo a divulgação da Aesbe, a plataforma cruza informações relacionadas aos consumidores e aos serviços executados pela companhia. A partir desse cruzamento, são identificados os trechos da rede que apresentam maior criticidade e que, portanto, devem receber atenção prioritária. 

A nota pública consultada, entretanto, não apresenta a matriz completa de critérios, os pesos utilizados, as regras de cálculo ou a fórmula final do índice de criticidade. Por isso, não é possível afirmar quais variáveis específicas integram atualmente o modelo operacional da Sanepar.

Ainda assim, a lógica técnica da solução pode ser compreendida com clareza.

Como a plataforma transforma dados em prioridades

Uma rede coletora pode apresentar centenas ou milhares de ocorrências ao longo do tempo. Entre elas podem estar obstruções, extravasamentos, afundamentos, infiltrações, rompimentos, refluxos em imóveis e repetição de serviços no mesmo endereço.

Quando essas informações permanecem separadas em sistemas diferentes, torna-se difícil visualizar o problema completo. Uma área pode registrar muitas reclamações, outra pode concentrar serviços emergenciais e uma terceira pode apresentar elevado impacto ambiental em caso de falha.

O SAGAL organiza essas informações espacialmente. Dessa forma, cada ocorrência deixa de ser apenas um número em uma planilha e passa a ser relacionada ao trecho exato da infraestrutura.

Na prática, o funcionamento pode ser compreendido em etapas.

Primeiramente, as informações operacionais são associadas à localização da rede. Em seguida, os critérios relevantes são avaliados e recebem diferentes níveis de importância. Posteriormente, os resultados são combinados em um índice. Por fim, os trechos podem ser classificados em faixas de criticidade e visualizados em mapas.

Assim, uma rede com sucessivas obstruções, elevado número de reclamações e forte consequência ambiental pode receber prioridade maior do que outra com poucas ocorrências e baixo impacto em caso de falha.

O resultado não elimina a avaliação dos engenheiros e técnicos. Pelo contrário, oferece uma base mais consistente para que o conhecimento operacional seja aplicado nos locais corretos.

O papel do método AHP no saneamento

O AHP é um método utilizado para apoiar decisões que envolvem diversos critérios. Sua principal característica é permitir que fatores diferentes sejam comparados e transformados em pesos de importância.

Em uma análise de rede de esgoto, por exemplo, podem existir critérios relacionados à probabilidade de falha e critérios relacionados às consequências dessa falha. Estudos técnicos já utilizaram a combinação entre GIS e AHP para avaliar riscos em tubulações de esgoto e estabelecer prioridades de inspeção, manutenção ou substituição. 

De forma simplificada, o AHP organiza a decisão em uma hierarquia.

No nível superior encontra-se o objetivo principal, como identificar os trechos mais críticos. Abaixo aparecem os grupos de critérios. Posteriormente, podem ser incluídos subcritérios e alternativas.

Os critérios são comparados em pares. Dessa maneira, avalia-se, por exemplo, se a frequência de extravasamentos deve ter importância maior ou menor do que a quantidade de reclamações. O procedimento gera pesos matemáticos para cada fator.

Essa metodologia ajuda a evitar que todas as variáveis sejam tratadas como se tivessem o mesmo impacto. Além disso, permite verificar a consistência das comparações realizadas pelos especialistas.

Entretanto, a qualidade do resultado depende da qualidade dos dados e da coerência dos pesos definidos. Portanto, o método precisa ser acompanhado por governança, revisão periódica e participação de profissionais que conheçam a realidade das redes.

Por que o GIS é decisivo para a gestão dos ativos

O GIS não funciona apenas como um mapa eletrônico. Trata-se de um ambiente capaz de armazenar, relacionar, analisar e apresentar informações associadas ao território.

No saneamento, a localização é parte essencial do problema. Uma falha próxima a um rio, hospital, escola ou área densamente povoada pode ter consequências muito maiores do que uma falha semelhante em uma região de menor sensibilidade.

Da mesma forma, dois trechos com o mesmo número de ocorrências podem exigir decisões diferentes conforme a profundidade da rede, a condição do pavimento, a acessibilidade para manutenção e a presença de outros serviços subterrâneos.

Segundo a Esri, plataformas geográficas podem apoiar todo o ciclo de vida dos ativos de água e esgoto, reunindo informações sobre desempenho, risco, recursos, custos, localização e relação entre diferentes componentes da infraestrutura. 

Portanto, o GIS permite visualizar padrões que dificilmente apareceriam em relatórios convencionais.

Uma concentração de obstruções pode indicar descarte inadequado de resíduos. Ocorrências distribuídas ao longo de uma mesma bacia podem apontar sobrecarga hidráulica. Serviços repetidos em determinado trecho podem sugerir que o reparo pontual já não é economicamente suficiente.

Dessa maneira, o mapa se transforma em instrumento de engenharia, planejamento e gestão financeira.

A dimensão da infraestrutura administrada pela Sanepar

A relevância do SAGAL fica mais evidente quando se observa o tamanho do sistema operado pela companhia.

Ao final de 2025, a Sanepar registrava aproximadamente 44,4 mil quilômetros de redes de esgoto, 273 estações de tratamento e cerca de 3,59 milhões de economias atendidas com rede coletora. O índice urbano de atendimento com esgotamento sanitário alcançava 82,4%, enquanto 100% do esgoto coletado era tratado, conforme os indicadores divulgados pela empresa. 

Administrar uma infraestrutura dessa dimensão exige critérios claros para decidir onde inspecionar, recuperar ou substituir redes.

Não seria operacionalmente viável realizar inspeções completas em todos os quilômetros de tubulação com a mesma frequência. Além disso, os recursos financeiros, as equipes, os equipamentos e os contratos disponíveis são limitados.

Por isso, a gestão baseada em criticidade permite concentrar recursos nos pontos em que uma intervenção pode evitar maiores prejuízos.

O desafio não é exclusivo do Paraná. O SINISA 2025, com ano de referência 2024, informou que 62,3% da população total brasileira e 68,4% da população urbana estavam atendidas por redes coletoras de esgoto entre os participantes do levantamento. O mesmo relatório contabilizou R$ 13,68 bilhões em investimentos em esgotamento sanitário. 

Nesse cenário, ferramentas que ajudam a melhorar a aplicação dos investimentos ganham importância estratégica para todo o saneamento brasileiro.

Impactos operacionais esperados

O primeiro impacto esperado é a melhoria do planejamento da manutenção.

Sem uma classificação de criticidade, as equipes podem permanecer concentradas no atendimento reativo. A operação passa a responder aos problemas somente depois que eles aparecem, geralmente por meio de reclamações, extravasamentos ou interrupções.

Com uma plataforma analítica, os trechos com maior risco podem ser acompanhados antes que uma falha grave aconteça. Desse modo, inspeções por vídeo, limpeza preventiva, testes, monitoramento e substituições podem ser programados com maior precisão.

Além disso, o SAGAL pode contribuir para reduzir a repetição de serviços.

Quando um trecho recebe reparos sucessivos, o custo acumulado das intervenções pode superar o valor de uma recuperação definitiva. Entretanto, essa conclusão nem sempre é visível quando cada ordem de serviço é analisada isoladamente.

Ao reunir o histórico no mapa, torna-se mais fácil identificar redes nas quais o modelo de manutenção corretiva deixou de ser economicamente adequado.

Outro benefício está na programação das equipes. Os serviços podem ser agrupados territorialmente, reduzindo deslocamentos, melhorando a utilização de equipamentos e favorecendo contratos baseados em desempenho.

Portanto, o saneamento digital não se limita ao uso de softwares. Ele modifica a forma como a operação organiza seus recursos.

Impactos financeiros para a companhia

A manutenção de uma rede de esgoto envolve custos com mão de obra, equipamentos, veículos, materiais, recomposição de pavimento, sinalização, limpeza, destinação de resíduos e atendimento aos consumidores.

Quando ocorre um extravasamento de maior gravidade, também podem surgir despesas ambientais, indenizações, multas, ações judiciais e danos à imagem da prestadora.

Ao priorizar os trechos mais críticos, o SAGAL pode contribuir para reduzir custos emergenciais e direcionar melhor os investimentos. Entretanto, essa economia não deve ser entendida apenas como redução imediata de despesas.

Em alguns casos, a plataforma pode indicar a necessidade de investir mais em determinado trecho. A diferença é que o investimento passa a ser realizado com base em risco, impacto e histórico operacional.

Essa lógica se aproxima dos princípios modernos de gestão de ativos. A família ISO 55000 estabelece que as decisões devem considerar valor, risco, desempenho, custos e ciclo de vida dos ativos. A edição atualizada da ISO 55001 reforça a necessidade de decisões consistentes, gestão de dados e planejamento ao longo do ciclo de vida. 

Consequentemente, o melhor investimento não é necessariamente o de menor preço inicial. Trata-se daquele que entrega maior valor para a organização e para a população ao longo do tempo.

Benefícios ambientais e sociais

Uma falha em rede coletora pode provocar extravasamento de esgoto em ruas, imóveis, córregos e áreas ambientalmente sensíveis.

Além dos transtornos imediatos, essas ocorrências podem contaminar o solo, comprometer corpos hídricos, produzir odores e expor a população a riscos sanitários.

Por isso, a criticidade não deve ser avaliada somente pelo custo do reparo. Também precisam ser consideradas as consequências ambientais e sociais.

Um trecho próximo a uma área de proteção, por exemplo, pode exigir prioridade mesmo que apresente menos ocorrências do que outro. Da mesma forma, uma rede localizada em área de grande circulação pode gerar impactos mais amplos em caso de colapso.

Ao incorporar localização e múltiplos critérios, o SAGAL cria condições para uma avaliação mais completa. Assim, o saneamento passa a considerar não apenas a probabilidade de falha, mas também a gravidade de suas consequências.

Essa abordagem fortalece a prevenção e pode contribuir para maior segurança operacional.

O que torna o projeto inovador

A inovação não está apenas no uso de mapas ou na criação de um painel visual.

O diferencial está na integração entre dados, critérios técnicos e decisão espacial. Em muitas companhias, informações comerciais, cadastros de rede, ordens de serviço, reclamações e registros de manutenção permanecem em ambientes separados.

O SAGAL procura transformar esses registros em inteligência operacional.

Outro aspecto relevante é a passagem de uma gestão baseada predominantemente em ocorrências para uma gestão orientada por risco. Assim, a infraestrutura deixa de ser tratada como um conjunto uniforme de tubulações e passa a ser analisada conforme seu desempenho e importância.

O desenvolvimento também envolveu diferentes áreas da Sanepar. De acordo com a Aesbe, o projeto foi conduzido pela Diretoria de Operações em conjunto com a empresa Imagem e contou com o apoio da Gerência de Tecnologia da Informação. 

Essa integração institucional é essencial. Projetos de transformação digital tendem a apresentar melhores resultados quando tecnologia, operação, engenharia e gestão atuam de forma coordenada.

Os cuidados necessários para garantir bons resultados

Apesar do potencial, nenhuma plataforma analítica produz decisões corretas automaticamente.

O primeiro cuidado está na qualidade cadastral. Se a posição da rede estiver incorreta, se os serviços não forem associados ao trecho adequado ou se as informações estiverem incompletas, o índice de criticidade poderá apresentar distorções.

O segundo cuidado envolve a padronização dos registros. Uma mesma ocorrência não pode receber classificações diferentes conforme a equipe, a regional ou a empresa contratada.

Também é necessário revisar periodicamente os pesos do método AHP. A importância de cada critério pode mudar conforme a experiência acumulada, o crescimento urbano, as alterações climáticas e o comportamento da infraestrutura.

Além disso, o resultado do sistema precisa ser comparado com inspeções de campo. Uma classificação elevada deve levar a verificações que confirmem ou descartem o risco indicado pelo modelo.

Outro ponto fundamental é a governança. Devem ser definidos os responsáveis por atualizar os dados, validar os resultados, aprovar alterações no modelo e registrar as decisões tomadas.

Por fim, precisam ser adotados controles de segurança da informação. Cadastros de infraestrutura representam dados estratégicos e devem contar com níveis adequados de acesso, rastreabilidade e proteção.

Como outras empresas de saneamento podem aplicar o conceito

A experiência da Sanepar pode ser adaptada por outras prestadoras, mesmo quando não existe inicialmente uma plataforma tão avançada.

O primeiro passo consiste em consolidar o cadastro geográfico das redes. Posteriormente, devem ser integrados os históricos de serviços, ocorrências, reclamações, inspeções e investimentos.

Em seguida, podem ser definidos os critérios de criticidade. Entre os exemplos normalmente avaliados em modelos de gestão estão frequência de falhas, consequência ambiental, impacto sobre clientes, custo de manutenção, condição estrutural, acessibilidade e importância operacional.

Entretanto, cada prestadora precisa desenvolver critérios compatíveis com seu sistema. Uma companhia com redes antigas em grandes centros urbanos enfrenta desafios diferentes daqueles observados em um município de menor porte.

Depois da definição dos critérios, torna-se possível aplicar pesos, calcular índices e produzir mapas de priorização.

A implantação pode começar por uma regional, bacia de esgotamento ou município-piloto. Assim, o modelo é testado, comparado com a realidade operacional e ajustado antes da expansão.

O mais importante é evitar que o projeto se transforme apenas em um painel. A classificação de criticidade precisa gerar planos de inspeção, manutenção, substituição e investimento.

Um novo padrão para o saneamento brasileiro

A premiação internacional recebida pela Sanepar demonstra que o saneamento brasileiro possui capacidade para desenvolver soluções reconhecidas globalmente.

Além disso, o projeto mostra que inovação não significa necessariamente substituir toda a infraestrutura ou adquirir equipamentos complexos. Em muitos casos, o avanço começa pela organização e pelo melhor uso dos dados que já existem.

O SAGAL Esgoto transforma históricos operacionais em prioridades visíveis. Dessa maneira, aproxima a operação cotidiana do planejamento estratégico e da gestão financeira.

O prêmio também reforça que decisões de saneamento precisam ser cada vez mais sustentadas por evidências. Em um setor com grandes necessidades de expansão e recursos limitados, investir sem priorização pode ampliar desperdícios e atrasar resultados.

Portanto, a principal contribuição do SAGAL está na capacidade de indicar onde agir primeiro, por qual motivo e com qual nível de urgência.

Conclusão

O reconhecimento concedido à Sanepar representa um avanço relevante para a transformação digital do saneamento.

Ao integrar GIS, análise multicritério e informações operacionais, o SAGAL Esgoto cria uma visão mais completa da infraestrutura. Com isso, torna-se possível localizar redes críticas, orientar inspeções, reduzir intervenções repetitivas e melhorar a aplicação dos investimentos.

Entretanto, a tecnologia precisa estar apoiada em cadastros confiáveis, governança, validação de campo e revisão contínua dos critérios.

Quando esses elementos funcionam em conjunto, o mapa deixa de ser apenas uma representação da rede. Ele passa a funcionar como uma plataforma de decisão.

Para o saneamento brasileiro, a experiência indica um caminho promissor: transformar dados dispersos em conhecimento, conhecimento em prioridade e prioridade em ações capazes de proteger a população, o meio ambiente e os recursos das companhias.


Fontes