Sistema Cantareira em alerta: risco aumenta em 2026

O nível de água do Sistema Cantareira voltou a acender um sinal de atenção para os profissionais responsáveis pelo abastecimento público. Em julho de 2026, o principal sistema produtor da Região Metropolitana de São Paulo permaneceu na Faixa de Alerta, enquanto a combinação de pouca chuva, redução das vazões afluentes e avanço do período seco continuou pressionando os reservatórios.

Entre 1º e 27 de julho, o volume armazenado caiu de aproximadamente 39,8% para 37,1% da capacidade útil. Portanto, houve uma redução de 2,7 pontos percentuais em menos de um mês. Ao mesmo tempo, a chuva acumulada chegou a apenas 11,7 milímetros, diante de uma média histórica de 42,4 milímetros para julho. Isso significa que choveu pouco mais de 27% do esperado para o mês. 

A situação não representa, por si só, o início imediato de um racionamento. Entretanto, o cenário exige medidas preventivas, controle rigoroso das retiradas, redução de perdas, gestão da pressão e acompanhamento diário das condições hidrológicas.

Além disso, o comportamento do Sistema Cantareira durante os próximos meses poderá influenciar diretamente a operação integrada dos demais mananciais, os custos da produção de água e a segurança do abastecimento de milhões de pessoas.

O que significa a Faixa de Alerta do Sistema Cantareira

A Faixa de Alerta não é apenas uma expressão usada para comunicar preocupação. Na prática, trata-se de uma condição operacional prevista pela Resolução Conjunta ANA/DAEE nº 925, publicada em 2017 após a crise hídrica de 2014 e 2015.

A norma criou cinco faixas para definir quanto a Sabesp pode retirar do Sistema Cantareira, conforme o volume útil armazenado:

  • Faixa Normal: volume igual ou superior a 60%;
  • Faixa de Atenção: volume entre 40% e 60%;
  • Faixa de Alerta: volume entre 30% e 40%;
  • Faixa de Restrição: volume entre 20% e 30%;
  • Faixa Especial: volume inferior a 20%.

Na Faixa Normal, a retirada máxima média mensal pode chegar a 33 metros cúbicos por segundo. Na Faixa de Atenção, o limite cai para 31 metros cúbicos por segundo. Já na Faixa de Alerta, a retirada máxima é reduzida para 27 metros cúbicos por segundo.

Caso o volume caia para a Faixa de Restrição, a autorização diminui para 23 metros cúbicos por segundo. Por fim, na Faixa Especial, o limite pode chegar a apenas 15,5 metros cúbicos por segundo. 

Consequentemente, quanto menor o volume armazenado, menor tende a ser a quantidade de água que pode ser retirada para abastecer a Região Metropolitana de São Paulo. Essa redução tem o objetivo de retardar o esvaziamento dos reservatórios e preservar uma reserva operacional para os meses seguintes.

Queda representa bilhões de litros armazenados a menos

O Sistema Cantareira possui volume útil total de aproximadamente 981,56 bilhões de litros. Dessa forma, uma queda de 2,7 pontos percentuais representa, em ordem de grandeza, cerca de 26,5 bilhões de litros a menos no armazenamento útil.

Essa estimativa ajuda a demonstrar por que pequenas variações percentuais merecem atenção. Em um sistema dessa dimensão, cada ponto percentual corresponde a aproximadamente 9,8 bilhões de litros de água.

Contudo, a análise não deve considerar apenas o percentual armazenado. Também precisam ser observadas as vazões que entram nos reservatórios, as retiradas realizadas para abastecimento, as liberações para os rios das Bacias PCJ, a transferência de outros sistemas e a previsão de chuvas na área de contribuição.

O Sistema Cantareira é formado pelos reservatórios Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro. Embora estejam interligados, cada reservatório possui características próprias de armazenamento, vazão, área de drenagem e resposta às chuvas. 

Por que uma chuva forte nem sempre recupera os reservatórios

Um erro comum consiste em acreditar que chuvas intensas registradas na cidade de São Paulo necessariamente aumentam o volume do Sistema Cantareira. Entretanto, os reservatórios estão localizados fora da capital e dependem principalmente das chuvas que atingem suas bacias de contribuição.

Além disso, a chuva precisa gerar escoamento suficiente para alimentar os rios e córregos que chegam às represas. Quando o solo está seco, parte da água é inicialmente absorvida. Outra parcela evapora ou fica retida na vegetação. Por isso, chuvas rápidas, isoladas e concentradas podem produzir pouca recuperação.

O comportamento observado em junho de 2026 demonstra essa diferença. Segundo o Cemaden, a precipitação daquele mês alcançou 193% da média histórica. Apesar disso, a vazão afluente correspondeu a apenas 76% da média do período.

Isso ocorreu porque junho faz parte da estação seca e apresenta baixos volumes absolutos de chuva. Assim, mesmo uma precipitação proporcionalmente acima da média pode não gerar água suficiente para elevar significativamente o armazenamento. 

Portanto, a recuperação sustentável do Sistema Cantareira depende de chuvas frequentes, bem distribuídas e persistentes sobre toda a bacia. Uma sequência de dias chuvosos costuma ser mais eficiente do que um temporal isolado.

Projeções indicam dependência da próxima estação chuvosa

As projeções do Cemaden publicadas em julho indicaram que, em um cenário de chuvas dentro da média histórica, o volume útil poderia chegar ao fim de setembro de 2026 em aproximadamente 36%.

Nesse cenário, o Sistema Cantareira continuaria na Faixa de Alerta ao término da estação seca. Posteriormente, com a retomada das chuvas, o armazenamento poderia alcançar cerca de 45% ao final de dezembro, retornando à Faixa de Atenção.

Entretanto, essas projeções consideraram um aporte médio diário de 8,5 metros cúbicos por segundo proveniente da interligação com o Sistema Paraíba do Sul. Também dependem das retiradas efetivamente realizadas pela operadora e do comportamento real das chuvas.

Portanto, não se trata de uma previsão garantida. Caso as precipitações fiquem abaixo da média, a recuperação poderá ser menor. Por outro lado, chuvas regulares e bem distribuídas poderão melhorar o cenário. 

O ponto central é que o Sistema Cantareira iniciou a estação seca de 2026 com armazenamento abaixo do nível considerado confortável. Assim, a segurança hídrica passou a depender ainda mais da gestão da demanda e da qualidade da próxima temporada chuvosa.

Qual é o papel da interligação Jaguari-Atibainha

Uma das principais obras executadas depois da crise de 2014 e 2015 foi a interligação entre a represa Jaguari, localizada na Bacia do Paraíba do Sul, e o reservatório Atibainha, integrante do Sistema Cantareira.

Essa infraestrutura permite transferir água entre bacias e ampliar a flexibilidade operacional. Dessa maneira, volumes disponíveis no reservatório Jaguari podem ser bombeados para Atibainha, respeitando as condições hidrológicas, os limites de outorga e as decisões dos órgãos gestores.

A Resolução nº 925 permite que, nas faixas de Atenção, Alerta e Restrição, a água transferida do Jaguari seja acrescentada ao limite de retirada do Sistema Cantareira para a Região Metropolitana de São Paulo. 

Entretanto, a interligação não deve ser tratada como uma fonte ilimitada. O reservatório Jaguari também atende aos usos da Bacia do Paraíba do Sul, responsável pelo abastecimento de cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, além de outros usos econômicos e ambientais.

Consequentemente, a transferência funciona como reforço de segurança, mas não substitui a necessidade de reduzir perdas, controlar o consumo e preservar os demais mananciais.

El Niño aumenta a incerteza para o abastecimento

O El Niño de 2026 também entrou no planejamento dos órgãos responsáveis pelo abastecimento. Dados oficiais do INMET indicaram que, em junho, as águas do Pacífico Equatorial já apresentavam um padrão típico do fenômeno.

Os modelos apontaram probabilidade superior a 90% de permanência do El Niño até, pelo menos, o início de 2027. Além disso, foi identificada alta probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre a primavera e o verão de 2026. 

Todavia, não seria tecnicamente correto afirmar que o El Niño, sozinho, provocará falta de chuva no Sistema Cantareira. Os efeitos do fenômeno variam conforme a região, a época do ano e a interação com outros sistemas atmosféricos.

Ainda assim, o El Niño aumenta a possibilidade de irregularidade climática, temperaturas elevadas e mudanças na distribuição das chuvas. Temperaturas mais altas também podem elevar a evaporação nos reservatórios e aumentar o consumo de água pela população.

Portanto, o fenômeno deve ser tratado como um fator adicional de risco, e não como uma explicação única para a queda dos níveis.

Redução de pressão ajuda, mas exige controle operacional

Uma das medidas adotadas para reduzir o consumo dos mananciais foi a diminuição da pressão na rede durante a noite. Desde setembro de 2025, a redução passou a ser aplicada durante dez horas, entre 19h e 5h, na Região Metropolitana de São Paulo. 

A redução de pressão diminui a quantidade de água perdida em vazamentos existentes. Isso ocorre porque o volume que escapa por fissuras, juntas e ramais tende a ser maior quando a pressão da rede está elevada.

Além disso, durante a madrugada, o consumo normalmente é menor. Consequentemente, torna-se possível operar com pressões mais baixas sem reduzir na mesma proporção o atendimento aos usuários.

Contudo, a medida precisa ser acompanhada por sensores, válvulas redutoras, telemetria, setorização e equipes de manutenção. Caso contrário, áreas elevadas, pontas de rede e imóveis sem reservação adequada podem sofrer redução excessiva da pressão ou desabastecimento temporário.

Assim, a gestão eficiente não deve simplesmente diminuir a pressão de forma generalizada. O ideal é controlar cada distrito de medição, identificar pontos críticos e ajustar as válvulas conforme a demanda real.

Perdas de água tornam-se ainda mais graves durante a seca

Quando um manancial entra em situação de alerta, cada metro cúbico produzido passa a ter maior valor operacional. Portanto, perdas físicas na distribuição deixam de ser apenas um indicador de eficiência e passam a representar um risco direto à segurança hídrica.

Vazamentos em redes, ramais, conexões e reservatórios obrigam a companhia a retirar, tratar, bombear e distribuir volumes que não chegam aos consumidores. Além disso, essas perdas elevam o consumo de energia e produtos químicos.

A Norma de Referência ANA nº 275, publicada em 2025, estabeleceu diretrizes nacionais para diagnóstico, planejamento, controle e monitoramento das perdas de água nos sistemas de distribuição. A norma reforça a necessidade de metas, indicadores padronizados e planos estruturados de redução. 

Para proteger o Sistema Cantareira, o combate às perdas deve priorizar áreas com maior volume perdido, alta pressão, redes antigas e histórico recorrente de vazamentos. Dessa forma, a aplicação dos recursos tende a gerar resultados mais rápidos.

Impactos operacionais e financeiros para o saneamento

A permanência do Sistema Cantareira na Faixa de Alerta produz efeitos que vão além do nível dos reservatórios.

Operacionalmente, torna-se necessário aumentar o monitoramento das captações, vazões afluentes, pressões, transferências entre sistemas e consumo diário. Também cresce a importância de manter equipamentos de bombeamento, adutoras e válvulas em condições confiáveis.

Financeiramente, períodos de escassez podem elevar os gastos com energia, principalmente quando se torna necessário transferir água entre bacias ou operar estações elevatórias por mais tempo.

Também podem surgir custos adicionais com busca de vazamentos, substituição de redes, atendimento emergencial, comunicação aos usuários e implantação de tecnologias de monitoramento.

Além disso, níveis mais baixos podem alterar as condições da água bruta em determinados pontos do reservatório. Por isso, as equipes das estações de tratamento devem acompanhar parâmetros como turbidez, algas, matéria orgânica, manganês, ferro, odor e demanda de produtos químicos.

O que os profissionais do saneamento devem acompanhar

O caso do Sistema Cantareira reforça a necessidade de uma gestão baseada em dados e cenários. Entre os principais pontos que devem ser acompanhados estão:

  • volume útil diário e velocidade de queda dos reservatórios;
  • chuva acumulada nas bacias de contribuição;
  • vazão afluente, retirada e transferência entre sistemas;
  • consumo por setor de abastecimento;
  • pressão mínima e máxima nas redes;
  • perdas reais e aparentes;
  • ocorrências de falta de água;
  • desempenho das válvulas redutoras de pressão;
  • reclamações relacionadas à baixa pressão;
  • qualidade da água bruta;
  • previsões climáticas atualizadas;
  • cenários para 30, 60, 90 e 180 dias.

Além disso, planos de contingência devem estabelecer gatilhos claros. Cada redução de volume precisa estar associada a medidas previamente definidas, responsáveis designados, estratégias de comunicação e indicadores de acompanhamento.

Gestão da demanda deve começar antes da crise

Uma das principais lições deixadas pela crise de 2014 e 2015 é que as medidas de economia não podem começar somente quando o reservatório se aproxima do volume morto.

Campanhas de uso racional, redução de perdas, gestão de pressão e investimentos em reservação devem ser permanentes. Além disso, grandes consumidores podem participar de programas de eficiência, reúso e redução de consumo nos horários de maior demanda.

Da mesma forma, a comunicação com a população precisa ser transparente. Informações pouco claras podem gerar desconfiança, enquanto mensagens excessivamente alarmistas podem provocar armazenamento desnecessário e aumento temporário do consumo.

Portanto, a comunicação deve explicar a situação real, as medidas adotadas e os comportamentos esperados dos usuários.

Sistema Cantareira exige prevenção e decisões antecipadas

O Sistema Cantareira ainda possui volume significativamente superior ao registrado nos piores momentos da crise de 2014 e 2015. Entretanto, a queda observada durante julho, a baixa precipitação e a dependência da próxima estação chuvosa justificam atenção permanente.

A Faixa de Alerta foi criada justamente para permitir decisões antes que o sistema alcance níveis críticos. Portanto, não se deve esperar a entrada nas faixas de Restrição ou Especial para intensificar o combate às perdas, controlar pressões e preparar alternativas operacionais.

A segurança hídrica depende de reservatórios, obras e interligações. Porém, depende igualmente da eficiência da distribuição, da qualidade das informações e da capacidade de antecipar cenários.

Nesse contexto, o Sistema Cantareira funciona como um importante indicador da resiliência do abastecimento da maior região metropolitana do país. Sua evolução ao longo dos próximos meses mostrará se as chuvas, as transferências e a gestão da demanda serão suficientes para atravessar 2026 sem medidas mais severas.


Fontes