A Sabesp lançou seu primeiro Programa de Inovação Aberta para identificar, selecionar e testar tecnologias capazes de resolver problemas reais da operação. Desenvolvida em parceria com o Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos, a iniciativa procura aproximar a companhia de startups, empresas, universidades e instituições de pesquisa.

A chamada concentra-se em três desafios técnicos: redução da formação de trihalometanos no tratamento de água, monitoramento remoto de Estações de Tratamento de Esgoto de pequeno porte e medição rápida da eficiência de sistemas individuais de esgotamento sanitário.
As inscrições permanecem abertas até 11 de agosto de 2026, às 23h59, no horário de Brasília. Posteriormente, as propostas passarão por avaliação técnica, entrevistas, apresentação para um comitê especializado, formalização jurídica e execução de Provas de Conceito, conhecidas como PoCs.
Mais do que uma chamada para ideias, o programa representa uma tentativa de conectar problemas operacionais bem definidos a soluções que já tenham alcançado algum grau de maturidade. Portanto, a inovação aberta no saneamento proposta pela Sabesp não está direcionada apenas a projetos conceituais ou pesquisas em fase inicial.
O que significa inovação aberta no saneamento
A inovação aberta é um modelo no qual uma organização combina conhecimentos internos com tecnologias, pesquisas e competências desenvolvidas fora de sua estrutura. Em vez de depender exclusivamente de seus próprios departamentos de engenharia, pesquisa ou tecnologia, a empresa apresenta desafios ao mercado e convida organizações externas a propor soluções.
No saneamento, esse modelo pode reduzir o tempo necessário para transformar um problema operacional em um projeto testável. Além disso, permite que companhias tenham acesso a sensores, plataformas digitais, métodos analíticos, inteligência artificial, equipamentos portáteis e novos processos de tratamento sem precisar desenvolver tudo internamente.
Entretanto, a inovação aberta no saneamento somente gera resultados quando o desafio é apresentado com clareza, as métricas de sucesso são objetivas e a tecnologia consegue funcionar em condições reais.
Uma solução que apresenta bom desempenho em laboratório, por exemplo, pode falhar em uma estação devido à umidade, corrosão, variações de vazão, falta de conectividade, interrupções de energia, dificuldade de limpeza ou ausência de peças de reposição.
Por isso, a proposta da Sabesp inclui critérios relacionados à aderência operacional, capacidade de execução, segurança da informação, custo, escalabilidade e compatibilidade com a rotina dos operadores.
Programa procura tecnologias com maturidade mínima
O programa exige que a solução apresente Nível de Maturidade Tecnológica, ou TRL, igual ou superior a 5. A escala TRL é utilizada para medir o estágio de desenvolvimento de uma tecnologia, desde a formulação inicial até sua aplicação completa em ambiente operacional.
No TRL 5, componentes ou protótipos já devem ter sido validados em um ambiente considerado relevante. Isso significa que não basta apresentar uma ideia, um desenho ou uma hipótese científica. É necessário demonstrar que a solução já passou por testes e apresenta evidências de funcionamento.
A exigência reduz o risco de a companhia selecionar projetos ainda distantes de uma aplicação prática. Ao mesmo tempo, oferece oportunidade para que tecnologias previamente testadas sejam adaptadas às condições específicas das operações de água e esgoto.
Por que o programa é estratégico para a Sabesp
O contrato de concessão da Unidade Regional de Água e Esgoto 1, a URAE 1, antecipou para 2029 a meta de universalização nas áreas atendidas pela Sabesp. O contrato consolidou a prestação dos serviços em 371 municípios, estabelecendo metas anuais de ampliação e investimentos específicos para cada localidade.
Nesse cenário, a expansão da infraestrutura precisa ocorrer paralelamente à redução de custos, ao controle de riscos e ao aumento da capacidade de monitoramento.
Consequentemente, a inovação aberta no saneamento deixa de ser apenas uma iniciativa institucional e passa a ter relação direta com o cumprimento de metas contratuais e regulatórias.
Os três desafios escolhidos pela Sabesp podem afetar despesas com produtos químicos, deslocamento de equipes, análises laboratoriais, manutenção, resposta a emergências e controle ambiental. Além disso, todos exigem soluções que possam ser replicadas em grande escala.
Não basta, portanto, resolver o problema em uma única unidade. A tecnologia precisa ser adaptável a instalações de portes diferentes, regiões remotas, condições variáveis de operação e grande quantidade de pontos de controle.
Desafio 1: reduzir trihalometanos na água tratada
O primeiro desafio procura reduzir a formação de trihalometanos, conhecidos pela sigla THMs, e de ácidos haloacéticos, chamados de HAAs.
Esses compostos podem ser formados quando o cloro utilizado para desinfetar a água reage com a matéria orgânica existente no manancial, especialmente substâncias como ácidos húmicos e fúlvicos.
A desinfecção continua sendo indispensável para controlar microrganismos e proteger a saúde da população. Portanto, a solução não consiste simplesmente em retirar o cloro do processo. O desafio é reduzir a presença dos precursores, melhorar a dosagem e controlar as condições que favorecem a formação dos subprodutos.
A Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece valor máximo permitido de 0,1 mg/L para trihalometanos totais e de 0,08 mg/L para ácidos haloacéticos totais. O programa destaca, ainda, que a formação desses compostos pode variar conforme o manancial, a temperatura, a sazonalidade, a concentração de matéria orgânica, o tempo de contato e as características operacionais de cada Estação de Tratamento de Água.
Nesse contexto, a inovação aberta no saneamento poderá testar diferentes linhas tecnológicas. Entre as possibilidades estão:
- monitoramento mais rápido da matéria orgânica;
- otimização da coagulação e da remoção de precursores;
- aplicação de carvão ativado;
- ajustes na estratégia de cloração;
- processos oxidativos;
- sensores em linha;
- modelos preditivos baseados em dados operacionais.
Essas alternativas, contudo, não poderão ser avaliadas apenas pela capacidade de reduzir THMs e HAAs. Também será necessário analisar o consumo de produtos químicos, o custo por metro cúbico produzido, a facilidade de implantação e a adaptação a estações de diferentes portes.
As métricas indicadas pela Sabesp incluem resultados mensais, média móvel de 12 meses, monitoramento da remoção de matéria orgânica e consumo de produtos químicos por volume produzido. Dessa forma, a companhia pretende relacionar conformidade sanitária com eficiência econômica.
Desafio 2: monitoramento remoto de pequenas ETEs
O segundo desafio trata de uma dificuldade recorrente no saneamento: a baixa instrumentação de Estações de Tratamento de Esgoto pequenas e localizadas em regiões remotas.
Muitas dessas instalações dependem de registros manuais e visitas presenciais. Como consequência, falhas podem ser identificadas apenas depois de uma perda de eficiência, paralisação de equipamentos ou extravasamento de esgoto.
O programa informa que existe a necessidade de medir vazão em mais de 300 instalações. Além disso, pretende-se monitorar o nível do esgoto na entrada das estações, variável essencial para antecipar riscos de extravasamento.
A solução deverá apresentar baixo custo, alta confiabilidade e pouca necessidade de intervenção manual. Também deverá funcionar em locais com limitações de energia e conectividade.
Na prática, uma arquitetura adequada poderá combinar:
- sensores de vazão e nível;
- registradores locais de dados;
- transmissão remota;
- armazenamento temporário quando o sinal estiver indisponível;
- alarmes de nível elevado;
- painel de acompanhamento;
- integração com sistemas de manutenção e operação.
Entretanto, a escolha do sensor não poderá ser separada da realidade da estação. Será necessário considerar incrustações, sólidos, corrosão, necessidade de limpeza, calibração, proteção elétrica, acesso ao equipamento e capacidade de reposição de componentes.
O edital informa que uma solução anterior chegou a ser testada na Região Metropolitana, mas enfrentou problemas de instrumentação e, principalmente, de conectividade. Esse registro demonstra que a tecnologia de comunicação será tão importante quanto o dispositivo de medição.
Cibersegurança passa a fazer parte da operação
A inovação aberta no saneamento também terá de observar requisitos de cibersegurança. O regulamento exige mecanismos de controle de acesso, autenticação, proteção de credenciais, rastreabilidade, resposta a incidentes, backup e continuidade dos serviços.
Além disso, as plataformas deverão coletar apenas os dados necessários e respeitar a Lei Geral de Proteção de Dados. Caso sejam utilizados algoritmos ou inteligência artificial, também será necessário garantir transparência, supervisão humana e mitigação dos riscos de decisões automatizadas.
Essas exigências são importantes porque sensores, sistemas supervisórios e plataformas em nuvem passam a integrar a infraestrutura operacional da companhia. Uma falha digital poderá, portanto, afetar o monitoramento de uma unidade física.
O sucesso do segundo desafio será medido pelo percentual de ETEs com medição remota de vazão, pela quantidade de unidades com dados atualizados e pelo número de ocorrências críticas evitadas.
Assim, o resultado não dependerá apenas da instalação de equipamentos. Dependerá, sobretudo, da capacidade de transformar dados em intervenções preventivas.
Desafio 3: medir rapidamente a eficiência do esgoto
O terceiro desafio está relacionado às soluções individuais ou isoladas de esgotamento sanitário, utilizadas principalmente em áreas nas quais a implantação de redes convencionais não apresenta viabilidade técnica ou econômica.
A Deliberação ARSESP nº 1.750/2025 regulamentou a prestação dos serviços por meio dessas soluções e estabeleceu regras para cadastramento, vistoria, monitoramento e contabilização nas metas de universalização.
A norma considera solução isolada adequada aquela que atende às exigências técnicas, sanitárias e ambientais. Entre os exemplos estão fossas sépticas, filtros anaeróbios, biodigestores e sistemas coletivos descentralizados, desde que corretamente projetados, operados e mantidos.
Segundo o edital, a Sabesp estima incorporar 47 mil soluções isoladas de esgotamento sanitário até dezembro de 2026. Essa quantidade cria uma dificuldade logística significativa para o monitoramento da eficiência do tratamento.
O método convencional de Demanda Bioquímica de Oxigênio, conhecido como DBO 5,20, necessita de aproximadamente cinco dias de incubação a 20 °C. Além disso, as amostras precisam ser refrigeradas em torno de 4 °C e encaminhadas ao laboratório dentro de um período limitado.
Em milhares de instalações dispersas geograficamente, esse processo pode exigir equipes, veículos, caixas térmicas, roteirização, laboratórios e controle rigoroso da cadeia de custódia.
Por essa razão, a chamada busca uma solução rápida, portátil, confiável e de baixo custo para avaliação diretamente em campo.
Tecnologias que podem atender ao terceiro desafio
A inovação aberta no saneamento poderá avaliar analisadores automáticos, kits portáteis, biossensores, métodos respirométricos ou modelos que estimem a DBO por meio de parâmetros de resposta mais rápida.
O próprio edital admite a possibilidade de correlação com Demanda Química de Oxigênio, ou DQO, e Carbono Orgânico Total, conhecido como COT. Entretanto, qualquer método indireto precisará apresentar correlação comprovada, validação científica e aceitação pela ARSESP.
O regulamento utiliza como referência a necessidade de atingir pelo menos 60% de eficiência de tratamento ou concentração máxima de 120 mg/L de DBO no efluente, conforme as condições indicadas para os sistemas analisados.
Além disso, a solução deverá registrar geolocalização, data, hora e identificação da amostra em ambiente digital. Essa rastreabilidade poderá reduzir riscos de fraude, evitar troca de amostras e facilitar auditorias.
As métricas incluem tempo para obtenção do resultado, custo por análise, quantidade mensal de testes, produtividade das equipes, eficiência logística e confiabilidade regulatória.
Quem pode participar do programa da Sabesp
Podem participar startups, empresas e Instituições de Ciência e Tecnologia brasileiras ou internacionais.
A organização deverá possuir registro ativo há pelo menos 12 meses. Caso o projeto ainda não tenha CNPJ, será necessário apresentar vínculo formal com universidade, instituto de pesquisa ou outra organização parceira.
Além disso, a proposta deverá apresentar:
- aderência direta a pelo menos um dos três desafios;
- tecnologia em TRL 5 ou superior;
- equipe capacitada;
- infraestrutura básica;
- autonomia para executar a Prova de Conceito;
- capacidade de fornecer informações para análise jurídica e de integridade.
Os critérios classificatórios abrangem produto e tecnologia, diferenciais, capacidade da equipe, compatibilidade com a operação, disponibilidade de recursos, impactos esperados e alinhamento estratégico.
Cada critério poderá receber nota de um a cinco. Após as entrevistas e o Pitch Day, poderão ser selecionados até três participantes por desafio para a fase de experimentação.
Cronograma do Programa de Inovação Aberta Sabesp
Inscrições: 1º de julho a 11 de agosto de 2026.
Avaliação das propostas: 19 a 25 de agosto de 2026.
Resultado para entrevistas: 25 de agosto de 2026.
Entrevistas: 26 de agosto a 8 de setembro de 2026.
Pitch Day on-line: 23 de setembro de 2026.
Resultado do Pitch Day: até 1º de outubro de 2026.
Assinatura da parceria: até 29 de outubro de 2026.
Welcome Aboard: 30 de outubro de 2026.
Execução das Provas de Conceito: novembro de 2026 a janeiro de 2027.
Demo Day: 26 de janeiro de 2027.
O edital informa que o cronograma poderá sofrer alterações.
Programa não garante financiamento ou contratação
A inscrição e a participação são gratuitas. Entretanto, a página oficial esclarece que a Sabesp não prevê aporte financeiro para a realização das Provas de Conceito.
Também não existe garantia de reembolso, remuneração ou contratação posterior. Dessa maneira, as organizações interessadas deverão calcular antecipadamente os custos com equipamentos, instalação, equipe técnica, deslocamento, integração, calibração e suporte.
O edital menciona que um plano financeiro, incluindo eventual previsão de reembolso, deverá ser discutido e validado durante a imersão. Contudo, também estabelece que, quando não houver recursos destinados à PoC, não existirá obrigação de pagamento futuro por parte da Sabesp.
Portanto, a proposta financeira deverá ser estruturada considerando a possibilidade de execução com recursos próprios, salvo condição diferente formalizada posteriormente entre as partes.
Propriedade intelectual exige atenção jurídica
A propriedade intelectual também merece atenção antes do início dos testes.
O edital estabelece que a titularidade e as condições de uso da tecnologia eventualmente desenvolvida serão negociadas entre a Sabesp e o participante, considerando a natureza da parceria e a legislação aplicável.
Por outro lado, a seção de perguntas frequentes da página do programa informa que a titularidade será preferencialmente atribuída à Sabesp, conforme as características do projeto.
Por isso, será necessário definir claramente:
- propriedade da tecnologia preexistente;
- titularidade das melhorias desenvolvidas durante o teste;
- condições de licenciamento;
- uso de dados;
- confidencialidade;
- direito de replicação;
- comercialização para outras companhias;
- responsabilidades após a PoC.
A negociação deverá ocorrer por meio de instrumento jurídico específico. Consequentemente, nenhuma organização deverá interpretar a participação como contratação automática ou transferência automática de propriedade intelectual.
Como estruturar uma proposta competitiva
Uma proposta consistente deverá começar pelo problema operacional, e não apenas pela tecnologia.
Primeiramente, será necessário explicar como a solução responderá às condições específicas do desafio. Em seguida, deverão ser detalhados a infraestrutura necessária, o plano de implantação, a rotina de manutenção e os indicadores que comprovarão os resultados.
Também será importante estabelecer uma linha de base. Sem conhecer o desempenho anterior ao teste, torna-se difícil demonstrar redução de custos, aumento da confiabilidade ou prevenção de ocorrências.
Além disso, a inovação aberta no saneamento exige integração entre operação, engenharia, laboratório, regulação, tecnologia da informação, meio ambiente, suprimentos e jurídico.
Uma tecnologia pode ser tecnicamente eficiente e, ainda assim, não avançar caso apresente custo elevado, dependa de insumos indisponíveis, exija manutenção complexa ou não cumpra requisitos regulatórios.
Outro elemento decisivo será a escalabilidade. A proposta deverá indicar:
- custo da unidade;
- custo total de implantação;
- necessidade de calibração;
- vida útil;
- consumo de energia;
- conectividade;
- treinamento;
- suporte técnico;
- disponibilidade de peças;
- possibilidade de replicação.
Dessa forma, o Pitch Day deverá apresentar não apenas uma tecnologia, mas um caso de negócio verificável.
O que o setor pode aprender com a iniciativa
O programa mostra que as companhias de saneamento tendem a buscar inovação aplicada a problemas mensuráveis.
Em vez de publicar uma chamada genérica, a Sabesp apresentou o contexto, as limitações, os objetivos, as tentativas anteriores e os indicadores de cada desafio. Esse formato pode aumentar a qualidade das propostas e reduzir o risco de selecionar soluções desconectadas da realidade operacional.
Ao mesmo tempo, a inovação aberta no saneamento não elimina a responsabilidade técnica da companhia. A validação deverá considerar segurança sanitária, conformidade ambiental, continuidade operacional, proteção de dados, custo total de propriedade e capacidade de manutenção.
Caso as Provas de Conceito apresentem resultados satisfatórios, as tecnologias poderão ser avaliadas para implantação em maior escala. Entretanto, essa continuidade dependerá de análises técnicas, operacionais, jurídicas, estratégicas e orçamentárias.
Ainda assim, o programa cria uma ponte relevante entre as demandas de uma grande operadora e o conhecimento existente em startups, empresas, universidades e centros de pesquisa.
Assim, a inovação aberta no saneamento pode acelerar testes, reduzir incertezas e transformar desafios históricos do setor em projetos com metas, prazos e indicadores claros.
Fontes
- AESabesp — Sabesp lança o 1º Programa de Inovação Aberta
- Parque de Inovação Tecnológica — Programa de Inovação Aberta Sabesp
- Edital do Programa de Inovação Aberta Sabesp 2026
- ARSESP — Deliberação nº 1.750/2025
- Ministério da Saúde — Portaria GM/MS nº 888/2021
- Sabesp Relações com Investidores — Ambiente regulatório
- Ministério das Cidades — Marco Legal do Saneamento
- ANEEL — Guia de Avaliação da Maturidade Tecnológica



