A PRÓXIMA CRISE DA ÁGUA JÁ COMEÇOU

O Brasil entra no segundo semestre de 2026 diante de uma combinação especialmente desafiadora para o abastecimento público: fortalecimento do El Niño, temperaturas elevadas, secas persistentes em determinadas regiões, possibilidade de chuvas extremas em outras áreas e sistemas de saneamento que ainda convivem com perdas, baixa redundância operacional e infraestrutura envelhecida.

A crise da água, portanto, não deve ser compreendida apenas como a redução do nível dos reservatórios. Ela também aparece quando uma estação de tratamento não consegue processar água bruta com turbidez extrema, quando uma captação é danificada por uma inundação, quando a pressão cai nas pontas da rede ou quando uma companhia perde grande quantidade da água tratada antes de entregá-la ao consumidor.

Em julho de 2026, o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, informou que o El Niño estava estabelecido e deveria se fortalecer até o fim do ano. O órgão estimou 97% de probabilidade de permanência do fenômeno até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte. Para o trimestre de outubro a dezembro de 2026, a avaliação indicou 81% de probabilidade de um evento classificado como muito forte. 

Entretanto, essa previsão não significa que todos os locais sofrerão os mesmos impactos. O El Niño altera probabilidades climáticas, mas seus efeitos dependem da intensidade do fenômeno, da temperatura do Atlântico, da circulação atmosférica, das condições locais dos mananciais, do uso do solo e da capacidade de resposta de cada sistema de abastecimento.

O que é o El Niño e por que ele preocupa o saneamento?

O El Niño corresponde ao aquecimento persistente de uma área do Oceano Pacífico Equatorial associado a alterações na circulação da atmosfera. Para que o fenômeno seja caracterizado, não basta uma elevação momentânea da temperatura da superfície do mar. É necessário que o aquecimento permaneça por determinado período e seja acompanhado por uma resposta atmosférica. 

Essas mudanças modificam a distribuição de chuvas e temperaturas em diversas partes do planeta. No Brasil, o padrão mais conhecido associa o El Niño a maior possibilidade de estiagem no Norte e no Nordeste, temperaturas elevadas em grande parte do país e chuvas mais frequentes ou intensas no Sul. Contudo, cada evento apresenta características próprias, razão pela qual previsões regionais e monitoramento contínuo são indispensáveis. 

A relação com o saneamento ocorre porque toda companhia depende de uma cadeia sensível ao clima:

manancial, captação, adução, tratamento, reservação e distribuição.

Quando um desses componentes perde capacidade, todo o sistema pode ser afetado. Além disso, o esgotamento sanitário e a drenagem urbana também sofrem impactos, principalmente durante enchentes, extravasamentos e interrupções de energia.

A analogia do teste de pressão

O El Niño pode ser comparado a um teste de pressão aplicado a uma tubulação envelhecida.

Uma tubulação pode funcionar durante anos mesmo apresentando pequenas fissuras, juntas fragilizadas e corrosão. Entretanto, quando a pressão aumenta, os pontos frágeis aparecem. Alguns vazamentos crescem, determinados trechos se rompem e aquilo que parecia estável revela sua verdadeira condição.

O mesmo ocorre com os sistemas de abastecimento.

O El Niño não produz sozinho todas as causas de uma crise da água. Porém, ele pode aumentar a pressão sobre sistemas que já apresentam:

  • perdas elevadas;
  • reservação insuficiente;
  • dependência de um único manancial;
  • baixa capacidade de tratamento;
  • falta de setorização;
  • equipamentos envelhecidos;
  • cadastro técnico incompleto;
  • pouca automação;
  • ausência de fontes alternativas;
  • manutenção predominantemente corretiva.

Assim, o fenômeno climático funciona como um acelerador de riscos. A estiagem reduz a vazão disponível, enquanto o calor aumenta o consumo. Paralelamente, uma chuva extrema pode elevar a turbidez e paralisar uma captação. Em ambos os casos, a fragilidade anterior determina a dimensão do problema.

A crise da água não significa apenas falta de chuva

Um dos principais erros na comunicação sobre segurança hídrica consiste em associar a crise da água exclusivamente à seca.

A disponibilidade de água para consumo humano depende de quatro condições fundamentais:

  1. existência de água em quantidade suficiente;
  2. qualidade compatível com o tratamento disponível;
  3. infraestrutura capaz de captar e tratar;
  4. rede capaz de distribuir com regularidade.

Consequentemente, uma cidade pode estar cercada por água durante uma inundação e, ainda assim, enfrentar desabastecimento. Isso acontece quando a água bruta apresenta turbidez ou contaminação acima da capacidade da estação, quando uma captação fica submersa, quando uma adutora rompe ou quando o fornecimento de energia é interrompido.

Portanto, a crise da água pode ocorrer tanto por escassez quanto por excesso.

Menos chuva reduz a segurança dos mananciais

Em áreas sujeitas à redução das precipitações, o primeiro impacto ocorre sobre rios, reservatórios, nascentes e aquíferos. A vazão dos cursos d’água diminui, o nível dos reservatórios cai e a capacidade de diluição de poluentes também se reduz.

Além disso, nem toda chuva contribui da mesma forma para a recuperação dos mananciais. Uma precipitação intensa e concentrada pode gerar grande escoamento superficial, erosão e alagamentos, mas produzir recarga limitada. Por outro lado, chuvas moderadas e distribuídas ao longo do tempo tendem a infiltrar melhor no solo e alimentar rios, nascentes e reservatórios subterrâneos.

A situação pode ser comparada ao enchimento de uma caixa-d’água. Quando um grande volume é lançado de uma só vez, parte transborda. Quando o abastecimento ocorre de forma contínua, a água consegue ser armazenada com mais eficiência.

Segundo estudo da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, a disponibilidade hídrica pode diminuir mais de 40% em determinadas bacias do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e de parte do Sudeste até 2040, considerando cenários de mudança climática. A projeção não descreve exclusivamente os efeitos do El Niño de 2026, mas demonstra que o fenômeno ocorre sobre uma tendência de aumento da vulnerabilidade hídrica. 

Calor aumenta consumo, evaporação e custos

Outro componente da crise da água é a temperatura.

Períodos mais quentes costumam elevar o consumo residencial, comercial, industrial e agrícola. A população utiliza mais água em banhos, limpeza, irrigação e resfriamento. Ao mesmo tempo, reservatórios e solos perdem mais água por evaporação e evapotranspiração.

Desse modo, ocorre uma pressão dupla:

a oferta pode diminuir justamente quando a demanda aumenta.

Para as companhias de saneamento, esse cenário pode elevar o número de horas de bombeamento, o consumo de energia, a dosagem de produtos químicos, a necessidade de manobras e o desgaste dos equipamentos. Sistemas que já operam próximos da capacidade máxima ficam com pouca margem para absorver picos de consumo.

Além disso, quando a companhia reduz pressões para preservar reservatórios, bairros elevados e áreas localizadas nas extremidades das redes podem sofrer primeiro. Por essa razão, o planejamento não deve considerar apenas a média diária de consumo, mas também os picos horários, as ondas de calor e os dias de maior demanda.

Perdas de água agravam qualquer emergência

A perda de água tratada representa um dos principais fatores de vulnerabilidade durante uma crise da água.

Quando a companhia perde água por vazamentos, rompimentos, extravasamentos ou erros de medição, não desaparece apenas o volume físico. Também são desperdiçados energia, produtos químicos, capacidade de produção, horas de trabalho e potencial de faturamento.

Em condições normais, a perda já compromete a eficiência. Em um período de escassez, entretanto, cada metro cúbico desperdiçado pode representar menos água disponível para um hospital, uma escola, uma atividade econômica ou uma comunidade situada no fim da rede.

As perdas reais ocorrem fisicamente em redes, ramais, reservatórios e adutoras. Já as perdas aparentes estão relacionadas a submedição, fraudes, falhas cadastrais e erros comerciais. Ambas reduzem a capacidade financeira da companhia, mas as perdas reais também pressionam diretamente o manancial.

O SINISA passou a suceder o antigo SNIS e divulgou, em 2025, resultados referentes ao ano de 2024. A nova plataforma mantém informações e indicadores sobre abastecimento de água, permitindo análises por município, região e prestador. Portanto, cada companhia deve utilizar os próprios dados para identificar setores críticos e não depender somente de médias nacionais. 

Chuvas extremas também paralisam o abastecimento

No Sul do Brasil, o El Niño pode aumentar a probabilidade de chuvas volumosas. Entretanto, isso não representa necessariamente maior segurança hídrica.

Precipitações extremas podem provocar:

  • aumento abrupto da turbidez;
  • erosão das margens dos rios;
  • transporte de sedimentos;
  • contaminação por esgoto;
  • presença de resíduos e matéria orgânica;
  • danos às captações;
  • interrupção de energia;
  • alagamento de estações elevatórias;
  • rompimento de adutoras;
  • dificuldade de acesso das equipes.

Quando a água bruta chega com qualidade muito diferente daquela considerada no projeto original da ETA, o tratamento pode exigir maior dosagem de coagulantes, mudanças no pH, lavagens mais frequentes dos filtros e descarte maior de água. Caso os limites operacionais sejam ultrapassados, a produção pode precisar ser reduzida ou interrompida.

Consequentemente, uma crise da água também pode surgir em uma região com rios cheios. Nesse caso, a dificuldade não está na quantidade absoluta, mas na transformação da água disponível em água potável.

A qualidade da água bruta pode piorar

Durante secas prolongadas, a redução da vazão diminui a capacidade do rio de diluir poluentes. Dessa forma, podem aumentar as concentrações de matéria orgânica, nutrientes, sais, algas e contaminantes.

Por outro lado, nas primeiras chuvas após longos períodos secos, resíduos acumulados em ruas, solos, margens e sistemas de drenagem são carregados para os mananciais. Esse fenômeno pode provocar mudanças rápidas na turbidez, na cor, no odor e na carga microbiológica.

A ETA, portanto, precisa lidar com dois extremos:

  • água mais concentrada e com menor vazão durante a seca;
  • água mais turva e instável durante chuvas intensas.

Essa oscilação exige laboratórios preparados, operação flexível, estoque adequado de insumos e comunicação direta entre captação, tratamento, reservação e controle operacional.

O Nordeste exige atenção especial

A Região Nordeste apresenta características que aumentam sua exposição à crise da água, especialmente no Semiárido. Muitos rios são intermitentes, a evaporação é elevada e diversos municípios dependem de açudes, adutoras extensas, poços ou sistemas integrados.

A ANA considera o Nordeste a região mais vulnerável do país na dimensão de resiliência do Índice de Segurança Hídrica, principalmente pelas condições do Semiárido e pela intermitência de parte de seus cursos d’água. Em 2026, a Agência reuniu estados nordestinos para discutir segurança hídrica diante do El Niño. 

Em sistemas extensos, pequenas quedas de nível podem reduzir a pressão disponível, exigir maior bombeamento e aumentar a dificuldade de abastecer localidades distantes. Além disso, municípios dependentes de um único reservatório ficam mais expostos quando não existem interligações ou fontes de contingência.

Portanto, o planejamento regional deve envolver companhias, órgãos gestores de recursos hídricos, agências reguladoras, defesas civis, operadores de barragens e prefeituras.

O impacto financeiro nas companhias de saneamento

A crise da água afeta diretamente as finanças dos prestadores.

Quando o volume disponível diminui, a companhia pode reduzir produção e faturamento. Entretanto, seus custos fixos permanecem. Ao mesmo tempo, aumentam os gastos com energia, produtos químicos, manutenção emergencial, equipamentos, transporte de água, comunicação e equipes extras.

Também podem surgir:

  • aumento de reclamações;
  • pedidos de ressarcimento;
  • pressão regulatória;
  • desgaste de imagem;
  • necessidade de obras emergenciais;
  • paralisação de serviços programados;
  • aumento da inadimplência;
  • conflitos pelo uso da água.

Além disso, pressões muito baixas podem favorecer a entrada de contaminantes em tubulações danificadas. Por isso, reduções de pressão precisam ser planejadas, monitoradas e acompanhadas pelo controle de qualidade.

A companhia que não possui boa informação operacional geralmente reage tarde. Sem telemetria, macromedição e histórico confiável, torna-se difícil saber quanto existe nos reservatórios, quanto está sendo produzido, quanto chega a cada setor e onde o volume está sendo perdido.

Como as companhias devem se preparar

1. Criar uma sala de situação hídrica

A gestão da crise da água precisa reunir informações em um único ambiente. A sala de situação deve acompanhar diariamente:

  • nível e volume dos reservatórios;
  • vazão dos mananciais;
  • precipitação observada e prevista;
  • produção das estações;
  • demanda por setor;
  • pressão mínima e máxima;
  • ocorrências de falta de água;
  • qualidade da água bruta;
  • estoque de produtos químicos;
  • disponibilidade de equipamentos;
  • consumo de energia;
  • evolução das perdas.

Além disso, devem ser definidos responsáveis, limites de alerta e ações associadas a cada nível de risco.

2. Atualizar o plano de contingência

O plano não deve permanecer apenas como documento formal. Ele precisa indicar, de maneira prática, o que fazer quando determinado manancial atingir um nível crítico, uma ETA reduzir produção ou uma adutora estratégica falhar.

Devem constar:

  • responsáveis por decisão;
  • cadeia de comunicação;
  • fontes alternativas;
  • equipamentos de reserva;
  • rotas para caminhões-pipa;
  • unidades prioritárias;
  • contatos de fornecedores;
  • estoques mínimos;
  • protocolos de manobra;
  • procedimentos de comunicação pública.

Hospitais, unidades de saúde, escolas, presídios e equipamentos essenciais devem ser previamente identificados.

3. Intensificar o controle de perdas

Durante a crise da água, o combate às perdas deve ser tratado como ampliação virtual da oferta.

A prioridade deve recair sobre setores com maior volume perdido, vazamentos ocultos, pressões elevadas e recorrência de rompimentos. Entre as ações mais eficazes estão:

  • pesquisa acústica;
  • controle de pressão;
  • instalação de válvulas redutoras;
  • setorização;
  • macromedição;
  • substituição de redes críticas;
  • renovação de ramais;
  • telemetria;
  • análise de vazão mínima noturna;
  • gestão de ativos.

O objetivo não é reparar mais vazamentos, mas reduzir o tempo entre o surgimento, a detecção e a correção.

4. Proteger a produção e a qualidade

A ETA deve testar previamente os limites operacionais diante de variações de turbidez, cor, matéria orgânica e algas. Também se torna essencial revisar a autonomia dos estoques de coagulantes, desinfetantes, polímeros, cal e demais insumos.

Equipamentos críticos precisam ter redundância ou planos de substituição rápida. Geradores, bombas, painéis elétricos, dosadores e sistemas de comunicação devem passar por testes antes da emergência.

5. Aumentar a redundância

Sistemas resilientes não dependem de um único ponto.

Interligações entre zonas de abastecimento, reservatórios estratégicos, captações alternativas, poços regularizados e estações com capacidade modular aumentam a flexibilidade.

De acordo com o Atlas Águas, seriam necessários cerca de R$ 110 bilhões até 2035 em infraestrutura de produção e distribuição, reposição de ativos, controle de perdas e medidas de gestão para reforçar a segurança hídrica urbana brasileira. Sudeste e Nordeste concentram 76% dessa necessidade estimada. 

6. Melhorar a comunicação com a população

Uma comunicação inadequada pode transformar uma dificuldade operacional em crise de confiança.

A população precisa conhecer:

  • áreas afetadas;
  • motivo da interrupção;
  • horário provável de normalização;
  • medidas adotadas;
  • canais de atendimento;
  • orientações de consumo;
  • prioridade das ações.

Entretanto, campanhas genéricas que transferem toda a responsabilidade ao consumidor devem ser evitadas. A comunicação precisa demonstrar também o que a companhia está fazendo para reduzir perdas, ampliar oferta e proteger o sistema.

Indicadores que precisam ser acompanhados

A prevenção da crise da água exige indicadores capazes de antecipar o problema. Entre os principais estão:

  • dias de autonomia dos reservatórios;
  • relação entre oferta e demanda;
  • vazão disponível por manancial;
  • índice de perdas por ligação;
  • volume perdido por quilômetro de rede;
  • pressão média e mínima;
  • frequência de rompimentos;
  • consumo de energia por metro cúbico;
  • consumo de produtos químicos;
  • turbidez da água bruta;
  • horas de paralisação;
  • reclamações de falta de água;
  • tempo médio de reparo;
  • percentual de ativos críticos sem redundância.

O indicador isolado não resolve a emergência. Entretanto, quando associado a metas, responsáveis e ações, ele permite identificar a tendência antes que a torneira seque.

A crise começa antes do desabastecimento

A maior lição para o setor é que a crise da água não começa quando a população percebe a interrupção.

Ela começa quando o nível do reservatório cai sem uma resposta coordenada. Começa quando um vazamento permanece ativo durante dias. Começa quando a ETA não possui insumo suficiente para enfrentar uma alteração da água bruta. Começa quando a companhia desconhece a pressão nos setores mais distantes. Começa, ainda, quando uma única adutora atende uma cidade inteira sem alternativa de contingência.

O El Niño de 2026 pode ampliar riscos já existentes. Contudo, a intensidade do impacto dependerá da preparação de cada prestador.

Onde existem dados confiáveis, controle de perdas, redundância, planejamento, manutenção preventiva e comunicação transparente, o sistema tende a responder melhor. Onde faltam essas condições, o fenômeno climático pode revelar rapidamente problemas acumulados durante anos.

Portanto, a crise da água precisa ser tratada como um risco operacional, ambiental, financeiro e institucional. A preparação deve ocorrer antes da escassez, porque, durante a emergência, as alternativas se tornam mais caras, mais lentas e menos eficientes.

Fontes