Segurança hídrica em Uberaba: lições da nova crise

Uberaba voltou a entrar em estado de atenção para o abastecimento de água. Em 14 de agosto de 2026, o plano de contingenciamento passou a vigorar enquanto o Rio Uberaba registrava vazão próxima de 1.300 litros por segundo, apenas cerca de 100 l/s acima da referência crítica de 1.200 l/s utilizada no plano anterior. Ao mesmo tempo, a transposição do Rio Claro já havia sido acionada e o sistema de reservação passou a ser acompanhado com maior rigor. (Jornal do Meio Norte⁠)

O dado mais preocupante, entretanto, não é apenas a vazão de 1.300 l/s. Poucos dias antes, o Rio Uberaba apresentava aproximadamente 1.930 l/s. Em 11 de agosto, já havia recuado para 1.335 l/s, representando uma queda próxima de 31% em aproximadamente uma semana. Essa velocidade de redução mostra por que a segurança hídrica em Uberaba precisa ser analisada antes que o sistema alcance o limite operacional. (Jornal do Meio Norte⁠)

O caso oferece uma importante lição para companhias e serviços municipais de saneamento de todo o Brasil: crise hídrica não pode ser administrada apenas quando falta água. A resposta mais eficiente começa meses ou anos antes, combinando produção, reservação, redução de perdas, gestão de pressão, fontes alternativas, previsão de demanda, telemetria e planejamento de contingência.

Sobretudo, o episódio também evidencia a importância dos profissionais de saneamento. São operadores, engenheiros, técnicos, eletromecânicos, especialistas em automação, equipes comerciais e gestores que precisam transformar milhares de informações operacionais em decisões rápidas para manter água chegando à população.

Uberaba já conhecia o risco

A atual situação não surgiu sem sinais anteriores. Em 2025, o município enfrentou uma estiagem severa e precisou adotar sucessivas manobras de abastecimento.

O plano daquele ano estabelecia três variáveis principais de acompanhamento: vazão do Rio Uberaba, volume armazenado nos Centros de Reservação e consumo da população. O contingenciamento começaria quando, com a transposição do Rio Claro já funcionando, a vazão ficasse abaixo de 1.200 l/s ou a reservação medida às 22h caísse abaixo de 40%. (CodaU⁠)

A operação previa desde fechamentos parciais noturnos até suspensões emergenciais de até 12 horas. Em outubro de 2025, a situação chegou a um ponto ainda mais crítico: reservatórios abaixo de 20% e vazão do Rio Uberaba próxima de apenas 700 l/s, segundo o histórico apresentado na reportagem. (Jornal do Meio Norte⁠)

Em determinados momentos daquele período, mesmo vazões próximas de 960 l/s e uso simultâneo de medidas de contingência obrigaram a companhia a restringir o fornecimento. Em janeiro de 2026 ainda ocorreram fechamentos programados quando a reservação ficou próxima de 34%. O contingenciamento iniciado em 2025 somente foi encerrado após 153 dias. (CodaU⁠)

Portanto, a discussão sobre segurança hídrica em Uberaba não pode se limitar a atravessar a estiagem de 2026. O desafio é modificar estruturalmente a relação entre disponibilidade hídrica, capacidade de produção e demanda.

O problema é maior do que a vazão do rio

Em um sistema de abastecimento, três fluxos precisam permanecer equilibrados.

Primeiramente, existe a água que pode ser captada. Em seguida, existe a capacidade de tratar ou produzir essa água. Finalmente, existe aquilo que a população consome e aquilo que o sistema perde antes de chegar ao usuário.

Segundo informações divulgadas pela própria Codau, a capacidade de tratamento das estações existentes é de aproximadamente 1.200 l/s, enquanto o consumo da cidade pode ultrapassar esse patamar em períodos de temperaturas elevadas. (CodaU⁠)

Esse ponto é fundamental para compreender a segurança hídrica em Uberaba. Ter água disponível no manancial não significa, isoladamente, ter capacidade suficiente para atender qualquer pico de demanda.

Além disso, a reservação funciona como um amortecedor entre produção e consumo. Quando a população retira água do sistema mais rapidamente do que a produção consegue recompor, os reservatórios caem. A partir daí, a operação perde margem de segurança.

Por esse motivo, analisar apenas a vazão do rio seria insuficiente.

Primeira lição: antecipar a crise, não apenas reagir

O primeiro aprendizado é transformar o plano de contingenciamento em uma ferramenta permanentemente preditiva.

Em vez de observar somente se determinado indicador já ultrapassou o limite crítico, torna-se mais eficiente acompanhar sua velocidade de deterioração.

A queda aproximada de 1.930 l/s para 1.335 l/s registrada em poucos dias ilustra essa necessidade. Mesmo antes de chegar aos 1.200 l/s, a tendência já indicava deterioração rápida. (Jornal do Meio Norte⁠)

Uma central de controle voltada à segurança hídrica em Uberaba pode integrar em tempo praticamente real vazão dos mananciais, nível de cada reservatório, produção das ETAs, produção dos poços, vazão da transposição, pressão nas redes, consumo horário, previsão meteorológica, bombeamento, energia disponível e ocorrências de vazamentos.

Dessa maneira, modelos de previsão podem estimar, por exemplo, qual será o nível esperado de determinado reservatório às 22h caso o consumo das próximas seis horas permaneça no ritmo observado.

Assim, decisões deixam de ser apenas reativas.

Segunda lição: água economizada nas perdas também é produção

Construir novos sistemas produtores é indispensável em diversas situações. Entretanto, produzir mais água enquanto uma parcela relevante é perdida na distribuição reduz a eficiência dos investimentos.

É exatamente por isso que a Norma de Referência ANA nº 15/2025 passou a exigir uma abordagem estruturada para redução e controle de perdas. A norma determina diagnóstico baseado em balanço hídrico e acompanhamento de perdas reais, perdas aparentes, macromedição e intermitência do abastecimento. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Isso significa que a segurança hídrica em Uberaba também depende de saber exatamente onde cada metro cúbico produzido está sendo utilizado.

Em períodos de escassez, cada vazamento reparado representa água que deixa de ser captada, tratada, bombeada e novamente produzida.

Consequentemente, programas de pesquisa ativa de vazamentos, substituição de redes críticas, melhoria da macromedição e renovação de hidrômetros precisam fazer parte da estratégia de segurança hídrica e não apenas de programas comerciais ou de manutenção.

Terceira lição: setorização e pressão precisam ganhar protagonismo

Uma rede extensa não deve ser operada como um único bloco.

Quanto maior a capacidade de dividir o sistema em setores hidráulicos monitorados, maior a capacidade de identificar rapidamente onde estão ocorrendo perdas, consumos anormais ou quedas de pressão.

A própria ANA reconhece a importância da macromedição em pontos estratégicos e em distritos de medição e controle. Além disso, a norma federal cita telemetria, sensores de pressão, vazão e ruído, modelos de previsão de vazamentos, georreferenciamento e medição inteligente entre as tecnologias capazes de melhorar a gestão de perdas. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Portanto, fortalecer a segurança hídrica em Uberaba passa pela expansão de setores hidráulicos e Distritos de Medição e Controle.

Dentro de cada setor, torna-se possível calcular entrada de água, consumo, vazão mínima noturna e comportamento da pressão. Caso determinado setor apresente aumento incomum da vazão noturna, equipes de campo podem direcionar a pesquisa de vazamentos para uma área muito menor.

Além disso, pressão excessiva aumenta vazamentos e pode contribuir para maior frequência de falhas em tubulações. Por isso, gerenciamento de pressão com válvulas redutoras, sensores e controle automatizado pode reduzir perdas sem simplesmente transformar a rede em um sistema de baixa pressão. (US EPA⁠)

Quarta lição: reservação é segurança operacional, mas não cria água

Uberaba ampliou sua capacidade de reservação em aproximadamente 25% após a construção de quatro novos Centros de Reservação, segundo informações divulgadas pela Codau. (CodaU⁠)

O investimento é relevante porque reservatórios maiores aumentam a capacidade de enfrentar picos horários de consumo e eventos operacionais.

Entretanto, reservação não substitui produção.

Se diariamente saem dos reservatórios volumes superiores à capacidade de reposição, qualquer reservatório acabará esvaziando. Portanto, ampliar reservação deve caminhar juntamente com redução de perdas, diversificação de fontes e controle da demanda.

Para a segurança hídrica em Uberaba, o indicador mais importante não deveria ser somente “quantos por cento estão armazenados”, mas também a taxa de recuperação dos reservatórios.

Um reservatório que amanhece com 60% e perde 30 pontos percentuais ao longo do dia possui comportamento muito diferente de outro que amanhece com o mesmo nível e perde apenas dez pontos.

Quinta lição: diversificar fontes reduz dependência

Uberaba já iniciou importantes investimentos nesse sentido.

Dois novos poços profundos no Aquífero Guarani foram contratados para acrescentar aproximadamente 120 l/s, sendo cerca de 60 l/s por unidade. O investimento total informado para colocar os dois sistemas em produção é de aproximadamente R$ 16 milhões. A Codau também informou possuir outros cinco poços em operação, produzindo cerca de 230 l/s quando os dados foram divulgados. (CodaU⁠)

Além disso, o Sistema Rio Grande representa a principal transformação estrutural planejada para a segurança hídrica local. O projeto prevê investimento de aproximadamente R$ 286,9 milhões, cerca de 28 quilômetros de adutoras e uma nova estação de tratamento com capacidade inicial de 600 l/s, expansível para até 900 l/s. (CodaU⁠)

Essa diversificação é estratégica para a segurança hídrica em Uberaba, pois reduz a dependência de um único manancial.

Entretanto, novas fontes precisam ser acompanhadas por eficiência operacional. Caso contrário, o crescimento da demanda tende, ao longo dos anos, a consumir novamente a margem criada pelas novas estruturas.

Sexta lição: a demanda deve ser administrada antes do racionamento

Campanhas para redução de consumo são normalmente intensificadas quando reservatórios já estão próximos de níveis críticos.

Uma abordagem mais moderna antecipa esse movimento.

Nos períodos de maior risco, grandes consumidores podem receber informações segmentadas sobre seu comportamento. Alertas de consumo atípico podem ser enviados rapidamente. Vazamentos internos identificáveis por telemedição podem gerar aviso automático.

Além disso, comunicação baseada em indicadores objetivos aumenta a compreensão da população.

Em vez de apenas informar que é necessário economizar, pode ser demonstrado que determinado sistema possui produção de “X”, consumo de “Y” e que, mantendo aquela velocidade, a reservação pode atingir um nível crítico em determinado período.

Isso transforma o usuário em participante do sistema.

Consequentemente, a segurança hídrica em Uberaba passa também por uma estratégia comercial e de relacionamento com clientes, e não exclusivamente pela engenharia.

Sétima lição: racionamento deve ser a última barreira

Fechar reservatórios pode ser necessário para preservar volumes operacionais durante uma emergência. Entretanto, ciclos repetidos de despressurização e repressurização aumentam a complexidade operacional da distribuição.

A Organização Mundial da Saúde alerta que interrupções podem criar condições de baixa pressão que favorecem a entrada de contaminantes em redes vulneráveis. A EPA também associa perdas, rompimentos e gestão inadequada de pressão a riscos operacionais e de qualidade da água. (Organização Mundial da Saúde⁠)

Portanto, sempre que manobras forem necessárias, o retorno do abastecimento precisa ser acompanhado com atenção especial.

Pressões devem subir de maneira controlada. Pontos críticos precisam ser monitorados. Descargas de rede podem ser necessárias. Parâmetros de qualidade da água também devem acompanhar a retomada.

A atuação dos profissionais de saneamento torna-se ainda mais importante nessa etapa, pois recuperar um sistema hidráulico não significa simplesmente abrir uma válvula.

O que pode ser feito imediatamente

Para o período crítico atual, a prioridade para a segurança hídrica em Uberaba está em integrar produção e demanda hora a hora.

Uma operação tecnicamente robusta pode concentrar esforços em cinco frentes: intensificação da pesquisa e reparo de vazamentos; gestão de pressão nos setores mais críticos; monitoramento individual dos Centros de Reservação; maximização segura da disponibilidade dos sistemas alternativos; e comunicação preventiva baseada em previsão de consumo e reservação.

Além disso, equipes operacionais podem trabalhar com cenários de 24, 48 e 72 horas.

Em vez de somente informar a situação atual, o centro de controle passa a responder perguntas como: quanto tempo determinado reservatório suporta se a temperatura elevar o consumo em 10%? Qual setor perderá pressão primeiro? Quantos litros por segundo adicionais precisam ser recuperados com redução de perdas ou produção alternativa para evitar uma manobra?

Esse modelo transforma contingenciamento em inteligência operacional.

O que precisa mudar no médio prazo

Depois da emergência, o risco não deve desaparecer da agenda.

A Norma de Referência nº 15/2025 da ANA estabelece que sistemas com restrições de mananciais precisam considerar alternativas destinadas à continuidade do abastecimento sem exaurir suas fontes. Também determina que programas de perdas estejam articulados à continuidade e à pressão adequada da distribuição. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Por isso, torna-se estratégico ampliar macromedição, criar ou consolidar Distritos de Medição e Controle, automatizar válvulas, instalar sensores permanentes, implantar modelos hidráulicos calibrados, acelerar renovação das redes mais vulneráveis e construir balanços hídricos por setor.

A segurança hídrica em Uberaba também pode evoluir com modelos preditivos capazes de cruzar clima, temperatura, histórico de consumo, níveis de reservatórios e disponibilidade dos mananciais.

Nesse estágio, inteligência artificial não substituiria operadores ou engenheiros. Ela funcionaria como apoio para que esses profissionais antecipem situações que anteriormente somente seriam percebidas quando o problema já estivesse instalado.

A solução definitiva é construir redundância

O maior aprendizado deixado pelas crises recentes é que sistemas resilientes precisam de redundância.

Uma cidade do porte de Uberaba não pode depender exclusivamente de uma variável.

É necessário possuir mais de um manancial, diferentes formas de produção, reservação suficiente, redes setorizadas, bombeamentos redundantes, geração de energia de emergência, telemetria, controle de perdas e planos operacionais testados.

Nesse contexto, poços profundos, transposição do Rio Claro, ampliação da reservação e principalmente o Sistema Rio Grande são partes de uma transformação necessária. (CodaU⁠)

Porém, infraestrutura e gestão precisam caminhar juntas.

O melhor sistema produtor continua vulnerável quando não se conhece exatamente onde a água está sendo perdida. Da mesma forma, uma companhia extremamente eficiente em perdas continuará vulnerável quando depende de um manancial incapaz de responder às estiagens futuras.

A verdadeira segurança hídrica em Uberaba surge quando produção, distribuição, consumo, ativos e clima são administrados como um único sistema.

Uberaba deixa uma lição para todo o saneamento brasileiro

A situação de Uberaba não deve ser analisada apenas como um problema municipal.

Muitas cidades brasileiras convivem com crescimento populacional, aumento de consumo, redes envelhecidas, perdas de água, períodos mais prolongados de estiagem e sistemas produtores dimensionados para uma realidade diferente da atual.

Por isso, o episódio funciona como um alerta.

Plano de contingenciamento é necessário. Entretanto, o melhor plano de contingenciamento é aquele que consegue evitar que a operação alcance repetidamente os estágios mais críticos.

A segurança hídrica em Uberaba dependerá dos grandes investimentos já iniciados, mas também de milhares de decisões menos visíveis: localizar vazamentos mais rapidamente, controlar pressões, acompanhar vazões, calibrar equipamentos, manter bombas disponíveis, melhorar medições, analisar dados e antecipar o comportamento dos reservatórios.

É justamente nesse ponto que os profissionais do saneamento demonstram seu valor.

Enquanto grandes obras aumentam a capacidade do sistema, são os profissionais que transformam infraestrutura em água disponível, pressão adequada, continuidade e segurança para a população.

A crise, portanto, deixa uma mensagem importante para todo o setor: a falta de água não começa quando a torneira seca. Ela começa quando os sinais de desequilíbrio aparecem e não são tratados com antecedência.


Fontes

Jornal da Manhã — Plano de contingenciamento começa em Uberaba⁠ (Jornal do Meio Norte⁠)

Codau — Plano de Contingenciamento de Abastecimento⁠ (CodaU⁠)

ARISB-MG — Resoluções de Fiscalização e Regulação⁠ (arisb.com.br⁠)

Codau — Dois novos poços profundos para Uberaba⁠ (CodaU⁠)

Codau — Projeto Rio Grande e segurança hídrica⁠ (CodaU⁠)

ANA — Norma de Referência nº 15/2025 sobre perdas de água⁠ (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Organização Mundial da Saúde — Segurança em redes de distribuição⁠ (Organização Mundial da Saúde⁠)

US EPA — Sistemas de distribuição e gestão de perdas⁠ (US EPA⁠)