Arábia Saudita muda gestão de 400 plantas de água

A dessalinização na Arábia Saudita acaba de entrar em uma nova etapa de gestão. A Saudi Water Authority (SWA) transferiu para a Al Holol Water Desalination Company a responsabilidade de administrar e supervisionar um portfólio com mais de 400 plantas abastecidas por águas subterrâneas e superficiais, cuja capacidade conjunta supera 4 milhões de metros cúbicos de água por dia.

A dimensão impressiona: são mais de 4 bilhões de litros por dia. Além disso, somente nos últimos dois anos, a capacidade dessas unidades aumentou em mais de 1,5 milhão de m³/dia, resultado atribuído a modernizações de infraestrutura, melhorias nos procedimentos de operação e manutenção e avanços nos sistemas de monitoramento da qualidade da água. (Smart Water Magazine⁠)

Entretanto, o movimento mais importante não está apenas nos números. O acordo altera a forma como centenas de ativos serão gerenciados, sem simplesmente substituir as equipes que conhecem as plantas.

A Al Holol passa a assumir a gestão e a supervisão da operação e manutenção, enquanto os profissionais nacionais ligados ao braço operacional Water Desalination permanecem executando as atividades operacionais e de manutenção. Portanto, preserva-se o conhecimento acumulado dentro das instalações ao mesmo tempo que se cria uma estrutura especializada de gestão dos ativos. (SWA⁠)

Para profissionais do saneamento, esse detalhe talvez seja a principal lição do caso saudita.

O que realmente mudou na gestão das plantas

O acordo integra um processo maior de reorganização institucional do setor hídrico saudita.

Em vez de concentrar produção, distribuição, regulação, gestão de ativos e outras funções dentro das mesmas estruturas, a estratégia procura criar responsabilidades mais claras entre diferentes organizações.

Assim, a mudança relacionada à dessalinização na Arábia Saudita não deve ser interpretada simplesmente como uma troca de operador ou uma privatização convencional.

A documentação divulgada descreve principalmente uma transferência de responsabilidades de gestão e supervisão. Não foi anunciada, na informação analisada, uma transferência de propriedade das mais de 400 instalações.

Essa diferença é fundamental.

Na prática, uma empresa especializada passa a responder pela gestão das unidades e pela supervisão de desempenho, enquanto profissionais que já conhecem equipamentos, processos, ocorrências históricas e particularidades operacionais continuam atuando nas instalações. (Smart Water Magazine⁠)

Dessa forma, procura-se reduzir um dos riscos clássicos de grandes processos de transformação organizacional: a perda repentina de conhecimento operacional.

Mais de 400 plantas produzem 4 milhões de m³ por dia

O tamanho do portfólio ajuda a compreender a complexidade da decisão.

Segundo a Saudi Water Authority, mais de 400 plantas incluídas nesse conjunto atingiram capacidade total superior a 4 milhões de m³/dia.

Nos últimos dois anos, foram acrescentados mais de 1,5 milhão de m³/dia de capacidade às unidades.

Esse crescimento não ocorreu apenas pela construção de novas estruturas. A autoridade destaca melhorias em ativos existentes, aperfeiçoamento das atividades de operação e manutenção e evolução do monitoramento da qualidade da água. (SaudiGulf Projects⁠)

Essa informação merece atenção especial dos profissionais brasileiros.

Muitas vezes, o aumento da oferta de água é associado exclusivamente à construção de novas estações. Entretanto, recuperação de capacidade instalada, manutenção estruturada, melhoria de processos, automação, controle de perdas de produção e gestão baseada em indicadores também podem liberar volumes significativos.

Portanto, o caso da dessalinização na Arábia Saudita reforça que infraestrutura existente pode ser transformada em uma fonte adicional de capacidade quando recebe gestão técnica adequada.

Por que águas subterrâneas e superficiais são importantes

Grande parte da atenção internacional sobre a Arábia Saudita normalmente se concentra nas gigantescas instalações costeiras de dessalinização de água do mar.

Porém, o sistema hídrico do país é mais diversificado.

As centenas de instalações distribuídas pelo território utilizam fontes subterrâneas e superficiais e complementam as grandes unidades de dessalinização marítima. Essa distribuição geográfica aumenta a flexibilidade operacional, além de reduzir a dependência de uma única fonte de abastecimento. (Smart Water Magazine⁠)

No caso de águas subterrâneas salobras, a osmose reversa é uma das tecnologias mais utilizadas internacionalmente.

O processo utiliza pressão para fazer a água atravessar membranas semipermeáveis. Enquanto a água atravessa a membrana, grande parte dos sais dissolvidos permanece concentrada no fluxo de rejeito.

Entretanto, águas subterrâneas normalmente apresentam características diferentes da água do mar.

Quando a salinidade é menor, a pressão osmótica também tende a ser inferior. Consequentemente, sistemas de osmose reversa para água salobra podem operar com menor pressão e menor consumo energético do que grandes plantas de osmose reversa alimentadas diretamente com água do mar. O consumo final, contudo, depende de salinidade, recuperação, qualidade da água bruta, configuração das membranas e condições operacionais. (MDPI⁠)

Já nas águas superficiais, o tratamento necessário depende fortemente da qualidade da fonte. Turbidez, sólidos suspensos, matéria orgânica, microrganismos, sais e variações sazonais determinam a configuração do processo.

Por isso, não seria tecnicamente correto afirmar que todas as mais de 400 plantas utilizam a mesma tecnologia. A divulgação da SWA não apresenta o detalhamento individual dos processos adotados em cada instalação.

Dessalinização na Arábia Saudita já alcança escala gigantesca

As mais de 400 unidades fazem parte de uma infraestrutura hídrica muito maior.

Em informações institucionais atualizadas em 2026, o braço Water Desalination da Saudi Water Authority informa produção diária superior a 11,1 milhões de m³ de água dessalinizada. (SWA⁠)

Além disso, durante a Saudi Water Week de 2026, o ministro saudita de Meio Ambiente, Água e Agricultura informou que a capacidade nacional de produção de água dessalinizada chegou a aproximadamente 16 milhões de m³/dia, frente a cerca de 9 milhões de m³/dia em 2016. (Saudi Water Week⁠)

Portanto, a expansão da dessalinização na Arábia Saudita não representa apenas crescimento físico.

Existe uma transformação simultânea em quatro áreas:

infraestrutura, tecnologia, governança e gestão operacional.

Esse conjunto explica por que o país se tornou um dos principais laboratórios mundiais para tecnologias e modelos de gestão de água em regiões com elevada escassez hídrica.

A mudança está ligada à Estratégia Nacional da Água 2030

A reorganização institucional está diretamente relacionada à National Water Strategy 2030.

A estratégia estabelece como objetivos garantir acesso contínuo a volumes adequados de água segura, inclusive durante emergências, melhorar a gestão da demanda, oferecer serviços eficientes e economicamente sustentáveis, proteger os recursos naturais e ampliar competitividade, inovação e participação do setor privado. (Mewa⁠)

Além disso, a estratégia reconhece desafios relevantes enfrentados pelo sistema saudita.

Entre eles estão a dependência da dessalinização para o abastecimento urbano, os elevados custos de transportar água produzida no litoral para regiões interiores e a necessidade de aumentar eficiência em toda a cadeia.

Por isso, a dessalinização na Arábia Saudita passou a ser tratada não apenas como um problema de engenharia de processos, mas como um problema de gestão integrada.

Produzir milhões de metros cúbicos não é suficiente.

É necessário garantir disponibilidade dos equipamentos, manutenção planejada, qualidade da água, eficiência energética, continuidade do abastecimento, controle de custos e capacidade de resposta a falhas.

Gestão de ativos passa a ser tão importante quanto produzir água

Em um sistema com centenas de instalações espalhadas geograficamente, a gestão dos ativos torna-se crítica.

Cada bomba, membrana, válvula, painel elétrico, reservatório, equipamento de dosagem, instrumento de qualidade e sistema de automação passa a integrar uma cadeia de risco operacional.

Consequentemente, uma gestão moderna precisa responder perguntas objetivas:

Qual equipamento apresenta maior probabilidade de falha?

Qual ativo pode interromper a produção?

Quanto custa manter cada metro cúbico produzido?

Quais unidades consomem energia acima do benchmark?

Quais equipamentos devem ser substituídos antes da falha?

Qual planta apresenta menor disponibilidade operacional?

Onde existe capacidade instalada que não está sendo efetivamente utilizada?

É exatamente nesse ponto que a mudança de modelo saudita ganha relevância.

A empresa responsável pela gestão precisa transformar milhares ou milhões de dados de campo em decisões de manutenção, investimento e operação.

Portanto, indicadores como disponibilidade, confiabilidade, custo por m³, consumo específico de energia, recuperação, qualidade da água, frequência de falhas, MTBF e MTTR passam a ter enorme importância.

Energia continua sendo um dos maiores desafios

Historicamente, a energia é um dos principais componentes de custo da dessalinização.

Por isso, a evolução tecnológica da dessalinização na Arábia Saudita tem sido fortemente direcionada à redução do consumo energético.

Em 2025, a Saudi Water Authority anunciou um recorde em uma de suas instalações, com consumo de apenas 1,7 kWh/m³ na etapa de separação de sais e consumo global de aproximadamente 2,34 kWh/m³. (SWA⁠)

Naturalmente, esse resultado específico não pode ser aplicado automaticamente às mais de 400 plantas transferidas para gestão da Al Holol.

Entretanto, ele demonstra a direção tecnológica seguida pelo setor saudita.

O objetivo deixa de ser simplesmente “produzir água”.

O objetivo passa a ser produzir mais água utilizando menos energia, menos produtos químicos, menos intervenções corretivas e maior disponibilidade dos ativos.

O profissional de saneamento permanece no centro do processo

Um detalhe do acordo merece destaque.

Mesmo com a transferência da gestão para outra empresa, a força de trabalho técnica existente continuará executando operação e manutenção.

Essa decisão valoriza algo que frequentemente não aparece nos balanços financeiros: conhecimento operacional acumulado.

Uma planta de tratamento não funciona apenas porque possui equipamentos modernos.

Operadores, técnicos, engenheiros, laboratoristas, eletricistas, mecânicos, instrumentistas, profissionais de automação e equipes de manutenção acumulam conhecimento sobre comportamento de bombas, variações de qualidade da água bruta, falhas recorrentes, respostas dos processos e particularidades de cada instalação.

Substituir abruptamente esse conhecimento pode criar risco operacional.

Por isso, o modelo adotado procura combinar nova governança com preservação da capacidade técnica existente. (SaudiGulf Projects⁠)

Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes da transformação da dessalinização na Arábia Saudita para profissionais do setor.

Tecnologia importa. Capital importa. Governança importa.

Entretanto, nenhuma transformação hídrica sustentável ocorre sem profissionais capacitados para operar os sistemas diariamente.

O que o saneamento brasileiro pode aprender

O Brasil possui condições hídricas muito diferentes das encontradas na Península Arábica. Ainda assim, algumas lições são diretamente aplicáveis às companhias brasileiras.

A primeira é a necessidade de separar claramente responsabilidades.

Quem regula não deve exercer exatamente o mesmo papel de quem opera. Da mesma forma, gestão de ativos, operação, planejamento e acompanhamento de desempenho precisam ter responsabilidades bem definidas.

A segunda lição está na recuperação da capacidade existente.

Antes de ampliar estruturas, torna-se fundamental identificar equipamentos subutilizados, gargalos hidráulicos, falhas de manutenção, indisponibilidade de bombas, problemas de automação e limitações de processo.

A terceira está na preservação do conhecimento interno.

Processos de concessão, PPP, contratação de O&M ou reorganização empresarial precisam considerar mecanismos de transferência e manutenção do conhecimento técnico.

Finalmente, destaca-se a gestão baseada em desempenho.

Grandes sistemas de saneamento precisam conhecer, praticamente em tempo real, indicadores relacionados à produção, energia, qualidade, disponibilidade, manutenção e custos.

Dessalinização na Arábia Saudita mostra mudança de paradigma

O acordo com a Al Holol representa algo maior do que a gestão de centenas de plantas.

A dessalinização na Arábia Saudita está evoluindo de um modelo concentrado principalmente em construção e produção para uma visão integrada de gestão de ativos, eficiência operacional, resiliência hídrica e governança.

Essa transformação ocorre em escala rara no setor mundial.

Mais de 400 instalações, acima de 4 milhões de m³/dia de capacidade e crescimento superior a 1,5 milhão de m³/dia em apenas dois anos mostram que ganhos operacionais podem alcançar dimensões comparáveis às de grandes projetos de infraestrutura.

Ao mesmo tempo, a permanência das equipes técnicas demonstra que modernizar uma estrutura de saneamento não significa descartar o conhecimento existente.

Pelo contrário.

Sistemas cada vez mais automatizados, digitalizados e eficientes precisam de profissionais cada vez mais capacitados.

A grande mensagem para o saneamento é clara: infraestrutura produz água, mas são gestão, tecnologia e pessoas qualificadas que garantem que essa água continue chegando à população todos os dias.

Fontes

  • Saudi Water Authority — acordo para gestão das plantas pela Al Holol Water. (SWAAttachment.png)
  • Smart Water Magazine — Saudi Water Authority hands groundwater and surface water desalination plants to Al Holol Water. (Smart Water MagazineAttachment.png)
  • Ministry of Environment, Water and Agriculture — National Water Strategy 2030. (MewaAttachment.png)
  • Saudi Water Authority — Water Desalination e capacidade de produção. (SWAAttachment.png)
  • Saudi Water Week / Ministry of Environment, Water and Agriculture — evolução da capacidade nacional de dessalinização. (Saudi Water WeekAttachment.png)
  • Saudi Water Authority — recordes de eficiência energética em dessalinização. (SWAAttachment.png)
  • Membranes — estudo sobre consumo energético e economia da osmose reversa para água salobra. (MDPIAttachment.png)