A água que falta pode estar saindo da própria ETE

A escassez hídrica costuma ser apresentada como uma corrida por novas fontes: novos reservatórios, transposições, poços mais profundos ou dessalinização. Entretanto, uma mudança silenciosa está alterando essa lógica. Uma parcela relevante da água que cidades e indústrias procuram já passou pelas redes de esgoto, chegou às estações de tratamento e, depois de tratada, continua sendo descartada em rios ou no mar.

A reportagem “The last drop is a myth”, publicada pela Smart Water Magazine em 17 de agosto de 2026, coloca esse paradoxo no centro do debate. A publicação estima que o mundo gere aproximadamente 360 bilhões de metros cúbicos de águas residuárias por ano e que somente cerca de 11% sejam reutilizados de forma deliberada. Em paralelo, a UN-Water aponta um potencial não aproveitado de aproximadamente 320 bilhões de metros cúbicos anuais de águas residuárias para reúso. Portanto, o debate sobre reúso de água deixou de ser periférico: ele passou a tratar de uma das maiores fontes alternativas disponíveis para ampliar a segurança hídrica. 

Essa transformação valoriza diretamente os profissionais do saneamento. Afinal, são operadores, técnicos, engenheiros, químicos, biólogos, gestores, equipes comerciais, reguladores e especialistas em manutenção que dominam a infraestrutura capaz de converter um efluente em recurso produtivo.

Quanto mais o reúso de água avança, mais a Estação de Tratamento de Esgoto deixa de ser vista apenas como instalação destinada ao controle ambiental e passa a funcionar também como uma potencial unidade de produção de água.

O conceito de “última gota” perde sentido

A água não desaparece depois de utilizada. Ela muda de qualidade, localização e composição. Por isso, a lógica moderna do saneamento tende a substituir o modelo linear — captar, tratar, distribuir, consumir, coletar, tratar e descartar — por um modelo circular, no qual a água pode passar por vários ciclos de utilização.

Na prática, o reúso de água significa adequar a qualidade do efluente ao uso seguinte. Nem toda aplicação exige padrão de água potável.

Água destinada à lavagem de ruas, irrigação paisagística, determinados processos industriais, torres de resfriamento, construção civil ou alguns usos agrícolas pode receber tratamento compatível com o risco e com a finalidade.

Esse conceito é conhecido internacionalmente como fit for purpose, ou tratamento adequado ao propósito.

A lógica é simples: não se deve gastar energia, produtos químicos e recursos financeiros para produzir água com qualidade muito superior à necessária para determinada aplicação. Por outro lado, não se pode utilizar água com qualidade inferior ao padrão exigido.

Consequentemente, a engenharia do reúso precisa encontrar o equilíbrio entre segurança sanitária, confiabilidade operacional e custo.

Como funciona tecnicamente o reúso de água

O tratamento necessário varia de acordo com a qualidade do efluente de entrada e, principalmente, com o destino da água produzida.

Para aplicações não potáveis menos exigentes, uma ETE que apresente bom desempenho no tratamento secundário pode necessitar de etapas complementares como filtração e desinfecção.

Entretanto, aplicações industriais mais sensíveis ou projetos de reúso potável exigem barreiras adicionais.

Entre as tecnologias disponíveis estão:

  • microfiltração;
  • ultrafiltração;
  • osmose reversa;
  • radiação ultravioleta;
  • oxidação avançada;
  • carvão ativado granular;
  • troca iônica;
  • desinfecção final.

Singapura apresenta um dos exemplos mais consolidados do mundo. O programa NEWater utiliza, de maneira geral, microfiltração ou ultrafiltração, osmose reversa e desinfecção ultravioleta. A agência nacional PUB informa que a água produzida é utilizada principalmente por indústrias e sistemas de refrigeração e também pode ser encaminhada aos reservatórios, misturando-se à água bruta antes de novo tratamento para abastecimento. 

A sequência de tratamento demonstra uma característica fundamental do reúso de água: a segurança é construída por múltiplas barreiras.

Se uma etapa apresentar redução momentânea de desempenho, as demais continuam contribuindo para a proteção do processo.

Osmose reversa é obrigatória?

Não.

Esse é um ponto técnico importante. A osmose reversa tornou-se uma das tecnologias mais associadas ao reúso avançado porque remove sais dissolvidos e diversos contaminantes em níveis elevados. Entretanto, apresenta consumo energético, demanda manutenção especializada e produz uma corrente concentrada que necessita de gerenciamento.

Portanto, não existe um trem de tratamento universal.

A escolha precisa considerar a composição do efluente, concentração de sais, matéria orgânica, turbidez, patógenos, micropoluentes, contaminantes emergentes, destinação da água e requisitos regulatórios.

Consequentemente, o reúso de água não deve ser tratado como um sistema padronizado comprado em catálogo. O projeto precisa começar pela caracterização da água e pela necessidade do usuário.

Orange County mostra o tamanho que o reúso pode alcançar

Na Califórnia, o Groundwater Replenishment System, de Orange County, tornou-se uma das principais referências mundiais em reúso potável indireto.

O sistema possui capacidade para produzir aproximadamente 130 milhões de galões por dia, equivalentes a cerca de 492 mil metros cúbicos diariamente, volume suficiente para atender às necessidades de aproximadamente um milhão de pessoas.

O processo utiliza microfiltração, osmose reversa e radiação ultravioleta associada ao peróxido de hidrogênio. Além disso, o sistema recicla o fluxo de águas residuárias recuperáveis recebido da operação de saneamento de Orange County. 

O caso demonstra que reúso de água não precisa permanecer limitado a pequenos projetos experimentais.

Quando existem escala, controle do efluente de entrada, monitoramento, redundância, operação profissionalizada, comunicação pública e governança, o esgoto tratado pode se transformar em componente estrutural de um sistema de abastecimento.

Além disso, Orange County oferece outra lição fundamental: tecnologia sozinha não garante aceitação social.

Comunicação e relacionamento com a população precisam fazer parte do projeto desde o planejamento.

A confiança da população também é infraestrutura

Por muitos anos, projetos tecnicamente sólidos de reúso enfrentaram resistência por causa da percepção pública associada à origem da água.

Por isso, uma das maiores mudanças observadas internacionalmente está na comunicação.

Em vez de apresentar o processo apenas como “esgoto transformado em água”, os sistemas mais avançados procuram explicar as barreiras de tratamento, o monitoramento e os controles adotados.

Esse ponto merece atenção especial das companhias brasileiras. A confiança do usuário não deve ser construída somente quando um empreendimento estiver pronto para entrar em operação.

Ela precisa começar ainda na fase de planejamento.

Portanto, programas de educação, visitas às instalações, divulgação dos resultados laboratoriais e transparência operacional podem ser tão importantes quanto determinados equipamentos.

Reúso potável direto começa a ganhar espaço

O reúso potável pode ocorrer de maneira indireta ou direta.

No modelo indireto, a água altamente purificada passa por uma barreira ambiental, como reservatório ou aquífero, antes de retornar ao abastecimento.

Já no reúso potável direto, a água purificada é incorporada ao sistema de abastecimento sem depender dessa etapa ambiental intermediária, obedecendo ao arranjo regulatório, operacional e sanitário estabelecido.

El Paso, no Texas, está construindo um dos projetos mais observados atualmente pelo setor.

O Pure Water Center terá capacidade de até 10 milhões de galões por dia. O tratamento prevê múltiplas barreiras, incluindo microfiltração, osmose reversa, ultravioleta com oxidação avançada, carvão ativado granular e desinfecção por cloro.

O investimento total estimado é de US$ 295 milhões, com conclusão prevista para 2028. 

O valor pode parecer elevado isoladamente. Entretanto, essa comparação exige cautela.

Quanto custa realmente produzir água de reúso?

Um erro frequente consiste em comparar apenas o custo da planta avançada com o custo atual da água captada.

Para avaliar corretamente um projeto de reúso de água, torna-se necessário analisar o custo completo das alternativas.

Isso inclui, por exemplo:

captação de uma nova fonte, construção de adutoras, bombeamento, energia, tratamento, desapropriações, licenciamento, reservação, distribuição, risco de escassez e necessidade futura de expansão.

Além disso, existe o valor econômico da confiabilidade.

Uma fonte de água situada próxima à cidade e alimentada continuamente pela geração de esgoto apresenta uma característica extremamente importante: sua disponibilidade é menos dependente das chuvas do que rios e reservatórios superficiais.

Naturalmente, isso não significa disponibilidade infinita. Contudo, representa uma fonte com comportamento diferente das fontes convencionais.

É justamente essa diversificação que aumenta a resiliência hídrica.

O reúso virou estratégia industrial

A mudança não está ocorrendo apenas no abastecimento urbano.

Indústrias de semicondutores, mineração, energia, petroquímica e data centers precisam de grandes volumes de água e, sobretudo, de fornecimento confiável.

Nessas atividades, a falta de água pode interromper a produção e gerar perdas financeiras muito superiores ao custo do tratamento complementar.

Por isso, o Banco Mundial avalia que o setor está próximo de um ponto de inflexão.

Segundo a instituição, o reúso potável e industrial pode crescer oito vezes até 2040, alcançando aproximadamente 430 milhões de metros cúbicos por dia. Além disso, a expansão do setor poderia mobilizar até US$ 340 bilhões em investimentos até 2040

O reúso de água, portanto, começa a deixar de ser somente política ambiental para se transformar em infraestrutura econômica.

Uma nova oportunidade para companhias de saneamento

Esse movimento cria possibilidades relevantes para prestadores de serviços de esgotamento sanitário.

Uma ETE localizada perto de um polo industrial pode deixar de enxergar seu efluente somente como algo que precisa ser descartado de maneira adequada.

Ele pode se transformar em produto.

Entretanto, isso exige mudança de visão.

Além da vazão disponível, precisam ser analisados:

  • demanda permanente;
  • distância até o consumidor;
  • qualidade exigida;
  • investimentos adicionais;
  • consumo de energia;
  • tarifa de comercialização;
  • contratos de longo prazo;
  • responsabilidade pela qualidade;
  • garantia de fornecimento;
  • contingências operacionais.

Portanto, vender água de reúso não significa simplesmente instalar um equipamento na saída da ETE.

Significa desenvolver um novo negócio dentro do saneamento.

A distância entre a ETE e o consumidor pode decidir o projeto

Um dos componentes econômicos mais importantes do reúso de água costuma receber pouca atenção: o transporte.

Produzir água de reúso pode ser tecnicamente simples em determinadas situações. Contudo, levá-la por dezenas de quilômetros pode exigir adutoras exclusivas, reservatórios, estações elevatórias, terrenos e elevado consumo energético.

Por isso, o melhor projeto nem sempre corresponde à maior estação.

Frequentemente, o melhor projeto é aquele que aproxima oferta e demanda.

ETEs localizadas perto de distritos industriais, aeroportos, centros logísticos, grandes áreas irrigadas, parques urbanos ou consumidores intensivos apresentam uma vantagem competitiva natural.

O próprio Banco Mundial destaca que a justificativa econômica do reúso tende a ser mais forte quando a água residual está disponível perto do local onde será novamente utilizada. 

E o Brasil?

O Brasil possui grande potencial, porém o aproveitamento planejado dos efluentes tratados ainda é reduzido.

Documento técnico utilizado pela ANA durante o desenvolvimento da regulamentação nacional aponta que cerca de 1,5% do esgoto tratado brasileiro é reutilizado de maneira planejada. Entre os fatores associados ao baixo aproveitamento aparecem falta de incentivos, resistência dos usuários e insuficiência de segurança normativa. 

Entretanto, o tema ganhou espaço definitivo no marco regulatório brasileiro.

A Lei nº 14.026/2020 incluiu o reúso dos efluentes sanitários tratados entre as matérias para as quais a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico deve editar normas de referência. 

Além disso, entre 2025 e 2026, a ANA avançou na construção de uma norma de referência especificamente destinada ao reúso não potável proveniente dos serviços públicos de esgotamento sanitário.

A proposta passou por consulta e audiência públicas em 2026, envolvendo entidades reguladoras, titulares, prestadores, produtores, distribuidores e usuários de água de reúso. 

Esse movimento regulatório é estratégico porque o reúso de água precisa de previsibilidade.

Quanto mais claros estiverem os critérios sobre responsabilidades, qualidade, contratos, fiscalização e gestão dos riscos, maior tende a ser a possibilidade de transformar projetos tecnicamente possíveis em investimentos financeiramente viáveis.

Como uma companhia pode começar

A implantação de reúso de água deveria começar pelo mercado, e não pela compra de equipamentos.

O primeiro passo consiste em mapear quanto efluente tratado está disponível em cada ETE, considerando vazão média, variações horárias e sazonais e histórico da qualidade.

Depois, devem ser localizados potenciais consumidores em um raio economicamente viável.

Na etapa seguinte, torna-se necessário entender a qualidade exigida por cada consumidor.

Somente depois dessa análise deve ser definido o tratamento complementar.

Em seguida, entram os estudos de reservação, bombeamento, adução, redundância, automação, CAPEX, OPEX, modelo tarifário e contrato de fornecimento.

Também precisam ser estabelecidos indicadores de qualidade, responsabilidades, contingências e procedimentos de interrupção caso algum parâmetro fique fora do padrão.

A indústria compra confiabilidade, não apenas água

Outro ponto decisivo é a confiabilidade operacional.

Um consumidor industrial não compra apenas metros cúbicos. Ele compra continuidade.

Portanto, redundância de bombas, instrumentação online, laboratório, manutenção preventiva, estoque de equipamentos críticos, automação, rastreabilidade e gestão dos riscos tornam-se parte do produto vendido.

Nesse cenário, projetos de reúso de água não pertencem exclusivamente à engenharia.

Áreas comercial, operacional, ambiental, laboratorial, jurídica, financeira e regulatória precisam trabalhar juntas desde a concepção.

Essa integração representa uma mudança importante para as empresas de saneamento.

Reúso não substitui combate às perdas

A circularidade da água não elimina a necessidade de reduzir perdas reais e aparentes.

Pelo contrário, as duas estratégias são complementares.

A UN-Water coloca entre as respostas ao estresse hídrico a redução de perdas nos sistemas de distribuição, o reúso seguro de águas residuárias, a dessalinização quando adequada e a melhoria da alocação dos recursos hídricos. 

Portanto, uma companhia eficiente precisa atuar simultaneamente em gestão de pressão, redução de vazamentos, macromedição, micromedição, combate a irregularidades, eficiência energética, proteção dos mananciais e reúso de água.

Segurança hídrica não depende de uma única tecnologia.

Ela depende de um portfólio integrado de soluções.

O ativo escondido dentro do sistema de esgotamento

A principal mensagem da discussão internacional é econômica, ambiental e operacional.

O efluente tratado não precisa representar o fim da linha.

Em determinadas condições, ele pode ser o começo de uma nova cadeia de abastecimento.

O avanço do reúso de água tende, portanto, a transformar a maneira como as ETEs são planejadas, operadas e avaliadas. Vazão disponível, estabilidade do processo, qualidade do efluente e proximidade de grandes consumidores passam a representar não somente indicadores ambientais, mas também atributos econômicos.

Consequentemente, os profissionais do saneamento assumem papel ainda mais estratégico.

São esses profissionais que conhecem o comportamento real das redes, das estações, dos processos, dos equipamentos e dos usuários. Nenhuma estratégia de circularidade hídrica funciona sem operação confiável, manutenção, laboratório, engenharia, gestão comercial e regulação trabalhando de maneira coordenada.

A chamada “última gota”, portanto, não precisa existir.

O que existe é uma decisão técnica, econômica e regulatória sobre quantas vezes uma mesma água poderá ser utilizada com segurança.

Para o saneamento brasileiro, transformar essa decisão em infraestrutura pode representar uma das maiores oportunidades da próxima década.

Fontes

Smart Water Magazine — The last drop is a myth

UN-Water — Water Quality and Wastewater

UN-Water — Water Scarcity

World Bank — Scaling Water Reuse

PUB Singapore — NEWater

Orange County Water District — Groundwater Replenishment System

El Paso Water — Pure Water Center

ANA — Consulta pública sobre reúso não potável

Lei nº 14.026/2020 — Marco Legal do Saneamento