Saneamento deixa os bastidores e entra no centro da infraestrutura
O Brasil está diante de uma mudança que poucos profissionais do setor imaginariam há apenas uma década. O saneamento, historicamente tratado como uma infraestrutura essencial, porém marcada por déficit de investimentos e obras lentas, começa a ocupar uma posição muito mais relevante na carteira de infraestrutura do país.
E há um componente dessa transformação que merece ser colocado logo no início: esse avanço depende diretamente dos profissionais de saneamento.
São engenheiros, técnicos, operadores, equipes comerciais, especialistas ambientais, projetistas, fiscais, gestores de contratos, profissionais de tecnologia, manutenção, regulação, planejamento e atendimento que transformam bilhões de reais previstos em contratos em redes implantadas, ETAs ampliadas, ETEs operando, perdas reduzidas e famílias efetivamente conectadas aos serviços.
O dinheiro sozinho não universaliza saneamento.
Em 2024, o investimento em saneamento chegou a R$ 29,1 bilhões, maior valor da série histórica e terceiro recorde anual consecutivo. O montante foi aproximadamente 9% superior aos R$ 26,3 bilhões registrados em 2023. Além disso, entre 2020 e junho de 2026, 70 leilões resultaram na contratação de aproximadamente R$ 227,5 bilhões em investimentos futuros.
Entretanto, existe um dado ainda mais relevante para entender o tamanho da transformação.
O BNDES estima que o investimento em saneamento poderá alcançar uma média anual de R$ 42,4 bilhões entre 2025 e 2029 no cenário-base, podendo chegar a R$ 45,2 bilhões por ano no cenário otimista. Entre 2020 e 2024, a média anual havia sido de aproximadamente R$ 23,7 bilhões.
Isso representa uma mudança de patamar.
No cenário-base, a média projetada é aproximadamente 79% superior à observada entre 2020 e 2024. No cenário otimista, o crescimento se aproxima de 91%.
Portanto, o saneamento não está simplesmente recebendo mais dinheiro.
Ele está se tornando um dos setores de infraestrutura que mais aceleram investimentos no Brasil.
O saneamento ainda não é o maior setor — e isso torna a trajetória ainda mais interessante
Para compreender corretamente esse movimento, é necessário evitar uma interpretação equivocada.
O saneamento ainda não supera todos os grandes segmentos brasileiros de infraestrutura em valores absolutos.
Energia elétrica e rodovias, por exemplo, continuam movimentando volumes maiores.
Porém, quando se observa a velocidade de crescimento, o tamanho do pipeline e a mudança ocorrida em poucos anos, o saneamento ganha protagonismo.
O estudo de perspectivas do BNDES para 2025 a 2029 projeta que aproximadamente 42% dos investimentos mapeados em 21 setores da economia estarão concentrados em infraestrutura. Energia elétrica, rodovias, saneamento e telecomunicações responderão, juntos, por cerca de 80% dos investimentos do bloco de infraestrutura no cenário-base.
Essa informação coloca o saneamento ao lado de três setores historicamente considerados gigantes da infraestrutura brasileira.
E o contraste fica ainda mais claro quando os números são aproximados para médias anuais.
Energia elétrica continuará gigante
O setor elétrico possui previsão de aproximadamente R$ 581,8 bilhões em investimentos entre 2025 e 2029.
Isso representa uma média próxima de R$ 116 bilhões por ano.
O volume continuará significativamente maior do que o saneamento. Entretanto, existe uma diferença importante: parte da expansão recente da geração elétrica já produziu situações de excesso de oferta em determinados momentos, enquanto os investimentos futuros deverão se concentrar também em transmissão e distribuição.
No saneamento ocorre praticamente o oposto.
Existe ainda um enorme déficit de infraestrutura.
Portanto, a necessidade estrutural de expansão permanece elevada.
Rodovias também vivem forte ciclo de concessões
O setor rodoviário poderá movimentar até aproximadamente R$ 382,1 bilhões entre 2025 e 2029 no cenário otimista.
Caso distribuído linearmente pelo período apenas para fins comparativos, isso representaria uma ordem de grandeza superior a R$ 76 bilhões anuais.
Somente em 2024 foram realizados dez leilões rodoviários que contrataram aproximadamente R$ 70 bilhões em investimentos, enquanto dezenas de novos projetos continuavam previstos.
Portanto, rodovias ainda possuem um pipeline extremamente robusto.
Entretanto, o saneamento começa a se aproximar de um nível de investimento que antes estava restrito aos grandes segmentos tradicionais da infraestrutura.
Saneamento pode superar telecomunicações em investimento anual
A comparação com telecomunicações talvez seja ainda mais reveladora.
Depois do forte ciclo de implantação de fibra óptica e das primeiras fases do 5G, o BNDES projeta para telecomunicações investimentos médios anuais entre aproximadamente R$ 33 bilhões e R$ 39 bilhões até 2029.
Para o investimento em saneamento, a projeção é de R$ 42,4 bilhões a R$ 45,2 bilhões anuais.
Portanto, caso os cenários se concretizem, o saneamento poderá movimentar mais investimentos anuais do que telecomunicações no período.
Há poucos anos, essa comparação provavelmente pareceria improvável.
Saneamento também poderá superar mobilidade urbana
O BNDES estima aproximadamente R$ 169,2 bilhões em investimentos em mobilidade urbana entre 2025 e 2029 no cenário-base.
Isso representa uma média aproximada de R$ 33,8 bilhões por ano, novamente abaixo da projeção de R$ 42,4 bilhões para saneamento.
Portanto, considerando a mesma base de projeção do BNDES, o saneamento aparece à frente de segmentos como telecomunicações e mobilidade urbana em volume médio anual projetado.
É justamente nesse contexto que se pode afirmar que o setor está se transformando em um dos motores da nova onda de investimentos em infraestrutura brasileira.
Não por ser necessariamente o maior.
Mas porque está entre os que apresentam uma das maiores mudanças de escala.
Ferrovias mostram outra diferença de tamanho
As ferrovias possuem investimentos previstos entre aproximadamente R$ 61,1 bilhões e R$ 71,8 bilhões em todo o período de 2025 a 2029.
A média anual ficaria, portanto, entre aproximadamente R$ 12 bilhões e R$ 14 bilhões.
Isso significa que, no cenário projetado, um único ano de investimento em saneamento poderá representar algo próximo de três anos de investimentos ferroviários na média estimada pelo BNDES.
Naturalmente, não se trata de afirmar que um setor é mais importante do que outro. São infraestruturas com características completamente distintas.
A comparação serve para demonstrar a dimensão econômica que o saneamento está adquirindo.
De uma média de R$ 23,7 bilhões para mais de R$ 42 bilhões
A mudança histórica fica ainda mais evidente quando o saneamento é comparado consigo mesmo.
Segundo o BNDES, entre 2020 e 2024 o investimento médio anual foi de aproximadamente R$ 23,7 bilhões.
Entre 2025 e 2029, a expectativa sobe para R$ 42,4 bilhões no cenário-base.
Portanto, praticamente se adicionaria outro setor de saneamento do tamanho daquele existente poucos anos atrás.
O crescimento não ocorreu de maneira instantânea.
Em 2021, levantamento do Instituto Trata Brasil registrava aproximadamente R$ 13,6 bilhões de investimentos a preços correntes. Em 2022, foram aproximadamente R$ 22,5 bilhões. Em 2023, diferentes bases metodológicas situaram o valor na casa dos R$ 25 bilhões a R$ 26 bilhões. Finalmente, o Panorama da Universalização 2026 registrou R$ 29,1 bilhões em 2024.
A trajetória é clara.
O setor saiu de um patamar inferior a R$ 20 bilhões em determinados anos para entrar em uma realidade na qual investir mais de R$ 40 bilhões anualmente começa a ser considerado factível.
O investimento por habitante também cresceu
Outro indicador mostra a mesma transformação.
Entre 2020 e 2024, o investimento médio por habitante cresceu aproximadamente 51%, passando de cerca de R$ 90 para R$ 137 por pessoa ao ano, segundo levantamento baseado em informações do setor. No mesmo intervalo, foram investidos aproximadamente R$ 112,6 bilhões.
Entretanto, permanece uma distância considerável até a universalização.
Estimativas recentes apontam necessidade próxima de R$ 48 bilhões anuais para que o Brasil avance no ritmo necessário até 2033.
Curiosamente, a projeção otimista do BNDES — R$ 45,2 bilhões por ano entre 2025 e 2029 — começa a se aproximar desse patamar.
Esse talvez seja um dos sinais mais importantes da mudança.
Pela primeira vez, o volume projetado de investimento em saneamento começa a se aproximar da ordem de grandeza considerada necessária para atacar de maneira consistente o déficit histórico brasileiro.
O que fez o saneamento acelerar?
Existem vários fatores simultâneos.
O primeiro é o Marco Legal do Saneamento.
A Lei nº 14.026/2020 estabeleceu uma referência clara de universalização até 2033: atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto.
Além disso, ampliou a padronização regulatória, fortaleceu o papel da ANA na edição de normas de referência e modificou profundamente o ambiente de contratação dos serviços.
Contudo, a legislação foi apenas o início.
A transformação econômica ocorreu quando as metas começaram a ser traduzidas em contratos.
R$ 227,5 bilhões já foram contratados
Entre 2020 e junho de 2026, foram realizados 70 leilões relacionados ao saneamento, envolvendo aproximadamente R$ 227,5 bilhões em investimentos contratualizados.
Esses projetos alcançam cerca de 100 milhões de pessoas em aproximadamente 2.480 municípios.
Além disso, outros 31 projetos estavam em estruturação, com previsão de aproximadamente R$ 32 bilhões em investimentos adicionais.
Há ainda uma visão mais ampla do pipeline.
Durante o lançamento do Panorama da Universalização 2026, foram mencionados 51 projetos de concessões estruturadas e processos de desestatização que poderiam representar mais de R$ 423 bilhões em investimentos futuros.
Isso ajuda a compreender por que o saneamento passou a chamar atenção de bancos, fundos, construtoras, fabricantes de equipamentos, empresas de tecnologia, consultorias e investidores.
Existe uma carteira gigantesca de projetos a executar.
Contratado não significa investido
Entretanto, uma distinção precisa ser feita.
R$ 227,5 bilhões contratados não significam R$ 227,5 bilhões já desembolsados.
Uma concessão de 30 ou 35 anos pode prever dezenas de bilhões de reais em investimentos distribuídos ao longo de décadas.
Portanto, existem três conceitos diferentes:
CAPEX contratado: obrigação futura prevista no contrato.
CAPEX programado: valor planejado para determinado período.
CAPEX realizado: dinheiro efetivamente investido.
Essa diferença será cada vez mais importante.
A grande pergunta dos próximos anos não será quantos bilhões foram prometidos.
Será quantos bilhões conseguiram sair do planejamento, passar pelos projetos, licenciamento, contratação e execução e finalmente entrar em operação.
De onde vem o dinheiro para esse novo ciclo?
O investimento em saneamento pode ser financiado de diferentes formas.
As próprias companhias utilizam geração de caixa.
Também existem financiamentos do BNDES, Caixa Econômica Federal, bancos regionais, organismos multilaterais e instituições privadas.
Além disso, debêntures incentivadas e debêntures de infraestrutura ganharam relevância.
Fundos de investimento também podem participar.
Em concessões privadas, parte do capital inicialmente aportado pelos acionistas é combinada com dívida de longo prazo.
Já companhias públicas podem combinar recursos próprios, financiamento, orçamento público e mecanismos financeiros específicos.
Independentemente da origem, existe uma característica fundamental.
O saneamento exige capital de longo prazo.
Uma ETE construída hoje poderá operar por décadas.
Uma adutora possui vida útil igualmente longa.
Uma rede implantada pode permanecer operacional durante várias gerações.
Consequentemente, o financiamento precisa conversar com essa característica.
Tarifa e investimento estão diretamente relacionados
Também existe uma realidade econômica que nem sempre aparece nas discussões públicas.
A maior parte da infraestrutura precisa produzir receita suficiente para sustentar sua operação, manutenção, financiamento e renovação.
Por isso, equilíbrio econômico-financeiro é parte fundamental da universalização.
Não significa simplesmente aumentar tarifa.
Significa construir uma estrutura capaz de equilibrar modicidade tarifária, eficiência, investimentos, qualidade do serviço e sustentabilidade financeira.
Nesse ponto, regulação eficiente torna-se decisiva.
Uma companhia que não gera capacidade financeira para investir pode perder capacidade operacional.
Entretanto, uma companhia ineficiente que apenas transfere custos para a tarifa também produz um problema.
O desafio consiste em investir mais e, simultaneamente, operar melhor.
Para onde vão R$ 40 bilhões por ano?
Quando se observa uma cifra de R$ 42 bilhões, pode parecer que todo o dinheiro será destinado à construção de grandes estações.
Na realidade, o investimento em saneamento se espalha por uma enorme cadeia de infraestrutura.
No abastecimento de água, estão incluídos:
- captações;
- barragens;
- poços;
- adutoras;
- estações elevatórias;
- ETAs;
- reservatórios;
- redes;
- boosters;
- válvulas;
- macromedição;
- hidrômetros;
- automação;
- sistemas elétricos;
- controle de pressão;
- substituição de redes.
No esgotamento sanitário, estão incluídos:
- redes coletoras;
- coletores-tronco;
- interceptores;
- elevatórias;
- linhas de recalque;
- emissários;
- ETEs;
- sistemas de aeração;
- tratamento de lodo;
- sistemas de reúso;
- automação;
- equipamentos eletromecânicos.
Além disso, existe a renovação dos ativos antigos.
Universalizar não significa apenas expandir.
É necessário impedir que a infraestrutura existente envelheça mais rápido do que a expansão.
O efeito sobre fornecedores pode ser enorme
O BNDES chama atenção para outro aspecto relevante: o crescimento do saneamento movimenta toda uma cadeia produtiva.
Tubulações, por exemplo, representam parcela significativa do investimento necessário.
Somam-se bombas, motores, inversores de frequência, painéis elétricos, sopradores, produtos químicos, válvulas, medidores, equipamentos laboratoriais, softwares, sensores e serviços de engenharia.
Consequentemente, quando o investimento em saneamento cresce, não cresce apenas o faturamento das companhias.
Crescem também oportunidades na indústria, construção, serviços técnicos, tecnologia e engenharia.
Esse efeito ajuda a explicar por que o saneamento começa a ser tratado como infraestrutura econômica estratégica.
O maior gargalo pode deixar de ser dinheiro e passar a ser execução
Existe uma consequência importante desse novo cenário.
Durante décadas, a falta de recursos era frequentemente apontada como um dos principais entraves do saneamento brasileiro.
O problema financeiro não desapareceu.
Entretanto, à medida que bilhões são contratados, um novo gargalo ganha importância: capacidade de execução.
Imagine dezenas de bilhões adicionais entrando simultaneamente no setor.
Será necessário produzir mais projetos.
Será necessário licenciar mais empreendimentos.
Será necessário contratar mais obras.
Será necessário fabricar mais tubulações.
Será necessário instalar mais equipamentos.
Será necessário fiscalizar milhares de contratos.
Será necessário colocar todas essas estruturas em operação.
Portanto, o capital humano poderá ser tão importante quanto o capital financeiro.
Os profissionais de saneamento tornam-se ainda mais estratégicos
Essa transformação cria uma enorme responsabilidade para os profissionais.
Um aumento de R$ 23,7 bilhões para mais de R$ 42 bilhões na média anual não significa apenas movimentar mais dinheiro.
Significa praticamente dobrar a capacidade de preparar, contratar, executar e operar investimentos.
Consequentemente, profissionais experientes passam a possuir enorme valor estratégico.
Conhecimento de redes, processos de tratamento, operação, contratos, gestão comercial, fiscalização, regulação e planejamento não pode ser criado instantaneamente.
Pode-se comprar uma bomba em alguns meses.
Pode-se contratar um software em semanas.
Entretanto, formar um profissional capaz de tomar boas decisões em sistemas complexos pode exigir anos.
Portanto, o novo ciclo de investimento em saneamento também precisa ser acompanhado por investimento em pessoas.
Como as companhias decidem onde investir?
Um setor que movimentará dezenas de bilhões de reais não pode definir CAPEX apenas por percepção.
As empresas mais estruturadas utilizam uma combinação de ferramentas.
Entre elas estão:
GIS — Sistema de Informação Geográfica
SCADA — Supervisory Control and Data Acquisition
ERP — sistema integrado de gestão empresarial
EAM — Enterprise Asset Management
modelagem hidráulica
BIM — Building Information Modeling
sistemas comerciais
telemetria
business intelligence
gestão de projetos
Essas plataformas precisam, cada vez mais, funcionar de maneira integrada.
GIS: uma das ferramentas mais importantes
Uma companhia de saneamento pode possuir dezenas de milhares de quilômetros de tubulações.
Sem informação geográfica adequada, torna-se extremamente difícil planejar investimentos.
O GIS permite visualizar onde estão redes, válvulas, reservatórios, ligações, elevatórias e demais ativos.
Além disso, cada objeto pode possuir atributos.
Uma tubulação pode carregar informações como:
material;
diâmetro;
ano de implantação;
histórico de vazamentos;
pressão;
número de clientes atendidos;
custos de manutenção;
criticidade.
Assim, o investimento em saneamento começa a ser orientado por risco.
Uma rede com 40 anos, grande número de vazamentos, elevada pressão e milhares de clientes pode receber prioridade sobre outra em melhor condição.
ArcGIS já possui histórico de uso em grandes companhias
Existem exemplos documentados no Brasil.
A Sanepar já registrava formalmente o uso corporativo da plataforma ArcGIS em áreas de operação, hidrogeologia, comercial, meio ambiente, recursos hídricos, investimentos, projetos e obras.
Em um processo corporativo documentado em 2016, a companhia aprovou contrato de licenciamento da plataforma da ordem de R$ 2,2 milhões por três anos. Esse valor não deve ser utilizado como referência atual de preço, porque envolve outro período, escopo tecnológico e modelo de licenciamento. Entretanto, demonstra como o GIS já havia se tornado infraestrutura corporativa dentro de uma grande empresa de saneamento.
Atualmente, plataformas desse tipo podem funcionar em nuvem, integrar aplicativos de campo e alimentar dashboards.
O mapa deixa de ser desenho.
Ele passa a funcionar como representação digital do sistema.
Modelagem hidráulica evita obras erradas
O GIS mostra onde estão os ativos.
A modelagem hidráulica ajuda a responder outra pergunta:
o que acontecerá se determinada intervenção for executada?
Modelos como EPANET e plataformas comerciais permitem simular vazões, pressões, reservatórios, bombas e válvulas.
Antes de construir uma nova adutora, pode-se testar seu impacto.
Antes de trocar uma tubulação, pode-se verificar a redução de perda de carga.
Antes de instalar uma bomba maior, pode-se avaliar se o problema realmente está na capacidade de bombeamento.
Consequentemente, a modelagem pode proteger milhões de reais de investimento em saneamento contra decisões tecnicamente inadequadas.
SCADA mostra o que está acontecendo agora
Enquanto o modelo simula, o SCADA acompanha a operação real.
Sensores podem informar:
vazão;
pressão;
nível;
estado das bombas;
consumo de energia;
turbidez;
cloro;
falhas de equipamentos.
A sala de controle consegue visualizar parte relevante do sistema praticamente em tempo real.
Quando GIS, SCADA e modelagem hidráulica são integrados, surge uma capacidade extremamente poderosa de gestão.
O ativo possui localização.
Possui histórico.
Possui condição operacional.
Possui comportamento hidráulico.
Possui custo.
A decisão de investimento torna-se mais racional.
BIM entra na construção de grandes unidades
Para ETAs, ETEs, reservatórios, elevatórias e grandes instalações, o BIM também ganha importância.
A metodologia permite desenvolver modelos digitais detalhados da infraestrutura.
Tubulações, estruturas civis, sistemas elétricos e equipamentos podem ser compatibilizados antes da execução.
Isso ajuda a identificar interferências.
Consequentemente, reduz retrabalho.
Também melhora orçamento, planejamento e controle da obra.
Em um cenário com dezenas de bilhões de reais em CAPEX, pequenas reduções percentuais de erros podem representar economias enormes.
Quanto custa implantar essas ferramentas?
Não existe um preço único.
O custo depende do tamanho da companhia, quantidade de usuários, licenciamento, nuvem, servidores, integração e volume de dados.
Entretanto, o custo do software costuma ser pequeno quando comparado ao custo de decisões ruins sobre bilhões de reais em ativos.
O maior desafio frequentemente não está na licença.
Está na qualidade dos dados.
Um GIS sem cadastro confiável perde valor.
Um modelo hidráulico alimentado com dados incorretos produz resultados incorretos.
Um SCADA sem sensores calibrados pode transmitir informações ruins.
Portanto, digitalização não é apenas compra de tecnologia.
É transformação de processo.
Como implantar uma gestão moderna de investimentos
Uma companhia que pretende aumentar significativamente seu CAPEX pode estruturar o processo em nove etapas.
1. Conhecer os ativos
Deve-se consolidar cadastro técnico, idade, material, capacidade e condição dos ativos.
2. Integrar dados comerciais e operacionais
É necessário compreender quais clientes dependem de cada infraestrutura.
3. Identificar déficits
Deve-se mapear falta de cobertura, problemas de pressão, perdas, capacidade de tratamento e crescimento futuro.
4. Calcular riscos
Um ativo crítico não é necessariamente apenas o mais antigo.
É aquele cuja falha produz maior consequência.
5. Modelar alternativas
Antes da obra, diferentes soluções precisam ser simuladas.
6. Priorizar CAPEX
Projetos devem competir por recursos segundo critérios claros.
7. Executar com controle
Prazo, custo, qualidade e avanço físico precisam ser acompanhados.
8. Incorporar o ativo à operação
Depois da obra, informações devem retornar ao GIS, ERP e sistema de manutenção.
9. Medir resultados
Finalmente, deve-se verificar se o dinheiro realmente resolveu o problema.
Essa última etapa é fundamental.
CAPEX não deve ser medido apenas por dinheiro gasto
Uma companhia pode executar 100% do orçamento e ainda assim produzir pouco benefício.
Por isso, o investimento em saneamento precisa ser relacionado a resultados.
Quantas novas pessoas receberam água?
Quantas ligações de esgoto foram efetivamente conectadas?
Quanto esgoto adicional passou a ser tratado?
Quantos quilômetros de rede foram renovados?
Quanto a perda caiu?
Quanto a continuidade aumentou?
Quanto a energia por metro cúbico foi reduzida?
Quantos vazamentos foram evitados?
Quanto melhorou a satisfação do cliente?
Essa lógica diferencia execução financeira de geração de valor.
O alerta: R$ 29,1 bilhões ainda não são suficientes
Apesar dos recordes, aproximadamente 51,8% do esgoto gerado no Brasil era tratado em 2024 segundo os dados apresentados pela ABCON.
Portanto, praticamente metade do esgoto produzido ainda permanecia sem tratamento adequado.
Além disso, o próprio BNDES destaca que a projeção de R$ 42,4 bilhões a R$ 45,2 bilhões anuais continua inferior aos aproximadamente R$ 50 bilhões anuais estimados pela Abdib como necessários para a universalização.
Ou seja, o setor está acelerando.
Mas ainda precisa acelerar.
Uma transformação rara na infraestrutura brasileira
Poucos setores conseguem apresentar simultaneamente:
um enorme déficit de atendimento;
metas legais;
centenas de bilhões em contratos;
projetos de longo prazo;
receita recorrente;
forte necessidade social;
infraestrutura física intensiva;
pressão regulatória;
digitalização;
e demanda crescente por profissionais especializados.
O saneamento reúne praticamente todos esses elementos.
É justamente essa combinação que explica sua entrada no centro da infraestrutura brasileira.
De infraestrutura social para infraestrutura econômica estratégica
Durante muito tempo, saneamento foi tratado principalmente como política de saúde pública.
Essa visão continua correta, porém incompleta.
Saneamento também é produtividade.
É desenvolvimento imobiliário.
É turismo.
É indústria.
É preservação ambiental.
É disponibilidade hídrica.
É infraestrutura urbana.
E agora também passa a ser um mercado anual de dezenas de bilhões de reais em investimentos.
Portanto, o investimento em saneamento deixa de ser observado apenas como gasto necessário para corrigir déficits históricos.
Passa a ser visto como parte da estratégia de crescimento da infraestrutura brasileira.
O Brasil poderá chegar perto de R$ 225 bilhões em cinco anos
Se o cenário otimista do BNDES se materializar integralmente, uma média anual de R$ 45,2 bilhões durante cinco anos corresponderia a aproximadamente R$ 226 bilhões em investimentos entre 2025 e 2029.
No cenário-base, R$ 42,4 bilhões anuais representariam aproximadamente R$ 212 bilhões no período.
Em apenas cinco anos, portanto, o saneamento poderia movimentar algo equivalente ou superior a duas centenas de bilhões de reais.
É uma escala completamente diferente da observada historicamente.
O grande teste começa agora
O Marco Legal ajudou a criar metas.
Os leilões criaram contratos.
Os contratos criaram obrigações de investimento.
O mercado financeiro disponibiliza instrumentos.
Os projetos começam a formar uma carteira gigantesca.
Entretanto, agora chega a etapa mais difícil.
Executar.
O sucesso desse novo ciclo não será medido pelo número de leilões realizados.
Também não será medido exclusivamente pelo valor contratado.
Será medido pelo que chegar ao cidadão.
Por isso, profissionais de saneamento se tornam protagonistas.
São eles que precisam transformar R$ 42 bilhões, R$ 45 bilhões ou eventualmente R$ 50 bilhões anuais em infraestrutura funcionando.
O investimento em saneamento poderá colocar o setor entre os principais motores da infraestrutura nacional.
Entretanto, serão a competência técnica, a produtividade, a qualidade dos projetos, a gestão, a tecnologia e a capacidade das equipes que determinarão se esse dinheiro realmente produzirá universalização.
Depois de décadas buscando recursos, o saneamento brasileiro começa a enfrentar uma questão diferente.
O país está se preparando para investir quase o dobro. Agora será necessário provar que consegue executar quase o dobro.
Esse talvez seja o maior desafio — e também a maior oportunidade profissional — da história recente do saneamento brasileiro.
Fontes
- BNDES — Perspectivas do investimento 2025–2029
- BNDES — Estudo completo Perspectivas do investimento 2025–2029
- Valor Econômico — Saneamento avança e assume posição central na infraestrutura do Brasil
- ABCON SINDCON — Estudos e informações do setor
- Instituto Trata Brasil — dados nacionais de saneamento
- CNN Brasil — Saneamento avança após seis anos do Marco Legal
- CNN Brasil — participação privada e investimentos no saneamento
- Ministério das Cidades — SINISA
- SINISA 2025 — Abastecimento de Água, ano de referência 2024
- SINISA 2025 — Esgotamento Sanitário, ano de referência 2024
- Sanepar — documentação corporativa sobre utilização do ArcGIS



