Reúso de água deixa de ser projeto isolado e entra no planejamento estratégico da Copasa
A novidade mais importante do Plano Estratégico de Reúso da Água em Minas Gerais não está apenas na possibilidade de aproveitar efluentes tratados. O avanço está em tratar as Estações de Tratamento de Esgoto como potenciais unidades produtoras de uma nova fonte hídrica, com qualidade definida, demanda identificada, infraestrutura própria e modelo econômico capaz de sustentar o serviço.

Lançado em 27 de agosto de 2026, o plano é coordenado pela Copasa e desenvolvido em parceria com o Centro de Referência em Estações Sustentáveis de Tratamento de Esgoto (CR Etes), o Instituto Reúso de Água (IRdA) e a GO Associados. A proposta combina engenharia, qualidade da água, planejamento hídrico, regulação e análise econômico-financeira para identificar onde o reúso de água pode realmente funcionar em Minas Gerais.
O ponto central é simples: tratar esgoto já é obrigação sanitária e ambiental. Entretanto, quando o efluente tratado apresenta qualidade compatível com uma aplicação produtiva, parte dessa vazão pode deixar de ser apenas descartada e passar a substituir água de melhor qualidade em usos que não exigem potabilidade.
Isso significa que o projeto não deve ser confundido com reúso potável. O foco está em aproveitar água tratada proveniente das ETEs em atividades urbanas, industriais, agrícolas, ambientais ou operacionais nas quais água potável não seja necessária.
O que o plano da Copasa pretende mapear
O trabalho anunciado pela companhia prevê diagnóstico da oferta e da demanda atual e futura de água e de efluentes tratados. Além disso, serão avaliados aspectos técnicos, ambientais, regulatórios e econômicos.
Na prática, isso significa responder a perguntas que determinam a viabilidade de qualquer projeto de reúso de água: quanto efluente cada ETE produz; com qual regularidade; qual é a qualidade desse efluente; quem consome água nas proximidades; qual qualidade esse usuário precisa; qual tratamento complementar seria necessário; quanto custariam adução, bombeamento, reservação e monitoramento; e qual preço tornaria o projeto interessante para produtor e usuário.
A metodologia anunciada inclui análise de dados, monitoramento das ETEs, avaliação estatística da qualidade dos efluentes e seleção de tecnologias. Também estão previstas diretrizes técnicas e estimativas de custos para as alternativas identificadas.
Esse desenho é particularmente relevante porque a viabilidade do reúso de água depende menos de uma tecnologia isolada e mais do encaixe entre fonte, qualidade, demanda, distância e custo.
ETE pode passar a ser também uma unidade de produção de água
Tradicionalmente, uma Estação de Tratamento de Esgoto é avaliada principalmente pela eficiência de remoção de matéria orgânica, sólidos, nutrientes e microrganismos indicadores, conforme o processo adotado e as exigências ambientais.
No reúso surge uma segunda pergunta: o efluente final possui qualidade adequada para uma aplicação específica?
Essa mudança altera a lógica operacional. Um efluente que atende às condições necessárias para lançamento em um corpo receptor não é automaticamente adequado para qualquer finalidade de reúso.
Dependendo da aplicação, podem ser necessários processos adicionais como filtração, desinfecção, redução de turbidez e sólidos ou tratamentos de polimento mais avançados.
Por isso, o conceito técnico mais importante é o tratamento adequado ao uso final, conhecido internacionalmente pela lógica de fit for purpose. Água destinada à lavagem de vias, por exemplo, não precisa necessariamente apresentar a mesma especificação exigida por determinados processos industriais.
Da mesma forma, aplicações agrícolas, ambientais e industriais possuem riscos e requisitos diferentes.
Consequentemente, o melhor projeto não é necessariamente aquele que produz a água de maior qualidade possível. É aquele que entrega, de forma segura e consistente, a qualidade necessária para determinada aplicação com custo operacional e investimento compatíveis.
Betim mostra que o reúso industrial já saiu do papel
O plano estratégico não começa do zero.
Na ETE Betim Central, o efluente tratado passou a ser destinado à Metalsider para utilização em atividades industriais, incluindo refrigeração de fornos.
Segundo a Copasa, o projeto tem potencial para economizar aproximadamente 1,2 milhão de metros cúbicos de água tratada por ano, volume comparado pela companhia ao consumo anual de uma cidade de aproximadamente 20 mil habitantes.
Para conectar a ETE à unidade industrial, foi necessária a implantação de estação elevatória e aproximadamente 1,6 quilômetro de tubulação.
Esse detalhe é fundamental para profissionais do saneamento.
A qualidade da água é apenas uma parte da equação. Uma excelente oportunidade técnica pode não ser economicamente interessante quando o consumidor está distante da ETE e exige grandes investimentos em adução e bombeamento.
Itamarandiba reforça a importância da logística
Outro exemplo relevante está em Itamarandiba, no Vale do Jequitinhonha.
A parceria entre Copasa e Aperam BioEnergia prevê a disponibilização de 35 litros por segundo de água proveniente da ETE. A expectativa divulgada é economizar aproximadamente 1,1 milhão de metros cúbicos de água por ano em processos agroindustriais.
O projeto ajuda a compreender a economia real do reúso de água.
Foram anunciados cerca de R$ 5 milhões em investimentos, incluindo aproximadamente 2,5 quilômetros de adutora para transportar a água da ETE até o usuário. Também foi prevista estrutura adicional de tratamento para garantir qualidade compatível com a aplicação pretendida.
Portanto, distância entre produtor e consumidor pode definir parcela importante do CAPEX. Ao mesmo tempo, bombeamento, energia, manutenção, análise laboratorial e monitoramento influenciam diretamente o OPEX.
É justamente por isso que o mapeamento territorial anunciado pela Copasa pode ser decisivo.
Reúso interno também pode reduzir custos da companhia
O potencial econômico não está limitado à comercialização para terceiros.
A Copasa informou que o reaproveitamento de efluentes tratados em atividades internas na Região Metropolitana de Belo Horizonte já evita o consumo de aproximadamente 65 milhões de litros de água tratada por ano.
Segundo a companhia, a medida representa economia anual superior a R$ 1,8 milhão. A empresa também informou expectativa de geração de receita com o fornecimento de água de reúso para aplicações industriais.
Para outras companhias de saneamento, essa experiência merece atenção.
Antes de procurar um grande consumidor industrial distante, pode ser economicamente racional identificar usos internos próximos da própria ETE: lavagem de equipamentos, limpeza de áreas, processos auxiliares e outras aplicações tecnicamente compatíveis.
Assim, o reúso de água pode gerar valor em duas frentes.
A primeira é a redução de despesas da própria operação. A segunda é a criação de uma receita adicional pela comercialização para usuários externos.
Minas já possui regra específica para reúso não potável
Minas Gerais possui uma vantagem institucional importante.
Desde 2020, a Deliberação Normativa CERH-MG nº 65 estabelece diretrizes, modalidades e procedimentos para o reúso direto de água não potável proveniente de ETEs públicas e privadas.
A regulamentação contempla aplicações agrossilvipastoris, urbanas, ambientais e industriais. Também estabelece mecanismos de controle e monitoramento da qualidade.
Entre os usos previstos estão lavagem de ruas e praças, determinados usos em veículos, recuperação de áreas degradadas, fertirrigação dentro das condições estabelecidas e aplicações industriais, entre outras possibilidades.
Em âmbito nacional, a Resolução CNRH nº 54/2005 estabeleceu modalidades, diretrizes e critérios gerais relacionados ao reúso direto não potável.
Posteriormente, o novo marco legal do saneamento ampliou o papel da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico na regulação do setor, incluindo a elaboração de norma de referência relacionada ao reúso dos efluentes sanitários tratados.
Brasil ainda reutiliza pouco do esgoto tratado
O contexto nacional ajuda a dimensionar a oportunidade.
Durante audiência pública realizada pela ANA em fevereiro de 2026 sobre a proposta de norma de referência para reúso não potável, foi apresentado que cerca de 1,5% do esgoto tratado no Brasil era reutilizado de forma planejada.
A apresentação técnica também citou estudos segundo os quais o potencial poderia passar de aproximadamente 1 m³/s para 12,8 m³/s entre 2023 e 2028, com investimentos estimados na ordem de R$ 1,8 bilhão.
Portanto, existe espaço significativo para expansão.
Ao mesmo tempo, aumentar a produção de reúso de água exige muito mais do que simplesmente instalar uma tubulação na saída das ETEs.
O verdadeiro desafio está no modelo de negócio
A tecnologia de tratamento costuma receber grande parte da atenção. Porém, muitos projetos podem deixar de avançar por razões econômicas, logísticas ou contratuais.
Uma ETE pode produzir grande volume de efluente de boa qualidade e, ainda assim, não existir demanda economicamente viável nas proximidades.
Da mesma maneira, uma indústria pode demonstrar interesse, mas não conseguir assumir investimentos elevados em adutoras ou garantir consumo constante durante vários anos.
Por isso, um plano estadual precisa analisar conjuntamente:
demanda potencial, distância entre ETE e consumidor, perfil e sazonalidade do consumo, qualidade requerida, preço da água convencional, tratamento complementar, energia, bombeamento, reservação, redundância operacional, riscos de qualidade e responsabilidades contratuais.
Também será necessário definir quem financiará a infraestrutura, quem operará os ativos, como será feita a medição do volume entregue, quais indicadores de qualidade serão exigidos e como eventuais interrupções serão tratadas.
Em outras palavras, transformar efluente em produto exige engenharia e regulação, mas também exige inteligência comercial.
O reúso pode criar uma nova lógica econômica para as ETEs
Existe uma mudança conceitual importante por trás dessa estratégia.
Durante décadas, grande parte das ETEs foi projetada a partir de uma lógica predominantemente linear:
esgoto → tratamento → lançamento.
A economia circular acrescenta outra possibilidade:
esgoto → tratamento → recuperação de recursos → novo uso.
A água é o recurso mais evidente. Entretanto, ETEs modernas também podem incorporar recuperação de energia, biogás, biossólidos e nutrientes dependendo de sua escala, tecnologia e contexto econômico.
Com isso, determinadas estações deixam de ser analisadas apenas como centros de custo ambiental e sanitário.
Elas podem gradualmente assumir características de unidades de recuperação de recursos.
O que muda para os profissionais do saneamento
A expansão do reúso de água tende a aproximar áreas que historicamente trabalharam de maneira relativamente separada.
Operadores e técnicos de ETE passam a lidar com requisitos adicionais de estabilidade e rastreabilidade ligados ao uso final.
Laboratórios ganham importância ainda maior no controle da qualidade.
Engenheiros precisam comparar tecnologias de polimento, bombeamento, reservação e alternativas de transporte.
Profissionais de automação e dados podem monitorar vazão, qualidade e disponibilidade praticamente em tempo real.
Áreas ambientais e regulatórias precisam garantir conformidade.
Já equipes comerciais, financeiras e de planejamento precisam identificar consumidores, estruturar contratos, avaliar preços e calcular retorno dos investimentos.
Essa integração aumenta o valor dos profissionais capazes de compreender o ciclo completo: esgoto recebido, tratamento, qualidade produzida, demanda, infraestrutura, custo operacional, risco e receita.
São esses profissionais que transformam uma boa ideia ambiental em um serviço confiável.
Por que a estratégia da Copasa merece atenção nacional
O aspecto mais promissor do plano é a tentativa de sair da lógica de iniciativas isoladas e construir um portfólio estadual de oportunidades.
Quando oferta de efluentes, demanda hídrica e infraestrutura são analisadas territorialmente, torna-se possível priorizar as ETEs com maior chance de sucesso.
Grandes consumidores próximos podem receber prioridade. Aplicações internas podem reduzir custos rapidamente. Projetos agrícolas e urbanos podem ser direcionados a regiões específicas. Além disso, tecnologias podem ser selecionadas conforme o uso pretendido, evitando tratamentos excessivos e investimentos desnecessários.
Essa abordagem também reduz o risco de construir infraestrutura sem consumidor suficiente.
O movimento possui paralelo internacional. Em 2026, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos lançou uma nova fase do seu plano nacional de reúso, com forte atenção às aplicações industriais, tecnológicas e energéticas. Entre as iniciativas estão ferramentas geoespaciais para aproximar fontes alternativas de água de potenciais usuários.
Portanto, o reúso de água está deixando de ser apenas uma pauta ambiental. Cada vez mais, passa a integrar discussões sobre infraestrutura, competitividade industrial e segurança hídrica.
O que deverá ser acompanhado a partir de agora
Os resultados mais importantes do plano serão a identificação das ETEs prioritárias, o diagnóstico de oferta e demanda, os critérios de qualidade adotados, as tecnologias recomendadas e os custos estimados de tratamento e transporte.
Entretanto, talvez o indicador mais importante seja outro: quantos projetos potenciais conseguirão virar contratos sustentáveis de longo prazo.
Sem demanda previsível, a infraestrutura corre risco de ficar ociosa.
Com contratos bem estruturados, por outro lado, o efluente tratado pode se transformar em fonte hídrica regular e em nova linha de receita.
A grande mudança de conceito está justamente aí.
O esgoto tratado deixa de ser visto apenas como fluxo final de uma ETE e passa a ser considerado um recurso.
Porém, esse recurso somente ganha valor quando existe qualidade comprovada, operação estável, logística viável, regulação clara e consumidor interessado.
Profissionais transformarão o potencial em realidade
O reúso de água não substitui a necessidade de preservar mananciais nem reduz a importância do abastecimento convencional.
Porém, pode reservar água de melhor qualidade para usos prioritários, reduzir captações, aumentar a segurança hídrica e melhorar a eficiência econômica do setor.
O Plano Estratégico da Copasa apresenta uma evolução relevante justamente porque tenta conectar engenharia, operação, regulação, meio ambiente e mercado.
Se essa integração avançar, Minas Gerais poderá transformar uma parcela de suas ETEs em ativos ainda mais estratégicos.
E o fator decisivo não estará apenas nas tecnologias instaladas.
Estará na capacidade de operadores, engenheiros, técnicos, laboratoristas, especialistas ambientais, reguladores, profissionais de planejamento e gestores comerciais de transformar dados e infraestrutura em decisões operacionais seguras.
No saneamento do futuro, tratar bem continuará sendo indispensável. Entretanto, saber recuperar valor daquilo que já foi tratado poderá se tornar uma competência igualmente estratégica.
Fontes e referências
- Copasa — Plano Estratégico de Reúso da Água em Minas Gerais. Acessar fonte
- Copasa — Projeto de reúso com a Metalsider em Betim. Acessar fonte
- Copasa — Projeto Água Circular com a Aperam BioEnergia. Acessar fonte
- Copasa — resultados econômicos e operacionais do reúso interno. Acessar fonte
- Portal de Reúso da Copasa — modalidades e legislação aplicada em Minas Gerais. Acessar fonte
- ANA — regulamentação do reúso não potável em Minas Gerais. Acessar fonte
- ANA — audiência pública da norma de referência sobre reúso não potável. Acessar fonte
- US EPA — Water Reuse Action Plan 2.0. Acessar fonte



