Emasa entra na etapa mais delicada da nova estrutura
Balneário Camboriú entrou em uma das fases mais críticas da modernização da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Nova Esperança. A Empresa Municipal de Água e Saneamento (Emasa) iniciou, em 29 de agosto de 2026, a conexão dos emissários que transportam o esgoto coletado na cidade até o novo tratamento preliminar de esgoto.
Dos quatro emissários principais envolvidos na operação atual, um já havia sido conectado à nova estrutura até a atualização divulgada. Os demais serão interligados gradualmente, enquanto o sistema de esgotamento sanitário continua funcionando. A previsão divulgada pela Emasa é de conclusão da nova unidade em meados de setembro.
É justamente aí que está uma das partes mais interessantes da obra para profissionais do saneamento: não se trata apenas de construir uma nova unidade, instalar equipamentos e abrir válvulas. A nova estação precisa ser integrada a um sistema real, carregado e em funcionamento, sem comprometer a coleta de esgoto da cidade.
Ligação da elevatória da Rua 3700 exige operação especial
A intervenção considerada mais delicada envolve o emissário associado à Estação Elevatória de Esgoto da Rua 3700, responsável por receber o maior volume entre as unidades citadas pela Emasa.
Por causa dessa condição, a conexão deverá ocorrer durante a madrugada, quando normalmente há menor contribuição de esgoto. Além disso, equipes ficarão posicionadas tanto na elevatória quanto na ETE Nova Esperança. Caminhões de sucção também permanecerão disponíveis para auxiliar caso seja necessário controlar o nível do esgoto durante a operação.
Para quem trabalha no saneamento, essa estratégia oferece uma lição importante: uma interligação hidráulica de grande porte precisa ser tratada como uma operação especial.
Planejamento da janela operacional, contingência, monitoramento de níveis, comunicação entre equipes e capacidade de reação são tão importantes quanto a execução física da tubulação.
Por que o tratamento preliminar de esgoto é tão importante
O tratamento preliminar de esgoto funciona como uma linha inicial de proteção para praticamente tudo que vem depois dentro de uma ETE.
É nessa etapa que são removidos materiais que não deveriam chegar aos processos seguintes, como resíduos sólidos, areia, gordura e outros elementos transportados pela rede coletora.
Sem uma etapa preliminar eficiente, bombas, tubulações, válvulas, decantadores e sistemas de aeração ficam mais sujeitos ao acúmulo de materiais, abrasão, obstruções e intervenções de manutenção.
A própria Emasa explica que o pré-tratamento existente já realizava gradeamento e remoção de areia antes do encaminhamento do esgoto para o tratamento biológico. Entretanto, o novo projeto amplia significativamente essa concepção.
Nova estrutura foi projetada para até 1.873 L/s
Um dos números que mais chama atenção no projeto é a capacidade hidráulica.
O novo tratamento preliminar de esgoto foi dimensionado considerando uma vazão média de projeto de 1.344 litros por segundo e uma vazão máxima de 1.873 litros por segundo.
O parecer técnico do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) mostra a dimensão do salto estrutural. Na análise realizada em 2023, o tratamento preliminar existente tinha capacidade de aproximadamente 695 litros por segundo e apresentava limitações tanto hidráulicas quanto estruturais.
Na época, o órgão ambiental também registrou problemas como precariedade no gradeamento fino, desarenador subdimensionado e ausência de uma etapa adequada de remoção de gordura.
Portanto, a nova unidade não representa simplesmente uma substituição de equipamentos antigos. Existe uma mudança importante de capacidade, redundância e concepção operacional.
Seis linhas aumentam a flexibilidade da operação
O projeto prevê seis canais paralelos de tratamento, cada um dimensionado para receber aproximadamente 374,6 litros por segundo.
Cada linha possui mecanismos que permitem colocá-la ou retirá-la de operação. Consequentemente, essa configuração tende a facilitar intervenções de manutenção e oferecer maior flexibilidade diante das oscilações de vazão.
Essa característica é especialmente relevante para uma cidade turística como Balneário Camboriú, onde o sistema pode conviver com importantes variações populacionais e hidráulicas.
Além disso, a câmara de entrada foi projetada para receber diferentes linhas do sistema, incluindo grandes tubulações provenientes das elevatórias e fluxos internos de retorno da própria estação.
Gradeamento de 10 mm abre o processo
Na primeira barreira física, o projeto prevê seis equipamentos mecanizados de gradeamento, instalados nos seis canais.
As grades possuem abertura de 10 milímetros. O material retido será retirado por sistema mecanizado e encaminhado por transportadores até os recipientes de armazenamento.
Essa automação é importante porque o esgoto transporta uma quantidade considerável de resíduos que nunca deveriam chegar à rede.
Quando esses materiais conseguem avançar dentro de uma ETE, podem aumentar a frequência de limpeza e gerar problemas nos equipamentos posteriores.
Areia e gordura também serão retiradas
Depois do gradeamento, o tratamento preliminar de esgoto contará com seis unidades destinadas à desarenação e remoção de gordura.
Cada canal possui cerca de 20 metros de comprimento e sistema de aeração. O projeto estabelece tempo de detenção de aproximadamente 4,2 minutos na condição de vazão máxima considerada.
A areia depositada no fundo será retirada por bombas submersíveis e encaminhada para classificação.
Ao mesmo tempo, a introdução de ar favorece a flotação das gorduras. O material acumulado na superfície poderá, então, ser removido mecanicamente.
Essa combinação é particularmente interessante porque areia e gordura causam problemas diferentes dentro de uma ETE. A areia é abrasiva e pode se acumular nas unidades, enquanto gorduras podem aderir às estruturas, formar crostas e interferir na operação.
Peneiras de apenas 1 milímetro reforçam a proteção
Depois da remoção de areia e gordura, o projeto prevê um novo nível de separação.
Serão seis peneiras mecanizadas do tipo step-screen com abertura de apenas 1 milímetro.
Os resíduos retidos serão removidos automaticamente e encaminhados para um sistema transportador.
Assim, o novo tratamento preliminar de esgoto trabalha com diferentes barreiras: primeiro são retirados materiais maiores; posteriormente são separadas areia e gordura; finalmente ocorre um peneiramento muito mais fino.
Para o processo biológico que recebe esse esgoto posteriormente, essa proteção pode significar condições mais estáveis de operação.
Automação transforma vazão em informação de gestão
Outro elemento importante do projeto está na instrumentação.
A estrutura prevê sensores ultrassônicos de nível associados ao funcionamento das grades e peneiras. Além disso, após a reunião das seis linhas de tratamento, a vazão será medida por uma Calha Parshall.
Segundo o projeto, o sistema possui faixa de medição aproximada entre 45,3 e 2.423,9 litros por segundo e utilizará sensor ultrassônico. Também está prevista instalação de um amostrador automático para obtenção de amostras compostas.
Esse ponto merece destaque.
Uma ETE moderna não depende apenas de grandes estruturas civis. Ela precisa gerar informação confiável.
Quanto esgoto está chegando? Em quais horários aparecem os maiores picos? Como a carga varia? Qual é o desempenho das etapas seguintes?
Com instrumentação adequada, essas respostas deixam de depender apenas de estimativas e passam a alimentar a gestão operacional.
Mais automação também significa mais manutenção
Embora a automação traga ganhos importantes, ela cria um novo desafio.
Sensores, atuadores, peneiras, bombas, transportadores, sopradores e painéis elétricos precisam permanecer disponíveis.
Portanto, o sucesso do novo tratamento preliminar de esgoto dependerá também de manutenção preventiva, estoque de componentes críticos, capacitação dos profissionais e acompanhamento de indicadores como disponibilidade dos equipamentos e frequência de falhas.
Tecnologia instalada não é sinônimo automático de eficiência. Tecnologia bem operada e bem mantida, sim.
Investimento inicialmente era de R$ 33,3 milhões
Existe ainda um ponto financeiro que merece atenção.
Quando a ordem de serviço foi assinada em abril de 2025, a Emasa divulgou investimento de R$ 33,3 milhões, com execução pela Construtora Vale do Ouro e prazo previsto de sete meses. O escopo incluía obras civis, hidráulicas, elétricas, automação, gradeamento, peneiramento, desarenação, remoção de gordura, medição de vazão e interligações.
Já nas divulgações de agosto de 2026, a nova estrutura passou a ser apresentada como um investimento de mais de R$ 40 milhões.
As publicações consultadas não detalham, na mesma informação divulgada à imprensa, a composição dessa diferença. Dessa forma, não seria tecnicamente correto afirmar que todo o aumento decorreu de aditivos, reajustes ou alterações de escopo sem a análise específica da documentação contratual.
Esse é um ponto relevante para acompanhamento da gestão e da transparência pública.
ETE Nova Esperança já vinha recuperando eficiência
Também é importante evitar uma conclusão equivocada: a recuperação da ETE Nova Esperança não começou com essa obra.
Em junho de 2025, a Emasa informou eficiência média de 92% na remoção de carga orgânica. Em julho, esse índice chegou a 94%.
No balanço divulgado pela Prefeitura no final de 2025, foram relatados picos de 95% de eficiência, com média operacional variando entre 80% e 90% durante aquele ano.
Portanto, a entrada do novo tratamento preliminar de esgoto deve ser entendida como mais uma etapa de um processo maior de recuperação da estação.
A expectativa técnica é que uma entrada melhor condicionada reduza a chegada de materiais inadequados às etapas seguintes e contribua para aumentar a estabilidade do conjunto.
Profissionais de diferentes áreas sustentam a modernização
Um projeto dessa dimensão evidencia algo que nem sempre aparece nas inaugurações: saneamento é resultado do trabalho conjunto de muitas especialidades.
O parecer técnico do IMA identifica, entre os profissionais responsáveis pela elaboração e coordenação do projeto, os engenheiros civis Carlos Eduardo Freire Araujo e Klaus Dieter Neder, o engenheiro mecânico e de segurança Edgard Soares Pinto Neto, os engenheiros químicos Marcelo Antônio Teixeira Pinto e Mauricio Leite Luduvice e a engenheira ambiental Tatiana Finageiv Neder.
Entretanto, o trabalho não termina no projeto.
A atual interligação dos emissários evidencia a importância dos operadores das elevatórias e da ETE, técnicos, engenheiros, profissionais de eletromecânica, segurança, fiscalização, equipes da empresa executora, motoristas e profissionais de apoio.
São essas equipes que precisam transformar um projeto executivo em um sistema capaz de operar 24 horas.
E existe um mérito particular quando uma mudança complexa consegue ser executada enquanto o serviço permanece funcionando. Frequentemente, o melhor resultado produzido pelos profissionais do saneamento é justamente aquele que o usuário não percebe.
Cinco lições positivas que outras companhias podem aproveitar
A experiência da Emasa oferece ensinamentos que ultrapassam Balneário Camboriú.
Primeiro, o tratamento preliminar de esgoto deve ser dimensionado olhando também para as vazões futuras. Segundo, linhas paralelas e redundância aumentam a capacidade de manutenção sem interrupção completa do processo.
Terceiro, medidores, sensores e amostradores devem ser tratados como instrumentos de gestão e não como simples acessórios do projeto.
Quarto, grandes interligações precisam de planos operacionais específicos, principalmente quando são executadas com o sistema funcionando.
Por fim, equipamentos sofisticados exigem profissionais preparados. Investimento em infraestrutura sem investimento permanente em operação, manutenção e capacitação pode reduzir rapidamente os benefícios esperados.
O verdadeiro teste começará depois da inauguração
A conclusão física será apenas uma etapa.
O verdadeiro teste começará quando todo o esgoto passar continuamente pelo novo tratamento preliminar de esgoto.
A partir daí, alguns indicadores serão especialmente importantes: quantidade de resíduos retidos, geração de areia e gordura, disponibilidade das grades e peneiras, frequência de manutenção, estabilidade dos níveis hidráulicos, comportamento dos sensores e impacto sobre as etapas biológicas.
Também será relevante observar se a melhoria na entrada ajuda a manter de forma consistente os bons índices de remoção de carga orgânica já registrados pela ETE.
A obra da Emasa mostra, sobretudo, que saneamento moderno depende de três elementos trabalhando juntos: infraestrutura adequada, dados confiáveis e profissionais capacitados.
Quando engenharia, manutenção e operação participam da mesma estratégia, uma estação deixa de simplesmente tratar esgoto e passa a operar com maior previsibilidade, resiliência e segurança.
Fontes
Notícia Já — ligação dos emissários à nova estação, 30/08/2026
Página 3 — atualização da ligação dos emissários, 31/08/2026
Emasa — ordem de serviço para ampliação do tratamento preliminar
Emasa — memorial descritivo do projeto hidráulico
IMA/SC — parecer técnico ambiental do novo tratamento preliminar
Emasa — informações sobre coleta e tratamento de esgoto



