Dessalinização de água do mar: ACWA e Veolia avançam

A ACWA, maior empresa privada de dessalinização do mundo, e a Veolia, uma das principais companhias globais de tecnologias ambientais e tratamento de água, assinaram em 31 de agosto de 2026 um memorando de entendimento para ampliar a cooperação técnica em dessalinização de água do mar.

O acordo chama atenção porque não está concentrado em uma única tecnologia. Ao contrário, pretende atacar simultaneamente projeto, seleção de equipamentos, consumo de energia, dosagem de produtos químicos, controle de qualidade da água, monitoramento e operação diária das plantas.

A escala torna a iniciativa especialmente relevante. A ACWA informa administrar uma capacidade total de aproximadamente 9,7 milhões de metros cúbicos por dia de água dessalinizada. Portanto, pequenas melhorias de desempenho podem produzir efeitos financeiros, energéticos e ambientais expressivos quando replicadas em diversas instalações.

Para os profissionais do saneamento, a mensagem é clara: a próxima fronteira da eficiência não depende apenas de grandes obras. Cada vez mais, ela depende da integração entre engenharia de processo, operação, manutenção, automação, química, dados e gestão de ativos.

O que foi assinado entre ACWA e Veolia

O memorando estabelece um programa conjunto voltado ao desenvolvimento, ao projeto e à operação de plantas de dessalinização de água do mar. Entre os principais eixos estão a redução do consumo de eletricidade, a melhoria do uso de produtos químicos, o aperfeiçoamento da qualidade da água produzida, a aplicação de melhores práticas técnicas e digitais e o aumento da eficiência operacional.

Além disso, o acordo prevê maior cooperação na solução de problemas cotidianos e na execução de projetos. Isso é importante porque, em instalações de grande porte, atrasos, indisponibilidades, incrustações, fouling de membranas, dosagens inadequadas e desvios de consumo energético podem gerar impactos relevantes sobre o custo do metro cúbico produzido.

Na prática, a iniciativa amplia uma parceria que já existe há mais de uma década entre as duas empresas e busca transformar experiências operacionais acumuladas em padrões replicáveis para projetos atuais e futuros.

Por que economizar apenas 0,1 kWh/m³ faz tanta diferença

Um dos dados mais interessantes divulgados pela ACWA ajuda a traduzir a importância da eficiência energética.

Quatro plantas citadas pela companhia — Rabigh 3, Rabigh 4, Jazlah e Shuaibah 3 — possuem capacidade de aproximadamente 600 mil metros cúbicos por dia cada.

Em uma instalação desse porte, uma redução de apenas 0,1 kWh por metro cúbico representa economia próxima de 22 GWh de eletricidade por ano.

Assim, embora 0,1 kWh pareça pouco quando analisado isoladamente, o ganho se torna enorme quando multiplicado por centenas de milhares de metros cúbicos produzidos diariamente.

Esse raciocínio explica por que a dessalinização de água do mar moderna está cada vez mais voltada para otimizações incrementais. Bombas mais eficientes, dispositivos de recuperação de energia, membranas de melhor desempenho, menores perdas de carga, estratégias adequadas de limpeza e melhor controle de pressão podem gerar economias acumuladas relevantes.

Osmose reversa está no centro da transformação

A osmose reversa de água do mar, conhecida internacionalmente pela sigla SWRO — Seawater Reverse Osmosis, tornou-se a principal tecnologia utilizada em novos projetos de grande porte.

De forma simplificada, a água do mar passa inicialmente por pré-tratamento. Em seguida, é pressurizada contra membranas semipermeáveis. A pressão permite que a água atravesse as membranas enquanto grande parte dos sais permanece na corrente concentrada.

O grande desafio é energético.

Estudos técnicos apontam que plantas modernas de grande escala costumam apresentar consumo específico total na faixa aproximada de 2,5 a 4,5 kWh por metro cúbico, dependendo de fatores como salinidade, temperatura, recuperação, configuração da planta, eficiência dos equipamentos e requisitos de qualidade da água produzida.

Entretanto, projetos de alto desempenho já operam em patamares próximos ou inferiores a 3 kWh/m³.

Na Arábia Saudita, por exemplo, a planta Jubail 3A, também chamada Jazlah, foi projetada para produzir 600 mil m³/dia e utiliza osmose reversa, geração fotovoltaica e sistemas de alta eficiência. Dados oficiais sauditas indicam consumo próximo de 2,8 kWh/m³ para o empreendimento.

Consequentemente, a competição tecnológica deixou de ser apenas por capacidade instalada. Agora, custo de energia, disponibilidade, vida útil das membranas, consumo de reagentes e estabilidade operacional passaram a pesar diretamente na competitividade da dessalinização de água do mar.

Química bem controlada reduz custos e protege membranas

Outro eixo importante do acordo é a otimização química.

Em uma planta de osmose reversa, produtos químicos podem ser utilizados em etapas como pré-tratamento, controle de incrustação, ajuste de pH, limpeza de membranas, desinfecção e pós-tratamento.

Dosagem excessiva eleva o custo operacional e pode aumentar a carga química dos efluentes. Por outro lado, dosagem insuficiente pode favorecer incrustação, crescimento biológico, perda de permeabilidade e deterioração do desempenho das membranas.

Por isso, a tendência é substituir estratégias excessivamente fixas por controles baseados em dados de qualidade da água, pressão diferencial, condutividade, vazão, temperatura e desempenho das membranas.

Dessa forma, a operação pode reagir mais rapidamente às mudanças na qualidade da água de alimentação.

Para as equipes de saneamento, esse movimento reforça o valor do conhecimento de processo. A automação não elimina a necessidade de especialistas. Pelo contrário, quanto mais sofisticada se torna uma planta, maior é a importância de profissionais capazes de interpretar tendências, identificar causas de desvios e ajustar a operação com segurança.

Digitalização e inteligência artificial entram na operação

A Veolia já utiliza soluções digitais voltadas ao monitoramento de membranas, análise de fouling e manutenção preditiva.

Sistemas desse tipo combinam dados operacionais, modelos matemáticos e inteligência artificial para indicar deteriorações de desempenho antes que elas provoquem perda significativa de produção ou paradas não planejadas.

Na dessalinização de água do mar, essa abordagem pode ajudar a identificar aumento de pressão diferencial, perda de permeabilidade, consumo energético acima do esperado ou necessidade de limpeza química.

Além disso, ferramentas digitais podem apoiar a comparação entre diferentes trens de membranas, equipamentos, períodos operacionais e até plantas distintas.

Entretanto, o ganho tecnológico depende diretamente da qualidade dos dados.

Sensores sem calibração, instrumentos apresentando falhas, históricos incompletos ou indicadores mal definidos podem produzir decisões ruins. Portanto, a digitalização exige disciplina operacional, manutenção adequada da instrumentação e governança dos dados.

Mais uma vez, o papel dos profissionais de saneamento torna-se central. Algoritmos podem processar milhares de informações, mas o conhecimento técnico continua sendo necessário para interpretar o processo, definir limites e transformar dados em decisões operacionais seguras.

Meio ambiente entra definitivamente na equação econômica

A dessalinização oferece segurança hídrica, porém também apresenta desafios ambientais importantes.

Entre os principais estão o consumo de energia e a destinação da salmoura concentrada gerada durante o processo. Além disso, produtos utilizados no pré-tratamento e na limpeza precisam ser administrados adequadamente para limitar impactos sobre o ambiente marinho.

Por essa razão, reduzir eletricidade e produtos químicos produz benefícios que vão além do OPEX.

A Veolia estima que a cooperação com a ACWA possa gerar um potencial de redução de até 500 mil toneladas de CO₂ por ano, caso as melhorias projetadas sejam aplicadas em escala no portfólio envolvido.

Ao mesmo tempo, a integração de energia renovável está crescendo.

Plantas como Jazlah, Rabigh 4 e Shuaibah 3 demonstram que a dessalinização de água do mar está se aproximando progressivamente de modelos com menor intensidade de carbono.

Isso muda, inclusive, a análise econômica desses projetos. Não basta mais comparar apenas CAPEX e tarifa da água. Consumo específico de energia, fonte da eletricidade, emissões, produtos químicos, disponibilidade e vida útil dos equipamentos passam a fazer parte da avaliação de desempenho.

Arábia Saudita virou um laboratório em escala real

A relevância do acordo também está diretamente ligada ao contexto saudita.

O país possui baixa disponibilidade natural de água e depende fortemente de fontes não convencionais.

Em 2026, o Ministério do Meio Ambiente, Água e Agricultura da Arábia Saudita informou que a capacidade nacional de produção de água dessalinizada havia alcançado cerca de 16 milhões de m³/dia, contra aproximadamente 9 milhões de m³/dia em 2016.

Além disso, a estratégia hídrica saudita busca reduzir custos, aumentar eficiência, diminuir a dependência de combustíveis e ampliar a participação do setor privado.

Nesse cenário, plantas de grande porte passam a funcionar como verdadeiros laboratórios operacionais em escala real para tecnologias de membranas, recuperação de energia, automação, energia renovável e manutenção preditiva.

A própria cadeia industrial do país também vem avançando.

Em julho de 2026, foi anunciada a localização da fabricação de dispositivos de recuperação de energia — ERDs na Arábia Saudita, com início da produção previsto para 2027.

Esses equipamentos são fundamentais para aumentar a eficiência das plantas de osmose reversa, pois recuperam parte da energia hidráulica existente na corrente concentrada de alta pressão e a reutilizam no processo.

O que os profissionais do saneamento podem aprender

Embora o contexto brasileiro seja diferente, a experiência oferece aprendizados importantes.

A dessalinização de água do mar não precisa ser analisada apenas como uma solução emergencial para regiões enfrentando escassez severa.

Em localidades costeiras, ilhas, regiões turísticas, polos industriais e sistemas sujeitos a forte pressão sobre os mananciais, ela pode integrar uma carteira diversificada de fontes ao lado de mananciais convencionais, reúso de água, redução de perdas e gestão da demanda.

Contudo, o principal aprendizado proporcionado pela parceria entre ACWA e Veolia vai além da própria tecnologia.

O desempenho superior resulta de várias disciplinas trabalhando de forma coordenada.

A engenharia define adequadamente o projeto. A operação mantém a estabilidade. A manutenção preserva a disponibilidade. O laboratório acompanha a qualidade da água. A automação transforma medições em informações. A área de suprimentos influencia a qualidade dos equipamentos. Por fim, a gestão precisa transformar dados operacionais em decisões econômicas.

Nesse sentido, os profissionais do saneamento tornam-se ainda mais estratégicos.

A evolução tecnológica valoriza justamente quem conhece profundamente os processos, consegue relacionar indicadores técnicos com impactos financeiros e é capaz de tomar decisões fundamentadas em evidências.

O próximo salto será operacional, e não apenas construtivo

O memorando firmado entre ACWA e Veolia não estabelece uma nova capacidade específica de produção e também não determina exclusividade entre as empresas.

Ainda assim, ele indica uma tendência importante.

O setor de dessalinização está entrando em uma fase na qual parte dos maiores ganhos poderá surgir da otimização contínua das instalações existentes, e não somente da construção de novas plantas.

Isso significa acompanhar consumo específico de energia, disponibilidade, recuperação do sistema, vida útil das membranas, frequência de limpeza, dosagem química, qualidade da água, perdas hidráulicas e eficiência dos equipamentos como partes de um único sistema.

Portanto, a dessalinização de água do mar tende a avançar menos por meio de uma única inovação revolucionária e mais pela soma de dezenas de melhorias técnicas e operacionais.

Em plantas capazes de produzir centenas de milhares de metros cúbicos diariamente, cada pequena fração economizada pode representar milhões em custos evitados ao longo da vida útil do empreendimento e reduções relevantes nas emissões associadas à produção de água.

Para o saneamento, essa é uma conclusão importante: tecnologia gera resultados quando é combinada com engenharia bem executada, operação disciplinada, dados confiáveis e profissionais capacitados.

É justamente essa combinação que deve definir a próxima geração de plantas de dessalinização.