O Departamento Municipal de Água e Esgoto de Uberlândia, o DMAE, conseguiu reduzir em aproximadamente 90% as ocorrências de odor registradas pela população nas regiões atendidas por três estações elevatórias de esgoto após testar, por mais de um ano, um sistema de dosagem de sal de ferro. O investimento anual informado é de R$ 659 mil. (Uberlândia)
O resultado chama atenção, porém a principal lição para profissionais de saneamento não está apenas no percentual.
O caso mostra como um problema normalmente tratado como “reclamação de mau cheiro” pode ser transformado em uma questão de engenharia, gestão de ativos, segurança ocupacional e experiência do cliente.
Além disso, a experiência de Uberlândia se conecta a uma discussão mundial: é melhor impedir a formação e a liberação do sulfeto de hidrogênio ou capturar o odor depois que ele já chegou à fase gasosa?
A resposta, cada vez mais, depende das características de cada sistema.
O que aconteceu em Uberlândia
O DMAE implantou a dosagem de sal de ferro nas estações elevatórias Aclimação, Tubalina e Morumbi B5.
Segundo a autarquia, a tecnologia foi acompanhada durante mais de um ano. Paralelamente ao desempenho operacional, foram observadas as manifestações registradas pela população pelo telefone 115.
O resultado divulgado foi uma redução aproximada de 90% nas ocorrências relacionadas a odores nas regiões atendidas pelas três unidades. A partir disso, o DMAE decidiu manter a solução e prevê expandi-la gradualmente para outras elevatórias, priorizando os locais onde o impacto sobre a população seja maior. (Uberlândia)
Há, entretanto, uma diferença técnica importante.
O DMAE informou redução de aproximadamente 90% nas ocorrências registradas pela população, e não necessariamente redução de 90% na concentração de H₂S.
São indicadores relacionados, mas diferentes.
Uma queda expressiva nas reclamações é extremamente relevante sob a perspectiva do cliente. Entretanto, para avaliar a eficiência físico-química do processo, também seriam importantes informações como concentração de H₂S antes e depois da dosagem, sulfeto dissolvido, dosagem de ferro por volume de esgoto, vazão, tempo de retenção hidráulica e consumo efetivo de produto.
Esses dados não foram divulgados na publicação consultada.
Essa distinção é importante porque transforma um bom resultado institucional em uma pergunta técnica: qual foi a relação entre produto químico, sulfeto removido, custo operacional e percepção da população?
É justamente aí que estão algumas das maiores oportunidades de evolução do controle de odores em esgoto.
O problema é maior do que o mau cheiro
O odor característico de “ovo podre” associado aos sistemas de esgoto é frequentemente relacionado ao sulfeto de hidrogênio, conhecido pela fórmula H₂S.
Ele é formado principalmente quando o esgoto permanece em condições anaeróbias. Sem oxigênio disponível, determinadas bactérias utilizam sulfato em seus processos metabólicos, favorecendo a formação de sulfetos.
O problema tende a ganhar importância em redes e linhas de recalque com maior tempo de permanência do esgoto, temperaturas elevadas, baixo oxigênio dissolvido e determinadas condições de pH.
Além disso, turbulências em poços úmidos, quedas hidráulicas, conexões e pontos de descarga podem facilitar a transferência do H₂S que está dissolvido no líquido para a atmosfera. A própria Sydney Water destaca que poços de estações de bombeamento são ambientes particularmente suscetíveis à liberação do gás devido à turbulência. (Sydney Water)
Portanto, controle de odores em esgoto não significa simplesmente perfumar ou tratar o ar ao redor de uma elevatória.
Significa compreender a geração de sulfeto dentro do sistema.
H₂S também significa corrosão e risco operacional
Quando o sulfeto de hidrogênio chega à atmosfera interna de tubulações, poços de visita ou estruturas de concreto, parte dele pode ser convertida biologicamente em ácido sulfúrico.
O resultado é a conhecida corrosão biogênica por ácido sulfúrico.
Ao longo do tempo, estruturas de concreto podem perder material, tubulações podem sofrer deterioração e equipamentos metálicos, componentes elétricos e estruturas podem apresentar redução de vida útil.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a EPA, trata historicamente odor e corrosão por H₂S como problemas associados e apresenta sais de ferro, oxidantes, controle de pH, oxigenação e outras estratégias como alternativas de controle. (EPA)
Existe ainda a dimensão da segurança.
O sulfeto de hidrogênio é tóxico. O NIOSH, órgão norte-americano de referência em saúde ocupacional, considera 100 ppm uma concentração imediatamente perigosa à vida ou à saúde. Além disso, o órgão alerta que o olfato não pode ser usado como instrumento de segurança, porque a percepção do odor pode se deteriorar rapidamente durante a exposição. (CDC)
No Brasil, operações em poços, tanques e determinadas estruturas de sistemas de esgotamento também precisam considerar os requisitos aplicáveis da NR-33 para trabalhos em espaços confinados, incluindo reconhecimento, avaliação e controle de atmosferas perigosas. (Serviços e Informações do Brasil)
Portanto, reduzir H₂S pode gerar benefícios simultaneamente para clientes, trabalhadores e ativos.
Como o sal de ferro controla o odor
A lógica básica é relativamente simples.
Sulfetos presentes no esgoto podem reagir com o ferro, formando compostos pouco solúveis, como sulfetos de ferro.
Em vez de permanecer disponível para formar H₂S e migrar para a atmosfera, parte do enxofre fica retida na fase líquida ou sólida.
Dependendo do estado de oxidação do ferro e das condições do esgoto, também podem ocorrer reações de oxidação e precipitação.
O próprio DMAE descreve sua solução como preventiva: o sal de ferro reage com compostos de sulfeto, reduzindo sua formação ou liberação na forma responsável pelos odores. (Uberlândia)
É importante, entretanto, não extrapolar a informação disponível.
A publicação de 2026 fala genericamente em “sal de ferro” e não identifica qual formulação específica está sendo atualmente utilizada nas três elevatórias.
Assim, não seria tecnicamente correto afirmar, sem documentação adicional, que o produto empregado é exclusivamente cloreto férrico, cloreto ferroso ou outra formulação.
O DMAE já possuía experiência anterior com essa tecnologia
A pesquisa em documentos oficiais revelou um antecedente especialmente relevante.
Em 2017, o DMAE contratou o fornecimento de 160 mil kg de sal de ferro aditivado em solução, descrito como agente químico precipitador de sulfetos para minimização e eliminação de maus odores em estações de tratamento, elevatórias e redes coletoras de esgoto.
O contrato também previa bombas dosadoras e sensores para monitoramento de gás sulfídrico. O valor global estimado à época era de R$ 206,4 mil. (Uberlândia)
Posteriormente, um edital para o exercício de 2018 previu aquisição de 300 mil kg de sal de ferro ativado, novamente com bombas dosadoras e sensores de gás sulfídrico. (Uberlândia)
Isso muda a leitura da iniciativa anunciada em 2026.
A tecnologia não aparece como algo totalmente desconhecido para a autarquia. O movimento atual pode ser entendido como uma evolução da experiência anterior, agora com teste prolongado e associação explícita entre desempenho operacional e percepção registrada pelo consumidor.
Essa integração entre engenharia e experiência do cliente merece atenção.
O indicador de reclamações é mais estratégico do que parece
Tradicionalmente, sistemas de controle de odores são avaliados com instrumentos como sensores de H₂S, análises de sulfeto dissolvido e medições ambientais.
Uberlândia adicionou outra camada: o comportamento das reclamações da população.
Isso aproxima operação e atendimento ao cliente.
Um equipamento pode apresentar boa eficiência química e ainda assim não resolver o problema percebido pela vizinhança devido a outros compostos odorantes, direção do vento, fontes diferentes ou pontos de escape não identificados.
Por outro lado, uma queda consistente das reclamações pode revelar que o problema percebido efetivamente foi mitigado.
O ideal é combinar os dois mundos.
Dados operacionais dizem o que está acontecendo dentro do sistema. Dados de atendimento mostram o que o cliente percebe fora dele.
Essa combinação pode transformar o controle de odores em esgoto em uma ferramenta de gestão de experiência do cliente.
Uberlândia possui espaço para ampliar o monitoramento
O DMAE informou em maio de 2026 que Uberlândia possuía 73 Estações Elevatórias de Esgoto, das quais 38 eram acompanhadas em tempo real pelo Centro de Controle Operacional.
Sensores permitem observar variáveis operacionais e identificar falhas com maior rapidez. (Uberlândia)
Essa infraestrutura cria uma oportunidade interessante.
O próximo passo tecnológico não precisa ser simplesmente instalar a mesma dosagem fixa em dezenas de unidades.
Pode ser conectar vazão, nível do poço, temperatura, ciclos de bombeamento, sulfeto dissolvido, H₂S na fase gasosa e histórico de reclamações para definir quando e quanto produto químico deve ser aplicado.
Esse caminho já está sendo explorado internacionalmente.
Sydney Water: dosagem inteligente pode reduzir produto químico
Um dos benchmarks mais interessantes vem da Austrália.
Pesquisadores testaram uma estratégia de controle automático de dosagem de sais ferrosos na estação de bombeamento Bellambi, associada à Sydney Water.
O sistema estudado transportava o esgoto por aproximadamente 9,93 quilômetros de linha de recalque, um cenário bastante propício à formação de sulfeto devido ao tempo de permanência do esgoto.
O algoritmo utilizou variáveis como vazão, pH e concentração de sulfeto para ajustar a dosagem.
No teste de campo, foi possível controlar o sulfeto abaixo do objetivo estabelecido de 0,5 mg S/L e reduzir o consumo de produto químico em até 30%, em comparação com estratégias menos adaptativas. (ScienceDirect)
A lição é relevante para companhias brasileiras.
Depois de descobrir que o produto funciona, o desafio seguinte passa a ser descobrir a menor dose capaz de manter o resultado.
Essa diferença pode representar economia operacional significativa em sistemas de grande porte.
Sanepar encontrou redução de 97% utilizando outra estratégia
O sal de ferro não é a única solução disponível.
Pesquisadores ligados à Sanepar avaliaram a aplicação de nitrato de cálcio em sistema de esgotamento sanitário durante aproximadamente 120 dias.
No cenário estudado, a dose otimizada de 125 mL por metro cúbico de esgoto foi associada a uma redução de 97% do H₂S na fase gasosa. (ABES)
O mecanismo é diferente.
Enquanto o ferro pode reagir diretamente com sulfetos, o nitrato atua principalmente alterando as condições microbiológicas do sistema.
Microrganismos passam a utilizar nitrato preferencialmente em relação ao sulfato, dificultando a formação de sulfeto.
Portanto, nitrato e ferro não devem ser vistos simplesmente como dois produtos concorrentes.
São ferramentas que atuam por mecanismos diferentes e podem ser mais ou menos adequadas conforme o tempo de retenção, vazão, temperatura, características do esgoto e objetivo operacional.
O próprio DMAE já utiliza nitrato em outro ponto do sistema
Em 2022, o DMAE anunciou aplicação de nitrato de cálcio nas ETEs Aclimação e Uberabinha acompanhada de sensores para monitoramento de gases em tempo real.
A estratégia buscava impedir a formação de compostos responsáveis pela geração de H₂S no processo. (Uberlândia)
Isso evidencia uma abordagem tecnicamente interessante.
Não existe necessariamente uma única tecnologia de controle de odores em esgoto adequada para todas as unidades.
Uma companhia pode usar nitrato em determinado contexto, ferro em outro, carvão ativado para tratar ar exaurido e biofiltros em instalações nas quais a captura e o tratamento da fase gasosa sejam mais apropriados.
O melhor sistema é aquele dimensionado para o problema real.
Sabesp também acumulou experiência com diferentes tecnologias
A literatura técnica brasileira registra ainda experiências históricas da Sabesp utilizando nitratos em redes, elevatórias e unidades de tratamento, especialmente em localidades do litoral paulista.
Uma revisão publicada na revista Engenharia Sanitária e Ambiental registra aplicações de nitrato de amônio em pontos estratégicos de sistemas de Santos, São Vicente e outros municípios. (SciELO)
Em evento técnico realizado pela Sabesp, também foram discutidas experiências envolvendo nitratos, peróxido de hidrogênio, biofiltros e monitoramento de H₂S, mostrando que o controle de odor tende a exigir uma carteira de soluções, e não apenas um único produto químico. (Revista DAE)
Para profissionais do setor, esse histórico reforça um ponto: odor não deve ser tratado como uma ocorrência isolada da estação.
Ele deve ser gerenciado ao longo do sistema de coleta, transporte e tratamento.
Orange County trata odor como um programa de rede
Nos Estados Unidos, a Orange County Sanitation District, na Califórnia, oferece outro benchmark interessante.
A organização informa operar aproximadamente 380 milhas de redes e 15 estações de bombeamento, utilizando controle em fase líquida para manter concentrações de H₂S dentro de seus objetivos operacionais.
Entre as tecnologias empregadas estão cloreto ferroso e hidróxido de magnésio.
A utility também desenvolveu o chamado Alkaline-Enhanced Iron, ou ferro com alcalinidade aprimorada, buscando aumentar a precipitação de sulfeto de ferro e reduzir emissões gasosas de H₂S. (Orange County Sanitation District)
O exemplo demonstra uma tendência importante.
As empresas mais avançadas estão deixando de tratar odor apenas como um “equipamento de desodorização” e passando a administrar a formação de sulfeto como um problema sistêmico da rede.
Nem sempre tratar o líquido é suficiente
Existem situações em que o H₂S ou outros compostos odorantes já estão presentes na fase gasosa.
Nesse caso, pode ser necessário confinar a fonte, captar o ar contaminado e realizar tratamento.
Entre as soluções disponíveis estão carvão ativado, lavadores químicos, bioscrubbers e biofiltros.
A Sydney Water, por exemplo, possui especificações técnicas para unidades de controle de odores envolvendo sistemas de adsorção e biofiltração. Além disso, projetos recentes da companhia combinam dosagem química, filtros de carvão e dispositivos de monitoramento. (Sydney Water)
Assim, a decisão não deveria começar pela pergunta “qual produto comprar?”.
A pergunta correta é:
onde o sulfeto está sendo formado, onde o H₂S está sendo liberado e qual é o melhor ponto para interromper esse processo?
O que gestores deveriam medir
Um programa maduro de controle de odores em esgoto pode acompanhar, entre outros indicadores:
- concentração de H₂S na fase gasosa e sulfeto na fase líquida; vazão, temperatura, pH, tempo de retenção e ciclos de bombeamento; consumo de produto químico por volume transportado; concentração antes e depois da dosagem; custo por unidade tratada; número, localização e horário das reclamações; condições meteorológicas no momento das ocorrências; evidências de corrosão; manutenções associadas ao sulfeto; efeitos da dosagem sobre a ETE, o lodo e outros processos a jusante; e disponibilidade dos sensores e sistemas de dosagem.
A principal mudança gerencial é sair do indicador “quantos litros de produto foram aplicados” para indicadores capazes de responder quanto sulfeto foi controlado, qual problema foi evitado e qual resultado foi percebido pelo cliente.
O sal de ferro pode gerar benefícios além do odor
Pesquisas mostram que o ferro dosado na rede pode continuar influenciando processos dentro da estação de tratamento.
Estudo publicado na revista Water Research observou que a dosagem de cloreto férrico em sistemas de esgoto reduziu sulfeto na rede e também esteve associada a maior remoção de fósforo, redução do H₂S no biogás e melhor desaguabilidade do lodo em condições experimentais. (ScienceDirect)
Isso significa que a análise econômica não deveria considerar somente o valor do produto químico.
Em alguns sistemas, pode haver benefícios indiretos.
Entretanto, esses efeitos dependem do processo existente na ETE e não devem ser automaticamente extrapolados para qualquer instalação.
A lógica mais moderna é avaliar rede de coleta e estação de tratamento como um sistema único.
O que pode dar errado
A dosagem química não é uma solução automática.
Um dos erros mais comuns é utilizar uma dose fixa sem considerar as oscilações de vazão e sulfeto.
Durante determinados períodos, pode ocorrer excesso de produto e aumento desnecessário do custo. Em outros, a dose pode ser insuficiente justamente no momento de maior geração de H₂S.
Pesquisas sobre controle automático de ferro mostram que esse problema é suficientemente relevante para justificar algoritmos capazes de ajustar continuamente a dosagem. (ScienceDirect)
Outro risco é depender apenas das reclamações.
Elas são valiosas, mas podem variar conforme direção do vento, temperatura, ocupação urbana e comportamento dos moradores.
O melhor desenho combina sensores e manifestações dos clientes.
Também existe o problema inverso: medir apenas H₂S e ignorar o cliente.
Uma companhia pode atingir seu indicador interno e continuar enfrentando reclamações causadas por mercaptanas, compostos orgânicos sulfurados ou outras fontes.
Por fim, instalações químicas precisam considerar armazenamento, contenção, compatibilidade de materiais, corrosividade dos produtos e segurança operacional.
A tendência é dosar somente quando e quanto for necessário
O futuro do controle de odores em esgoto provavelmente estará cada vez menos baseado em bombas dosadoras operando continuamente com uma vazão predeterminada.
A tendência é conectar sensores, telemetria, modelos hidráulicos e algoritmos de previsão.
Pesquisadores já demonstraram que parâmetros como vazão, pH e sulfeto podem alimentar sistemas capazes de prever a necessidade de ferro antes que o problema se manifeste a jusante. (ScienceDirect)
Projetos europeus também vêm estudando o gerenciamento integrado dos sais de ferro ao longo de redes, estações de tratamento e digestores, procurando utilizar a mesma química para obter simultaneamente controle de odor, redução de corrosão, remoção de fósforo e controle de H₂S no biogás. (CORDIS)
Esse conceito pode ser especialmente interessante para companhias que já possuem Centros de Controle Operacional e telemetria.
Uberlândia está justamente nesse caminho.
Lições para profissionais de saneamento
O caso do DMAE ensina algo que vai além de escolher entre sal de ferro, nitrato de cálcio ou carvão ativado.
A principal lição é transformar odor em um processo gerenciado por dados.
É necessário identificar onde o sulfeto nasce, quanto tempo o esgoto permanece anaeróbio, onde ocorre turbulência, em quais pontos o H₂S é liberado, quanto custa a corrosão causada por esse gás e como a população percebe o problema.
Em seguida, a tecnologia pode ser escolhida.
Essa abordagem exige integração entre operação, laboratório, engenharia, automação, manutenção, segurança do trabalho, atendimento e gestão.
É exatamente nesse tipo de problema que a experiência dos profissionais de campo ganha valor.
Um sensor pode informar que ocorreu um pico de H₂S. Entretanto, operadores que conhecem a rede conseguem relacioná-lo ao funcionamento das bombas, ao tempo de retenção, à limpeza do poço, à mudança de vazão ou à operação de determinado interceptor.
Tecnologia e experiência operacional precisam trabalhar juntas.
Controle de odores também é experiência do cliente
Existe ainda uma dimensão frequentemente subestimada.
Para um morador que vive ao lado de uma elevatória, pouco importa se o esgoto está sendo corretamente transportado e tratado se todos os dias existe odor desagradável na porta de casa.
Nesse momento, uma instalação tecnicamente funcional pode ser percebida como um serviço de baixa qualidade.
Por isso, controle de odores em esgoto também é gestão de reputação.
A redução de aproximadamente 90% nas ocorrências registradas pelo DMAE é relevante justamente porque conecta uma intervenção de engenharia a uma mudança percebida pelos usuários. (Uberlândia)
O desafio agora é aprofundar essa medição.
Se a autarquia conseguir relacionar concentração de sulfeto, dosagem química, custo, incidência de reclamações e manutenção dos ativos, poderá avaliar não apenas se o sistema funciona, mas quanto valor ele efetivamente gera.
Conclusão
O caso de Uberlândia mostra como um problema aparentemente simples pode revelar uma agenda muito maior para o saneamento.
O controle de odores em esgoto envolve química, microbiologia, hidráulica, corrosão, segurança ocupacional, automação, manutenção e experiência do cliente.
O sal de ferro utilizado pelo DMAE faz parte de uma família de soluções consolidadas internacionalmente para controlar sulfetos. Entretanto, experiências da Sanepar, Sabesp, Sydney Water e Orange County mostram que não existe uma tecnologia universal.
Em alguns sistemas, o nitrato pode evitar a formação do sulfeto. Em outros, o ferro pode removê-lo de maneira eficiente. Em determinadas estruturas, carvão ativado, biofiltros ou lavadores de gases serão necessários. E, cada vez mais, sistemas híbridos poderão combinar essas estratégias.
A evolução mais importante, porém, talvez não esteja no produto químico.
Está na inteligência aplicada à operação.
Sensores, telemetria, histórico de reclamações e algoritmos de controle podem fazer com que o produto seja aplicado no local certo, no momento certo e na quantidade necessária.
Esse é o ponto em que o controle de odores deixa de ser apenas resposta a reclamações e passa a ser gestão de desempenho.
Para companhias de saneamento, a oportunidade é significativa: reduzir incômodo à população, preservar ativos, aumentar a segurança das equipes e potencialmente diminuir custos.
Para os profissionais, a mensagem é igualmente clara.
Entender sulfetos, monitorar dados e conectar operação à percepção do cliente será cada vez mais parte da gestão moderna dos sistemas de esgotamento sanitário.
Fontes e referências
Prefeitura de Uberlândia / DMAE
Dmae amplia controle de odores em elevatórias de esgoto
8 de setembro de 2026
Acessar a publicação oficial
Prefeitura de Uberlândia / DMAE
Dmae investe em tecnologia e moderniza operação para ampliar a eficiência no saneamento em Uberlândia
21 de maio de 2026
Acessar a publicação oficial
Prefeitura de Uberlândia / DMAE
Dmae usa nova tecnologia para neutralizar odores nas estações de tratamento de esgoto
26 de maio de 2022
Acessar a publicação oficial
Diário Oficial do Município de Uberlândia
Contrato Administrativo nº 024/2017 — fornecimento de sal de ferro aditivado para precipitação de sulfetos
9 de janeiro de 2017
Consultar o documento oficial
Diário Oficial do Município de Uberlândia
Pregão Eletrônico nº 111/2017 — aquisição de sal de ferro e sensores de gás sulfídrico para 2018
3 de novembro de 2017
Consultar o documento oficial
Engenharia Sanitária e Ambiental / SciELO
Alternativas para o controle de odores e corrosão em sistemas de coleta e tratamento de esgoto
2017
Acessar o estudo
ABES / pesquisadores da Sanepar
Aplicação de nitrato de cálcio em rede de esgotamento sanitário na mitigação de odores
Acessar o trabalho técnico
U.S. Environmental Protection Agency — EPA
Design Manual: Odor and Corrosion Control in Sanitary Sewerage Systems and Treatment Plants
Consultar o manual técnico
National Institute for Occupational Safety and Health — NIOSH
Hydrogen Sulfide — Pocket Guide to Chemical Hazards
Consultar informações sobre H₂S
Ministério do Trabalho e Emprego
NR-33 — Segurança e Saúde no Trabalho em Espaços Confinados
Atualizada em 2025
Consultar a NR-33
Sydney Water
Design Guideline — Minimising Odour-Causing Turbulence in Wastewater Networks
2025
Consultar a diretriz técnica
Water Research
Improved sulfide mitigation in sewers through on-line control of ferrous salt dosing
2018
Acessar o estudo
Orange County Sanitation District — OC San
Regional Odor Control — Resource Innovation for a Sustainable Environment
Conhecer o programa de controle de odores
Water Research
A comprehensive laboratory assessment of the effects of sewer-dosed iron salts on wastewater treatment processes
2018
Acessar o estudo
European Commission — CORDIS
OPTIUWS — System-wide Control of Iron-salts Addition in Urban Wastewater Systems
Conhecer o projeto de pesquisa



