Emprego no saneamento cresce 20% e expõe novo gargalo

O emprego no saneamento ligado às obras de infraestrutura cresceu 20% entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025. O número, divulgado pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Materiais para Saneamento (ASFAMAS) com base em informações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), coloca o setor em uma velocidade muito superior à observada em diversas outras atividades relacionadas à construção. (cnnbrasil.com.br)

Mas o dado mais importante talvez não seja o crescimento em si. É o que ele revela sobre a próxima fase do saneamento brasileiro.

Depois de anos de discussões sobre regulação, concessões, financiamento e metas de universalização, uma parcela crescente dos investimentos começa efetivamente a chegar aos canteiros de obras. Redes precisam ser implantadas, pavimentos recompostos, ligações executadas, estações ampliadas e ativos instalados.

Isso significa necessidade de pessoas.

E surge uma pergunta estratégica para companhias, concessionárias, construtoras e fornecedores: o Brasil terá profissionais suficientes — e suficientemente qualificados — para executar simultaneamente o volume de obras previsto para os próximos anos?

Emprego no saneamento cresce muito acima de outros segmentos

A segunda edição do Radar ASFAMAS da Indústria do Saneamento aponta crescimento de 20% no número de pessoas empregadas em obras de infraestrutura de saneamento entre janeiro e julho de 2026.

No mesmo levantamento, o emprego em edificações avançou 3,3%; projetos de engenharia e arquitetura, 5,9%; mercado imobiliário, 5,1%; e instalações hidráulicas, apenas 1%. O comércio de materiais de construção apresentou expansão de 0,4% no período analisado pela entidade. (Agência iNFRA)

O movimento encontra respaldo no cenário mais amplo da construção.

Segundo o Novo Caged, a construção brasileira acumulou 180.449 novos postos formais de trabalho entre janeiro e julho de 2026, crescimento de 6,12%. Somente as atividades classificadas como obras de infraestrutura responderam por 71.711 postos no período. (Serviços e Informações do Brasil)

As métricas não são perfeitamente equivalentes às utilizadas pelo Radar ASFAMAS e, portanto, não devem ser comparadas como se fossem a mesma estatística. Ainda assim, apontam na mesma direção: a infraestrutura está absorvendo trabalhadores em ritmo relevante, e o emprego no saneamento aparece como uma das frentes mais aquecidas dessa movimentação.

O investimento finalmente está chegando à fase de execução

Existe uma razão estrutural para esse movimento.

A Lei nº 14.026/2020 estabeleceu metas de atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até o fim de 2033. A Norma de Referência nº 8/2024 da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) definiu diretrizes para acompanhar a evolução dessas metas. (Serviços e Informações do Brasil)

Cumprir esses percentuais exige muito mais do que anunciar recursos.

Exige transformar CAPEX em quilômetros de redes, ligações domiciliares, reservatórios, elevatórias, interceptores, adutoras, unidades de tratamento, automação e melhoria dos sistemas existentes.

O BNDES estima, com base no Plansab, necessidade da ordem de R$ 332 bilhões para água e esgoto, equivalente a aproximadamente R$ 36,3 bilhões anuais a preços de 2025. Em 2024, os investimentos chegaram a R$ 29,5 bilhões, maior nível da série considerada pelo banco. (BNDES Hub de Projetos)

Além disso, os projetos de concessão já licitados ou em estruturação pelo BNDES abrangem cerca de 63 milhões de pessoas e aproximadamente R$ 154 bilhões em investimentos potenciais. (BNDES Hub de Projetos)

Também existe a frente pública.

O Ministério das Cidades informou que as seleções de saneamento do Novo PAC alcançaram R$ 22,1 bilhões somente em 2025 e R$ 61 bilhões desde 2023. Em abastecimento urbano, por exemplo, seleções realizadas em 2023 e 2025 contemplaram 255 empreendimentos, com R$ 6,8 bilhões previstos em 267 municípios de 24 unidades da Federação. (Serviços e Informações do Brasil)

Esses números ajudam a explicar por que o emprego no saneamento começa a reagir.

Dinheiro contratado não emprega diretamente um encanador, operador de escavadeira ou engenheiro. A mobilização acontece quando projetos entram em execução.

O crescimento industrial confirma o movimento — mas traz uma leitura interessante

O Radar ASFAMAS também identificou crescimento médio de 3,9% na produção física da indústria ligada ao saneamento no primeiro semestre de 2026.

O indicador considera itens como tubos e conexões de PVC, tubos de ferro e aço, válvulas, registros, caixas d’água e outros materiais e equipamentos associados à infraestrutura. (CNN Brasil)

Há uma observação importante.

Enquanto o emprego nas obras avançou 20% no indicador divulgado, a produção física industrial cresceu 3,9%.

Isso não permite concluir que a produtividade tenha caído. Os indicadores possuem bases, períodos e universos diferentes.

Entretanto, a diferença merece acompanhamento.

Ela pode refletir diferentes fases das obras, maior mobilização de equipes, características mais intensivas em mão de obra ou simplesmente metodologias distintas. Para gestores de suprimentos, engenharia e contratos, acompanhar simultaneamente emprego, produção industrial, preços de insumos, produtividade das equipes e avanço físico oferece uma leitura muito melhor do mercado do que observar isoladamente o valor contratado.

O próximo gargalo pode não ser financeiro

Durante muito tempo, a discussão sobre universalização esteve concentrada em recursos financeiros.

O cenário atual começa a exigir outra pergunta: quem executará esse investimento?

Uma obra de saneamento mobiliza muito mais do que engenheiros civis. Há necessidade de montadores de redes, encanadores, eletricistas, mecânicos, operadores de máquinas, topógrafos, soldadores, técnicos de segurança, profissionais de pavimentação, fiscais, técnicos ambientais, projetistas e equipes responsáveis pelas ligações.

À medida que os sistemas entram em operação, surgem outras demandas: operadores de ETA e ETE, automação, instrumentação, telemetria, manutenção eletromecânica, análise de dados, gestão de ativos e cibersegurança.

Portanto, o crescimento do emprego no saneamento pode se transformar em disputa por profissionais.

E esse fenômeno já aparece na prática.

Corsan encontrou falta de profissionais em uma atividade aparentemente simples

Um caso particularmente revelador ocorreu no Rio Grande do Sul.

A Corsan, controlada pela Aegea, criou em parceria com o SENAI-RS o projeto Pé no Chão, destinado à formação de calceteiros. A primeira turma recebeu 60 horas de aulas práticas e teóricas e formou 16 profissionais.

O motivo é mais interessante do que o tamanho da turma.

Segundo a própria companhia, um fornecedor relatou dificuldade para encontrar profissionais capazes de realizar a recomposição de pavimento após as intervenções de expansão das redes de esgoto. (CORSAN)

É um ótimo exemplo de gargalo invisível.

Uma concessionária pode ter financiamento, projeto executivo, tubulações, equipamentos, licença e empreiteira. Mas a obra não está concluída enquanto o pavimento não for adequadamente recomposto.

A falta de uma profissão específica pode prejudicar cronogramas, elevar custos, aumentar reclamações dos clientes e comprometer a percepção pública sobre a obra.

A expansão do emprego no saneamento, portanto, não pode ser medida apenas em quantidade. É necessário analisar a disponibilidade das competências certas.

A Águas de Ariquemes, também ligada à Aegea, seguiu lógica semelhante em 2026 ao aproximar profissionais da concessionária de alunos de curso de instalador hidráulico do SENAI. A instituição de ensino relatou que a expansão das redes de esgoto aumentava a necessidade local de profissionais qualificados. (Aegearo)

O Reino Unido está tratando mão de obra como infraestrutura

O problema não é exclusivamente brasileiro.

Na Inglaterra, a indústria de água prepara um programa de investimentos superior a £100 bilhões entre 2025 e 2030. Segundo a Water UK, associação representativa das companhias britânicas, o setor pretende recrutar aproximadamente 50 mil pessoas até 2030.

A estimativa envolve aumento de aproximadamente 16,9 mil trabalhadores no quadro próprio das utilities e cerca de 15 mil empregos adicionais na cadeia de fornecedores, além da substituição de profissionais que devem se aposentar. O planejamento inclui cerca de 5 mil aprendizes nos próximos cinco anos. (Water UK)

As áreas prioritárias vão muito além das profissões tradicionalmente associadas ao saneamento: operação, engenharia, digital e dados, gestão de projetos, área comercial, ciências ambientais e funções de suporte.

Algumas empresas relatam retenção superior a 90% dos aprendizes após os programas de formação, segundo a Water UK. (Water UK)

A lição para o Brasil é relevante.

Planejar bilhões em CAPEX sem planejar simultaneamente a força de trabalho necessária cria risco de execução.

Nos Estados Unidos, preocupação semelhante chegou ao governo federal

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) também trata a disponibilidade de trabalhadores como um problema estratégico das utilities.

Em agosto de 2026, a agência anunciou US$ 10,8 milhões em recursos para programas de formação da força de trabalho do setor de água, incluindo estágios, aprendizagem profissional, colaboração regional e programas educacionais. (US EPA)

A EPA relaciona a preocupação a quatro movimentos: aposentadoria de profissionais experientes, envelhecimento da infraestrutura, introdução de novas tecnologias e novos riscos — incluindo cibersegurança.

Poucos meses antes, a própria agência havia iniciado a atualização de sua Water Workforce Initiative, justamente diante da possibilidade de escassez disseminada de trabalhadores qualificados. (US EPA)

Esse ponto merece atenção das empresas brasileiras.

A universalização não significará apenas contratar mais trabalhadores para abrir valas. Ela exigirá simultaneamente competências tradicionais e novas competências digitais.

O que muda na prática para as companhias

O crescimento do emprego no saneamento deve entrar no radar de engenharia, suprimentos, recursos humanos, operações e gestão de contratos.

Empresas com grandes carteiras de investimento podem começar a tratar disponibilidade de mão de obra da mesma forma que tratam disponibilidade de tubos, bombas ou equipamentos.

Entre as medidas que merecem acompanhamento estão:

  • mapear profissões críticas antes da mobilização das obras;
  • identificar regiões onde diferentes contratos disputarão a mesma mão de obra;
  • criar parcerias com SENAI, institutos federais e escolas técnicas;
  • acompanhar produtividade por equipe e serviço;
  • exigir planos de capacitação de fornecedores estratégicos;
  • desenvolver programas de aprendizagem e formação local;
  • medir rotatividade, absenteísmo e acidentes das contratadas;
  • preparar profissionais para automação, telemetria, dados e gestão de ativos;
  • transferir conhecimento durante a transição entre implantação e operação.

Essa abordagem transforma recursos humanos em variável de planejamento de investimentos.

O risco escondido nos contratos

Existe ainda uma consequência financeira.

Escassez de trabalhadores qualificados tende a pressionar remuneração, aumentar rotatividade, elevar custo de terceirização e dificultar mobilização de equipes.

Para contratos de obras com cronogramas agressivos, isso pode se transformar em atraso físico.

E atraso físico no saneamento pode produzir efeitos em cadeia: postergação de metas contratuais, menor ativação de novas ligações, adiamento de receitas, aumento de custos indiretos, permanência de estruturas temporárias e prolongamento dos impactos das obras sobre ruas e moradores.

O custo da mão de obra, portanto, não deveria ser observado apenas como uma linha da composição de preços.

Ele pode se tornar um indicador de risco do CAPEX.

Uma oportunidade para a gestão comercial

Há também uma dimensão frequentemente ignorada.

Cada expansão de rede cria necessidade de transformar infraestrutura construída em cliente efetivamente conectado.

Uma rede de esgoto implantada sem adesão dos imóveis não produz todo o resultado sanitário, ambiental nem econômico previsto.

Por isso, o crescimento do emprego no saneamento também tende a aumentar demanda por equipes de cadastro, relacionamento, fiscalização, ligação, comunicação comunitária e atendimento.

A universalização física precisa caminhar junto com a universalização comercial.

Isso vale especialmente para esgotamento sanitário, onde a existência de rede disponível não garante automaticamente conexão imediata do imóvel.

Consequentemente, planejamento de obras e planejamento comercial deveriam compartilhar cronogramas, mapas e indicadores desde antes da conclusão da rede.

O que gestores devem observar nos próximos dois anos

O emprego no saneamento pode funcionar como um indicador antecipado da capacidade real de execução do setor.

Se investimentos continuarem crescendo e a oferta de profissionais não acompanhar, alguns sinais provavelmente aparecerão primeiro nos contratos: dificuldade de mobilização, aumento de salários ofertados, maior rotatividade, contratação de trabalhadores menos experientes, queda de produtividade e expansão dos prazos necessários para concluir serviços.

É justamente nesse ponto que indicadores de pessoas deixam de ser responsabilidade exclusiva do RH.

Passam a integrar gestão de projetos, orçamento, contratação, suprimentos e gestão de riscos.

Lições para quem trabalha no saneamento

A expansão atual também representa uma janela importante de desenvolvimento profissional.

O saneamento brasileiro está deixando de demandar apenas conhecimento tradicional de hidráulica, obras civis e tratamento.

Os novos sistemas utilizam telemetria, sensores, automação, modelagem hidráulica, sistemas geográficos, gestão digital de ativos, inteligência artificial e análise de grandes volumes de dados.

Ao mesmo tempo, nenhuma dessas tecnologias elimina a necessidade de profissionais capazes de instalar redes corretamente, operar válvulas, recompor pavimentos, executar manutenção, interpretar o comportamento de uma estação ou solucionar um problema no campo.

O profissional mais valorizado tende a ser aquele que consegue conectar conhecimento técnico, experiência prática, segurança, produtividade e tecnologia.

Conclusão: emprego no saneamento será parte da corrida por 2033

O crescimento de 20% do emprego no saneamento em obras de infraestrutura não é apenas uma boa notícia sobre mercado de trabalho.

É um indicador de transformação estrutural.

O setor começa a entrar em uma fase em que concessões, financiamentos, recursos públicos e programas de investimento precisam se materializar simultaneamente em milhares de intervenções espalhadas pelo país.

A infraestrutura necessária para alcançar 99% de cobertura de água e 90% de coleta e tratamento de esgoto não será construída apenas com capital.

Será construída por pessoas.

E talvez uma das empresas mais preparadas para os próximos anos não seja simplesmente aquela que possui o maior orçamento de investimentos, mas aquela capaz de antecipar onde estarão seus gargalos de mão de obra, formar profissionais antes que eles faltem e transformar capacitação em produtividade.

O crescimento do emprego no saneamento mostra que essa corrida já começou.

Fontes e referências

CNN Brasil
Emprego em obras de saneamento crescem 20% em 2026, aponta estudo
29 de setembro de 2026
Acessar a reportagem

ASFAMAS — Associação Brasileira dos Fabricantes de Materiais para Saneamento
Sistema de Indicadores Setoriais da ASFAMAS
Consulta em outubro de 2026
Acessar os indicadores da ASFAMAS

Agência iNFRA
Setor de saneamento registra alta de 20% no emprego em 2026
28 de setembro de 2026
Acessar a publicação

Ministério do Trabalho e Emprego — Novo Caged
Mercado formal celetista gera 58.568 empregos em julho e acumula 972.203 postos no ano
28 de agosto de 2026
Consultar o Novo Caged de julho de 2026

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Norma de Referência nº 8/2024 — universalização de água e esgoto
2024
Consultar a Norma de Referência nº 8/2024

BNDES — Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
Hub de Projetos — Saneamento
Consulta em outubro de 2026
Acessar o panorama do BNDES para saneamento

Ministério das Cidades
Brasil tem ano de investimentos e avanços em saneamento básico
14 de janeiro de 2026, atualização de 8 de junho de 2026
Acessar a publicação

Casa Civil — Novo PAC
Abastecimento de água — Água para Todos
Consulta em outubro de 2026
Consultar a carteira de investimentos

Corsan
Corsan realiza formatura da primeira turma de projeto para capacitação de calceteiros
2 de outubro de 2025
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Expansão do saneamento amplia oportunidades e aproxima alunos do mercado de trabalho em Ariquemes
11 de agosto de 2026
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Water UK
Jobs and skills in the water industry
Consulta em outubro de 2026
Consultar dados de emprego e qualificação do setor britânico

U.S. Environmental Protection Agency — EPA
US$ 10.8 million in available grant funding to strengthen water sector workforce
19 de agosto de 2026
Consultar a iniciativa da EPA