Prêmio IWA 2026: 6 inovações que transformam o saneamento


O Prêmio IWA 2026 reuniu 320 projetos de 65 países e reconheceu seis iniciativas com medalhas de ouro, além de conceder seu principal troféu a uma estação de tratamento de esgoto chinesa que transforma efluentes e resíduos em água de reúso, energia e materiais para a construção civil.

A premiação, realizada em 6 de outubro, em Glasgow, na Escócia, apresentou soluções que podem influenciar diretamente a operação, os investimentos e a gestão das companhias de saneamento nos próximos anos.

Entre os destaques estão uma tecnologia portuguesa que transforma lodo de tratamento de água em telhas, um projeto espanhol que utiliza dados e inteligência artificial para reduzir desperdícios, uma iniciativa de dessalinização solar no Quênia e uma das maiores instalações de dessalinização por osmose reversa em desenvolvimento nos Emirados Árabes Unidos.

Mas o aspecto mais importante do Prêmio IWA 2026 não está apenas nas tecnologias premiadas.

Está na mudança de mentalidade que os projetos representam: estações de tratamento deixam de ser vistas exclusivamente como estruturas de consumo e descarte e passam a ser consideradas instalações capazes de recuperar recursos, gerar valor econômico e aumentar a segurança hídrica.

Para as companhias brasileiras, a premiação apresenta uma questão estratégica: quantas oportunidades de eficiência e recuperação de valor ainda estão escondidas nos processos operacionais existentes?

O que aconteceu no Prêmio IWA 2026

A International Water Association (IWA), uma das principais organizações técnicas internacionais dedicadas ao setor de água e saneamento, anunciou os vencedores da 15ª edição do Project Innovation Awards durante o World Water Congress & Exhibition 2026.

A competição recebeu 320 inscrições provenientes de 65 países. Após a avaliação dos projetos, 23 finalistas receberam distinções de ouro, prata ou bronze, distribuídas em seis categorias.

A avaliação foi realizada por um painel internacional de especialistas, que considerou inovação, resultados alcançados, contexto de implantação e potencial de impacto mais amplo.

Os seis vencedores de ouro foram:

Tecnologia e infraestrutura: Zhongyuan Environmental Protection, China, com um modelo de recuperação integrada de recursos a partir de esgoto.

Melhoria de desempenho operacional: Águas do Douro e Paiva, Portugal, pela transformação de lodo de tratamento de água em matéria-prima para telhas.

Pesquisa e desenvolvimento: Universidade de Tecnologia de Pequim e Shenzhen Water and Environment Group, China, com tecnologia biológica para remoção avançada de nitrogênio e fósforo.

Execução de projetos: consórcio responsável pelo projeto Hassyan, nos Emirados Árabes Unidos, com uma instalação de dessalinização por osmose reversa.

Governança e inovação social: Governo do Condado de Lamu, Quênia, com dessalinização solar associada à segurança hídrica e à cooperação comunitária.

Sistemas inteligentes e economia digital da água: EMASESA, Espanha, com o projeto Digital Reservoir, baseado na integração entre infraestrutura física, sensores, dados e sistemas digitais.

O projeto chinês de recuperação de recursos também recebeu o Grand Innovation Award, principal reconhecimento da competição.

1. China transforma estação de esgoto em central de recuperação de recursos

O principal vencedor do Prêmio IWA 2026 foi o projeto Transforming Wastewater into Value: A Megacity-Scale Water-Energy Nexus Model, desenvolvido pela Zhongyuan Environmental Protection e pela estação de tratamento de esgoto Zhengzhou Xinqu, na China.

A iniciativa reúne diferentes tecnologias em uma mesma instalação para aproveitar o potencial hídrico, energético e material presente no esgoto.

Em vez de considerar o processo encerrado quando o efluente atende aos padrões de lançamento, o projeto procura extrair valor de diferentes componentes.

Entre as soluções integradas estão tratamento avançado, produção de água de reúso, pirólise e gaseificação do lodo, recuperação de energia térmica e aproveitamento de resíduos sólidos em materiais de construção.

Como funciona a inovação

Uma das tecnologias destacadas pela IWA utiliza coque ativado no tratamento avançado.

Trata-se de um material carbonáceo com características adequadas à adsorção, processo pelo qual determinadas substâncias ficam retidas em sua superfície.

Essa etapa contribui para a remoção de contaminantes e para a produção de água recuperada com qualidade compatível com aplicações específicas.

Outro componente é o processamento térmico do lodo.

Na pirólise, a matéria orgânica é aquecida em condições de ausência ou disponibilidade muito limitada de oxigênio, produzindo frações gasosas, líquidas e sólidas.

Na gaseificação, a conversão térmica ocorre com fornecimento controlado de um agente oxidante, permitindo a produção de gases com potencial energético.

O sistema chinês aproveita gases resultantes desses processos e direciona resíduos minerais para aplicações em materiais de construção.

Além disso, recupera energia térmica associada ao esgoto.

O resultado é um modelo de integração entre água, energia e resíduos, conhecido internacionalmente como water-energy nexus.

O que as companhias brasileiras podem aprender

Grande parte das ETEs brasileiras ainda é avaliada prioritariamente por indicadores como vazão tratada, eficiência de remoção de matéria orgânica, atendimento aos padrões ambientais e custo operacional.

Esses indicadores continuam fundamentais. Entretanto, experiências como a de Zhengzhou demonstram a importância de acrescentar outros parâmetros à análise.

A quantidade de energia recuperada, o percentual de resíduos valorizados, o volume de água reutilizada e o custo evitado com destinação de lodo podem ajudar a revelar oportunidades antes não contabilizadas.

Para gestores de ETEs, a principal lição é que o esgoto tratado não representa necessariamente o fim do processo produtivo: pode ser o início de uma nova cadeia de valor.

A IWA não apresentou, no comunicado oficial dos vencedores, um demonstrativo detalhado dos investimentos e retornos financeiros desse projeto. Portanto, ainda não é possível afirmar sua viabilidade econômica em condições brasileiras apenas com base na premiação.

2. Portugal demonstra que lodo pode virar telha e gerar economia

Um dos projetos mais interessantes para aplicação no Brasil foi desenvolvido pela Águas do Douro e Paiva, empresa pública portuguesa responsável pelo abastecimento de municípios na região norte do país.

A iniciativa premiada transforma o lodo produzido na estação de tratamento de água de Lever em matéria-prima para a indústria cerâmica.

É importante distinguir esse material do lodo de esgoto: o resíduo utilizado no projeto português provém do processo de clarificação da água destinada ao abastecimento.

O tratamento convencional de água utiliza processos como coagulação, floculação e decantação. Durante essas etapas, partículas e impurezas são removidas e concentradas no lodo.

Tradicionalmente, a gestão desse resíduo representa custos de transporte, tratamento e destinação.

A empresa portuguesa encontrou uma alternativa ao incorporar o material na fabricação de telhas.

Os resultados documentados

De acordo com informações apresentadas pela empresa em uma candidatura nacional divulgada pelo IAPMEI, de Portugal, em 2024, o projeto havia alcançado:

  • Aproximadamente 25 mil toneladas de lodo valorizadas.
  • Economia acumulada estimada em cerca de 1 milhão de euros, comparativamente à alternativa de envio a aterro.
  • Produção anual de aproximadamente 15 milhões de telhas utilizando lodo proveniente do tratamento de água.
  • Valorização integral do lodo abrangido pelo projeto.

Esses números correspondiam ao estágio divulgado em 2024 e não devem ser interpretados como um balanço atualizado de outubro de 2026.

Ainda assim, demonstram que a economia circular pode deixar de ser apenas uma proposta ambiental e produzir benefícios financeiros mensuráveis.

A oportunidade para o Brasil

Companhias brasileiras possuem estações de tratamento de água que geram resíduos com diferentes características físicas e químicas.

Em determinadas condições, esses materiais podem apresentar potencial de utilização na produção de cerâmicas, blocos e outros produtos.

Entretanto, a substituição de matérias-primas convencionais exige estudos específicos.

É necessário avaliar composição química, umidade, presença de contaminantes, comportamento durante a queima, resistência do produto final e atendimento às exigências ambientais e técnicas.

Também é indispensável considerar o custo de transporte entre a estação e a indústria consumidora.

Uma aplicação tecnicamente possível pode deixar de ser economicamente atrativa quando o deslocamento do material é excessivo.

A experiência portuguesa oferece uma lição importante: antes de contratar apenas a destinação de um resíduo, vale investigar se existe uma indústria próxima capaz de utilizá-lo de maneira segura e regularizada.

3. Espanha transforma dados em redução de perdas e melhoria do atendimento

A EMASESA, empresa pública responsável pelo ciclo da água em Sevilha e municípios metropolitanos, recebeu o ouro na categoria de sistemas inteligentes e economia digital.

Seu projeto, conhecido como Digital Reservoir ou Embalse Digital 5.0, representa uma mudança no modo como empresas de saneamento podem utilizar informação operacional.

O conceito é integrar dados de sensores, medidores inteligentes, redes hidráulicas, instalações de tratamento e sistemas corporativos em uma estrutura que permita analisar situações e antecipar decisões.

A tecnologia inclui recursos como telemetria, inteligência artificial, modelagem hidráulica e gêmeos digitais.

Um gêmeo digital é uma representação computacional de um equipamento ou sistema real, alimentada por informações que permitem simular comportamentos e avaliar alternativas operacionais.

Resultados que merecem atenção

Em 2026, a EMASESA informou a conclusão de três projetos integrados de digitalização — Embalse Digital 5.0, CREANDO e DIGUA.

Segundo a companhia, o conjunto envolveu 73 iniciativas e investimento superior a 25 milhões de euros, incluindo aproximadamente 16 milhões de euros de financiamento europeu.

Entre os resultados divulgados estão:

318 mil hidrômetros com teleleitura, correspondentes a aproximadamente 77% do parque.

Geração de cerca de 8 milhões de dados diários relacionados ao consumo.

Redução do tempo médio de detecção de vazamentos internos em imóveis, que anteriormente podiam permanecer sem identificação durante um a três meses, para aproximadamente 1,92 dia.

Redução de 60% a 65% no volume de água utilizado em operações de purga da rede.

A empresa também informou redução do tempo necessário para detectar possíveis consumos fraudulentos para aproximadamente cinco dias.

Esses resultados foram divulgados pela própria EMASESA e devem ser analisados considerando o conjunto de intervenções executadas, não sendo possível atribuir todos os ganhos exclusivamente à inteligência artificial.

O que realmente muda para a gestão comercial

A principal inovação não é simplesmente substituir a leitura manual por uma leitura remota.

A diferença está no que a companhia faz com a informação recebida.

Quando um hidrômetro apresenta consumo contínuo durante a madrugada, o sistema pode identificar um comportamento atípico.

A área comercial pode transformar essa informação em uma comunicação preventiva ao cliente.

Ao mesmo tempo, dados de medição podem auxiliar na identificação de consumos não registrados, desvios de comportamento, problemas de faturamento e oportunidades de combate às perdas aparentes.

Na operação, informações de pressão e vazão podem apoiar decisões sobre manobras, vazamentos e manutenção.

O verdadeiro ganho surge quando os setores comercial, operacional, tecnológico e de atendimento passam a trabalhar com informações integradas.

Uma companhia pode possuir milhares de sensores e continuar tomando decisões de forma lenta. A transformação ocorre quando os dados modificam efetivamente os processos de trabalho.

4. Emirados Árabes apostam em dessalinização de grande escala

O Prêmio IWA 2026 também reconheceu a execução do projeto Hassyan 180 MIGD SWRO Independent Water Project, em Dubai.

O empreendimento utiliza a tecnologia de osmose reversa aplicada à água do mar.

Nesse processo, a água salgada é submetida a pressões elevadas e atravessa membranas que retêm grande parte dos sais dissolvidos.

A iniciativa envolve a Dubai Electricity and Water Authority (DEWA) e empresas responsáveis pelo desenvolvimento e execução da instalação.

Segundo a DEWA, o projeto possui investimento previsto de 3,377 bilhões de dirhams dos Emirados Árabes Unidos e capacidade projetada de 180 milhões de galões imperiais por dia.

Trata-se de uma instalação de grande escala, planejada para reforçar a segurança hídrica de Dubai.

O projeto utiliza o modelo Independent Water Producer, no qual a produção de água é estruturada por meio de um empreendimento especializado, com compromissos contratuais de fornecimento.

A DEWA indicou conclusão prevista para 2027 em comunicação de acompanhamento publicada em 2025. Portanto, o reconhecimento da IWA pela execução do projeto não deve ser confundido com a confirmação de operação plena da instalação.

Qual é o aprendizado para gestores brasileiros?

A dessalinização é especialmente relevante em localidades onde a disponibilidade de água doce é limitada ou apresenta qualidade inadequada.

Contudo, o modelo de Dubai não deve ser reproduzido automaticamente em outras regiões.

A viabilidade depende de características como salinidade, disponibilidade energética, custos de operação, destinação do concentrado salino e escala de produção.

No semiárido brasileiro, por exemplo, sistemas menores de dessalinização de águas subterrâneas salobras podem ser mais adequados que instalações marítimas de grande porte.

A lição está na escolha da tecnologia conforme o contexto e na estruturação contratual capaz de manter o fornecimento com qualidade e custos controlados.

5. Quênia mostra que inovação também é governança

Nem toda inovação premiada depende de inteligência artificial ou equipamentos de grande capacidade.

No Quênia, a iniciativa Kiunga Solar Desalination and Water-for-Peace recebeu o ouro na categoria de governança, instituições e inovação social.

O projeto utiliza energia solar para dessalinizar água subterrânea salina e atender comunidades situadas em uma região vulnerável à escassez hídrica, próxima à fronteira com a Somália.

Segundo informações publicadas pela imprensa queniana em outubro de 2026, a instalação produz aproximadamente 5 mil litros de água segura por hora.

A distribuição ocorre por meio de uma rede de cerca de 15,1 quilômetros, que atende 573 domicílios e aproximadamente 3.500 pessoas, além de instituições comunitárias.

O Governo de Lamu também registrou, em janeiro de 2026, a implantação de uma extensão de abastecimento conectando Ishakani à unidade de dessalinização de Kiunga.

Por que esse caso é diferente?

A água foi tratada como elemento de cooperação social e fortalecimento da resiliência comunitária.

Em territórios onde a escassez pode intensificar conflitos e disputas por recursos, uma solução de abastecimento representa mais do que uma melhoria de infraestrutura.

Ela pode reduzir deslocamentos para obtenção de água, ampliar o acesso a serviços essenciais e fortalecer relações entre comunidades.

Para o Brasil, especialmente em localidades rurais dispersas, a experiência reforça a importância de considerar energia, manutenção, capacidade de pagamento, participação comunitária e sustentabilidade institucional no planejamento dos sistemas.

Uma instalação pode ter desempenho técnico adequado e fracassar após poucos anos por ausência de manutenção, falta de operadores capacitados ou dificuldades de financiamento.

A inovação, portanto, também precisa estar no modelo de gestão.

6. China avança no tratamento biológico de nitrogênio e fósforo

O sexto projeto premiado com ouro foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Tecnologia de Pequim e pelo Shenzhen Water and Environment Group.

A iniciativa recebeu reconhecimento por uma tecnologia biológica de tratamento de esgoto aplicada à remoção avançada de nitrogênio e fósforo na estação municipal Shenzhen Binhe.

O processo utiliza uma configuração anaeróbia, aeróbia e anóxica, identificada pela sigla AOA.

Essas etapas apresentam condições diferentes de disponibilidade de oxigênio, favorecendo atividades microbiológicas específicas.

A remoção de nitrogênio é especialmente importante porque o lançamento excessivo desse nutriente pode contribuir para a eutrofização dos corpos hídricos.

O fósforo também está associado ao crescimento excessivo de algas e à deterioração da qualidade ambiental.

O controle desses nutrientes exige condições adequadas de processo, incluindo manejo de oxigênio, disponibilidade de carbono, idade do lodo e monitoramento.

Para as companhias brasileiras, o reconhecimento reforça a importância de avaliar tecnologias de remoção de nutrientes conforme as características dos corpos receptores e as exigências do licenciamento ambiental.

Entretanto, a simples adoção de uma configuração biológica semelhante não garante os mesmos resultados. O desempenho depende das características do afluente, do projeto, da automação e da competência operacional.

O Brasil já possui experiências comparáveis?

O Prêmio IWA 2026 mostra tendências internacionais que encontram correspondência em iniciativas brasileiras já desenvolvidas.

Embora os projetos possuam escalas e objetivos distintos, é possível identificar experiências relevantes em reúso, valorização de resíduos e eficiência energética.

Sabesp e Aquapolo: água de reúso como produto industrial

Um dos exemplos brasileiros mais conhecidos é o Aquapolo, associado à Sabesp e à BRK Ambiental, voltado ao fornecimento de água de reúso para o polo petroquímico do ABC Paulista.

Documentos técnicos do Governo Federal registram capacidade instalada de produção de 1.000 litros por segundo, com fornecimento contratual inicialmente estruturado em torno de 650 litros por segundo.

Esse volume demonstra o potencial de substituir água de outras fontes em processos industriais que não exigem qualidade potável.

A experiência também apresenta uma lição comercial importante.

A implantação de uma unidade de reúso deve considerar a existência de consumidores capazes de sustentar economicamente o projeto.

Não basta produzir água recuperada. É necessário estruturar contratos, padrões de qualidade, disponibilidade, infraestrutura de distribuição e responsabilidades entre produtor e comprador.

O Aquapolo mostra que o reúso pode representar simultaneamente uma estratégia de segurança hídrica e uma atividade comercial especializada.

Sanepar: resíduos do esgoto retornam à economia

A Companhia de Saneamento do Paraná desenvolve iniciativas de valorização do lodo e aproveitamento energético de resíduos.

Segundo informações institucionais, em 2024 a companhia destinou 31.351 toneladas de biossólidos para utilização agrícola, beneficiando 132 agricultores.

A Sanepar também desenvolveu soluções de secagem térmica de lodo.

Em uma das experiências divulgadas pela empresa, o material passa por desaguamento mecânico e secagem, elevando seu teor de sólidos de aproximadamente 20% para 80%.

O processo utiliza fontes energéticas como biogás, biomassa e parte do próprio lodo seco.

Além disso, resíduos resultantes do tratamento podem ser direcionados ao coprocessamento industrial, observadas as condições técnicas e ambientais.

A experiência brasileira guarda relação com a tendência reconhecida no projeto chinês: recuperar valor energético e material de resíduos antes considerados apenas um custo.

O que diferencia os projetos

O Brasil já apresenta soluções relevantes.

Entretanto, a comparação internacional evidencia que o desafio não está exclusivamente na existência de tecnologias.

O ponto decisivo é ampliar a aplicação, integrar iniciativas e demonstrar resultados econômicos e operacionais de forma consistente.

Uma empresa pode possuir um excelente projeto de aproveitamento de biogás e, simultaneamente, manter outras instalações com oportunidades de recuperação energética não exploradas.

Da mesma forma, pode realizar teleleitura em parte do parque de hidrômetros sem utilizar os dados para reduzir perdas ou melhorar o relacionamento com os clientes.

O avanço mais importante acontece quando projetos inovadores deixam de ser experiências isoladas e passam a integrar o modelo de gestão da companhia.

O que o Prêmio IWA 2026 ensina sobre o futuro do saneamento

A análise dos vencedores revela tendências que ultrapassam fronteiras e modelos institucionais.

A primeira é a valorização econômica dos subprodutos.

Esgoto tratado, lodo, calor, gases e informações operacionais passam a receber atenção como recursos potencialmente aproveitáveis.

A segunda é a integração entre diferentes áreas.

Projetos de reúso exigem articulação entre operação, engenharia, meio ambiente, regulação, contratos e gestão comercial.

A transformação digital exige integração semelhante, incluindo tecnologia da informação, faturamento, atendimento e equipes de campo.

A terceira tendência é a valorização dos resultados verificáveis.

A premiação reconhece diferentes formas de inovação, mas os exemplos mais úteis para gestores são aqueles que permitem avaliar mudanças concretas.

Reduzir desperdícios, recuperar energia, evitar gastos com resíduos, melhorar a qualidade do efluente ou antecipar vazamentos são resultados que podem ser incorporados aos indicadores das companhias.

Impactos operacionais, financeiros e comerciais

Do ponto de vista operacional, as tecnologias premiadas indicam possibilidades de aumentar o controle dos processos, reduzir desperdícios e tornar a manutenção mais preventiva.

Na dimensão financeira, a recuperação de energia e materiais pode reduzir despesas e, em determinadas condições, gerar receitas.

Entretanto, é necessário considerar todo o ciclo de vida do projeto, incluindo investimento inicial, manutenção, consumo energético, reposição de equipamentos, qualificação de pessoal e destinação dos resíduos remanescentes.

Na gestão comercial, surgem oportunidades relacionadas à venda de água de reúso, ao atendimento preventivo e à utilização de dados para melhorar o faturamento e reduzir perdas aparentes.

Existe também um componente regulatório.

A adoção de novos modelos de negócio pode exigir avaliação de contratos, licenças, tarifas, direitos sobre receitas acessórias e repartição de riscos.

No Brasil, a Lei nº 12.305/2010 estabelece diretrizes para a gestão de resíduos sólidos, enquanto a Resolução CONAMA nº 498/2020 disciplina especificamente a produção e a aplicação de biossólidos em solos.

Essa resolução não constitui, por si só, autorização para incorporar resíduos em materiais cerâmicos. Essa utilização exige avaliação técnica e enquadramento ambiental próprios.

Na área de reúso de efluentes sanitários tratados, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico promoveu consulta e audiência públicas sobre proposta de norma de referência em 2026.

As empresas interessadas devem verificar o estágio regulatório vigente e as exigências das autoridades competentes antes de estruturar investimentos.

Como transformar essas experiências em projetos aplicáveis

A principal dificuldade para muitas companhias não é identificar tecnologias interessantes.

É construir um processo confiável que transforme oportunidades em iniciativas economicamente viáveis.

Uma estratégia prática pode começar pela seleção de instalações com maior potencial de ganho.

Em estações de tratamento, isso significa conhecer o volume de resíduos gerados, as despesas de destinação, a produção de biogás, o consumo de energia e as possibilidades de reúso.

Na distribuição, significa identificar setores com perdas elevadas, problemas de medição, consumo anômalo ou baixa capacidade de monitoramento.

Depois, é necessário construir uma linha de base.

Sem conhecer os resultados anteriores à intervenção, torna-se difícil demonstrar os benefícios reais de uma tecnologia.

A etapa seguinte envolve um estudo de viabilidade que considere ganhos e riscos.

No caso do aproveitamento do lodo, por exemplo, devem ser comparados o custo atual de destinação e o custo total da alternativa proposta.

No caso da teleleitura, devem ser avaliados não apenas os investimentos em equipamentos e conectividade, mas também as mudanças na recuperação de receitas, no atendimento, na detecção de vazamentos e na produtividade.

Por fim, a expansão deve ocorrer com base em resultados monitorados.

Projetos-piloto são ferramentas importantes, desde que possuam critérios claros de avaliação e condições de escalabilidade.

O que pode dar errado na busca pela inovação

Uma das principais armadilhas é adquirir tecnologia antes de definir o problema operacional que precisa ser resolvido.

Outra é considerar os benefícios apresentados pelos fornecedores como resultados garantidos.

O desempenho de um sistema depende das condições de implantação e da capacidade da empresa de utilizá-lo corretamente.

Existem ainda riscos específicos.

Na valorização de resíduos, a composição do material pode variar e inviabilizar determinadas aplicações.

No reúso, padrões inadequados de qualidade ou falhas de monitoramento podem comprometer atividades industriais e representar riscos sanitários ou ambientais.

Na digitalização, informações inconsistentes, integração deficiente de sistemas e vulnerabilidades de segurança cibernética podem prejudicar a operação.

Na dessalinização, o custo energético, a manutenção das membranas e a gestão do concentrado salino exigem atenção permanente.

Portanto, a inovação precisa ser acompanhada de governança técnica, gestão de riscos e capacidade de resposta operacional.

Lições para quem trabalha no saneamento

Os vencedores do Prêmio IWA 2026 oferecem aprendizados importantes para diferentes profissionais.

Para engenheiros e operadores, a principal lição é compreender os processos como sistemas integrados. Um resíduo pode representar perda de eficiência ou oportunidade de recuperação de valor, dependendo de como é administrado.

Para gestores comerciais, a inovação pode estar na transformação de informação em serviço. Detectar antecipadamente o consumo anormal de um cliente pode evitar desperdícios, reclamações e conflitos de faturamento.

Para profissionais de tecnologia, o desafio é desenvolver soluções que apoiem decisões reais. Uma plataforma sofisticada possui utilidade limitada quando não está integrada às rotinas operacionais.

Para reguladores e especialistas jurídicos, novas tecnologias exigem atenção à segurança jurídica, aos padrões de qualidade, à estrutura tarifária e aos mecanismos contratuais de compartilhamento de riscos e benefícios.

Para gestores executivos, o principal desafio é decidir onde investir e como medir resultados.

O reconhecimento internacional não substitui estudos de viabilidade, assim como a experiência de uma companhia estrangeira não elimina a necessidade de adaptação às condições brasileiras.

A capacidade de interpretar uma inovação, avaliar sua aplicabilidade e transformá-la em melhoria operacional continua dependendo do conhecimento e da experiência dos profissionais envolvidos.

Uma oportunidade pouco percebida: inovar pode começar pelo que já existe

A premiação internacional desperta interesse por tecnologias avançadas, mas algumas das maiores oportunidades podem estar em instalações já construídas.

Uma estação que paga pela destinação de resíduos pode investigar alternativas de valorização.

Uma companhia que possui dados de consumo acumulados pode desenvolver mecanismos de identificação de anomalias.

Uma empresa com elevados custos energéticos pode estudar recuperação de biogás, otimização de bombeamento ou geração renovável.

Um sistema de esgoto tratado localizado próximo a consumidores industriais pode apresentar potencial de reúso.

Essas iniciativas não exigem necessariamente a substituição de toda a infraestrutura.

Podem começar com diagnóstico técnico, parcerias, reorganização de processos e projetos de demonstração.

O diferencial está em buscar resultados mensuráveis, sem transformar inovação em sinônimo de aquisição de equipamentos caros.

Conclusão: o futuro do saneamento será definido pela capacidade de transformar recursos em resultados

O Prêmio IWA 2026 revela que algumas das experiências internacionais mais relevantes não se limitam a ampliar a infraestrutura tradicional de saneamento.

Elas demonstram como utilizar melhor o que já é produzido, tratado, medido ou descartado.

A China apresenta um modelo de recuperação integrada de recursos. Portugal demonstra o potencial econômico da valorização do lodo. A Espanha transforma dados em decisões operacionais e comerciais. Os Emirados Árabes desenvolvem infraestrutura para ampliar a segurança hídrica. O Quênia associa tecnologia à cooperação comunitária.

São realidades diferentes, mas com um princípio em comum: a inovação deve resolver problemas concretos e gerar benefícios verificáveis.

Para o Brasil, o desafio será incorporar esse princípio em empresas de diferentes portes, estruturas e capacidades de investimento.

Isso exige planejamento, formação profissional, integração entre áreas, avaliação econômica e disposição para revisar processos tradicionais.

A experiência internacional também mostra que inovação não depende exclusivamente de grandes projetos. Muitas transformações começam quando profissionais identificam um problema recorrente e encontram uma maneira melhor de resolvê-lo.

A principal mensagem do Prêmio IWA 2026 é que o futuro do saneamento não será determinado apenas pela quantidade de infraestrutura construída, mas também pela capacidade de operar com inteligência, recuperar recursos, reduzir desperdícios e entregar mais valor à sociedade.

O próximo projeto reconhecido internacionalmente pode nascer de uma dificuldade operacional que hoje ainda é tratada como parte inevitável da rotina de uma companhia brasileira.


Fontes e referências

1. International Water Association — IWA

Celebrating the global best in water project innovation: Results of the 2026 International Water Association Project Innovation Awards.

Publicado em 7 de outubro de 2026. Fonte primária dos vencedores, categorias e características do projeto chinês.

https://www.iwa-network.org/news/celebrating-the-global-best-in-water-project-innovation-results-of-the-2026-international-water-association-project-innovation-awards

2. International Water Association — IWA

IWA Project Innovation Awards.

Página institucional da premiação, objetivos e histórico.

https://www.iwa-network.org/iwa-project-innovation-awards

3. H2O Magazine

2026 International Water Association Project Innovation Awards.

Publicado em 7 de outubro de 2026. Notícia original utilizada para contextualização da premiação.

https://www.h2o.net/breves-monde/2026-international-water-association-project-innovation-awards.htm

4. EMASESA — Empresa Metropolitana de Abastecimiento y Saneamiento de Aguas de Sevilla

EMASESA culmina la mayor transformación digital del ciclo del agua en Sevilla con 73 actuaciones y 25 millones de euros de inversión.

Publicação institucional de 2026. Resultados de teleleitura, eficiência hídrica e investimentos.

5. EMASESA

Embalse Digital 5.0.

Documentação institucional do projeto e de suas tecnologias.

6. IAPMEI — Agência para a Competitividade e Inovação, Portugal

Projetos vencedores por categoria — European Enterprise Promotion Awards 2024.

Documento com informações fornecidas pelos participantes, incluindo o projeto de valorização de lodo da Águas do Douro e Paiva.

https://www.iapmei.pt/PRODUTOS-E-SERVICOS/Empreendedorismo-Inovacao/Inovacao-e-Competitividade/Documentos-Inovacao/EEPA2024_ProjetosVencedores_FaseNacional.aspx

7. Dubai Electricity and Water Authority — DEWA

Hassyan Seawater Reverse-Osmosis Project.

Informações oficiais sobre capacidade, investimento, tecnologia e modelo de contratação.

https://dewa.gov.ae/en/about-us/strategic-initiatives/hassyan

8. Governo do Condado de Lamu — Quênia

Governor Timamy launches Ishakani Pipeline Water Project.

Publicado em 30 de janeiro de 2026. Registro institucional da extensão do sistema associado à dessalinização de Kiunga.

https://lamu.go.ke/featured-news/page/10/

9. The Star — Quênia

Lamu desalination project earns top global recognition.

Publicado em 8 de outubro de 2026. Dados de produção, extensão da rede e população atendida.

https://www.the-star.co.ke/counties/coast/2026-10-08-lamu-desalination-project-earns-top-global-recognition

10. Sanepar — Companhia de Saneamento do Paraná

Operação Sustentável.

Informações institucionais sobre aproveitamento de biossólidos e iniciativas de economia circular.

https://www.sanepar.com.br/operacao-sustentavel

11. Sanepar

Planta de secagem térmica de lodo de esgoto da Sanepar ganha prêmio nacional de biogás.

Informações técnicas sobre secagem térmica, aproveitamento energético e coprocessamento.

https://www.sanepar.com.br/noticias/planta-de-secagem-termica-de-lodo-de-esgoto-da-sanepar-ganha-premio-nacional-de-biogas

12. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços

Água e Indústria.

Publicação técnica sobre experiências brasileiras de reúso industrial, incluindo o projeto Aquapolo.

https://www.gov.br/mdic/pt-br/images/REPOSITORIO/sdci/Livroa_Aguaa_ea_Industria.pdf

13. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA

Consulta pública sobre reúso não potável de água de esgoto é prorrogada até o dia 13 de março.

Publicado em 27 de fevereiro de 2026. Informações sobre o processo de elaboração da norma de referência.

https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias/consulta-publica-sobre-reuso-nao-potavel-de-agua-de-esgoto-e-prorrogada-ate-o-dia-13-de-marco/

14. Conselho Nacional do Meio Ambiente — CONAMA

Resolução CONAMA nº 498/2020.

Critérios e procedimentos para produção e aplicação de biossólidos em solos.

https://conama.mma.gov.br/index.php?id=726&option=com_sisconama&view=atonormativo

15. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente — Ibama

Política Nacional de Resíduos Sólidos.

Informações institucionais sobre a Lei nº 12.305/2010.

https://www.gov.br/ibama/pt-br/assuntos/emissoes-e-residuos/residuos/politica-nacional-de-residuos-solidos-pnrs