Uma das maiores oportunidades da IA no saneamento pode estar em uma atividade aparentemente simples: eliminar a distância entre o serviço executado na rua e a informação utilizada pela empresa para tomar decisões.
Em 7 de outubro de 2026, a norte-americana 120Water anunciou uma parceria estratégica com a TeamSolve para lançar o 120Field, uma plataforma móvel que integra registros de equipes de campo, inteligência artificial e sistemas de conformidade regulatória.
A tecnologia permite registrar inspeções, substituições de tubulações, fotografias, vídeos e informações operacionais diretamente no local de execução. Os dados podem alimentar os sistemas corporativos sem a necessidade de nova digitação.
O lançamento ocorre em um contexto de exigências crescentes sobre a qualidade da água e a rastreabilidade das intervenções em redes de distribuição. Mas o significado dessa inovação ultrapassa a realidade norte-americana.
No Brasil, empresas como Iguá e Copasa já apresentam experiências relevantes de digitalização das atividades externas. Em um caso divulgado pela Oracle, a Iguá registrou aumento de 22% na produtividade das equipes de campo após implementar uma solução de gestão operacional.
A questão estratégica é compreender como transformar registros operacionais em informações confiáveis, capazes de melhorar simultaneamente produtividade, atendimento, manutenção, planejamento e cumprimento de obrigações regulatórias.
É justamente nessa conexão que a nova parceria apresenta sua proposta mais interessante.
O que aconteceu: 120Water e TeamSolve lançam o 120Field
A 120Water é uma empresa norte-americana especializada em plataformas de gerenciamento de qualidade da água e conformidade de ativos. Suas soluções são utilizadas por prestadores de abastecimento, autoridades estaduais e organizações responsáveis pelo monitoramento da água potável.
A TeamSolve desenvolve soluções de inteligência operacional baseadas em inteligência artificial, com foco na organização do conhecimento técnico e no apoio às equipes responsáveis por infraestrutura.
A parceria resultou no lançamento do 120Field, ferramenta construída sobre a tecnologia Knowledge Twin, desenvolvida pela TeamSolve.
A solução anunciada reúne funcionalidades como:
- Formulários digitais configuráveis para inspeções, verificações e substituições de ativos;
- Registros fotográficos e vídeos associados às atividades executadas;
- Roteirização inteligente das visitas e dos serviços programados;
- Funcionamento sem conexão com a internet, com sincronização posterior;
- Integração de informações com a plataforma corporativa da 120Water;
- Orientações digitais para apoiar a execução das atividades em campo.
A proposta é conectar os dados produzidos pelos operadores diretamente aos processos de controle e comprovação regulatória.
Entretanto, existe uma distinção importante. A documentação comercial da 120Water informa que os fluxos padronizados possuem sincronização automática, mas os formulários personalizados para outras atividades ainda não contam, necessariamente, com essa integração automática.
Portanto, o anúncio representa um avanço tecnológico, mas não significa que todas as operações de uma companhia possam ser integradas imediatamente.
Também não foram divulgados, no anúncio consultado, valores de investimento, preços de implantação, economia financeira comprovada ou ganhos percentuais de produtividade especificamente atribuídos ao novo 120Field.
Esses resultados precisarão ser demonstrados na utilização efetiva da solução.
Por que a IA no saneamento precisa chegar até o operador de campo?
Uma empresa pode possuir sistemas modernos de faturamento, cadastro técnico, geoprocessamento, manutenção e controle operacional e, mesmo assim, encontrar dificuldades para saber exatamente o que aconteceu durante determinado serviço.
Considere uma intervenção em uma ligação de água. A equipe identifica uma irregularidade, verifica o material da tubulação, substitui uma conexão e registra o encerramento da ordem de serviço.
Entretanto, algumas informações podem permanecer dispersas: fotografias armazenadas no celular, anotações em formulários, mensagens enviadas ao supervisor e observações registradas posteriormente no sistema.
Se o cadastro técnico não for atualizado, a empresa continuará trabalhando com uma representação desatualizada da infraestrutura. Se o material utilizado não for registrado corretamente, o controle de estoque e a apropriação de custos poderão apresentar inconsistências.
Se o encerramento for registrado sem evidências suficientes, uma eventual reclamação do cliente ou fiscalização poderá exigir novas verificações.
O problema não é apenas a ausência de tecnologia. É a falta de continuidade da informação entre quem executa, quem supervisiona e quem decide.
Nesse cenário, a IA no saneamento pode ser aplicada para interpretar registros, relacionar informações de diferentes sistemas, identificar inconsistências e orientar atividades.
Um dado de campo deixa de ser somente um comprovante de execução e passa a contribuir para o conhecimento operacional da companhia.
Como funciona a tecnologia Knowledge Twin?
O Knowledge Twin pode ser compreendido como uma camada digital que organiza e relaciona conhecimentos sobre os ativos, as atividades e os processos operacionais de uma organização.
A proposta é permitir que informações antes distribuídas em diferentes sistemas sejam consultadas e interpretadas de maneira integrada.
A TeamSolve informa que sua tecnologia pode se conectar a sistemas de manutenção, geoprocessamento, supervisão operacional e bases históricas, utilizando APIs, conectores configuráveis e processos de importação de dados.
Entre os sistemas envolvidos estão:
SCADA — Supervisory Control and Data Acquisition: utilizado para supervisão e aquisição de dados operacionais, como pressões, vazões, níveis de reservatórios e estados de equipamentos.
CMMS — Computerized Maintenance Management System: sistema de gerenciamento da manutenção, responsável por ordens de serviço, histórico de intervenções, equipamentos e planejamento de atividades.
GIS — Geographic Information System: sistema de informações geográficas utilizado para localizar redes, ramais, válvulas, hidrantes e outros componentes da infraestrutura.
Quando essas informações são relacionadas, surge a possibilidade de oferecer orientações mais contextualizadas às equipes.
Por exemplo, durante uma inspeção em uma válvula, o operador poderia consultar o histórico de manutenção, identificar ocorrências anteriores, acessar procedimentos técnicos e registrar uma nova anomalia.
A inteligência artificial poderia apoiar a organização dessas informações e sugerir verificações adicionais. Entretanto, esse tipo de utilização depende da qualidade das bases disponíveis, das integrações implantadas e dos controles definidos pela empresa.
A tecnologia não deve ser confundida automaticamente com um gêmeo digital hidráulico completo, capaz de simular pressões, vazões e comportamento da rede. Também não significa autonomia para executar manobras ou tomar decisões críticas sem supervisão.
A contribuição central está em transformar conhecimento operacional disperso em informação acessível no momento da execução.
A pressão regulatória que está acelerando a digitalização nos Estados Unidos
O avanço tecnológico está diretamente relacionado às exigências regulatórias norte-americanas.
A Environmental Protection Agency (EPA), agência federal de proteção ambiental dos Estados Unidos, publicou em outubro de 2024 a regra conhecida como Lead and Copper Rule Improvements (LCRI).
A regulamentação estabelece medidas para reduzir a exposição ao chumbo e ao cobre na água destinada ao consumo humano.
Um dos pontos centrais é a identificação e substituição de tubulações prediais que contenham chumbo ou materiais galvanizados classificados como sujeitos à substituição.
A regra estabelece, com exceções e condições específicas, a substituição das tubulações enquadradas no prazo de dez anos a partir de sua data de aplicação.
Além disso, exige inventários de materiais, atualização de informações, monitoramento da qualidade da água e comunicação com a população.
Na prática, surge um grande desafio operacional. Não basta substituir uma tubulação. É necessário conhecer sua localização, identificar o material, documentar a intervenção, atualizar o inventário e atender às exigências de monitoramento e comunicação.
Cada serviço executado produz informações relevantes para comprovar o cumprimento das obrigações. É nesse ambiente que o 120Field busca atuar.
A digitalização permite organizar os registros desde sua origem, reduzindo a dependência de documentos físicos e lançamentos posteriores.
Entretanto, a norma norte-americana não deve ser confundida com as exigências brasileiras. Os dois países possuem estruturas legais, regras de potabilidade e responsabilidades institucionais diferentes.
O aprendizado transferível está principalmente na rastreabilidade e na integração de informações operacionais.
Benchmarking internacional: os resultados que já podem ser observados
Del-Co Water: mais de 800 horas de trabalho economizadas
Um dos exemplos mais interessantes envolvendo a 120Water ocorreu na Del-Co Water Company, responsável pelo abastecimento em uma região de Ohio, nos Estados Unidos.
A companhia precisava organizar milhares de registros sobre os materiais utilizados nas ligações prediais. Grande parte das informações estava armazenada em documentos históricos de construção, dificultando a consolidação do inventário.
Segundo o estudo de caso publicado pela 120Water, o trabalho permitiu processar e padronizar 52.629 registros históricos de infraestrutura em menos de um mês.
O projeto possibilitou identificar o material de 75% das ligações privadas anteriormente classificadas como desconhecidas.
O fornecedor também informa economia superior a 800 horas de trabalho.
A experiência mostra que a inteligência de dados não começa necessariamente com sensores sofisticados ou equipamentos conectados.
Muitas vezes, o primeiro ganho relevante consiste em estruturar informações que a companhia já possui, mas não consegue utilizar adequadamente.
É importante observar que esse resultado pertence a uma implementação anterior da 120Water, e não constitui evidência de desempenho do recém-lançado 120Field.
Newark: tecnologia também precisa chegar ao cliente
Outro exemplo ocorreu em Newark, no estado de Nova Jersey.
A cidade desenvolveu um programa de substituição de ligações com tubulações de chumbo após problemas identificados no monitoramento da água.
Segundo o estudo de caso da 120Water, foram removidas aproximadamente 24 mil ligações em menos de três anos, em um programa com custo superior a US$ 225 milhões.
A empresa participou principalmente da organização de atividades posteriores às substituições, incluindo comunicação com moradores, distribuição de kits de amostragem e acompanhamento de resultados laboratoriais.
A experiência revela que o sucesso de uma intervenção não depende exclusivamente da execução física.
É necessário garantir que o cliente receba as informações corretas, participe dos procedimentos exigidos e tenha seus resultados acompanhados.
A tecnologia contribui para conectar essas etapas.
Contudo, os números apresentados são referentes ao programa completo, desenvolvido por diferentes instituições e contratadas. Não representam economia ou resultados atribuíveis exclusivamente à plataforma.
TeamSolve: conhecimento operacional aplicado às rotinas
A TeamSolve também apresenta experiências com operadores de diferentes países.
No Southington Water Department, nos Estados Unidos, a empresa relata uma aplicação envolvendo digitalização de inspeções e amostragens, integração de dados e acesso a procedimentos técnicos.
A estimativa apresentada por representante da companhia indica potencial de economia de dois a três dias de atividades administrativas por mês com a eliminação de processos manuais.
Trata-se de uma expectativa divulgada em estudo de caso comercial, e não de resultado independente auditado.
Na Austrália e na Nova Zelândia, a Detection Services aparece entre as organizações que utilizam a tecnologia para organizar informações de inspeção e manutenção de tubulações, padronizar procedimentos e apoiar equipes externas.
Essas experiências reforçam a possibilidade de aplicação internacional, embora os resultados ainda precisem ser analisados considerando a realidade de cada operador.
Brasil já apresenta experiências concretas de digitalização operacional
A aplicação da IA no saneamento brasileiro encontra um ambiente em que parte das capacidades necessárias já está sendo desenvolvida.
Embora não seja possível afirmar que as soluções nacionais utilizem exatamente a mesma arquitetura tecnológica do 120Field, algumas experiências permitem comparar resultados e identificar oportunidades.
Iguá: aumento de 22% na produtividade das equipes de campo
A Iguá Saneamento implementou a plataforma Oracle Field Service para aprimorar o planejamento, a distribuição e o acompanhamento de serviços externos.
Antes da implantação, segundo estudo divulgado pela Oracle em maio de 2024, a companhia enfrentava limitações para compreender o tempo consumido nas diferentes etapas da jornada operacional.
O acompanhamento estava concentrado principalmente na quantidade de ordens concluídas dentro ou fora dos prazos.
Com a nova ferramenta, passou a ser possível identificar deslocamentos, execução das atividades, disponibilidade das equipes e localização dos recursos.
O projeto exigiu pouco mais de 300 dias de implantação e contou com uma fase piloto.
Segundo a Oracle, a iniciativa resultou em aumento de 22% na produtividade.
Outro ponto relevante foi a possibilidade de observar como o tempo era distribuído ao longo do expediente.
Na experiência apresentada, equipes de manutenção passaram a dispor de mais de 50% da jornada para execução de atividades, enquanto o período restante era destinado a deslocamentos e outras necessidades operacionais.
O dado mostra que a produtividade não pode ser avaliada apenas pela quantidade de serviços executados.
O tempo de deslocamento, a organização da programação e a distribuição territorial das demandas também precisam ser considerados.
O percentual de 22% é um resultado divulgado em estudo de caso produzido pelo fornecedor, não uma projeção automática de ganho para outras companhias.
Copasa: ordens digitais, fotos e gestão de equipes
A Copasa também possui experiência relevante na transformação das rotinas de campo.
O Sistema Integrado de Gestão de Ordens de Serviço (SIGOS) foi desenvolvido para apoiar a programação e o acompanhamento dos serviços operacionais.
A documentação da plataforma descreve três componentes principais: aplicativo para equipes externas, ferramenta de supervisão e ambiente web para gestores.
Os recursos incluem consulta de redes em mapas, registro fotográfico, atualização de informações de execução e acompanhamento da localização das equipes.
O sistema também contempla utilização com conectividade limitada, a partir de dados previamente carregados.
Uma particularidade importante é o relacionamento entre mobilidade e controle gerencial.
O acompanhamento não se limita à informação de que determinada ordem foi encerrada. Também permite observar a execução, verificar evidências e acompanhar as atividades distribuídas às equipes.
O caso demonstra que parte dos conceitos associados à nova geração de soluções digitais já está presente no saneamento brasileiro.
O próximo desafio está em ampliar a integração entre informações operacionais, comerciais, cadastrais, financeiras e regulatórias.
Cagece: programação integrada aos canais de atendimento
No Ceará, a Cagece também apresenta um modelo interessante de integração da programação operacional.
Em agosto de 2024, a companhia implantou uma Célula de Programação de Serviços na região do Cariri, com sede em Juazeiro do Norte.
Conforme o Relatório de Sustentabilidade 2024 da companhia, a estrutura atende 22 municípios da Unidade de Negócio Bacia do Salgado.
A célula possui programação centralizada e acompanhamento das atividades solicitadas pelos canais de atendimento.
O modelo permite relacionar demandas recebidas dos clientes à programação das equipes responsáveis pela execução.
Essa experiência reforça uma lição importante: antes de aplicar inteligência artificial, é necessário organizar responsabilidades, fluxos de atendimento, critérios de prioridade e dados operacionais.
A tecnologia tende a produzir melhores resultados quando encontra processos já estruturados e indicadores confiáveis.
Regulação brasileira: por que a qualidade dos dados ganhará importância?
A digitalização do trabalho de campo possui relação direta com as exigências regulatórias brasileiras.
A Portaria GM/MS nº 888/2021, que atualizou o Anexo XX da Portaria de Consolidação nº 5/2017 do Ministério da Saúde, estabelece procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano.
As companhias precisam realizar monitoramentos, registrar resultados e cumprir obrigações relacionadas à potabilidade.
O Ministério da Saúde mantém o Sisagua, sistema utilizado para organizar informações sobre abastecimento e qualidade da água.
Um detalhe relevante é que o Sisagua dispõe de mecanismos de integração por serviços web, permitindo a transmissão de determinadas informações de controle sem a necessidade de digitá-las novamente.
Portanto, a possibilidade de conectar sistemas corporativos a plataformas regulatórias não é uma ideia distante da realidade nacional.
No âmbito da ANA, a Norma de Referência nº 9/2024, aprovada pela Resolução nº 211/2024, estabelece diretrizes relacionadas aos indicadores operacionais dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário.
A norma trata da geração de informações primárias, de sua organização por município e da avaliação de sua confiabilidade.
Além disso, prevê que a avaliação operacional considere o nível de confiança de determinadas informações, observada a metodologia aplicável à auditoria e certificação dos dados.
Já a Norma de Referência nº 11/2024, aprovada pela Resolução ANA nº 230/2024, estabelece diretrizes para as condições gerais da prestação dos serviços e contempla obrigações relacionadas à organização e atualização do cadastro das unidades usuárias.
Essas exigências reforçam a importância da integridade das informações utilizadas pelas prestadoras.
Mas existe uma distinção fundamental: digitalizar registros não significa, por si só, comprovar conformidade regulatória.
A empresa continua responsável por garantir que os procedimentos sejam executados corretamente, que os registros sejam confiáveis e que as exigências aplicáveis sejam efetivamente cumpridas.
A IA no saneamento pode apoiar esses processos, mas não transfere ao software a responsabilidade legal e técnica do prestador.
Impactos operacionais, comerciais e financeiros
O potencial da IA no saneamento torna-se mais claro quando a integração entre campo e sistemas corporativos é examinada sob diferentes perspectivas.
Operação e manutenção
A principal oportunidade está em melhorar a consistência dos registros de manutenção.
Com informações estruturadas sobre falhas, intervenções e materiais, torna-se possível identificar ativos que apresentam recorrência de problemas.
Uma válvula submetida a sucessivas manutenções, por exemplo, poderia ser sinalizada para avaliação técnica mais aprofundada.
A mesma lógica pode apoiar a identificação de vazamentos recorrentes, problemas em ramais e falhas em equipamentos eletromecânicos.
Gestão comercial
A integração também pode produzir efeitos importantes nas atividades comerciais.
Substituições de hidrômetros, novas ligações, regularizações cadastrais, inspeções, cortes, religações e verificações de consumo dependem de registros confiáveis.
Uma troca de hidrômetro sem atualização adequada dos dados pode gerar inconsistências de faturamento, reclamações e necessidade de retrabalho.
Com registros digitais estruturados, seria possível relacionar identificação do equipamento retirado, número do novo medidor, leituras, fotografias e data de instalação à matrícula correspondente.
O resultado esperado é uma maior consistência entre execução física, cadastro comercial e faturamento.
Gestão financeira
Sob a perspectiva financeira, a digitalização pode contribuir para reduzir atividades administrativas repetitivas, deslocamentos desnecessários e serviços refeitos.
Também pode melhorar a identificação dos materiais utilizados e a consistência das medições contratuais.
Entretanto, os ganhos dependem do desenho dos processos e da qualidade da implantação.
Não há evidência suficiente para estabelecer um percentual universal de economia financeira decorrente da utilização de IA no saneamento.
Relacionamento com clientes
A informação registrada corretamente em campo também pode melhorar a comunicação com o usuário.
Quando o atendimento possui acesso às etapas executadas, às evidências disponíveis e ao andamento da ordem, torna-se mais fácil prestar informações consistentes.
Isso pode diminuir divergências entre o que a empresa informa e aquilo que o cliente observa no imóvel.
Para companhias com grande volume de serviços comerciais, esse aspecto merece atenção especial.
Como aplicar essa tecnologia em uma companhia brasileira?
A adoção da IA no saneamento não precisa começar com a contratação de uma plataforma complexa.
Uma estratégia consistente pode partir da seleção de um processo crítico, com grande volume de atividades e problemas identificáveis de rastreabilidade.
Um programa de substituição de hidrômetros, por exemplo, pode representar uma oportunidade adequada.
O projeto piloto poderia ser estruturado em cinco etapas.
1. Mapear o processo existente. Identificar onde as informações são registradas, quantas vezes são digitadas, quais áreas utilizam os dados e em que momentos surgem inconsistências.
2. Definir o registro digital mínimo. Estabelecer campos obrigatórios, identificação do executor, horários, geolocalização quando necessária, fotografias e validações técnicas.
3. Integrar os sistemas essenciais. Garantir que os registros relevantes possam atualizar o cadastro comercial, o sistema de ordens de serviço e as bases de ativos, conforme as regras de negócio.
4. Executar um piloto controlado. Selecionar equipes e localidades com condições distintas de conectividade e complexidade operacional. Comparar resultados com uma linha de base anterior.
5. Avaliar os resultados antes de expandir. Verificar se houve redução de retrabalho, aumento de produtividade e melhoria na integridade dos dados, considerando custos de implantação, treinamento e suporte.
A avaliação deve incluir indicadores como tempo médio de execução, percentual de ordens com evidências completas, frequência de retrabalho, prazo de atualização cadastral, erros de sincronização e custo por serviço concluído.
Também é necessário avaliar a experiência dos operadores.
Uma ferramenta que exige muitos campos, apresenta dificuldades de utilização ou aumenta excessivamente o tempo de registro pode comprometer a adesão das equipes.
A digitalização deve simplificar o trabalho, e não apenas transferir novas obrigações administrativas para o profissional em campo.
O que pode dar errado na implantação?
A expansão da IA no saneamento também apresenta riscos que precisam ser tratados desde o planejamento.
O primeiro envolve a qualidade das informações. Uma plataforma pode processar grandes volumes de registros, mas isso não significa que os dados sejam verdadeiros, completos ou tecnicamente adequados.
Fotografias de baixa qualidade, identificação incorreta de ativos e registros realizados em locais diferentes da execução podem comprometer a confiabilidade.
Outro risco está nas integrações incompletas. Uma ordem registrada em aplicativo, mas não refletida no sistema corporativo, cria uma nova fonte de inconsistência.
É o caso dos formulários personalizados do próprio 120Field, cuja sincronização automática ainda possui limitações documentadas.
Também merece atenção o funcionamento sem conexão.
Uma aplicação offline precisa possuir mecanismos seguros de armazenamento, controle de versões, sincronização e tratamento de conflitos. Dados registrados sem internet não se tornam instantaneamente disponíveis para gestores até que a sincronização seja efetivamente concluída.
A segurança da informação constitui outro ponto relevante.
Registros de campo podem envolver identificação de clientes, endereços, fotografias de imóveis, localização de trabalhadores e informações sobre infraestrutura crítica.
No Brasil, o tratamento dessas informações deve observar a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), inclusive quanto às bases legais, finalidade, necessidade, segurança e controle de acesso.
A documentação da ANPD oferece orientações sobre medidas técnicas e administrativas de proteção de dados.
Existe, ainda, o risco de confiança excessiva em respostas produzidas por inteligência artificial.
Orientações incorretas sobre manobras operacionais, manutenção ou segurança podem gerar consequências importantes.
Por isso, atividades críticas devem continuar submetidas a procedimentos aprovados e à supervisão de profissionais habilitados.
A inteligência artificial deve ampliar a capacidade de avaliação das equipes, não substituir o julgamento técnico nem os controles de segurança.
Oportunidade pouco percebida: transformar registros em planejamento de investimentos
Um dos aspectos mais promissores da integração de dados está na possibilidade de utilizar o histórico das intervenções para orientar decisões futuras.
Atualmente, muitas empresas conseguem identificar quantos serviços foram executados em determinado período.
Entretanto, nem sempre conseguem responder com facilidade quais ativos provocam maior gasto de manutenção, onde estão concentrados os problemas recorrentes ou quais intervenções apresentam menor durabilidade.
Quando os registros possuem identificação consistente do ativo, localização, causa da falha, material empregado, custo e histórico, torna-se possível construir análises mais precisas.
Uma companhia poderia, por exemplo, relacionar rompimentos de rede com material, idade estimada, pressão operacional e histórico de reparos.
Essas informações podem apoiar a priorização de substituições, inspeções e investimentos.
Entretanto, essa capacidade depende de modelos analíticos adequados e de bases confiáveis. Não deve ser tratada como uma funcionalidade integralmente demonstrada pelo anúncio do 120Field.
O conceito aponta para uma evolução importante: sair de uma gestão concentrada na conclusão das ordens e avançar para uma gestão baseada no comportamento dos ativos.
Nesse ambiente, a IA no saneamento poderá contribuir para antecipar necessidades e direcionar recursos com maior precisão.
Lições para profissionais e gestores de saneamento
A parceria entre 120Water e TeamSolve oferece aprendizados que ultrapassam a escolha de determinado software.
O primeiro é que o registro operacional não deve ser tratado como uma atividade secundária.
Uma informação correta pode evitar novas visitas, melhorar o planejamento de manutenção, fundamentar respostas a clientes e fortalecer a prestação de contas.
O segundo é que os profissionais de campo precisam participar da construção das soluções.
São eles que conhecem as dificuldades de conectividade, as particularidades das instalações, os riscos de execução e as informações realmente necessárias para concluir um serviço corretamente.
O terceiro aprendizado envolve os gestores.
A capacidade de acompanhar indicadores não deve ser confundida com a capacidade de compreender processos.
Um painel pode indicar que determinada equipe executou menos serviços, mas somente a análise das condições operacionais permitirá avaliar se houve deslocamentos maiores, atividades mais complexas ou dificuldades de acesso.
O quarto está relacionado às áreas de tecnologia.
Integração de sistemas não deve ser conduzida apenas como projeto de informática. Ela exige participação das áreas comerciais, operacionais, de engenharia, regulação, jurídico, segurança da informação e gestão de contratos.
Por fim, o quinto aprendizado é que a inovação precisa demonstrar resultados.
Ferramentas digitais devem ser avaliadas a partir de problemas resolvidos, indicadores melhorados e benefícios efetivamente alcançados.
A adoção da IA no saneamento não é um resultado em si. O resultado está na melhoria da prestação do serviço.
Conclusão: a próxima transformação começa na qualidade da informação
O lançamento do 120Field representa mais uma iniciativa de aproximação entre inteligência artificial, execução operacional e conformidade regulatória.
Seu principal diferencial anunciado não está simplesmente na digitalização de formulários ou na utilização de algoritmos.
Está na tentativa de conectar diretamente o conhecimento produzido pelas equipes externas aos sistemas que sustentam decisões administrativas, técnicas e regulatórias.
Experiências como as da Iguá, Copasa, Cagece, Del-Co Water e Newark demonstram, sob perspectivas diferentes, que a integração de informações pode apoiar produtividade, planejamento, atendimento e rastreabilidade.
Entretanto, os resultados dessas experiências não podem ser automaticamente atribuídos ao novo produto, nem utilizados como garantia de desempenho em outras companhias.
Para o Brasil, a principal oportunidade está em desenvolver processos nos quais os dados sejam registrados corretamente desde a origem, utilizados por diferentes áreas e transformados em decisões verificáveis.
Isso exige tecnologia, mas também exige procedimentos, treinamento, integração, governança e conhecimento profissional.
A IA no saneamento tende a produzir maior valor quando consegue apoiar quem executa o serviço, facilitar o trabalho de quem supervisiona e oferecer informações confiáveis para quem planeja e decide.
O futuro da gestão operacional não será definido apenas pela quantidade de sistemas utilizados pelas companhias, mas pela capacidade de transformar cada intervenção em conhecimento útil para melhorar o próximo serviço.
Fontes e referências
1. Water Online / 120Water — 120Water Partners With TeamSolve To Better Connect Field Data And Water Compliance. 7 de outubro de 2026.
https://www.wateronline.com/doc/water-partners-with-teamsolve-to-better-connect-field-data-and-water-compliance-0001
2. 120Water — 120Field, Product Overview and Frequently Asked Questions. Consulta em outubro de 2026.
https://www.120water.com/120field
3. TeamSolve — Integrations, Knowledge Twin. Consulta em outubro de 2026.
https://teamsolve.com/maintenance-compliance-integrations
4. TeamSolve — Case Studies, Knowledge Twin. Consulta em outubro de 2026.
https://teamsolve.com/maintenance-compliance-impact
5. Environmental Protection Agency (EPA) — Lead and Copper Rule Improvements. Outubro de 2024.
https://www.epa.gov/ground-water-and-drinking-water/lead-and-copper-rule-improvements
6. 120Water — Del-Co Water Uses 120Water Solution to Reduce Private Side Unknowns by 75%. Estudo de caso.
https://www.120water.com/customer-stories/del-co-customer-story
7. 120Water — How Newark, NJ Remediated Their Lead Service Lines in Under 3 Years. Estudo de caso.
https://www.120water.com/customer-stories/newark-story
8. Oracle Brasil — Iguá adota o Oracle Field Service, aperfeiçoa a gestão de seus serviços de campo e aumenta a produtividade em 22%. 31 de maio de 2024.
https://blogs.oracle.com/oracle-brasil/igua-adota-o-oracle-field-service-aperfeicoa-a-gestao-de-seus-servicos-de-campo-e-aumenta-a-produtividade-em-22
9. MaxProcess / Copasa — SIGOS, Termos de Uso e Política de Privacidade. Consulta em outubro de 2026.
https://sigoscopasa.com.br/help/termodeusosigos.html
10. Cagece — Relatório de Sustentabilidade 2024.
https://www.cagece.com.br/wp-content/uploads/PDF/Relat%C3%B3riodeSustentabilidade/RelatoriodeSustentabilidade2024-VF.pdf
11. Ministério da Saúde — Norma de Qualidade da Água para Consumo Humano.
https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/saude-ambiental/vigiagua/norma-de-qualidade
12. Ministério da Saúde — Sisagua, Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano.
https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/saude-ambiental/vigiagua/sisagua
13. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — Resolução ANA nº 211/2024, Norma de Referência nº 9/2024.
https://www.gov.br/ana/pt-br/legislacao/resolucoes/resolucoes-regulatorias/2024/211
14. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — Resolução ANA nº 230/2024, Norma de Referência nº 11/2024.
https://www.gov.br/ana/pt-br/legislacao/resolucoes/resolucoes-regulatorias/2024/230
15. Autoridade Nacional de Proteção de Dados — Guia Orientativo sobre Segurança da Informação para Agentes de Tratamento de Pequeno Porte.
https://www.gov.br/anpd/pt-br/centrais-de-conteudo/materiais-educativos-e-publicacoes/guia-orientativo-sobre-seguranca-da-informacao-para-agentes-de-tratamento-de-pequeno-porte
Saneamento Pro — Inteligência profissional aplicada ao saneamento.



