O Congresso Mundial da Água 2026, realizado em Glasgow, na Escócia, terminou com uma mensagem que pode influenciar diretamente as decisões das companhias de saneamento: construir infraestrutura já não é suficiente. É necessário garantir serviços contínuos, financeiramente sustentáveis, ambientalmente responsáveis e capazes de resistir às mudanças climáticas.
Organizado pela International Water Association (IWA), o evento registrou mais de 8,5 mil participações contabilizadas entre delegados, expositores e visitas à exposição, além de reunir mais de 100 sessões técnicas e 60 workshops. Os debates envolveram inteligência artificial, recuperação de recursos do esgoto, reúso de água, regulação, eficiência operacional e gestão de empresas.
Mas o resultado mais relevante não está na quantidade de apresentações ou nas tecnologias exibidas.
Está na mudança de perspectiva: o futuro do saneamento dependerá menos da capacidade de simplesmente executar obras e mais da competência das empresas para transformar investimentos em serviços eficientes e duradouros.
Para o Brasil, que enfrenta o desafio da universalização até 2033, essa discussão possui consequências práticas. Ela alcança desde a escolha de equipamentos e o planejamento de redes até o faturamento, a redução de perdas, o relacionamento com clientes e a sustentabilidade dos contratos.
A questão estratégica deixada pelo congresso é direta: as companhias brasileiras estão se preparando apenas para ampliar a infraestrutura ou também para operar melhor os sistemas que estão construindo?

O que aconteceu no Congresso Mundial da Água 2026?
O 15º Congresso Mundial da Água e Exposição da IWA ocorreu entre 4 e 8 de outubro de 2026, no Scottish Event Campus, em Glasgow, sob o tema Water action – the path to resilience and prosperity, que pode ser traduzido como “Ação pela água: o caminho para a resiliência e a prosperidade”.
A programação foi organizada em seis grandes eixos técnicos, abrangendo gestão de prestadores, tratamento e recuperação de recursos, água potável e reúso, planejamento urbano, relacionamento com comunidades e gestão sustentável dos recursos hídricos.
Entre os assuntos apresentados estavam tecnologias digitais, inteligência artificial, Internet das Coisas (IoT), contaminantes emergentes, resistência antimicrobiana, soluções baseadas na natureza e neutralidade de carbono.
A programação também contou com fóruns voltados à gestão de utilities — empresas responsáveis por serviços essenciais —, regulação, águas subterrâneas, liderança profissional e resiliência climática.
Um dos momentos centrais foi a realização do encontro de alto nível sobre água para as pessoas, voltado a discutir como compromissos internacionais podem efetivamente resultar em serviços disponíveis à população.
A discussão destacou quatro condições para resultados sustentáveis: instituições capazes de executar políticas, profissionais qualificados, financiamento de longo prazo e mecanismos de responsabilização.
Esses elementos serão considerados nas contribuições da IWA para a Conferência das Nações Unidas sobre a Água de 2026, programada para 8 a 10 de dezembro, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.
Portanto, o Congresso Mundial da Água 2026 não anunciou uma nova obrigação global para as empresas de saneamento. Seu principal resultado foi consolidar uma agenda técnica e institucional que pode orientar políticas públicas, investimentos e práticas operacionais.
Por que o mundo está discutindo a entrega dos serviços?
Os números internacionais ajudam a compreender a preocupação.
Segundo o relatório de 2025 do Programa Conjunto de Monitoramento da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do UNICEF, com dados referentes a 2024, aproximadamente 2,1 bilhões de pessoas ainda não possuíam acesso à água potável gerenciada de forma segura.
No esgotamento sanitário, o déficit era ainda maior: 3,4 bilhões de pessoas não tinham acesso a serviços gerenciados de forma segura.
Esses indicadores precisam ser interpretados corretamente.
Água gerenciada de forma segura significa que o serviço utiliza uma fonte melhorada, disponível nas instalações do usuário, acessível quando necessário e livre de contaminação relevante.
Não basta existir uma tubulação na rua.
No esgotamento, a classificação considera também o gerenciamento seguro dos resíduos, seja por sistemas coletivos ou soluções individuais adequadas.
Isso explica por que um município pode apresentar expansão de redes e, simultaneamente, continuar enfrentando problemas de continuidade, qualidade e atendimento efetivo.
Uma nova ligação de água representa avanço na cobertura. Entretanto, se o abastecimento é intermitente, a pressão é inadequada ou a água não atende aos parâmetros sanitários, o serviço ainda apresenta deficiências importantes.
O mesmo acontece quando redes coletoras de esgoto são implantadas, mas os imóveis não são conectados, o esgoto não chega adequadamente ao tratamento ou a infraestrutura opera abaixo de sua capacidade.
A universalização física e a universalização efetiva dos serviços não são necessariamente a mesma coisa.
Essa distinção é uma das principais lições que o debate internacional oferece aos profissionais brasileiros.
Congresso Mundial da Água 2026 e o desafio brasileiro de 2033
No Brasil, a Lei nº 14.026/2020 estabeleceu metas de atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033, observadas as disposições legais e contratuais aplicáveis.
Além da expansão do atendimento, o marco legal contempla metas de continuidade, redução de perdas e melhoria dos processos de tratamento.
Consequentemente, o desempenho das companhias precisa ser avaliado por um conjunto de resultados, e não somente pela quantidade de quilômetros de redes construídos.
O Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) constitui um instrumento importante para essa avaliação.
Os resultados do SINISA 2025, publicados pelo Ministério das Cidades com referência ao ano de 2024, abrangem informações de abastecimento de água, esgotamento sanitário, resíduos sólidos, águas pluviais e gestão municipal.
Essas bases oferecem subsídios para comparar prestadores, identificar deficiências e melhorar a qualidade do planejamento.
Entretanto, números nacionais ou estaduais não substituem diagnósticos locais.
Dois municípios com indicadores semelhantes de cobertura podem ter realidades completamente diferentes em perdas, continuidade, idade dos ativos, disponibilidade hídrica, capacidade de pagamento e condições de operação.
Nesse contexto, a mensagem de Glasgow é especialmente relevante: o investimento precisa ser acompanhado por capacidade de operação, manutenção, financiamento e gestão comercial.
Uma estação construída sem recursos suficientes para operar, uma rede implantada sem cadastro confiável ou uma ampliação de esgoto sem adesão dos imóveis podem comprometer os resultados esperados.
1. Redução de perdas: a água mais barata pode estar na rede
Um dos caminhos mais importantes para ampliar a segurança hídrica é melhorar o aproveitamento da água que já é produzida.
As perdas na distribuição possuem duas componentes principais.
As perdas reais são os volumes desperdiçados fisicamente em vazamentos, rompimentos e extravasamentos.
As perdas aparentes estão relacionadas a consumos não registrados corretamente, incluindo submedição de hidrômetros, fraudes e falhas cadastrais.
A distinção é fundamental porque cada problema exige intervenções diferentes.
Nas perdas reais, as medidas incluem setorização, controle de pressão, pesquisa de vazamentos, renovação de tubulações e melhoria da manutenção.
Nas perdas aparentes, ganham importância a micromedição, a substituição de hidrômetros, o controle de irregularidades, a atualização cadastral e a qualidade do processo de leitura e faturamento.
O Congresso Mundial da Água 2026 dedicou espaço à gestão de utilities e às tecnologias digitais, reforçando a relevância de decisões fundamentadas em dados.
No Brasil, essa agenda possui correspondência regulatória concreta.
A Norma de Referência ANA nº 15/2025 estabelece diretrizes para a gestão progressiva e o controle de perdas nos sistemas de distribuição.
O normativo contempla diagnóstico por balanço hídrico, indicadores, planos de gestão e acompanhamento de resultados.
Também admite o emprego de tecnologias como telemetria, sensores de vazão e pressão, georreferenciamento e medição inteligente.
O aspecto mais relevante é a necessidade de justificar tecnicamente e economicamente as ações.
Uma companhia não deve substituir hidrômetros ou instalar sensores indiscriminadamente. É necessário identificar onde cada investimento oferece maior benefício operacional e financeiro.
Para gestores comerciais, isso significa que cadastro, faturamento, micromedição e combate a fraudes fazem parte da estratégia de segurança hídrica.
Para gestores operacionais, significa que reduzir vazamentos também pode representar menor necessidade de captação, tratamento e bombeamento.
2. Reúso de água: a experiência brasileira já oferece resultados
Uma tendência importante da agenda internacional é tratar o esgoto não apenas como um resíduo a ser removido, mas também como uma fonte potencial de água recuperada.
No Brasil, a Sabesp apresenta uma experiência consolidada nessa área.
A companhia informa que iniciou a produção de água de reúso em 1998, com a transformação da Estação de Tratamento de Esgotos Jesus Netto.
Em sua página institucional sobre subprodutos de esgoto, a Sabesp informa uma produção média de 502 litros por segundo de água de reúso, considerando as unidades Jesus Netto, Parque Novo Mundo, São Miguel e ABC, esta última associada ao Aquapolo Ambiental.
O projeto Aquapolo constitui uma referência brasileira no fornecimento de água de reúso para aplicações industriais.
A lógica é estratégica: determinados processos produtivos não necessitam utilizar água com padrão de potabilidade, desde que a água recuperada atenda às exigências técnicas e sanitárias correspondentes ao uso pretendido.
A aplicação pode reduzir a demanda industrial por água potável e preservar disponibilidade para outros consumidores.
Entretanto, o modelo exige análise de qualidade, confiabilidade, logística, contratos de fornecimento e viabilidade econômica.
A principal lição para as companhias é que o reúso pode deixar de ser apenas uma iniciativa ambiental e passar a integrar a estratégia de gestão de recursos hídricos e atendimento a grandes consumidores.
Para áreas comerciais, abre-se a possibilidade de desenvolver soluções específicas para clientes industriais, considerando demanda, qualidade necessária, investimento, custos operacionais e condições contratuais.
3. Economia circular: a Sanepar mostra como transformar lodo em recurso
A recuperação de recursos do esgoto também esteve presente no Congresso Mundial da Água 2026, incluindo trabalhos sobre processos biológicos de tratamento, biossólidos e valorização de subprodutos.
No Brasil, a Sanepar desenvolve uma experiência diretamente relacionada a essa agenda.
Por meio do SaneBio, a Companhia de Saneamento do Paraná transforma lodo de esgoto tratado e higienizado em insumo destinado à agricultura, observadas as exigências técnicas, ambientais e agronômicas.
Segundo informações divulgadas pela própria companhia em outubro de 2026, a gestão de quase 300 mil toneladas de lodo úmido produzidas em 269 estações de tratamento de esgoto demandou mais de R$ 60 milhões em 2025.
Esse valor demonstra que o lodo não representa apenas uma questão ambiental. Ele também constitui um componente expressivo do custo operacional.
No terceiro edital de disponibilização do SaneBio em 2026, a empresa ofertou 5,5 mil toneladas do produto.
A iniciativa permite avaliar caminhos para transformar parte de um passivo operacional em insumo com utilização produtiva.
Isso não significa que todo lodo possa ser destinado à agricultura ou que qualquer sistema de tratamento consiga reproduzir o modelo.
A aplicação depende de características físico-químicas e microbiológicas, processos de higienização, licenciamento, rastreabilidade e análise agronômica.
A experiência da Sanepar está alinhada à discussão internacional sobre economia circular: reduzir desperdícios, aproveitar nutrientes e diminuir a necessidade de disposição final.
Para gestores, a oportunidade consiste em avaliar o custo total do gerenciamento de resíduos e comparar alternativas tecnológicas de tratamento, transporte, aproveitamento e destinação.
4. Eficiência energética: o exemplo da Scottish Water
A relação entre consumo de energia e saneamento ganhou relevância nos debates internacionais sobre resiliência climática.
A experiência da Scottish Water, operadora pública responsável pelos serviços de água e esgoto na Escócia, demonstra como essa discussão pode ser convertida em projetos operacionais.
Em junho de 2025, a empresa anunciou a implantação de um sistema de geração solar na estação de tratamento de água de Milngavie, responsável pelo abastecimento de uma importante área da região de Glasgow.
O empreendimento recebeu investimento de aproximadamente 946 mil libras esterlinas e envolveu a instalação de 1.421 painéis fotovoltaicos.
Segundo a companhia, a geração prevista é de 0,75 GWh por ano, equivalente a aproximadamente 8% da necessidade energética da instalação.
A redução estimada é de cerca de 120 toneladas de dióxido de carbono equivalente por ano.
Os resultados de geração e emissões apresentados são projeções divulgadas pela empresa, e não devem ser confundidos com desempenho anual já comprovado.
O caso oferece uma lição importante: a eficiência energética não depende exclusivamente de grandes empreendimentos de geração.
Ela pode resultar da combinação de geração local, controle operacional, equipamentos eficientes e planejamento de investimentos.
Para uma companhia brasileira, a avaliação deve considerar perfil de consumo, tarifa de energia, disponibilidade de área, condições de conexão, custos de manutenção e retorno econômico.
A geração renovável deve ser analisada em conjunto com medidas capazes de reduzir a própria necessidade de consumo energético.
Bombas operando fora do ponto adequado, equipamentos superdimensionados e falta de controle operacional podem comprometer a economia esperada.
O aprendizado de Glasgow é que a sustentabilidade precisa integrar as decisões de engenharia e operação, e não permanecer restrita a compromissos institucionais.
5. O modelo de Singapura: transformar esgoto tratado em segurança hídrica
Entre as referências internacionais, Singapura oferece uma das experiências mais relevantes em reúso e gestão integrada da água.
A agência nacional PUB desenvolveu o programa NEWater, que utiliza processos avançados para produzir água recuperada de elevada qualidade.
O tratamento emprega barreiras tecnológicas como microfiltração ou ultrafiltração, osmose reversa e desinfecção por radiação ultravioleta. Configurações mais recentes também podem incorporar biorreatores com membranas.
O resultado é uma água utilizada principalmente em atividades industriais e sistemas de resfriamento.
O fornecimento ocorre por infraestrutura específica, enquanto uma parcela também pode contribuir indiretamente para o abastecimento potável, por meio de reservatórios e posterior tratamento.
A inovação não está apenas na tecnologia.
Está na integração entre planejamento hídrico, infraestrutura, regulação, gestão da demanda e relacionamento com usuários industriais.
Desde janeiro de 2024, Singapura estabelece requisitos obrigatórios de reciclagem para determinadas novas instalações industriais de elevado consumo de água.
Para novos projetos enquadrados nas regras, com consumo anual de pelo menos 60 mil metros cúbicos, as fábricas de semicondutores que realizam determinadas etapas de fabricação devem observar taxa mínima de reciclagem de 50%.
O modelo demonstra como instrumentos regulatórios podem estimular eficiência hídrica no setor produtivo.
Para o Brasil, a aplicação não seria automática.
Diferenças de disponibilidade hídrica, regulação, custos, demanda industrial e características regionais exigem estudos específicos.
Entretanto, a experiência demonstra que políticas de reúso podem ser estruturadas como estratégia permanente de segurança hídrica, e não somente como resposta emergencial a períodos de seca.
6. Inteligência artificial: o desafio não é produzir mais dados
O programa técnico do Congresso Mundial da Água 2026 incluiu inteligência artificial e Internet das Coisas entre os temas de transformação digital.
Essas tecnologias possuem aplicações potenciais em praticamente todas as áreas de uma companhia.
Na distribuição de água, algoritmos podem auxiliar na identificação de padrões anormais de consumo, vazão e pressão.
Na manutenção, podem apoiar a priorização de ativos com maior risco de falha.
No atendimento, ferramentas digitais podem melhorar a classificação de solicitações, a previsão de demanda e o encaminhamento de serviços.
Na gestão comercial, modelos analíticos podem apoiar a identificação de inconsistências cadastrais, submedição, anomalias de faturamento e comportamentos associados à inadimplência.
Entretanto, a implantação de inteligência artificial não garante resultados automaticamente.
Sistemas alimentados com cadastros incompletos, medições inconsistentes ou históricos pouco confiáveis podem produzir recomendações equivocadas.
Por isso, a aplicação exige governança de dados, integração entre sistemas, validação dos modelos, segurança da informação e participação dos profissionais responsáveis pelas decisões.
Uma ferramenta capaz de identificar uma anomalia em segundos pode ter pouca utilidade se a companhia demora semanas para confirmar o problema e executar a intervenção.
O ganho real da digitalização ocorre quando a informação gera uma decisão operacional melhor e essa decisão produz um resultado mensurável.
Essa é uma distinção essencial entre modernização tecnológica e transformação efetiva da gestão.
7. Resiliência climática: 41 companhias reconhecidas pela IWA
Um resultado adicional do encontro em Glasgow foi o reconhecimento de 41 empresas e prestadores de serviços de água e esgoto no programa Climate Smart Utilities, iniciativa da IWA apoiada pela Xylem.
A edição de 2026 recebeu 152 candidaturas.
Entre as 41 organizações reconhecidas, 21 foram classificadas na categoria Entrant e 20 na categoria Achiever. Sete obtiveram o reconhecimento Outstanding.
O programa trabalha com três pilares: adaptação, mitigação e liderança.
A adaptação está relacionada à capacidade de lidar com impactos climáticos, incluindo estiagens, enchentes e danos à infraestrutura.
A mitigação envolve medidas para reduzir emissões e impactos associados às atividades.
A liderança considera a capacidade de incorporar essas ações às decisões organizacionais e de estimular cooperação.
O reconhecimento das 41 organizações não significa que todas tenham alcançado neutralidade climática ou resultados operacionais equivalentes. As categorias representam diferentes estágios de desenvolvimento.
Para as companhias brasileiras, a experiência sugere um caminho: integrar riscos climáticos aos planos operacionais e de investimento.
Isso inclui avaliar vulnerabilidade de captações, reservatórios, estações elevatórias, instalações elétricas, redes e sistemas de atendimento.
Uma estação localizada em área sujeita a alagamentos, por exemplo, pode exigir medidas diferentes das necessárias em um sistema vulnerável à escassez hídrica.
O planejamento deve refletir riscos concretos, e não apenas reproduzir metas ambientais genéricas.
O que os trabalhos científicos premiados revelam sobre o futuro?
Os pôsteres científicos reconhecidos no Congresso Mundial da Água 2026 também ajudam a identificar linhas de investigação relevantes.
Entre eles, destacaram-se estudos sobre remoção biológica de nitrogênio pelo processo anammox, tratamento avançado por biorreatores com membranas, reúso de água, gestão de sistemas descentralizados e monitoramento de poluição por técnicas de fluorescência.
O processo anammox utiliza microrganismos capazes de realizar a conversão de formas de nitrogênio por uma rota biológica que, em determinadas configurações, pode reduzir necessidades de aeração e insumos em comparação com processos convencionais.
Já os biorreatores com membranas combinam tratamento biológico e separação física, permitindo produzir efluentes com características adequadas para etapas adicionais de tratamento.
O estudo premiado sobre essa tecnologia apresentou evidências de dois projetos-piloto de longa duração em Estocolmo, na Suécia, relacionados ao tratamento quaternário e ao reúso.
Outro trabalho premiado abordou o uso de assinaturas de fluorescência para monitorar e identificar fontes de poluição em rios urbanos durante eventos de chuva.
Essa abordagem busca reconhecer características ópticas associadas a substâncias presentes na água, ampliando possibilidades de monitoramento.
É importante diferenciar reconhecimento científico de validação comercial definitiva.
Os prêmios indicam relevância dos estudos avaliados, mas não comprovam que todas as tecnologias apresentadas sejam economicamente viáveis ou aplicáveis a qualquer sistema.
A decisão de implantação exige testes, análise de custos, avaliação ambiental e compatibilidade com a infraestrutura existente.
Impactos para a gestão comercial, financeira e regulatória
Um dos aspectos menos evidentes do Congresso Mundial da Água 2026 é a conexão entre inovação técnica e desempenho econômico das companhias.
Reduzir perdas aparentes pode recuperar volumes consumidos que não são adequadamente registrados.
Melhorar a continuidade do abastecimento pode reduzir reclamações e elevar a confiança dos usuários.
Aumentar a adesão ao sistema de esgotamento sanitário pode melhorar a utilização da infraestrutura e contribuir para a sustentabilidade financeira do serviço.
A recuperação de recursos do esgoto pode reduzir determinados custos de destinação e criar possibilidades de aproveitamento econômico.
Esses resultados dependem de integração entre áreas que frequentemente trabalham com indicadores e prioridades distintos.
A operação controla pressão, vazão e continuidade. A manutenção acompanha falhas e intervenções. A área comercial administra consumo, cadastro, faturamento e relacionamento. O financeiro avalia receitas, custos e investimentos. A regulação estabelece parâmetros e acompanha obrigações.
Quando essas informações permanecem isoladas, oportunidades podem deixar de ser identificadas.
Um exemplo é a substituição de hidrômetros.
A área comercial pode avaliar potencial de recuperação de faturamento, enquanto a operação observa características hidráulicas e a engenharia considera especificações e condições de instalação.
A decisão integrada permite priorizar substituições com maior benefício esperado, respeitando exigências metrológicas e regulatórias.
O mesmo raciocínio se aplica à expansão das redes de esgoto.
Uma obra somente alcança integralmente seu objetivo quando existem condições para utilização efetiva do sistema, incluindo conexão dos imóveis, funcionamento hidráulico, tratamento e sustentabilidade da operação.
O que gestores de saneamento podem aplicar imediatamente?
A principal contribuição prática do encontro de Glasgow está na possibilidade de transformar tendências internacionais em agendas de melhoria adaptadas à realidade de cada prestador.
Sete ações merecem prioridade:
- Revisar os indicadores de desempenho: acompanhar não apenas obras e expansão, mas também continuidade, pressão, perdas, qualidade, atendimento e resultados econômico-financeiros.
- Integrar operação e gestão comercial: cruzar informações de produção, macromedição, micromedição, cadastro e faturamento para localizar oportunidades de eficiência.
- Identificar projetos de reúso viáveis: mapear demanda industrial, qualidade requerida, disponibilidade de efluente tratado e custos de implantação e operação.
- Avaliar o aproveitamento de subprodutos: estudar alternativas tecnicamente seguras para lodo, biogás, nutrientes e energia, observadas as condições ambientais e regulatórias.
- Priorizar tecnologia com retorno mensurável: exigir diagnóstico, linha de base, metas e critérios de avaliação antes de ampliar investimentos em digitalização.
- Incorporar riscos climáticos aos planos operacionais: identificar ativos críticos, vulnerabilidades e medidas de contingência associadas a eventos extremos.
- Fortalecer a capacitação profissional: desenvolver competências em análise de dados, eficiência energética, inovação, regulação, gestão de ativos e avaliação econômico-financeira.
Essas ações não representam compromissos formalmente aprovados no congresso para todas as empresas. São recomendações técnicas decorrentes da análise das tendências discutidas e das experiências verificadas.
O que pode dar errado ao importar soluções internacionais?
O benchmarking é uma ferramenta importante, mas sua utilização exige cuidado.
Uma solução de reúso economicamente viável em uma região com escassez severa pode apresentar retorno insuficiente em um município com demanda industrial limitada.
Um sistema de automação adequado a uma grande companhia pode gerar custos desproporcionais para um operador de pequeno porte.
Uma tecnologia de tratamento pode funcionar bem em condições controladas e apresentar dificuldades quando submetida às características reais do efluente de outra instalação.
Também existe o risco de concentrar investimentos na aquisição de equipamentos e negligenciar capacitação, manutenção, integração e segurança operacional.
Portanto, modelos internacionais precisam ser analisados considerando disponibilidade de recursos, escala, maturidade institucional, requisitos regulatórios e custos de ciclo de vida.
A comparação mais útil não consiste em perguntar qual companhia possui a tecnologia mais moderna.
Consiste em identificar qual problema foi resolvido, por quais meios, com que custo e quais resultados foram efetivamente comprovados.
Essa abordagem reduz o risco de investimentos orientados exclusivamente pelo interesse em inovação.
O papel dos profissionais será ainda mais decisivo
A programação de Glasgow valorizou explicitamente a liderança, a formação profissional e a competência das equipes.
A competição operacional realizada durante o congresso, vencida pela Adler & Allan, colocou em evidência atividades práticas e habilidades necessárias à prestação dos serviços.
Isso representa um reconhecimento relevante.
A eficiência de uma companhia não depende apenas das decisões da alta administração ou de investimentos em grandes projetos.
Depende também da capacidade do profissional que identifica um vazamento, calibra um instrumento, interpreta uma análise laboratorial, executa uma ligação, avalia uma ocorrência comercial ou corrige uma inconsistência cadastral.
São essas atividades que transformam planejamento em resultado.
Ao mesmo tempo, a evolução tecnológica amplia a importância de competências multidisciplinares.
Engenheiros precisarão compreender melhor custos, dados e sustentabilidade. Profissionais comerciais deverão conhecer com maior profundidade a operação. Especialistas em tecnologia precisarão entender os processos que pretendem automatizar.
Gestores terão de combinar indicadores técnicos, financeiros, ambientais e de relacionamento com o cliente.
Essa integração pode ser tão importante quanto a aquisição de novas tecnologias.
O que esperar depois do Congresso Mundial da Água 2026?
O encerramento de Glasgow não representa a conclusão das discussões.
A Conferência das Nações Unidas sobre a Água, prevista para dezembro de 2026, constitui um próximo espaço internacional para transformar prioridades em compromissos e iniciativas de cooperação.
A próxima edição do Congresso Mundial da Água da IWA está prevista para 2028, em Kuching, no estado de Sarawak, na Malásia.
Até lá, uma das principais questões será verificar se as iniciativas apresentadas em 2026 conseguirão avançar de experiências isoladas para aplicações reproduzíveis e resultados operacionais comprovados.
No Brasil, essa avaliação coincide com uma etapa decisiva da preparação para as metas de universalização de 2033.
As companhias enfrentarão simultaneamente a necessidade de expandir serviços, modernizar infraestrutura, reduzir custos, controlar perdas, aperfeiçoar o relacionamento com os usuários e aumentar a capacidade de adaptação às mudanças climáticas.
O desafio será conciliar esses objetivos com recursos financeiros limitados e exigências crescentes de desempenho.
Conclusão: o futuro do saneamento será definido pela capacidade de executar
O Congresso Mundial da Água 2026 deixou uma mensagem importante para o setor: inovação não deve ser medida pela quantidade de equipamentos adquiridos, sistemas implantados ou projetos anunciados.
Seu valor está na capacidade de produzir melhorias verificáveis na prestação dos serviços.
As experiências da Sabesp com reúso, da Sanepar com valorização do lodo, da Scottish Water com geração renovável e de Singapura com gestão integrada da água demonstram caminhos diferentes para enfrentar um desafio comum: utilizar melhor os recursos disponíveis.
Nenhum desses modelos representa uma solução universal.
Cada um revela a importância de compreender problemas, estabelecer prioridades, selecionar tecnologias adequadas e acompanhar resultados.
Para o saneamento brasileiro, essa é uma orientação particularmente relevante.
A universalização exigirá grandes investimentos, mas o sucesso também dependerá da qualidade dos cadastros, da eficiência da operação, da gestão de contratos, da capacitação das equipes, da sustentabilidade financeira e da confiança dos clientes.
O Congresso Mundial da Água 2026 reforça, portanto, uma mudança que merece orientar as decisões do setor: a companhia de saneamento do futuro não será necessariamente aquela que mais investe em tecnologia, mas aquela que consegue transformar conhecimento, recursos e competência profissional em serviços melhores para a população.
Fontes e referências
International Water Association (IWA) — 2026 IWA World Water Congress & Exhibition concludes in Glasgow with a renewed call for global water action. 15 de outubro de 2026. Acessar publicação oficial.
International Water Association (IWA) — 41 Water Utilities Recognised at the IWA World Water Congress & Exhibition 2026 in Glasgow, One Shared Goal: Building Climate-Resilient Water Services. 14 de outubro de 2026. Acessar publicação oficial.
IWA World Water Congress & Exhibition — Programme Overview. Programação técnica oficial de 2026. Consultar programação.
IWA World Water Congress & Exhibition — Forums and Summit. Programação temática oficial de 2026. Consultar fóruns.
Organização Mundial da Saúde (OMS) e UNICEF — Progress on Household Drinking Water, Sanitation and Hygiene 2000–2024: Special Focus on Inequalities. 2025. Consultar relatório.
UN-Water — 2026 UN Water Conference: revised dates. 25 de maio de 2026. Acessar comunicado.
Ministério das Cidades — Resultados SINISA 2025. Dados referentes a 2024. Publicação de dezembro de 2025, com atualização em julho de 2026. Consultar resultados.
Presidência da República — Lei nº 14.026, de 15 de julho de 2020. Atualização do marco legal do saneamento básico. Consultar legislação.
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) — Resolução ANA nº 275/2025 — Norma de Referência nº 15/2025. Diretrizes para redução progressiva e controle de perdas de água. Dezembro de 2025. Consultar norma.
Sabesp — Subprodutos de Esgotos — Água de Reúso. Página institucional, sem data de publicação informada. Consultar informações.
Sanepar — Produtores rurais têm até 11 de outubro para adquirir o fertilizante agrícola da Sanepar. 5 de outubro de 2026. Acessar publicação.
Sanepar — SaneBio. Informações institucionais sobre biossólidos, processo de higienização e utilização agrícola. Sem data de publicação informada. Consultar projeto.
Scottish Water — Major New Solar Scheme at Milngavie. 25 de junho de 2025. Acessar estudo de caso.
PUB — Singapore’s National Water Agency — NEWater. Informações técnicas sobre o tratamento e a utilização de água recuperada. Sem data de publicação informada. Consultar tecnologia.
PUB — Singapore’s National Water Agency — Mandatory Water Efficiency Requirements. Requisitos regulatórios aplicáveis a determinadas atividades industriais desde janeiro de 2024. Consultar requisitos.



