A Fenasan 2026 reúne 479 expositores em 37 mil metros quadrados, mas algumas das tecnologias anunciadas para a feira têm potencial para produzir transformações muito maiores do que simplesmente modernizar equipamentos. Sistemas capazes de antecipar falhas em bombas, monitorar o consumo de água em intervalos de minutos, identificar regiões vulneráveis de adutoras enterradas e tratar água por processos modulares mostram como a inovação pode alterar diretamente a operação e os resultados financeiros das companhias de saneamento.
Realizada entre 20 e 22 de outubro, no Expo Center Norte, em São Paulo, a Fenasan 2026 ocorre em um momento decisivo: as empresas precisam ampliar investimentos, reduzir perdas, controlar despesas operacionais e avançar na universalização dos serviços até 2033.
A organização projetou aproximadamente 40 mil visitantes para os três dias do evento, que também recebe o 37º Encontro Técnico AESabesp.
Entre centenas de soluções disponíveis, o Saneamento Pro selecionou oito frentes de inovação com relevância técnica e potencial de aplicação prática.
A seleção considera tecnologias e projetos anunciados oficialmente pelos expositores até 21 de outubro. Não representa uma premiação, classificação oficial da feira ou comprovação independente de desempenho. Parte das soluções já possui aplicações comerciais; outras foram apresentadas como lançamentos, demonstrações ou projetos em desenvolvimento.
A questão mais importante não é simplesmente descobrir qual equipamento é mais moderno. É identificar quais tecnologias podem reduzir custos, recuperar receitas, prevenir falhas e melhorar o serviço prestado à população.
1. Hidrômetros inteligentes: a medição começa a trabalhar para a gestão
Uma das principais tendências da Fenasan 2026 é a transformação do hidrômetro de simples registrador de consumo em fonte contínua de informações operacionais e comerciais.
A CONAUT anunciou demonstrações com medidores ultrassônicos ARAD SONATA e OCTAVE, conectados por redes LoRaWAN e NB-IoT. Na bancada preparada para o evento, os instrumentos enviam dados em intervalos configurados de cinco ou dez minutos.
As redes LoRaWAN e NB-IoT são tecnologias de comunicação voltadas à transmissão de pequenos volumes de dados por dispositivos conectados. Possuem arquiteturas, requisitos de infraestrutura, cobertura e modelos de operação diferentes.
A solução permite que as informações captadas pelos medidores sejam transmitidas para uma plataforma de acompanhamento, sem depender exclusivamente de deslocamentos periódicos para leitura.
A demonstração da CONAUT inclui medidores ultrassônicos com razão metrológica R500 e instrumentos para aplicações residenciais e de maior vazão. A empresa também apresenta recursos para verificação de hidrômetros em campo.
A SDB Metering, representante da alemã Diehl Metering, destaca o medidor volumétrico Altair V5 e a linha ultrassônica HYDRUS 2.0, com funcionalidades de telemetria e integração de dados.
Já a Group Link One apresenta uma plataforma que combina hardware, software, dados contínuos e inteligência artificial para apoiar o acompanhamento de consumo e a identificação de anomalias.
O que realmente muda?
Tradicionalmente, muitas companhias conhecem o consumo de determinada matrícula apenas quando a leitura mensal é realizada.
Com infraestrutura de medição avançada, torna-se possível identificar padrões de consumo e gerar alertas antes do fechamento do ciclo comercial.
Na prática, essas informações podem apoiar:
- Identificação de consumo contínuo compatível com possíveis vazamentos internos.
- Detecção de anomalias e alterações abruptas no consumo.
- Priorização de inspeções comerciais.
- Melhoria na previsibilidade do faturamento.
- Redução de leituras estimadas.
- Comunicação preventiva com consumidores.
Entretanto, telemetria não significa automaticamente redução de perdas.
O resultado depende da qualidade metrológica dos instrumentos, da cobertura de comunicação, da integração com os sistemas comerciais e, principalmente, da capacidade de transformar alertas em ações.
Um medidor pode transmitir milhares de informações sem produzir qualquer benefício financeiro se a companhia não possuir processos para analisar as ocorrências.
Benchmarking: Sabesp e Singapura
No Brasil, a Sabesp iniciou a implantação de hidrômetros inteligentes em São Paulo e São José dos Campos em dezembro de 2025. A companhia informou a previsão de superar um milhão de equipamentos implantados em 2026, objetivo que não deve ser confundido com quantidade já executada.
Em Singapura, a agência nacional de águas, PUB, informa ter implantado aproximadamente 300 mil hidrômetros inteligentes na primeira fase de seu programa.
A experiência internacional vai além da leitura remota: os consumidores podem acompanhar o uso da água por meio de plataforma digital, estabelecer metas e receber alertas de possíveis vazamentos ou consumo elevado.
A principal lição é que o valor da medição inteligente não está exclusivamente no equipamento. Está na capacidade de conectar medição, relacionamento com o cliente, faturamento e gestão operacional.
2. Inteligência artificial que antecipa defeitos em bombas e motores
Entre as tecnologias anunciadas na Fenasan 2026, uma chama atenção por modificar a forma como falhas eletromecânicas podem ser identificadas.
A startup brasileira 2Neuron apresenta o Ultronline, solução de manutenção preditiva que analisa sinais elétricos de equipamentos para identificar anomalias mecânicas e elétricas.
A proposta utiliza inteligência artificial para reconhecer comportamentos diferentes dos padrões esperados de operação.
O método pode reduzir a necessidade de instalar sensores adicionais diretamente sobre cada componente mecânico monitorado. Isso não significa dispensar instrumentação: o sistema depende da aquisição adequada de sinais elétricos.
Segundo informações divulgadas pela empresa, a tecnologia já é utilizada por organizações como Sabesp, BRK Ambiental e Águas do Rio, do grupo Aegea, além de clientes industriais.
Não foram apresentados, nas fontes consultadas, resultados auditados e comparáveis de redução de falhas ou economia operacional em todas essas aplicações.
Como funciona a manutenção preditiva?
Motores elétricos apresentam padrões de corrente e tensão relacionados às condições de funcionamento.
Determinadas alterações nesses sinais podem indicar comportamentos anormais associados a problemas mecânicos, elétricos ou operacionais.
A análise computacional procura identificar essas alterações e apoiar o planejamento de intervenções antes que ocorra uma parada inesperada.
Imagine uma elevatória responsável pelo abastecimento de uma região com milhares de consumidores.
Uma falha não programada pode exigir mobilização emergencial, substituição de componentes, utilização de sistemas de contingência e interrupção do abastecimento.
Prevenir uma falha pode representar muito mais do que economizar manutenção: pode evitar perda de faturamento, despesas emergenciais e impactos sobre os consumidores.
Porém, sistemas preditivos também podem produzir falsos alarmes. A precisão depende da qualidade dos dados, das condições operacionais e da validação dos modelos.
A adoção deve começar por equipamentos críticos, com histórico consistente de falhas e consequências operacionais relevantes.
3. RupiX: encontrar riscos nas adutoras antes do rompimento
Outra inovação relevante da Fenasan 2026 é apresentada pela Morken Brasil.
O RupiX propõe uma metodologia integrada para avaliar a integridade de tubulações enterradas de aço carbono, combinando diferentes tipos de inspeção e análise de risco.
O método foi concebido especialmente para situações em que a inspeção interna com equipamentos instrumentados apresenta restrições técnicas.
A proposta combina informações de georreferenciamento, características do solo, proteção catódica, revestimento anticorrosivo e inspeções magnéticas.
Esses elementos permitem identificar regiões que merecem investigação mais detalhada.
Por que isso importa?
Uma grande adutora pode operar durante anos sem apresentar vazamento visível, embora determinados trechos estejam sujeitos à corrosão ou à deterioração.
Quando ocorre uma ruptura, as consequências podem envolver desabastecimento, danos ao pavimento, perda expressiva de água tratada, despesas emergenciais e repercussões públicas.
A metodologia RupiX organiza a avaliação em dez etapas, começando pela localização da tubulação e avançando até inspeções direcionadas, estudos de integridade e definição das intervenções necessárias.
É importante observar que a identificação de uma região com maior risco não equivale à comprovação de um defeito estrutural. Em determinadas situações, são necessários ensaios adicionais ou escavações localizadas.
O diferencial está em reduzir a dependência de intervenções exclusivamente corretivas e orientar investimentos a partir de informações técnicas.
Como aplicar
Uma companhia pode começar pelas adutoras que apresentam maior combinação de criticidade e consequência de falha.
O diagnóstico deve considerar idade, material, histórico de rompimentos, pressão de operação, agressividade do solo, importância para o abastecimento e existência de redundância operacional.
A inspeção passa a integrar uma estratégia de gestão de ativos, em vez de ser utilizada apenas depois de uma ocorrência.
Essa abordagem pode ser especialmente relevante em sistemas antigos, nos quais a documentação cadastral é incompleta.
4. Bombas inteligentes e inversores: eficiência energética como estratégia
O consumo de energia elétrica permanece entre os componentes relevantes do custo operacional de numerosos sistemas de abastecimento e esgotamento sanitário.
Na Fenasan 2026, a ABB destaca soluções voltadas à automação de sistemas de bombeamento.
Entre os equipamentos anunciados está o inversor de frequência de média tensão ACS580MV, destinado a motores com potências entre 200 kW e 6,3 MW.
A empresa também apresenta a linha ACQ580, desenvolvida para aplicações de bombeamento, com funcionalidades relacionadas a vazão, nível e proteção do sistema.
Um inversor de frequência permite ajustar a rotação de motores elétricos conforme as necessidades da operação.
Em sistemas de bombeamento nos quais a demanda varia, o controle adequado pode reduzir consumo energético e diminuir esforços mecânicos.
Entretanto, a economia não é automática. Ela depende das curvas das bombas, das características hidráulicas, das perdas de carga, da altura geométrica e do regime operacional.
A NETZSCH também apresenta soluções de bombeamento e monitoramento inteligente, incluindo o sistema NORIUS, que acompanha parâmetros operacionais e permite a emissão de alertas.
O benchmark brasileiro
A Sanepar já descreveu iniciativas envolvendo automação, substituição de equipamentos, otimização hidráulica e utilização de inversores de frequência para melhorar a eficiência energética.
Essa experiência revela uma questão fundamental: modernizar o acionamento elétrico sem avaliar o sistema hidráulico completo pode limitar o benefício esperado.
Uma bomba instalada em condições inadequadas continuará desperdiçando energia mesmo acompanhada de instrumentos modernos.
Oportunidade financeira
O indicador mais importante para muitas aplicações é o consumo específico de energia, medido em kWh por metro cúbico bombeado ou tratado.
A análise deve acompanhar também pressão, vazão, disponibilidade e custos de manutenção.
O cálculo do retorno financeiro precisa considerar energia efetivamente economizada, investimento inicial, despesas de implantação, manutenção e vida útil.
Para os gestores, uma das principais oportunidades está em combinar engenharia hidráulica, automação e gestão dos contratos de energia, e não apenas substituir equipamentos.
5. Dessalinização e tratamento modular: respostas para cenários de escassez
A Ecosan Sustentabilidade apresenta na Fenasan 2026 soluções modulares para tratamento de água, efluentes, reúso e dessalinização.
Um dos destaques é o sistema UFBOX-60, unidade de ultrafiltração instalada em contêiner, com capacidade nominal de 60 litros por segundo.
A empresa também anuncia soluções de osmose reversa e tratamento modular de efluentes.
O conceito modular procura concentrar equipamentos e componentes em unidades que podem facilitar determinadas etapas de implantação e expansão.
O projeto de Ilhabela
A Ecosan apresenta uma maquete do projeto de dessalinização desenvolvido para a Sabesp em Ilhabela, no litoral paulista.
Segundo o material divulgado, o empreendimento prevê capacidade de produção de 30 litros por segundo, com atendimento estimado a aproximadamente oito mil habitantes.
O projeto combina ultrafiltração e osmose reversa.
Na ultrafiltração, membranas promovem a separação de partículas e determinados contaminantes conforme suas características e condições de operação.
A osmose reversa utiliza membranas e pressão para separar sais dissolvidos e outros constituintes da água.
A combinação pode ampliar as possibilidades de tratamento de fontes alternativas.
É necessário distinguir a capacidade projetada da produção real: os números de Ilhabela são apresentados como parâmetros de projeto, não como desempenho operacional já comprovado.
Como o mundo enfrenta esse problema?
Na Austrália Ocidental, a dessalinização faz parte da estratégia de segurança hídrica de Perth.
Segundo a Water Corporation, a água dessalinizada representou aproximadamente 38% das fontes de abastecimento do sistema integrado em 2024–2025.
A comparação não significa que o modelo australiano possa ser simplesmente replicado em municípios brasileiros.
Dessalinização exige análise de qualidade da água bruta, consumo energético, tratamento e destinação do concentrado salino, custos operacionais e impactos ambientais.
A lição internacional é que diversificar fontes pode reduzir a exposição dos sistemas às variações climáticas.
Para municípios litorâneos, ilhas e regiões com disponibilidade hídrica limitada, tecnologias modulares podem representar alternativas de reforço de abastecimento, desde que a viabilidade seja demonstrada.
6. Ultrassom para controlar algas: inovação com atenção sanitária
A Fluid Feeder apresenta na Fenasan 2026 o SolaRaft-QDB, desenvolvido pela norte-americana Hydro BioScience.
O equipamento é uma plataforma flutuante alimentada por energia solar que utiliza ultrassom para atuar no controle de algas e cianobactérias em ambientes aquáticos.
O objetivo anunciado é oferecer uma alternativa de intervenção que não dependa da dosagem de produtos químicos algicidas.
O assunto é relevante porque florações de cianobactérias podem criar dificuldades operacionais, afetar características da água e representar riscos à saúde quando associadas à produção de toxinas.
A tecnologia resolve o problema?
Ainda não é possível responder de forma universal.
A efetividade de métodos ultrassônicos depende de condições ambientais, características da população de organismos, configuração dos equipamentos e resultados de campo.
Também é necessário distinguir redução de biomassa algal, controle de floração e remoção de cianotoxinas.
Uma eventual redução na quantidade de células não comprova automaticamente que a água está livre de toxinas.
A Organização Mundial da Saúde recomenda uma abordagem de gestão de riscos envolvendo monitoramento, prevenção e tratamento adequado.
No Brasil, a Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece exigências para o controle da qualidade da água destinada ao consumo humano.
A norma também veda o uso de algicidas ou intervenções que provoquem lise celular no manancial de abastecimento, em razão dos riscos associados à liberação de cianotoxinas.
Portanto, qualquer aplicação de ultrassom em manancial de abastecimento precisa demonstrar que seu mecanismo e suas condições de operação são compatíveis com essas exigências.
Essa talvez seja uma das lições mais importantes da Fenasan 2026: uma tecnologia ambientalmente atraente só se transforma em solução de saneamento quando comprova segurança sanitária e conformidade regulatória.
A aplicação responsável exige ensaios controlados, avaliação da integridade celular, acompanhamento de cianotoxinas e validação pelas equipes técnicas responsáveis.
7. Desaguamento de lodo e elevatórias compactas: inovação menos visível, mas econômica
Nem toda inovação relevante utiliza inteligência artificial.
A Axson, fabricante brasileira de equipamentos de separação sólido-líquido, apresenta duas soluções: uma prensa parafuso do tipo camisa perfurada e uma peneira autolimpante.
A prensa atua no desaguamento do lodo gerado nas estações de tratamento.
Por meio de compressão mecânica, parte da água é separada, produzindo material com menor teor de umidade.
Onde está a economia?
O transporte e a destinação de lodo podem representar despesas expressivas, dependendo das características da estação e do modelo contratado.
Quando o desaguamento reduz a massa destinada, pode haver economia de transporte e disposição final.
Entretanto, o resultado precisa ser avaliado pelo teor de sólidos obtido, consumo energético, utilização de polímeros, manutenção e exigências de destinação ambiental.
Uma redução aparente de volume não constitui, isoladamente, prova de menor custo global.
A peneira autolimpante, por sua vez, procura reduzir a entrada de sólidos que podem danificar bombas ou comprometer etapas posteriores do tratamento.
Na mesma edição, a Pumps Brasil anuncia a Big Master, estação elevatória compacta de esgoto nas versões com volumes de 4.500 e 5.500 litros.
A proposta é atender aplicações que exigem estruturas de maior porte, incluindo determinadas instalações em vias públicas.
É importante não confundir o volume da unidade com sua capacidade de bombeamento. O dimensionamento deve considerar vazão afluente, altura manométrica, frequência de partidas, redundância e condições de manutenção.
O aprendizado
Pequenas melhorias em etapas críticas podem produzir benefícios recorrentes durante muitos anos.
Para uma companhia, o equipamento mais interessante nem sempre será o mais sofisticado, mas aquele que apresentar melhor custo do ciclo de vida e maior confiabilidade nas condições reais de operação.
8. Métodos não destrutivos e Tec Arena: a inovação chega também à execução das obras
A Fenasan 2026 também dedica espaço à transformação da implantação e manutenção da infraestrutura.
O São Paulo No-Dig Show 2026, organizado em parceria com a Associação Brasileira de Tecnologias Não Destrutivas (Abratt), possui área anunciada de 1.620 metros quadrados.
O espaço reúne soluções de métodos não destrutivos, conhecidos internacionalmente como trenchless technologies.
Essas técnicas incluem alternativas para instalar, substituir ou recuperar tubulações reduzindo a necessidade de abertura contínua de valas.
Por que isso pode mudar a expansão do saneamento?
Obras convencionais em áreas urbanas podem exigir interdições, escavações extensas, recomposição de pavimento e interferências com redes existentes.
Em situações tecnicamente adequadas, métodos não destrutivos podem reduzir parte desses impactos.
Entretanto, a comparação econômica precisa considerar não apenas o preço direto da execução, mas também condições geotécnicas, acessos, interferências, riscos, prazo e custos sociais.
Uma técnica que apresente custo direto superior pode, em determinadas situações, oferecer vantagens no custo global do empreendimento.
A outra novidade da edição é a Fenasan Tec Arena, espaço dedicado à transformação digital, startups, demonstrações tecnológicas e compartilhamento de experiências.
A iniciativa indica um movimento relevante: aproximar empresas de tecnologia dos profissionais que enfrentam diariamente os problemas operacionais das concessionárias.
O maior desafio será transformar esse relacionamento em projetos efetivamente implantados, monitorados e sustentáveis.
Como as companhias brasileiras estão avançando
As tecnologias destacadas na Fenasan 2026 não surgem em um ambiente sem experiências anteriores.
A Sabesp apresenta iniciativas de medição inteligente, redução de perdas e digitalização de sistemas.
A Sanepar possui experiências documentadas de otimização de bombeamento e eficiência energética.
Empresas como BRK Ambiental e Águas do Rio também aparecem entre as organizações apontadas pela 2Neuron como usuárias de sua tecnologia.
Esses exemplos demonstram diferentes níveis de incorporação de soluções digitais ao saneamento brasileiro.
No entanto, existe uma diferença importante entre possuir uma ferramenta tecnológica e comprovar seus resultados.
A referência mais útil para outras companhias não é o nome do fornecedor, mas o conjunto formado por problema identificado, investimento, método de implantação, indicadores e resultado efetivamente alcançado.
Um caso de sucesso que não informa a linha de base, o período de avaliação ou as condições operacionais pode oferecer inspiração, mas não constitui prova suficiente para estimar o retorno de outro investimento.
O que a experiência internacional ensina
As experiências de Singapura, Austrália e Inglaterra ajudam a compreender diferentes caminhos para transformar tecnologia em eficiência.
Em Singapura, a medição inteligente está associada ao acompanhamento do consumo pelo próprio cliente e à identificação de anomalias.
Na Austrália Ocidental, a diversificação das fontes de abastecimento foi incorporada ao planejamento diante de mudanças na disponibilidade hídrica.
Na Inglaterra e no País de Gales, a reguladora Ofwat estabeleceu uma meta de redução adicional de aproximadamente 17% nos vazamentos para o período regulatório de 2025 a 2030.
A entidade também informa a previsão regulatória de recursos para apoiar a instalação de 10,4 milhões de hidrômetros inteligentes entre 2025 e 2030.
Esses números representam metas e previsões de investimento, não resultados integralmente realizados.
O aspecto comum é que a tecnologia está inserida em programas estruturados, com planejamento, acompanhamento e objetivos mensuráveis.
Para o saneamento brasileiro, essa abordagem é especialmente relevante diante das metas contratuais de universalização, continuidade e redução de perdas.
Impactos operacionais, comerciais e financeiros
As inovações da Fenasan 2026 podem gerar resultados diferentes conforme a área responsável pela implantação.
Na operação, monitoramento preditivo, automação e inspeções de integridade podem apoiar a redução de paradas não programadas e a melhoria da confiabilidade.
Na manutenção, informações sobre condição dos equipamentos podem permitir decisões mais bem fundamentadas sobre reparos, substituições e prioridades de investimento.
Na gestão comercial, medição inteligente pode contribuir para melhorar a qualidade das leituras, investigar anomalias e fortalecer o relacionamento com clientes.
Na engenharia, tecnologias modulares e métodos não destrutivos ampliam as alternativas disponíveis para concepção de sistemas e execução de obras.
Na gestão financeira, eficiência energética, redução de perdas e diminuição de despesas de manutenção podem contribuir para resultados positivos, desde que os ganhos superem os custos da solução.
Na regulação, investimentos devem estar relacionados à prestação adequada do serviço, à eficiência e às exigências contratuais e normativas.
A Norma de Referência ANA nº 15/2025, aprovada pela Resolução nº 275/2025, estabelece diretrizes para a gestão de redução progressiva e controle de perdas na distribuição de água potável.
Essa referência reforça a necessidade de diagnóstico, planejamento e acompanhamento dos resultados, em vez de ações tecnológicas isoladas.
Como transformar as novidades da Fenasan 2026 em projetos reais
O primeiro passo para utilizar as inovações não deve ser a abertura imediata de uma licitação.
A decisão precisa começar pelo problema que se pretende resolver.
Uma metodologia aplicável às companhias pode ser organizada em seis etapas.
1. Definir o problema operacional ou comercial
Identificar equipamentos críticos, áreas com perdas relevantes, sistemas com consumo energético elevado, falhas recorrentes ou oportunidades de melhorar a medição.
2. Construir uma linha de base
Levantar indicadores antes da implantação da tecnologia. Sem referência inicial, torna-se difícil comprovar ganhos.
3. Estabelecer requisitos técnicos
Avaliar compatibilidade com sistemas existentes, interoperabilidade, disponibilidade de assistência técnica, segurança cibernética, precisão metrológica e condições de manutenção.
4. Executar um projeto-piloto
Selecionar instalações representativas e acompanhar a solução durante um período adequado às características operacionais.
5. Medir o benefício econômico
Comparar investimento, custos de operação, manutenção, ganhos efetivos e riscos. O retorno não deve ser calculado apenas com base em estimativas comerciais do fabricante.
6. Ampliar de maneira controlada
Após validação técnica e econômica, estruturar uma expansão por etapas, com treinamento das equipes e revisão de processos.
Cinco indicadores que merecem acompanhamento
- Perdas de água: evolução dos volumes perdidos e dos indicadores específicos, distinguindo perdas reais e aparentes.
- Energia: kWh por metro cúbico bombeado ou tratado, observadas as condições hidráulicas.
- Manutenção: disponibilidade dos ativos, falhas não programadas e custos por equipamento.
- Gestão comercial: percentual de leituras efetivas, anomalias tratadas, correções de faturamento e reclamações.
- Tratamento: conformidade da qualidade da água e dos efluentes, consumo de insumos e custo por metro cúbico.
Esses indicadores permitem avaliar resultados com maior consistência do que simplesmente acompanhar a quantidade de equipamentos instalados.
O que pode dar errado na adoção dessas tecnologias?
O entusiasmo gerado por uma feira de inovação não elimina os riscos de implantação.
Entre os principais estão a compra de soluções incompatíveis com os sistemas existentes, a dependência excessiva de um fornecedor, a ausência de infraestrutura de comunicação e a contratação sem critérios claros de desempenho.
Também existem riscos associados à segurança da informação.
Quanto maior o número de equipamentos conectados, maior a necessidade de proteger redes operacionais, acessos remotos, credenciais e dados dos consumidores.
Para tecnologias baseadas em inteligência artificial, é fundamental verificar como os algoritmos são avaliados, quais informações utilizam e quem assume a responsabilidade pelas decisões operacionais.
Outro risco está na falta de capacitação.
Uma companhia pode instalar sistemas avançados e continuar tomando decisões da mesma maneira caso os profissionais não sejam preparados para utilizar as informações produzidas.
Comprar tecnologia sem transformar processos pode resultar apenas em uma operação antiga equipada com dispositivos novos.
Oportunidades pouco percebidas pelos gestores
A principal oportunidade talvez não esteja na aquisição individual de cada inovação, mas na integração entre diferentes soluções.
Um exemplo é a combinação de medição inteligente, informações comerciais, balanço hídrico e análise de dados para priorizar intervenções em regiões com perdas relevantes.
Outro é integrar manutenção preditiva, automação de bombeamento e controle energético para melhorar simultaneamente confiabilidade e eficiência.
Na gestão de ativos, inspeções de integridade podem fornecer informações para direcionar investimentos, enquanto métodos não destrutivos podem ampliar as alternativas de execução das intervenções necessárias.
Essas combinações exigem uma gestão que ultrapasse os limites tradicionais de cada departamento.
Operação, manutenção, engenharia, tecnologia da informação, planejamento, suprimentos, gestão comercial e regulação precisam compartilhar objetivos e indicadores.
É justamente nessa integração que determinadas companhias podem encontrar os maiores ganhos de produtividade.
Lições da Fenasan 2026 para os profissionais de saneamento
A evolução tecnológica também modifica as competências exigidas das equipes.
Técnicos e operadores passam a lidar com informações digitais, alarmes, sistemas conectados e equipamentos automatizados.
Engenheiros precisam compreender não apenas o dimensionamento tradicional, mas também as possibilidades de instrumentação, conectividade, monitoramento e análise de dados.
Gestores comerciais passam a ter oportunidades de integrar medição, faturamento, identificação de anomalias e comunicação preventiva.
Profissionais de manutenção precisam interpretar dados de condição dos ativos e diferenciar alertas relevantes de ocorrências sem impacto operacional.
Especialistas em regulação e contratação devem desenvolver capacidade de avaliar desempenho, riscos, custos de ciclo de vida e conformidade das novas soluções.
Entretanto, a experiência prática continua indispensável.
O conhecimento de um operador sobre os padrões de funcionamento de uma elevatória, por exemplo, pode ser decisivo para interpretar corretamente um alerta produzido por inteligência artificial.
Da mesma forma, a experiência de equipes de campo pode identificar problemas que não aparecem imediatamente em um painel digital.
A inovação mais consistente combina conhecimento operacional, engenharia, gestão e tecnologia. Não substitui a competência profissional: aumenta sua capacidade de produzir resultados.
Conclusão: a maior inovação não é o equipamento
As tecnologias anunciadas na Fenasan 2026 evidenciam um movimento de transformação do saneamento.
Medição inteligente, inteligência artificial, manutenção preditiva, inspeções integradas, automação energética e tratamento modular ampliam as possibilidades de atuação das companhias.
Mas o avanço não deve ser medido pela quantidade de softwares adquiridos, sensores instalados ou equipamentos substituídos.
A transformação acontece quando as informações passam a orientar decisões melhores.
Uma tecnologia de medição somente produzirá valor se contribuir para melhorar processos comerciais, reduzir perdas ou apoiar o cliente.
Um algoritmo preditivo precisará demonstrar que auxilia a manutenção e reduz consequências operacionais.
Uma solução de tratamento deverá comprovar segurança, conformidade e viabilidade econômica.
É nesse ponto que a Fenasan 2026 deixa de ser apenas uma vitrine de fornecedores e se transforma em oportunidade de desenvolvimento profissional.
A principal lição para o futuro do saneamento é clara: a vantagem não estará necessariamente nas companhias que comprarem mais tecnologia, mas naquelas que conseguirem utilizá-la para prestar serviços melhores, com maior eficiência e responsabilidade.
Para os profissionais, compreender essas inovações significa ampliar a capacidade de propor soluções, avaliar investimentos, prevenir problemas e participar das decisões que vão definir a evolução do setor.
Fontes e referências
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18 de agosto de 2026. Dados oficiais sobre área de exposição, expositores e público esperado.
https://fenasan.com.br/2026/08/18/marco-historico-fenasan-2026-atinge-100-de-ocupacao-dois-meses-antes-da-realizacao/
AESabesp / Fenasan — Releases dos expositores 2026.
Publicações da edição de outubro de 2026. Informações e anúncios das empresas participantes.
https://fenasan.com.br/releases-dos-expositores/
AESabesp / Fenasan — Fenasan Tec Arena cria novo espaço para inovação no setor.
21 de setembro de 2026.
https://fenasan.com.br/2026/09/21/fenasan-tec-arena-cria-novo-espaco-para-inovacao-no-setor/
AESabesp / Fenasan — São Paulo No-Dig Show 2026.
Página oficial da programação.
https://fenasan.com.br/no-dig-show-2026/
CONAUT / Fenasan — CONAUT conecta medição e dados com IoT na Fenasan 2026.
18 de outubro de 2026. Características da demonstração de medição e telemetria.
https://fenasan.com.br/2026/10/18/conaut-conecta-medicao-e-dados-com-iot-na-fenasan-2026/
SDB Metering / Diehl Metering — Tecnologia de medição da Diehl Metering está de volta à Fenasan.
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https://fenasan.com.br/2026/10/08/tecnologia-de-medicao-da-diehl-metering-esta-de-volta-a-fenasan/
Group Link One / Fenasan — Inteligência para o combate a perdas de água.
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Morken Brasil / Fenasan — Metodologia integrada para prevenir perdas em adutoras enterradas.
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https://fenasan.com.br/2026/10/18/abb-traz-solucoes-para-economia-de-energia/
NETZSCH / Fenasan — Soluções para bombeamento de alta capacidade e monitoramento inteligente.
30 de setembro de 2026.
https://fenasan.com.br/2026/09/30/netzsch-do-brasil-leva-a-fenasan-2026-solucoes-para-bombeamento-de-alta-capacidade-e-monitoramento-inteligente-para-o-saneamento/
Ecosan Sustentabilidade / Fenasan — Soluções modulares e projetos de Ilhabela e Manaus.
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https://fenasan.com.br/2026/10/14/ecosan-destaca-solucoes-modulares-e-apresenta-projetos-de-ilhabela-e-manaus-na-fenasan-2026/
Fluid Feeder / Fenasan — Tecnologia para controle de algas e cianobactérias.
18 de outubro de 2026.
https://fenasan.com.br/2026/10/18/fluid-feeder-leva-tecnologia-para-controle-de-algas-e-cianobacterias-a-fenasan-2026/
Axson / Fenasan — Prensa parafuso e peneira autolimpante para o saneamento.
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https://fenasan.com.br/2026/10/18/axson-apresenta-na-fenasan-2026-prensa-parafuso-tipo-camisa-perfurada-e-peneira-autolimpante-em-demonstracao-para-o-saneamento/
Pumps Brasil / Fenasan — Lançamento da estação elevatória Big Master.
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https://fenasan.com.br/2026/09/30/pumps-brasil-lanca-a-big-master-sua-maior-estacao-elevatoria-de-esgoto-na-fenasan-2026/
Sabesp — Hidrômetros Inteligentes.
Página institucional consultada em outubro de 2026.
https://www.sabesp.com.br/a-sabesp/inovacao-e-tecnologia/hidrometros-inteligentes
Sanepar — Produção e distribuição de água também dependem do fornecimento de energia elétrica.
Publicação institucional sobre eficiência energética, modernização e otimização de bombeamento.
https://site.sanepar.com.br/noticias/producao-e-distribuicao-de-agua-tambem-dependem-do-fornecimento-de-energia-eletrica
PUB — Singapore’s National Water Agency — Smart Water Meter.
Página oficial do programa de medição inteligente, consultada em outubro de 2026.
https://www.pub.gov.sg/Public/KeyInitiatives/Smart-Water-Meter
Water Corporation — Dam Levels: How Perth’s Water Sources Have Changed.
Informações oficiais sobre fontes de abastecimento e composição de 2024–2025.
https://www.watercorporation.com.au/our-water/rainfall-and-dams/dam-levels
Ofwat — Leakage.
Página da reguladora de água da Inglaterra e do País de Gales sobre metas, incentivos e investimentos regulatórios.
https://www.ofwat.gov.uk/households/supply-and-standards/leakage/
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — Resolução ANA nº 275/2025, Norma de Referência nº 15/2025.
18 de dezembro de 2025. Diretrizes para redução progressiva e controle de perdas.
https://www.gov.br/ana/pt-br/legislacao/resolucoes/resolucoes-regulatorias/2025/275/
Ministério da Saúde — Portaria GM/MS nº 888/2021.
24 de maio de 2021. Procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e padrão de potabilidade.
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2021/prt0888_24_05_2021_rep.html
Organização Mundial da Saúde — Management of Cyanobacteria in Drinking-Water Supplies, 2nd edition.
25 de novembro de 2024. Documento técnico sobre monitoramento e gestão de riscos associados às cianobactérias.
https://www.who.int/publications/i/item/B09130
Ministério das Cidades — Marco Legal do Saneamento.
Página oficial sobre o marco regulatório e metas de universalização.
https://www.gov.br/cidades/pt-br/assuntos/saneamento/marco-legal-do-saneamento
Nota editorial: artigo produzido com base em publicações oficiais da organização, comunicados técnicos dos expositores, informações de operadoras e fontes regulatórias e internacionais. Os benefícios anunciados pelos fabricantes foram tratados como propostas tecnológicas, não como resultados independentes comprovados. Apuração realizada em 21 de outubro de 2026, durante a realização da feira.



