Água em Ponta Grossa: Sanepar ressarce após crise

A crise de gosto e odor que atingiu a água em Ponta Grossa no início de 2026 chegou a uma nova etapa: a Sanepar iniciou o ressarcimento de consumidores que comprovarem gastos com água mineral entre 26 de janeiro e 28 de fevereiro e, além disso, assumiu o pagamento de R$ 5 milhões ao Fundo Municipal de Direitos Difusos. O episódio, porém, vai muito além de uma indenização. Ele expõe um desafio cada vez mais relevante para companhias de saneamento: como manter a confiança do consumidor quando a água atende aos parâmetros de segurança sanitária, mas apresenta características sensoriais que geram rejeição.

O problema foi associado a uma hiperfloração de cianobactérias na Represa de Alagados, favorecida por período prolongado de chuvas abaixo da média, temperaturas elevadas e maior concentração de nutrientes no reservatório. Como consequência, a presença de geosmina alterou a percepção de gosto e odor. A Sanepar informou que a água distribuída permaneceu dentro dos padrões de potabilidade, enquanto ajustava o tratamento para remover o composto responsável pela alteração sensorial.

O que aconteceu com a água em Ponta Grossa

As reclamações ganharam força entre o fim de janeiro e fevereiro de 2026. Moradores de diferentes regiões relataram cheiro e gosto atípicos na água distribuída. Em 25 de fevereiro, Sanepar, IDR-Paraná, Instituto Água e Terra, Adapar e Simepar divulgaram comunicado conjunto explicando que a forte proliferação de algas na Represa de Alagados estava relacionada, principalmente, à combinação entre baixa precipitação, menor volume de água no reservatório, temperaturas elevadas e concentração de nutrientes.

Esse conjunto de fatores cria condições favoráveis à multiplicação acelerada de cianobactérias. Embora sejam organismos encontrados naturalmente em ambientes aquáticos, determinadas espécies podem formar florações intensas quando encontram luz, calor e nutrientes em quantidade adequada. Além disso, algumas cianobactérias podem produzir compostos que alteram cheiro e sabor e, em determinadas situações, também podem produzir cianotoxinas. Por essa razão, o monitoramento precisa avaliar tanto a aceitação sensorial quanto os parâmetros relacionados à segurança sanitária.

No caso da água em Ponta Grossa, o composto identificado como responsável pela alteração de gosto e odor foi a geosmina. A substância é conhecida por produzir cheiro terroso ou de terra molhada mesmo em concentrações extremamente baixas. A Organização Mundial da Saúde aponta que geosmina e 2-metilisoborneol, conhecido como MIB, estão entre os compostos de gosto e odor mais frequentemente associados a episódios de rejeição da água de abastecimento.

Geosmina: por que tão pouca quantidade causa tanto incômodo

A geosmina merece atenção porque o nariz humano consegue percebê-la em concentrações muito pequenas. Referência técnica da Organização Mundial da Saúde indica limiar de percepção de odor em torno de 4 nanogramas por litro. Portanto, uma água pode apresentar um cheiro muito perceptível antes que a concentração do composto represente, por si só, uma evidência de risco toxicológico.

Esse ponto é fundamental para profissionais do saneamento. Potabilidade e aceitação não são conceitos idênticos. Uma água pode atender a diversos parâmetros microbiológicos e químicos e, ainda assim, ser rejeitada pelo consumidor por gosto, odor ou aparência. Além disso, a própria Portaria GM/MS nº 888/2021 inclui gosto e odor entre os parâmetros organolépticos de potabilidade e estabelece valor máximo de intensidade 6 para esse atributo.

Assim, a crise da água em Ponta Grossa mostra que o controle de qualidade não termina no resultado laboratorial de segurança. A experiência do usuário também precisa integrar a gestão operacional. Se o consumidor abre a torneira e sente um odor forte, a percepção imediata pode ser de insegurança, mesmo quando as análises indicam conformidade em parâmetros relacionados à saúde.

Esse é um ponto importante para todo o saneamento brasileiro: água segura também precisa parecer segura ao consumidor. Quando isso não acontece, o problema deixa de ser somente laboratorial e passa a envolver operação, relacionamento, reputação, regulação e gestão de crise.

O que a Sanepar fez para corrigir o problema

A resposta operacional envolveu diferentes frentes. Inicialmente, a companhia intensificou o monitoramento da floração e ajustou o processo de tratamento. Entre as medidas divulgadas estiveram a aplicação de carvão ativado, mudanças no ponto de aplicação desse produto e ajustes rigorosos na dosagem de dióxido de cloro.

Além disso, nos momentos mais críticos, a participação da Represa de Alagados na produção foi reduzida. Segundo a Sanepar, a parcela de água proveniente desse manancial caiu de aproximadamente 28% para 12%, diminuindo a carga de água afetada pela floração que chegava ao processo de tratamento.

A Estação de Tratamento de Água de Ponta Grossa também dispõe de sistema de tratamento com microareia apresentado pela Sanepar como tecnologia importante para lidar com as características do manancial. A estrutura funciona desde 2009. Entretanto, eventos extremos de floração mostram que uma ETA moderna ainda depende de monitoramento contínuo, ajustes operacionais rápidos, conhecimento do manancial e capacidade de combinar diferentes barreiras de tratamento.

Em 6 de março, a Sanepar informou que as otimizações adotadas haviam conseguido eliminar 100% da presença de geosmina identificada no processo de tratamento, normalizando as características sensoriais da água em Ponta Grossa. A companhia atribuiu o resultado, entre outros fatores, ao uso de carvão ativado, às adequações em sua aplicação, ao controle do dióxido de cloro e à redução temporária da contribuição de Alagados.

A fiscalização mostrou a importância do controle externo

A Agepar realizou fiscalização em 26 de fevereiro na ETA Pitangui, na captação da Represa de Alagados e na captação do Rio Pitangui. A equipe reguladora confirmou a existência de significativa floração de algas no reservatório e verificou as medidas que estavam sendo adotadas para reduzir os efeitos sobre a água distribuída.

Esse tipo de fiscalização é relevante porque crises de qualidade da água exigem evidências verificáveis. Portanto, além do autocontrole executado pela prestadora, a atuação de agência reguladora, Vigilância Sanitária, Ministério Público e poder público municipal amplia a transparência e contribui para a confiança institucional.

Ao mesmo tempo, o caso reforça a importância dos profissionais de saneamento. Operadores de ETA, engenheiros, químicos, biólogos, técnicos de laboratório, especialistas em recursos hídricos, equipes de manutenção, atendimento ao cliente, comunicação e regulação precisam atuar de forma integrada. Em situações dessa natureza, nenhuma área consegue solucionar o problema isoladamente.

O que a legislação exige diante de cianobactérias

A Portaria GM/MS nº 888/2021 determina que sistemas abastecidos por mananciais superficiais façam monitoramento para identificação e contagem de células de cianobactérias. Quando a contagem supera 10 mil células por mililitro, a frequência do monitoramento de cianobactérias passa a ser semanal.

A norma também estabelece controles específicos para cianotoxinas, como microcistinas, cilindrospermopsinas e saxitoxinas. Além disso, veda o uso de algicidas ou intervenções que provoquem lise das células de cianobactérias no manancial, justamente porque a ruptura celular pode liberar substâncias presentes no interior desses organismos.

Na prática, isso significa que uma floração não pode ser tratada apenas como um problema de odor. Para proteger a água em Ponta Grossa ou qualquer outro sistema de abastecimento, o controle precisa acompanhar a evolução das espécies presentes, densidade de células, clorofila-a, cianotoxinas quando aplicável, nutrientes, condições meteorológicas e desempenho das barreiras de tratamento.

Por que houve ressarcimento aos consumidores

Em maio, o Ministério Público do Paraná e a Sanepar firmaram Termo de Ajustamento de Conduta relacionado aos prejuízos materiais e danos coletivos decorrentes do fornecimento de água com odor e gosto desagradáveis. O acordo foi celebrado no âmbito de inquérito civil da 6ª Promotoria de Justiça de Ponta Grossa. Posteriormente, foi homologado pelo Conselho Superior do MPPR em 11 de agosto de 2026.

A partir de 14 de agosto, a Sanepar iniciou o processo de ressarcimento. Podem solicitar reembolso os clientes que comprovarem despesas com aquisição de água mineral realizadas entre 26 de janeiro e 28 de fevereiro de 2026. São aceitos documentos contemporâneos aos fatos, como notas fiscais, cupons fiscais ou recibos. Após o requerimento, análise e aprovação, o depósito deve ocorrer em até 30 dias.

Além do ressarcimento individual, o acordo prevê R$ 5 milhões para o Fundo Municipal de Direitos Difusos de Ponta Grossa. O pagamento será feito em cinco parcelas mensais de R$ 1 milhão, com a primeira prevista para setembro de 2026.

O TAC também reforça que a gestão da água em Ponta Grossa não se encerra com a compensação financeira. Entre as obrigações divulgadas está a manutenção do monitoramento contínuo da qualidade. Em caso de nova alteração nos padrões de potabilidade ou de aceitação, está prevista comunicação aos órgãos competentes e apresentação de relatório técnico detalhado.

Portanto, o acordo possui uma dimensão que interessa diretamente à gestão das empresas de saneamento. Um problema operacional pode gerar consequências muito além da ETA: custos de reparação, mobilização jurídica, fiscalização regulatória, pressão institucional, aumento da demanda de atendimento e danos à confiança do consumidor.

A principal lição: água potável também precisa ser confiável

Para as companhias de saneamento, talvez essa seja a maior lição do episódio. A entrega de água segura é a obrigação central, porém a confiança do consumidor depende também de estabilidade sensorial, comunicação rápida e transparência.

Em uma crise de gosto e odor, repetir apenas que a água está potável pode ser tecnicamente insuficiente para responder à preocupação da população. É necessário explicar qual composto está provocando o problema, de onde ele veio, quais parâmetros foram analisados, quais riscos foram descartados, quais medidas estão sendo executadas e qual indicador determinará a normalização.

Consequentemente, o gerenciamento da água em Ponta Grossa mostra que qualidade técnica e experiência do consumidor precisam ser tratadas de forma conjunta. A percepção sensorial é também um indicador operacional e reputacional. Quando um grande número de consumidores percebe a mesma alteração, surge um sinal que precisa entrar imediatamente no processo de investigação.

Como reduzir o risco de uma nova crise

A prevenção precisa começar antes da ETA.

Primeiramente, o manancial deve ser tratado como parte do processo produtivo. Monitoramento de fósforo, nitrogênio, temperatura, nível do reservatório, clorofila-a, cianobactérias, vento, insolação e precipitação permite identificar tendências antes de uma floração atingir níveis críticos. A própria regulamentação brasileira determina uma abordagem preventiva para os riscos existentes nos mananciais superficiais.

Além disso, sistemas mais resilientes precisam de gatilhos operacionais previamente definidos. Por exemplo, elevações de clorofila-a ou da densidade de cianobactérias podem acionar aumento da frequência de coleta, testes de tratabilidade, preparação da dosagem de carvão ativado e mudanças na proporção de água captada em diferentes mananciais.

Outra frente é a proteção da bacia hidrográfica. Aumento de nutrientes pode estar relacionado a múltiplas fontes, incluindo atividades agrícolas, ocupação urbana, erosão e lançamento inadequado de efluentes. Portanto, reduzir o risco exige atuação conjunta entre companhia de saneamento, órgãos ambientais, setor agropecuário, municípios e proprietários rurais.

Também é importante ampliar a capacidade de resposta da ETA. Carvão ativado em pó, carvão ativado granular, ozonização, processos oxidativos e outras tecnologias podem ser avaliados conforme as características do manancial e dos compostos presentes. Entretanto, qualquer solução precisa ser selecionada com base em testes de tratabilidade, custo do ciclo de vida, capacidade operacional e risco de formação de subprodutos.

Não existe, portanto, uma solução universal. A tecnologia precisa estar subordinada ao conhecimento da água bruta e à capacidade técnica das equipes.

Diversificar mananciais também aumenta a segurança

Outra estratégia é reduzir a dependência excessiva de uma única fonte de água.

Ponta Grossa possui abastecimento associado ao Rio Pitangui e à Represa de Alagados, enquanto uma futura captação no Rio Tibagi permanece entre os projetos voltados à segurança hídrica da cidade. Planejamento divulgado pela Sanepar prevê um novo sistema com captação, tratamento, reservação e adução. Estudos anteriores indicaram capacidade adicional inicial de aproximadamente 300 litros por segundo, seguida de até 600 litros por segundo em uma etapa posterior.

Em 2026, a nova captação no Tibagi continuava na agenda institucional de segurança hídrica do município.

A diversificação não elimina a necessidade de proteger Alagados. Pelo contrário. Um novo manancial aumenta a flexibilidade operacional, porém os mananciais existentes continuam sendo ativos estratégicos que precisam de proteção ambiental, monitoramento e gestão permanente.

O papel do Plano de Segurança da Água

Uma das respostas mais robustas para eventos como esse é o Plano de Segurança da Água.

A lógica é preventiva: identificar perigos desde a bacia hidrográfica até a torneira, avaliar riscos, estabelecer barreiras de controle, definir indicadores e preparar respostas para desvios. A própria Sanepar mantém iniciativas de segurança da água baseadas na identificação de riscos ao longo de toda a cadeia de abastecimento.

Esse modelo evita que a organização dependa apenas de reação emergencial. Para a água em Ponta Grossa, por exemplo, um plano específico para florações pode combinar previsão meteorológica, monitoramento limnológico, limites de alerta, estratégias de captação, estoque mínimo de insumos, ensaios de carvão ativado, protocolos de comunicação e critérios objetivos para intensificação do controle.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que riscos associados a cianobactérias sejam incorporados à gestão de segurança da água. Assim, a prevenção passa a ser sistêmica, e não apenas uma resposta da estação de tratamento quando o problema já chegou à captação.

Atendimento ao cliente também faz parte do sistema de monitoramento

Outro aprendizado relevante está fora da ETA.

As reclamações recebidas pelos canais comerciais podem funcionar como uma espécie de rede de sensores distribuídos pela cidade. Um aumento repentino de registros relacionados a cheiro, gosto ou cor, principalmente quando concentrado em determinadas regiões, precisa gerar alertas internos para as áreas de controle de qualidade e operação.

Portanto, sistemas comerciais, atendimento digital, call center e operação não deveriam trabalhar de forma isolada.

Em empresas de saneamento mais maduras, dados de reclamação podem ser cruzados com setores de abastecimento, origem da água, tempo de residência, resultados de laboratório, pressão da rede e dados hidráulicos. Dessa forma, a voz do consumidor transforma-se em informação operacional.

A crise da água em Ponta Grossa demonstra como gestão comercial e gestão operacional podem se complementar.

Comunicação de crise precisa ser tão rápida quanto a operação

Existe ainda uma lição de comunicação.

Quando uma mudança sensorial é perceptível na torneira antes que a população compreenda sua causa, surge um vazio de informação. Esse espaço pode rapidamente ser ocupado por desconfiança, mensagens em redes sociais, boatos e versões não técnicas.

Por isso, a comunicação precisa acompanhar o ritmo da operação.

Uma estratégia moderna para situações semelhantes deveria informar, de maneira simples: o que foi detectado; em qual manancial; qual substância está associada à alteração; se existe ou não risco sanitário identificado; quais análises estão sendo executadas; quais medidas estão em andamento; quais regiões podem ser afetadas; e quando ocorrerá uma nova atualização.

Transparência não significa divulgar apenas resultados favoráveis. Significa explicar incertezas, reconhecer alterações percebidas pelo consumidor e apresentar os dados disponíveis de forma compreensível.

Profissionais de saneamento são a principal barreira de segurança

Tecnologia é essencial, porém sistemas de abastecimento não funcionam sem pessoas capazes de interpretar dados e tomar decisões.

A crise da água em Ponta Grossa evidencia o valor dos profissionais que monitoram o manancial, ajustam dosagens, realizam análises, acompanham a rede, investigam reclamações e explicam tecnicamente o problema à sociedade.

São operadores, químicos, engenheiros, biólogos, técnicos, analistas laboratoriais, profissionais ambientais, equipes comerciais, especialistas em automação, manutenção e regulação que transformam equipamentos e procedimentos em água segura na torneira.

Por isso, companhias que pretendem aumentar a resiliência precisam investir também em capacitação, laboratórios, automação, protocolos de emergência, integração entre áreas e autonomia técnica para decisões rápidas.

Equipamentos identificam sinais. Profissionais transformam sinais em ações.

O que o setor de saneamento pode aprender com Ponta Grossa

O episódio deixa uma sequência clara de aprendizados.

Primeiro, alterações de gosto e odor não devem ser tratadas como problemas secundários.

Segundo, florações de cianobactérias exigem monitoramento preventivo do manancial.

Terceiro, a ETA precisa dispor de alternativas operacionais capazes de responder rapidamente a mudanças na água bruta.

Quarto, a companhia precisa conseguir alterar a matriz de captação quando existir mais de um manancial disponível.

Quinto, atendimento ao cliente deve funcionar como fonte de inteligência operacional.

Sexto, comunicação e transparência fazem parte da gestão do risco.

Sétimo, diversificação de mananciais e proteção das fontes existentes precisam caminhar juntas.

Além disso, a experiência demonstra que cumprir os parâmetros laboratoriais não encerra a responsabilidade da prestadora. Quando existe distância entre o resultado técnico e aquilo que o consumidor percebe na torneira, essa lacuna precisa ser investigada e explicada.

Por fim, a resposta mais eficiente não é escolher entre tratamento, proteção do manancial ou novas obras. É combinar todas essas frentes.

A segurança da água em Ponta Grossa, assim como em qualquer grande sistema urbano, dependerá da capacidade de antecipar eventos climáticos, controlar nutrientes, diversificar fontes, modernizar processos e fortalecer os profissionais responsáveis pela operação.

O ressarcimento representa uma consequência importante da crise. Entretanto, para o setor de saneamento, o maior valor do episódio está no aprendizado operacional.

Uma companhia de alta confiabilidade não espera a água mudar de gosto para começar a agir. Ela procura identificar o risco no manancial, prepara a ETA, mobiliza suas equipes, integra as áreas comerciais e operacionais e comunica a população antes que a confiança seja perdida.

Fontes