Ambev é condenada por poluição e falta d’água em Teresina

A condenação da Ambev pela Justiça Federal por um episódio de poluição do Rio Parnaíba ocorrido em 2013 chama atenção não apenas pelo dano ambiental. Para o setor de saneamento, o aspecto mais relevante do caso está na consequência operacional: a alteração da qualidade da água bruta comprometeu a captação utilizada para abastecer a população e contribuiu para episódios de falta d’água em Teresina.

A Justiça Federal no Piauí condenou a Companhia de Bebidas das Américas ao pagamento de R$ 750 mil por danos morais coletivos. A decisão decorre de ação civil pública apresentada pelo Ministério Público Federal em 2021 e fundamentada, entre outros elementos, em laudos produzidos pela Polícia Federal durante a Operação Rio Verde.

Segundo as informações divulgadas sobre o processo, resíduos químico-industriais teriam sido lançados no Rio Parnaíba em concentrações superiores aos limites permitidos. Além do impacto ambiental, a contaminação teria interferido diretamente na segurança da captação de água utilizada pelo sistema de abastecimento da capital piauiense.

O episódio mostra, portanto, como a proteção de mananciais precisa ser compreendida como parte da própria segurança operacional dos sistemas de abastecimento.

Poluição atingiu uma infraestrutura essencial da cidade

O Rio Parnaíba não representava apenas um recurso ambiental afetado pela ocorrência. Ele era também fonte de água bruta para o abastecimento urbano.

Consequentemente, qualquer alteração significativa na qualidade da água próxima à área de influência da captação poderia produzir efeitos imediatos sobre a operação da Estação de Tratamento de Água.

Foi exatamente nesse ponto que o episódio ambiental passou a ser também um problema de saneamento.

Conforme documentos mencionados na investigação, alterações na qualidade da água foram relacionadas a interrupções ocorridas nos dias 25 e 26 de junho e 2 e 3 de julho de 2013.

Assim, a falta d’água em Teresina não decorreu simplesmente de uma quebra de bomba, rompimento de adutora ou falha elétrica. A origem do problema estava, segundo o processo, na própria qualidade da matéria-prima utilizada pela ETA: a água bruta do Rio Parnaíba.

Essa diferença é fundamental para profissionais do saneamento.

Uma estação pode possuir bombas funcionando, energia disponível, produtos químicos em estoque e equipes operacionais completas. Entretanto, se a água disponível na captação apresentar características incompatíveis com a capacidade segura de tratamento, a produção pode precisar ser reduzida ou interrompida.

Como uma poluição no rio pode fazer uma cidade ficar sem água?

O funcionamento de uma ETA depende de determinadas condições da água bruta.

Parâmetros como turbidez, cor, pH, matéria orgânica, presença de algas, compostos químicos e contaminantes específicos influenciam diretamente os processos de coagulação, floculação, decantação, filtração e desinfecção.

Normalmente, as estações são projetadas para trabalhar dentro de determinados limites de variação desses parâmetros.

Entretanto, uma descarga industrial pode provocar uma alteração abrupta.

A sequência de eventos pode ocorrer da seguinte forma:

lançamento de contaminantes no rio → deslocamento da pluma de poluição → aproximação da área de captação → alteração da qualidade da água bruta → risco ou dificuldade de tratamento → redução ou paralisação da captação → queda da produção → esvaziamento dos reservatórios → redução das pressões → desabastecimento da população.

Dessa maneira, compreender a falta d’água em Teresina exige analisar toda essa cadeia.

O abastecimento não começa na estação de tratamento. Ele começa no manancial.

Por isso, proteger a água antes da captação pode ser tão importante quanto possuir tecnologias modernas dentro da própria ETA.

Operadores perceberam alterações na água

Informações apresentadas ao longo da investigação apontaram que técnicos identificaram alterações perceptíveis na água do Rio Parnaíba.

Entre os registros mencionados estavam relatos de odor característico associado a material fermentado. Também foram apresentados resultados relacionados à presença de substâncias químicas em pontos investigados.

A situação exigia cautela operacional.

Quando existe suspeita de contaminação desconhecida ou uma mudança significativa da qualidade da água bruta, simplesmente continuar captando pode aumentar o risco sanitário.

Além disso, elevar indiscriminadamente as dosagens de produtos químicos também não representa necessariamente uma solução.

Por exemplo, uma elevada carga de matéria orgânica pode aumentar a demanda por cloro. Ao mesmo tempo, dependendo das características dessa matéria orgânica, o processo de cloração pode favorecer a formação de subprodutos indesejáveis.

Portanto, diante de uma ocorrência cuja composição e concentração ainda não estejam completamente conhecidas, interromper temporariamente a captação pode ser uma medida de segurança.

O problema é que essa decisão operacional inevitavelmente reduz a quantidade de água disponível para distribuição.

Foi justamente essa conexão entre qualidade do manancial e continuidade da produção que contribuiu para a falta d’água em Teresina.

Paralisação da ETA não significa falta imediata em todas as casas

Existe outro aspecto importante para compreender o episódio.

Quando uma ETA é desligada, a população não necessariamente fica sem água naquele mesmo instante.

O sistema de abastecimento possui volumes armazenados em reservatórios, adutoras e na própria rede de distribuição. Entretanto, esses volumes passam a ser consumidos sem que exista reposição equivalente pela produção.

Consequentemente, os níveis dos reservatórios começam a cair.

Depois, as pressões diminuem progressivamente.

Os primeiros consumidores a perceber o problema costumam estar em áreas mais elevadas, pontas de rede ou regiões cuja pressão operacional já é mais baixa.

Na sequência, conforme o armazenamento diminui, outras regiões também podem ser afetadas.

Por isso, algumas horas de paralisação da produção podem provocar um período muito maior de desabastecimento.

Além disso, depois que uma ETA volta a produzir, a normalização não ocorre imediatamente.

Primeiramente, é necessário recuperar os reservatórios. Posteriormente, as redes precisam recuperar pressão. Além disso, bolsões de ar podem interferir na distribuição e setores mais distantes podem levar horas adicionais até receber novamente água em condições normais.

Esse efeito ajuda a explicar por que eventos aparentemente curtos podem causar uma percepção prolongada de falta d’água em Teresina.

Investigação apontou um segundo caminho de lançamento

Um dos pontos mais importantes das investigações foi a identificação de uma estrutura diferente do ponto oficial utilizado para lançamento de efluentes tratados.

Segundo as informações apresentadas pelo MPF, a fábrica possuía um ponto regular de descarte. Entretanto, a investigação identificou também problemas relacionados à caixa destinada à captação de águas pluviais.

Laudos produzidos no âmbito da Operação Rio Verde apontaram elevada carga orgânica e presença de elementos como cádmio, cobre, ferro, manganês e zinco.

A investigação sustentou ainda que essa estrutura recebia efluentes que deveriam ter sido encaminhados ao sistema de tratamento da própria indústria.

Para profissionais de saneamento e meio ambiente, o caso apresenta uma lição operacional bastante relevante.

Sistemas de drenagem pluvial e sistemas destinados ao transporte de efluentes industriais precisam ser claramente segregados.

Uma interligação indevida, falha estrutural ou utilização inadequada da drenagem pode criar uma rota de lançamento sem que o efluente atravesse todas as etapas de tratamento previstas.

Portanto, não basta possuir uma Estação de Tratamento de Efluentes em uma indústria. Também é necessário garantir que todo o fluxo que necessita de tratamento efetivamente chegue até ela.

O caso demonstra a importância do controle de fontes poluidoras

Uma captação localizada em um rio está exposta ao que acontece a montante e em suas áreas de influência.

Indústrias, sistemas de esgotamento sanitário, drenagem urbana, atividades agropecuárias, acidentes rodoviários, mineração e outras atividades podem alterar a qualidade da água utilizada para abastecimento.

Por isso, uma empresa de saneamento não pode limitar o gerenciamento de riscos aos limites físicos da ETA.

É necessário conhecer o território.

Devem ser identificados os principais potenciais poluidores existentes na bacia, as distâncias em relação à captação, os tipos de substâncias manipuladas e o possível tempo de deslocamento de uma contaminação até a tomada de água.

Essa visão é coerente com a lógica dos Planos de Segurança da Água, baseados na gestão preventiva de riscos desde o manancial até o consumidor.

Nesse contexto, a falta d’água em Teresina representa um exemplo prático de por que essa abordagem é necessária.

Monitoramento em tempo real pode reduzir riscos

Outro aprendizado importante envolve instrumentação e monitoramento.

Quanto mais rapidamente uma alteração na água bruta for identificada, maior será a capacidade de resposta operacional.

Estações localizadas em mananciais sujeitos a riscos relevantes podem utilizar sensores para acompanhar continuamente parâmetros como turbidez, pH, condutividade, oxigênio dissolvido, temperatura e outros indicadores compatíveis com os riscos existentes.

Entretanto, equipamentos instalados apenas no ponto de captação podem oferecer pouco tempo de reação.

Por isso, dependendo da configuração da bacia, pontos de monitoramento instalados quilômetros a montante podem funcionar como verdadeiras estações de alerta antecipado.

Caso uma mudança anormal seja detectada, operadores podem avaliar previamente a situação, intensificar análises laboratoriais, ajustar a produção, aumentar o armazenamento e comunicar equipes responsáveis.

Assim, o gerenciamento deixa de ser exclusivamente reativo.

Reservação também representa segurança operacional

A ocorrência evidencia ainda outro componente frequentemente subestimado: a reservação.

Reservatórios não servem apenas para equilibrar as diferenças entre produção e consumo ao longo do dia.

Eles também representam uma espécie de proteção operacional.

Quanto maior a autonomia disponível, dentro de critérios técnicos e econômicos adequados, maior a capacidade do sistema de enfrentar paralisações temporárias na produção.

Entretanto, reservação sozinha não resolve o problema.

Uma cidade que depende fortemente de uma única captação superficial continua vulnerável caso o manancial se torne temporariamente indisponível.

Por isso, sistemas resilientes combinam diferentes estratégias, como redundância de equipamentos, reservação adequada, possibilidades de interligação entre setores, fontes alternativas e planos de contingência.

Sob essa perspectiva, a falta d’água em Teresina demonstra como um incidente externo à companhia de saneamento pode rapidamente se transformar em uma emergência operacional.

Ambev contestou responsabilidade pelo episódio

A controvérsia também precisa ser considerada.

Desde 2013, a Ambev apresentou análises contratadas pela própria empresa e contestou que suas atividades fossem responsáveis pelas alterações registradas na água.

Na época, foram divulgados resultados segundo os quais parâmetros analisados estariam dentro das condições estabelecidas pela legislação.

Posteriormente, no processo judicial, a empresa também questionou o nexo entre seus lançamentos e os impactos sobre a captação.

Uma das argumentações apresentadas indicava que o ponto oficial de lançamento de efluentes estaria localizado depois do ponto de captação da então Agespisa.

Entretanto, a investigação não ficou limitada ao ponto oficial.

A Polícia Federal identificou problemas associados à estrutura destinada às águas pluviais, e esses elementos foram considerados no conjunto probatório utilizado no processo.

A Justiça Federal acabou reconhecendo a responsabilidade pelos danos ambientais e coletivos e estabeleceu indenização de R$ 750 mil.

A decisão, como ocorre no processo judicial, permanece sujeita aos mecanismos recursais cabíveis.

Adequações posteriores corrigiram irregularidades

Durante a tramitação da ação, foram realizadas modificações na estação de tratamento de efluentes da indústria e na estrutura de captação de águas pluviais.

Uma nova perícia da Polícia Federal, realizada em 2023, constatou que as irregularidades anteriormente identificadas haviam sido corrigidas e que a unidade estava operando de acordo com os parâmetros ambientais aplicáveis.

Diante disso, deixou de existir a necessidade de manter o pedido judicial para obrigar novas adequações.

Entretanto, permaneceu a discussão sobre os danos causados anteriormente.

A condenação ao pagamento de R$ 750 mil por danos morais coletivos está relacionada justamente a esses impactos pretéritos.

Nem toda paralisação de 2013 pode ser automaticamente atribuída ao mesmo evento

Também é necessário cuidado ao analisar o histórico daquele período.

Documentos e reportagens registraram diferentes episódios envolvendo alterações da qualidade da água e paralisações da estação ao longo de 2013.

Há, por exemplo, referência documental a uma paralisação ocorrida em 20 de julho.

Entretanto, não seria tecnicamente correto atribuir automaticamente todo episódio de falta d’água em Teresina registrado naquele período à mesma causa ou à mesma empresa.

A condenação divulgada atualmente está vinculada ao conjunto de fatos, laudos e eventos analisados especificamente no processo judicial.

Essa distinção é fundamental para evitar simplificações.

Sistemas de abastecimento podem sofrer interrupções por falta de energia, rompimentos de adutoras, falhas eletromecânicas, problemas na qualidade do manancial e diversos outros fatores.

Portanto, cada ocorrência precisa possuir sua própria análise de causa raiz.

A principal lição está fora dos muros da ETA

Tradicionalmente, grande parte dos investimentos em segurança operacional concentra-se dentro das estações.

São instaladas bombas reservas, novos painéis elétricos, sistemas supervisórios, geradores, equipamentos laboratoriais e automação.

Todas essas medidas são importantes.

Entretanto, o episódio do Rio Parnaíba mostra que a confiabilidade de uma ETA também depende de fatores que estão quilômetros antes de sua entrada.

Uma descarga industrial, um acidente com produto químico, um lançamento irregular de esgoto ou qualquer outro evento no manancial pode inviabilizar temporariamente uma infraestrutura de tratamento extremamente sofisticada.

Portanto, a fronteira operacional de uma companhia de saneamento precisa começar na bacia hidrográfica.

Falta d’água em Teresina deixa alerta para todo o saneamento

O caso possui relevância nacional porque situações semelhantes podem ocorrer em praticamente qualquer sistema que utilize mananciais superficiais.

A falta d’água em Teresina demonstra que continuidade do abastecimento e proteção ambiental não são assuntos independentes.

Ao contrário, fazem parte da mesma estratégia de segurança hídrica.

Companhias de saneamento precisam conhecer os riscos existentes a montante das captações, manter comunicação com órgãos ambientais e Defesa Civil, desenvolver protocolos para ocorrências envolvendo contaminantes, investir em monitoramento e estabelecer critérios claros para eventual paralisação da produção.

Além disso, planos de contingência precisam indicar como agir quando a água bruta deixa temporariamente de apresentar condições seguras para tratamento.

É necessário definir responsáveis, parâmetros de decisão, laboratórios de apoio, comunicação com a população, alternativas de abastecimento e estratégias para recuperação da rede.

A falta d’água em Teresina também reforça que a interrupção preventiva da produção não deve ser interpretada automaticamente como falha operacional.

Em determinadas circunstâncias, parar uma ETA pode representar justamente a decisão mais segura.

O objetivo central de uma companhia de abastecimento não é simplesmente manter água circulando pelas tubulações. O objetivo é entregar água segura.

Quando a matéria-prima deixa de oferecer condições adequadas ou surge dúvida relevante sobre a capacidade de tratamento, proteger a saúde da população precisa prevalecer.

Mais de uma década depois dos eventos investigados, a condenação reacende uma discussão fundamental para o saneamento brasileiro: a segurança do abastecimento começa muito antes da ETA.

A experiência da falta d’água em Teresina mostra que proteger rios, monitorar potenciais fontes de contaminação e preparar sistemas para situações de emergência são medidas diretamente relacionadas à continuidade dos serviços.

Para gestores de saneamento, portanto, a principal pergunta não deveria ser apenas se a ETA consegue tratar a água disponível hoje.

A pergunta mais estratégica é outra:

o sistema está preparado para continuar abastecendo a população se amanhã o seu principal manancial precisar ser temporariamente retirado de operação?