Bengaluru está tentando resolver um problema que muitas grandes cidades enfrentarão cada vez mais: como ampliar o abastecimento sem depender exclusivamente de buscar mais água cada vez mais longe.
A resposta adotada pelo Bangalore Water Supply and Sewerage Board (BWSSB), responsável pelos serviços de água e esgoto da metrópole indiana, combina novas fontes, redução de perdas, reúso de efluentes, monitoramento de aquíferos, recuperação de lagos, inteligência artificial, SCADA, GIS, medição inteligente e ações para reduzir o consumo.
É uma mudança importante na governança hídrica urbana.
Em vez de enxergar captação, tratamento, distribuição, esgotamento sanitário, reúso, drenagem, águas subterrâneas e relacionamento com os clientes como problemas independentes, Bengaluru começa a tratá-los como componentes de um mesmo sistema.
E isso acontece depois de um alerta importante.
Em 2024, uma combinação de chuvas fracas, redução da recarga subterrânea e pressão crescente sobre as fontes colocou Bengaluru em uma grave crise de abastecimento. Moradores passaram a depender mais de caminhões-pipa, preços aumentaram e empresas tiveram suas operações afetadas. O próprio presidente do BWSSB afirmou posteriormente que entre 35% e 40% da cidade dependiam de águas subterrâneas e que a crise expôs a vulnerabilidade desse modelo. (Reuters)
Dois anos depois, o que está sendo construído merece atenção de qualquer profissional de saneamento.
A transformação de Bengaluru vai muito além da inteligência artificial
Uma reportagem publicada em setembro de 2026 pela Elets Smart City descreve um sistema que atende aproximadamente 14 milhões de habitantes e opera mais de 14 mil quilômetros de redes de abastecimento, cerca de 12 mil quilômetros de redes de esgoto e mais de 1 milhão de ligações.
Entretanto, o aspecto mais relevante não é a dimensão da infraestrutura.
É a tentativa de transformar a governança hídrica urbana de um modelo predominantemente linear — captar, tratar, distribuir, coletar e descartar — para uma lógica circular e orientada por dados. (Smart City)
Isso significa trabalhar simultaneamente em duas frentes.
A primeira continua sendo ampliar a oferta.
A segunda, cada vez mais importante, é conseguir produzir mais segurança hídrica com a infraestrutura e com a água já existentes.
É justamente aí que perdas, reúso, telemetria, recuperação de aquíferos e gestão do consumo deixam de ser programas paralelos e passam a fazer parte da estratégia central da empresa.
Cauvery Stage V: mais 775 milhões de litros por dia
A expansão física continua sendo fundamental.
Em outubro de 2024 entrou em operação a quinta etapa do Cauvery Water Supply Scheme, projeto apoiado pela Japan International Cooperation Agency (JICA).
A nova infraestrutura acrescentou 775 milhões de litros por dia — 775 MLD — à capacidade do sistema.
O projeto de abastecimento e esgotamento sanitário da Fase 3 recebeu financiamento da JICA e contempla áreas em rápida expansão urbana, incluindo 110 vilas incorporadas à região metropolitana. Segundo a agência japonesa, aproximadamente 3,5 milhões de pessoas deverão ser beneficiadas pelos componentes dessa fase. (JICA)
Essa ampliação oferece uma primeira lição.
Grandes metrópoles ainda precisam construir infraestrutura. Digitalização não elimina a necessidade de adutoras, estações, reservatórios, redes e tratamento.
Por outro lado, aumentar continuamente a retirada de água não resolve sozinho o problema.
Os próprios estudos associados ao projeto já apontavam que o crescimento futuro de Bengaluru exigiria novas respostas além do simples aumento da transferência de água do rio Cauvery. (JICA Report)
É por isso que a segunda parte da estratégia é ainda mais interessante.
Reduzir perdas virou uma nova fonte de água
Um dos dados mais relevantes apresentados pelo BWSSB é a evolução da água não contabilizada.
Segundo informações do presidente da companhia reproduzidas pela Elets e pelo Indian Express, o indicador teria caído de aproximadamente 51% em 2013 para 26,5% em 2025, com recuperação estimada em cerca de 200 MLD.
Esses resultados são números informados pelo próprio operador e, portanto, devem ser interpretados dentro da metodologia de cálculo utilizada pelo BWSSB. Ainda assim, a direção da estratégia é tecnicamente relevante: combater perdas passou a ser tratado como instrumento de segurança hídrica e não apenas como indicador operacional. (Elets eGov)
Esse conceito merece atenção no Brasil.
Quando uma companhia recupera água que anteriormente era perdida, o efeito pode se aproximar do obtido com uma expansão de produção: aumenta o volume disponível para atendimento sem retirar quantidade equivalente adicional do manancial.
Porém, isso exige muito mais do que localizar vazamentos.
Em Bengaluru, foram empregados distritos de medição, macromedição, substituição de tubulações antigas, controle operacional, identificação de consumos irregulares e integração dos dados.
A experiência em uma área da cidade iniciada ainda em 2013 envolveu a estruturação de District Metered Areas — equivalentes aos Distritos de Medição e Controle utilizados no Brasil —, modelagem da distribuição e gerenciamento sistemático da água não contabilizada. (Suez)
Para um gestor, a lição é direta: não existe programa robusto de perdas sem medição confiável e conhecimento hidráulico da rede.
SCADA deixa de ser uma tela e passa a apoiar decisões
Em 2026, Bengaluru avançou para uma nova fase ao estruturar um centro integrado de gestão de água e esgoto.
O sistema utiliza SCADA — Supervisory Control and Data Acquisition — para reunir dados das unidades operacionais, reservatórios, estações de tratamento, redes e sistemas de esgotamento.
A plataforma monitora variáveis como vazão, pressão, níveis e parâmetros de qualidade da água. Segundo o Indian Express, também incorpora recursos de inteligência artificial para previsão de demanda, identificação de vazamentos e manutenção preditiva. (The Indian Express)
Esse ponto é fundamental.
Muitas empresas já possuem SCADA, telemetria, GIS, sistemas comerciais e ferramentas de manutenção.
O problema é que frequentemente cada sistema permanece em seu próprio ambiente.
Uma governança hídrica urbana realmente digital precisa conectar essas informações.
Um evento de baixa pressão, por exemplo, pode ser correlacionado com vazão do setor, histórico de rompimentos, reclamações de clientes, ordens de serviço, dados de macromedição e comportamento de consumo.
A tecnologia passa a responder uma pergunta diferente.
Não apenas “o que está acontecendo?”, mas também “onde agir primeiro?”.
O próximo passo são os hidrômetros inteligentes
O BWSSB anunciou em 2026 um projeto de medição inteligente inicialmente direcionado a grandes consumidores comerciais e ligações de maior porte.
A companhia informou um piloto com 1.000 smart meters, com intenção de posteriormente ampliar o sistema para aproximadamente 100 mil ligações comerciais e de grandes consumidores.
Os equipamentos deverão permitir monitoramento mais frequente do consumo, detecção precoce de vazamentos, identificação de anomalias e reconhecimento de possíveis situações de fraude ou bypass de medidores. (LinkedIn)
A escolha de começar pelos grandes consumidores também possui lógica econômica.
Em vez de substituir imediatamente milhões de hidrômetros, a companhia concentra inteligência onde o volume consumido e o risco financeiro são maiores.
Para áreas comerciais das empresas brasileiras de saneamento, esse é um ponto particularmente interessante.
Telemedição não deveria ser considerada apenas uma nova forma de realizar leitura.
Quando integrada adequadamente, pode servir simultaneamente para faturamento, recuperação de receita, relacionamento com grandes clientes, detecção de vazamentos internos, análise de padrões de consumo, combate a fraudes e gestão da demanda.
O esgoto começa a ser tratado como fonte
Talvez a mudança conceitual mais importante esteja no reúso.
Segundo dados apresentados pelo BWSSB à Elets, Bengaluru possui capacidade instalada superior a 1,3 bilhão de litros por dia de tratamento de esgoto e já direciona parcelas relevantes do efluente tratado para finalidades ambientais e comerciais. (Smart City)
Isso altera o balanço hídrico da cidade.
Água potável produzida com captação, bombeamento e tratamento de longa distância não precisa necessariamente ser utilizada em todas as atividades.
Indústrias, irrigação, recuperação ambiental e determinados usos urbanos podem, quando tecnicamente e sanitariamente adequados, utilizar água de reúso.
Essa lógica é central para a economia circular no saneamento.
O efluente deixa de ser visto exclusivamente como algo a ser descartado e passa a representar um recurso.
O Banco Mundial está financiando o fechamento desse ciclo
Essa estratégia não aparece apenas no discurso institucional.
Em 2025, o Banco Mundial aprovou o Karnataka Water Security and Resilience Program, de US$ 426 milhões.
O programa pretende aumentar a segurança hídrica de mais de quatro milhões de pessoas e prevê a recuperação de 183 lagos, construção de nove estações de tratamento de esgoto, ampliação da coleta para mais de 100 mil residências e aproveitamento de efluente tratado para usos industriais e recarga das águas subterrâneas. (Banco Mundial)
Esse é um exemplo particularmente interessante de governança hídrica urbana porque liga saneamento e drenagem.
O mesmo lago pode cumprir diferentes funções: receber água tratada dentro de critérios adequados, contribuir para recarga, armazenar água durante eventos de chuva e reduzir riscos de inundação.
O Banco Mundial descreve justamente essa estratégia como um movimento para fechar o ciclo da água em Karnataka. (Banco Mundial)
Jakkur mostra como infraestrutura cinza e verde podem trabalhar juntas
O caso do lago Jakkur ajuda a entender a lógica.
Pesquisas do Indian Institute of Science estudaram um sistema no qual o efluente de uma estação de tratamento passa por áreas úmidas construídas e uma lagoa com processos biológicos antes de chegar ao lago.
Os pesquisadores observaram reduções adicionais de matéria orgânica e nutrientes ao longo desse sistema.
Não significa simplesmente transformar qualquer lago em uma estação de tratamento.
Há exigências de projeto, controle de qualidade, tempo de retenção, manutenção da vegetação, monitoramento microbiológico e gestão permanente.
Mas o princípio é importante: processos naturais podem complementar processos convencionais de engenharia, especialmente em projetos de recuperação ambiental e reúso. (Sistema de Informação Ambiental)
A crise também transformou a gestão da demanda
Em 2024, durante a fase mais crítica da escassez, Bengaluru adotou ações que normalmente recebem menos atenção que grandes obras.
O BWSSB tornou obrigatória a instalação de restritores de vazão ou aeradores para determinados grandes consumidores. Na época, o órgão informou reduções relevantes de consumo nos locais onde os dispositivos haviam sido instalados. (The Indian Express)
Também foram construídos quase mil poços de recarga para aumentar a infiltração de água no solo, enquanto regras existentes para perfuração de poços passaram a ser fiscalizadas de forma mais rigorosa. (The Indian Express)
Aqui surge outra diferença importante.
Segurança hídrica não significa apenas produzir mais.
Significa também administrar melhor a demanda.
Essa dimensão costuma receber menos investimento institucional porque seus resultados dependem de regulação, comunicação, comportamento do consumidor e fiscalização.
Entretanto, cidades submetidas a estresse hídrico provavelmente terão de incorporá-la cada vez mais à governança hídrica urbana.
O que o Brasil já está fazendo
Bengaluru não está sozinha nessa direção.
No Brasil existem iniciativas semelhantes, embora distribuídas entre diferentes operadores e projetos.
A Sabesp, por exemplo, informou em seu Relatório de Sustentabilidade 2024 que seu Programa Corporativo de Redução de Perdas recebeu R$ 10,5 bilhões em investimentos entre 2009 e 2024, considerando valores correntes.
As ações incluem pesquisa e reparo de vazamentos, renovação de redes e ramais, controle de pressão, instalação de válvulas redutoras de pressão, troca de hidrômetros, combate a fraudes, setorização e regularização de ligações.
A companhia informou índice de perdas totais de 29,4% em 2024. A comparação direta desse percentual com Bengaluru deve ser feita com cautela, porque indicadores e metodologias podem diferir entre países e operadores. (Sabesp)
A Caesb apresenta outra aproximação.
Em seu relatório de gestão referente a 2025, a companhia registrou ampliação de macromedidores, válvulas redutoras de pressão e medidores de vazão com telemetria, além de controle ativo de vazamentos e modelagem hidráulica.
Ou seja, os mesmos elementos fundamentais aparecem novamente: medir, setorizAR, controlar pressão, localizar perdas e intervir. (Caesb)
Na iniciativa privada, a Iguá relatou expansão de automação, GIS, modelagem hidráulica e telemetria. A companhia também utiliza ferramentas de machine learning para identificar anomalias de consumo e sistemas de análise de dados operacionais para localizar possíveis vazamentos e desvios hidráulicos.
No Iguá Day de 2025, a empresa informou ainda que seus projetos com hidrômetros inteligentes já haviam gerado R$ 93 milhões em receita adicional. Trata-se de informação divulgada pela própria companhia, mas o número mostra por que digitalização da medição pode interessar simultaneamente às áreas operacional e comercial. (Iguá SA)
No reúso, a Sanepar lançou o programa “Água de Reúso: a Nova Fronteira” e abriu em 2026 chamamento público direcionado a água de reúso e saneamento industrial.
O movimento indica que o tema começa a deixar a escala exclusivamente experimental e a buscar modelos comerciais e industriais mais estruturados no Brasil. (Sanepar)
Singapura mostra até onde essa integração pode chegar
Internacionalmente, Singapura oferece talvez o benchmarking mais conhecido.
A agência nacional PUB utiliza uma estratégia integrada envolvendo diferentes fontes de água, reúso avançado, dessalinização, gestão da demanda e forte digitalização.
O programa NEWater transforma efluentes tratados em água de altíssima qualidade utilizando tecnologias avançadas de membranas e desinfecção ultravioleta.
A PUB informa que o sistema é monitorado em aproximadamente 300 parâmetros de qualidade. (Publicações do Governo de Singapura)
Ao mesmo tempo, Singapura instalou aproximadamente 300 mil hidrômetros inteligentes na primeira fase de seu Smart Water Meter Programme.
O cliente passa a visualizar informações mais frequentes sobre consumo e pode receber alertas relacionados a usos anormais ou possíveis vazamentos. (Publicações do Governo de Singapura)
Entretanto, Singapura demonstra outra característica importante da governança hídrica urbana: tecnologia vem acompanhada de regras de eficiência.
Grandes consumidores que ultrapassam determinados volumes precisam medir usos internos relevantes, elaborar planos de eficiência hídrica e indicar profissional responsável pela gestão da água.
Ou seja, não basta disponibilizar o dado. Existe um processo de gestão associado a ele. (Publicações do Governo de Singapura)
A principal lição de Bengaluru está na integração
É tentador resumir Bengaluru como uma história de inteligência artificial.
Seria um erro.
IA representa apenas uma camada do sistema.
Antes dela existem cadastro técnico, macromedição, micromedição, Distritos de Medição e Controle, GIS, sensores, manutenção, conhecimento hidráulico, qualidade da informação e equipes capazes de interpretar os sinais produzidos.
Um algoritmo alimentado por medidores ruins, cadastro desatualizado ou setores hidráulicos mal definidos apenas processará dados ruins mais rapidamente.
A transformação ocorre quando essas ferramentas passam a compor um ciclo operacional.
Medição identifica anomalia.
Telemetria localiza o problema.
GIS informa os ativos envolvidos.
Modelagem hidráulica avalia consequências.
Manutenção recebe a intervenção.
O sistema comercial identifica os clientes afetados.
Atendimento comunica.
Depois da execução, os dados confirmam se o problema foi realmente resolvido.
Isso é transformação digital aplicada ao saneamento.
O que muda na prática para uma companhia brasileira
A experiência de Bengaluru sugere que programas de segurança hídrica deveriam ser construídos como portfólios integrados e não como projetos isolados.
Uma companhia poderia, por exemplo, selecionar uma área de elevado consumo ou perdas e combinar macromedição, DMC, telemetria, modelagem hidráulica, renovação direcionada de ramais e redes, hidrômetros inteligentes para grandes consumidores, análise de fraudes e gestão de pressão.
Paralelamente, poderia identificar grandes consumidores atualmente abastecidos com água potável que tecnicamente poderiam utilizar água de reúso.
O planejamento de esgotamento passaria então a conversar com o planejamento comercial.
Uma nova ETE poderia deixar de ser analisada apenas pelo custo de coleta e tratamento e passar também a considerar a existência de mercado para o efluente tratado.
Essa integração muda a própria lógica econômica do saneamento.
O comercial também entra na governança da água
Esse talvez seja um dos aspectos menos percebidos.
Perdas aparentes, hidrômetros, grandes consumidores, cadastro, irregularidades, leitura, faturamento e comunicação de consumo são componentes da segurança hídrica.
Quando uma ligação apresenta submedição, existe perda financeira.
Mas também existe perda de informação sobre a demanda.
Quando grandes consumidores recebem dados quase em tempo real, torna-se possível desenvolver novos serviços, alertas de consumo, gestão de vazamentos internos e programas de eficiência.
Consequentemente, a área comercial deixa de ser apenas responsável por faturar a água produzida.
Passa a participar da própria governança hídrica urbana.
O que pode dar errado
A transformação de Bengaluru também precisa ser analisada com cautela.
Expandir sistemas digitais aumenta dependência de telecomunicações, qualidade dos sensores, integração de plataformas, segurança cibernética e manutenção especializada.
Smart meters possuem vida útil, baterias, comunicação e custos de substituição.
SCADA sem processo decisório claro pode criar milhares de alarmes sem gerar ação.
Projetos de reúso exigem controle rigoroso da qualidade, definição das finalidades permitidas, infraestrutura específica e aceitação dos usuários.
Recarga de aquíferos depende de geologia, qualidade da água e monitoramento.
Além disso, indicadores de perdas precisam ser analisados com metodologia transparente. Percentuais aparentemente semelhantes podem representar realidades diferentes dependendo do balanço hídrico utilizado.
Portanto, copiar tecnologias não significa copiar resultados.
Lições para profissionais de saneamento
Primeira lição: medir vem antes de otimizar. Sem macromedição, micromedição e balanço hídrico confiáveis, não existe gestão consistente de perdas.
Segunda: água recuperada deve ser tratada como fonte. Reduzir vazamentos e perdas aparentes pode postergar investimentos em expansão da produção.
Terceira: esgoto tratado é um ativo potencial. A expansão do tratamento cria oportunidades de reúso industrial, urbano, ambiental e, em situações tecnicamente adequadas, recarga ou reúso potável indireto.
Quarta: SCADA não substitui profissionais. Quanto maior o volume de informação, maior a necessidade de engenheiros, técnicos, operadores, analistas de dados e equipes comerciais capazes de transformar sinais em decisões.
Quinta: operação e comercial precisam compartilhar dados. Medição inteligente, fraude, consumo, pressão, vazão e reclamações pertencem ao mesmo sistema de gestão.
Sexta: segurança hídrica exige trabalhar oferta e demanda simultaneamente. Construir novas fontes sem reduzir desperdícios perpetua ineficiências.
Sétima: crise pode acelerar mudanças estruturais. Bengaluru sofreu uma grave escassez em 2024, mas a resposta posterior passou a envolver infraestrutura, tecnologia, reúso, águas subterrâneas e participação dos usuários.
A oportunidade menos percebida
Talvez a maior oportunidade criada pela digitalização do saneamento não seja automatizar processos existentes.
É mudar decisões.
Uma companhia que conhece em tempo quase real quanto produz, quanto entrega em cada setor, quanto cada grande cliente consome, onde a pressão está elevada, onde surgem vazamentos e onde existem anomalias comerciais possui capacidade completamente diferente de administrar seus ativos.
Nesse ambiente, manutenção deixa de ser apenas corretiva.
Fiscalização torna-se mais direcionada.
Investimentos podem ser priorizados com base em risco.
Clientes podem receber alertas antes da chegada de uma conta extraordinariamente alta.
E o planejamento de novas fontes pode incorporar a quantidade de água que ainda pode ser recuperada dentro do próprio sistema.
Esse é o verdadeiro valor da digitalização.
Conclusão: Bengaluru ensina que segurança hídrica é gestão
Bengaluru ainda possui desafios enormes.
O crescimento urbano continua pressionando a demanda, águas subterrâneas permanecem estratégicas, parte da infraestrutura precisa ser renovada e novos investimentos serão necessários.
Por isso, o caso não deveria ser apresentado como uma história concluída nem como um modelo perfeito.
Seu valor está em outra questão.
A cidade começa a demonstrar que governança hídrica urbana não pode mais ser resumida a encontrar uma fonte e construir capacidade suficiente para atender à demanda projetada.
O futuro exige combinar produção, perdas, reúso, esgotamento, águas subterrâneas, drenagem, medição, tecnologia, regulação, comportamento do consumidor e gestão comercial.
Para o Brasil, a mensagem é especialmente relevante.
Boa parte dessas ferramentas já existe nas companhias brasileiras. SCADA, GIS, telemetria, DMCs, modelagem hidráulica, medição remota, inteligência artificial e reúso estão sendo implementados em diferentes operações.
O próximo salto talvez não dependa de descobrir uma tecnologia completamente nova.
Pode depender de integrar melhor aquilo que já existe.
E é justamente nesse ponto que Bengaluru oferece sua principal contribuição para profissionais do saneamento: a governança hídrica urbana do futuro provavelmente será construída menos por projetos isolados e mais pela capacidade de fazer engenharia, operação, tecnologia, meio ambiente, atendimento e gestão comercial tomarem decisões a partir da mesma visão da água.
Fontes e referências
- Elets Smart City — Bengaluru’s Water Transformation: How BWSSB is Rewriting Urban Water Governance, 18 de setembro de 2026. Acessar a reportagem original
- Japan International Cooperation Agency — JICA — Unveiling of the JICA-funded 5th stage of Cauvery Water Supply Scheme, 16 de outubro de 2024. Acessar a fonte da JICA
- JICA — JICA extends ODA loan for Bengaluru Water Supply and Sewerage Project (Phase 3), 31 de março de 2022. Acessar a fonte da JICA
- Banco Mundial — New World Bank Program to Improve Water Security for Over 4 million People in India’s Tech Hub, Bengaluru, 24 de junho de 2025. Acessar o Banco Mundial
- Banco Mundial — Water Flows, Jobs Follow – Karnataka Shows the Way, 12 de junho de 2026. Acessar a publicação
- Indian Express — Bengaluru to launch AI command centre to detect water leaks, predict demand in real time, 29 de abril de 2026. Acessar a reportagem
- Indian Express — The 2024 water crisis was a lesson, Bengaluru prepared for this summer: BWSSB chairman, 2026. Acessar a entrevista
- Indian Institute of Science — IISc — Optimal Treatment of Domestic Wastewater through Constructed Wetlands — Jakkur Lake. Acessar o estudo
- Frontiers in Environmental Science — Digitalization in Urban Water Governance: Case Study of Bengaluru and Singapore, 2022. Acessar o artigo científico
- Sabesp — Relatório de Sustentabilidade 2024. Acessar o relatório da Sabesp
- Caesb — Relatório de Gestão 2025. Acessar o relatório da Caesb
- Iguá Saneamento — Relatório Integrado 2025. Acessar o relatório da Iguá
- Sanepar — Água de Reúso: a Nova Fronteira. Acessar a publicação da Sanepar
- PUB — Singapore’s National Water Agency — Smart Water Meter Programme. Acessar a PUB
- PUB — Singapore’s National Water Agency — NEWater Quality. Acessar informações sobre NEWater
- PUB — Singapore’s National Water Agency — Mandatory Water Efficiency Requirements. Acessar os requisitos de eficiência hídrica



