Consumo de água em data centers desafia o Brasil

A inteligência artificial pode transformar os data centers em um novo grande cliente — e, ao mesmo tempo, em um novo desafio — para o setor de saneamento brasileiro.

O avanço acelerado da inteligência artificial exige estruturas computacionais cada vez maiores, mais densas e mais potentes. Entretanto, quanto maior a capacidade de processamento, maior também é a quantidade de calor que precisa ser retirada dos equipamentos. É justamente nesse ponto que a água entra em uma discussão que, até poucos anos atrás, parecia restrita ao setor de tecnologia.

O consumo de água em data centers passou a ser observado como questão estratégica de infraestrutura, principalmente porque novas instalações podem concentrar grandes demandas de água e energia em determinadas regiões.

No Brasil, o debate ganha importância adicional. O país reúne matriz elétrica predominantemente renovável, disponibilidade territorial, infraestrutura de telecomunicações e posição estratégica para conexão internacional. Por outro lado, vários dos principais projetos estão localizados ou planejados para regiões que já convivem com forte pressão sobre seus recursos hídricos.

Consequentemente, a expansão da inteligência artificial coloca profissionais de saneamento, recursos hídricos e gestão ambiental no centro de uma infraestrutura essencial da nova economia digital. 

Por que a inteligência artificial pode consumir tanta água?

Um data center funciona, de maneira simplificada, como uma grande instalação industrial dedicada ao processamento e armazenamento de informações.

Milhares de servidores operam continuamente. Com a expansão da inteligência artificial, equipamentos de alto desempenho, especialmente GPUs e outros aceleradores computacionais, trabalham com densidades térmicas muito superiores às encontradas em instalações convencionais.

Praticamente toda a energia elétrica consumida pelo equipamento computacional acaba convertida em calor. Portanto, esse calor precisa ser continuamente removido para evitar perda de desempenho, falhas e danos aos equipamentos.

Nesse contexto, existem diferentes tecnologias de refrigeração.

Algumas utilizam ar. Outras utilizam sistemas de água gelada. Há também torres de resfriamento evaporativo, circuitos fechados, sistemas híbridos e, mais recentemente, soluções de refrigeração líquida diretamente nos componentes eletrônicos.

Assim, o consumo de água em data centers depende fortemente do projeto adotado. Não existe um único número que represente todas as instalações.

Um data center instalado em região fria e utilizando resfriamento a seco pode apresentar comportamento completamente diferente de uma instalação localizada em clima quente e equipada com torres evaporativas.

Esse detalhe é fundamental para evitar análises simplistas sobre o assunto. 

O consumo de água não ocorre somente dentro do data center

Outro aspecto pouco conhecido é a chamada pegada hídrica indireta.

A água pode ser utilizada diretamente no sistema de refrigeração, porém também pode existir consumo associado à geração da eletricidade necessária para alimentar os servidores.

Dessa forma, a análise completa do consumo de água em data centers precisa observar duas dimensões.

A primeira é a água utilizada dentro da própria instalação. A segunda é a água relacionada ao sistema energético que fornece eletricidade ao empreendimento.

Essa interação entre água e energia é particularmente relevante no Brasil devido à importância da geração hidrelétrica.

Um estudo publicado em 2026 sobre a Região Metropolitana de São Paulo estimou uma pegada hídrica anual de aproximadamente 16,1 milhões de metros cúbicos associada à infraestrutura de data centers considerada pelos pesquisadores. Segundo o estudo, mais de 46% dessa pegada estaria relacionada indiretamente à produção de energia.

Portanto, analisar somente a conta de água do empreendimento pode subestimar sua verdadeira relação com os recursos hídricos. 

São Paulo concentra data centers e também pressão hídrica

A localização talvez seja mais importante do que o volume isolado de consumo.

A reportagem da Revista TAE destaca a concentração de data centers no eixo São Paulo–Campinas. Segundo informações apresentadas na publicação, mais de 80 dos cerca de 200 empreendimentos em funcionamento no Brasil estariam nessa região.

O problema é que áreas atendidas pelas bacias do Alto Tietê e dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí — sistema PCJ — já apresentam elevada competição pelo uso da água.

Nessas regiões coexistem abastecimento urbano, indústrias, agricultura, geração econômica e necessidades ambientais.

Consequentemente, mesmo que o consumo de água em data centers represente uma parcela relativamente pequena do consumo brasileiro em escala nacional, a concentração de vários empreendimentos em uma mesma bacia pode produzir impactos locais muito mais relevantes.

Esse princípio é familiar aos profissionais de saneamento.

Uma demanda de 10 mil metros cúbicos por dia pode ser perfeitamente administrável em determinado sistema e extremamente problemática em outro. Tudo depende da disponibilidade hídrica, capacidade de produção, reservação, adução, tratamento, sazonalidade e demandas existentes.

Por isso, indicadores nacionais isolados podem esconder situações críticas em escala regional. 

A melhor métrica não é apenas “quantos litros são consumidos”

A indústria de data centers já utiliza uma métrica específica denominada WUE — Water Usage Effectiveness, ou eficiência do uso da água.

Sua fórmula básica é:

WUE = consumo anual de água da instalação ÷ energia anual consumida pelos equipamentos de TI

O resultado normalmente é apresentado em litros por quilowatt-hora de energia destinada aos equipamentos computacionais.

Quanto menor o WUE, menor tende a ser a utilização de água para determinada quantidade de processamento energético.

Portanto, discutir o consumo de água em data centers apenas em volume absoluto não é suficiente.

Um empreendimento muito maior pode consumir mais água em termos absolutos e, ainda assim, apresentar eficiência hídrica superior à de uma instalação pequena e tecnologicamente ultrapassada.

Além disso, métricas mais modernas começam a considerar não somente a quantidade consumida, mas também o impacto da utilização da água conforme a escassez da região.

A lógica é simples: retirar um litro de água de uma bacia com grande disponibilidade não possui necessariamente o mesmo impacto de retirar esse mesmo litro de uma região submetida a forte estresse hídrico. 

A eficiência pode aumentar enquanto o consumo total cresce

Existe um paradoxo importante.

Os data centers estão ficando mais eficientes. Entretanto, a quantidade de processamento cresce tão rapidamente que o consumo absoluto de recursos pode continuar aumentando.

A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo global de eletricidade dos data centers poderá mais que dobrar até 2030, chegando a aproximadamente 945 TWh por ano. A inteligência artificial é apontada como o principal vetor desse crescimento.

Em 2025, segundo atualização da própria agência, a demanda elétrica global dos data centers cresceu cerca de 17%, enquanto instalações mais diretamente associadas à IA avançaram ainda mais rapidamente.

Esse fenômeno explica por que melhorias tecnológicas não eliminam necessariamente a preocupação ambiental.

É possível reduzir o consumo de água necessário para cada unidade de processamento e, simultaneamente, aumentar o consumo de água em data centers em valores absolutos simplesmente porque o setor está expandindo em velocidade extraordinária. 

Os números globais precisam ser analisados com cuidado

A Revista TAE cita estimativa segundo a qual o consumo global de água relacionado a data centers estaria atualmente próximo de 560 bilhões de litros anuais e poderia chegar a cerca de 1,2 trilhão de litros em 2030.

Independentemente da estimativa adotada, existe grande variação entre metodologias porque alguns estudos contabilizam somente consumo direto, enquanto outros incorporam água relacionada à geração de energia.

Nos Estados Unidos, por exemplo, estudo do Lawrence Berkeley National Laboratory mostra expansão expressiva do uso direto de água pelo setor e projeta crescimento substancial à medida que aumentam os data centers de grande escala e alta densidade computacional.

Essa diferença metodológica reforça uma necessidade para o Brasil: padronizar informações.

Sem dados sobre captação, consumo, descarga, origem da água, percentual de reúso, tecnologia de refrigeração e WUE, torna-se difícil avaliar adequadamente o consumo de água em data centers

Reúso pode transformar o problema em oportunidade para o saneamento

Uma das oportunidades mais interessantes para empresas de saneamento está no fornecimento de água de reúso.

Data centers não precisam necessariamente utilizar água potável em todos os seus processos de refrigeração.

Dependendo da tecnologia e das especificações de qualidade, efluentes tratados podem passar por tratamento complementar e se transformar em fonte alternativa para determinadas aplicações.

Essa estratégia produz diferentes benefícios.

Primeiramente, reduz a competição com o abastecimento humano.

Além disso, cria uma nova destinação econômica para efluentes tratados.

Também pode gerar receita adicional para empresas de saneamento e ajudar a financiar infraestrutura de tratamento, reservação, bombeamento e distribuição de água de reúso.

Grandes empresas de tecnologia já utilizam fontes alternativas de água em algumas instalações internacionais. A Microsoft, por exemplo, informa utilizar água recuperada ou reciclada em operações nos Estados Unidos e em Singapura. O Google também mantém programas de gestão hídrica e utilização de fontes alternativas.

Consequentemente, o crescimento da IA pode criar um novo mercado para companhias de saneamento brasileiras.

Em vez de enxergar somente um grande consumidor, pode-se estruturar uma relação industrial baseada em reúso, eficiência e segurança hídrica. 

Circuitos fechados e refrigeração líquida podem mudar o cenário

Outra transformação tecnológica ocorre dentro do próprio data center.

A refrigeração líquida diretamente nos chips permite remover grande quantidade de calor com maior eficiência, especialmente em equipamentos de alta densidade utilizados para inteligência artificial.

Além disso, circuitos fechados podem reduzir significativamente a necessidade de reposição contínua de água.

A ASHRAE já destaca arquiteturas de resfriamento a seco e sistemas de água em circuito fechado capazes de operar com consumo direto de água extremamente baixo em determinadas condições climáticas.

Entretanto, existe um equilíbrio técnico importante.

Sistemas evaporativos podem economizar eletricidade em determinadas situações, enquanto sistemas secos reduzem o consumo de água, mas podem apresentar outras exigências energéticas dependendo das condições ambientais.

Portanto, não existe uma tecnologia universalmente superior.

A solução deve considerar simultaneamente água, energia, temperatura ambiente, confiabilidade, custo, disponibilidade hídrica e impacto ambiental.

Esse conhecimento multidisciplinar aproxima ainda mais engenharia de data centers e engenharia de saneamento. 

O planejamento deve acontecer por bacia hidrográfica

Uma política moderna para data centers dificilmente poderá analisar os empreendimentos apenas individualmente.

Imagine uma bacia com disponibilidade para atender determinado projeto. Isoladamente, o empreendimento poderia parecer sustentável.

Entretanto, caso dez grandes data centers sejam implantados na mesma região, o impacto acumulado pode ser completamente diferente.

Por isso, uma avaliação moderna do consumo de água em data centers deveria considerar os efeitos cumulativos dos projetos sobre uma mesma bacia.

Entre os elementos relevantes estão:

  • disponibilidade hídrica atual e futura;
  • vazões de referência;
  • períodos de estiagem;
  • crescimento populacional;
  • demanda industrial;
  • mudanças climáticas;
  • capacidade dos sistemas de abastecimento;
  • disponibilidade de esgoto tratado para reúso;
  • capacidade de transporte da água;
  • segurança energética;
  • impacto acumulado de novos empreendimentos.

Essa abordagem transforma o licenciamento de um simples processo administrativo em instrumento de planejamento territorial.

O Brasil ainda discute como regular a expansão

A expansão dos data centers também chegou ao Congresso Nacional.

A Medida Provisória 1.318/2025 criou originalmente o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, conhecido como REDATA. Entretanto, sua vigência terminou em 25 de fevereiro de 2026.

Posteriormente, o Projeto de Lei 278/2026 foi aprovado pela Câmara e encaminhado ao Senado. Até agosto de 2026, a proposta ainda aguardava apreciação da Casa.

O debate é relevante porque os incentivos econômicos podem ser utilizados como instrumento para exigir contrapartidas ambientais.

Entre as possibilidades discutidas durante a formulação da política estão indicadores de sustentabilidade, eficiência energética e divulgação de métricas relacionadas à eficiência hídrica.

Assim, o consumo de água em data centers tende a deixar de ser apenas questão operacional das empresas e passar a integrar decisões regulatórias, ambientais e econômicas do país. 

Transparência hídrica precisa acompanhar os incentivos

Uma das principais dificuldades atuais é a falta de dados padronizados e publicamente comparáveis.

Um modelo robusto de governança poderia exigir que grandes instalações apresentassem periodicamente indicadores como:

  • volume total captado;
  • volume efetivamente consumido;
  • fonte utilizada;
  • percentual proveniente de água potável;
  • percentual proveniente de água de reúso;
  • volume recirculado;
  • WUE;
  • descarte de efluentes;
  • consumo energético;
  • tecnologia de refrigeração;
  • localização da captação por bacia hidrográfica.

Dessa maneira, governos, reguladores, companhias de saneamento e comitês de bacia poderiam tomar decisões baseadas em dados.

Além disso, a transparência reduziria comparações inadequadas entre instalações com tecnologias completamente diferentes.

Companhias de saneamento precisam se preparar para novos grandes consumidores

Para as empresas de água e esgoto, a expansão dos data centers cria questões comerciais e operacionais relevantes.

Antes de aceitar grandes demandas, torna-se necessário avaliar capacidade de produção, margens de segurança, pressões, reservação, disponibilidade hídrica e impacto sobre consumidores existentes.

Também deverão ser avaliados modelos tarifários específicos para grandes clientes, contratos de demanda, infraestrutura dedicada, custos marginais, investimentos necessários e possibilidades de fornecimento de água não potável.

Em determinadas regiões, poderá ser economicamente mais racional construir uma rede de água de reúso ligando uma estação de tratamento de esgoto a um polo de data centers do que ampliar sistemas de produção de água potável.

Nesse cenário, profissionais das áreas comercial, operacional, ambiental, de planejamento e engenharia deverão atuar conjuntamente.

O conhecimento acumulado pelo setor de saneamento sobre segurança hídrica, produção de água, tratamento de esgoto, redes, reservação, telemetria, perdas e planejamento de longo prazo terá enorme valor para a infraestrutura digital.

O profissional de saneamento entra definitivamente na economia da IA

A inteligência artificial costuma ser apresentada como software, algoritmos e chips. Entretanto, por trás de cada processamento existe infraestrutura física.

Existem terrenos, subestações, sistemas de energia, equipamentos de refrigeração, redes, água e profissionais responsáveis por manter todo esse sistema funcionando.

Por isso, o debate sobre o consumo de água em data centers representa uma oportunidade para ampliar a participação dos profissionais de saneamento em uma das maiores transformações econômicas das próximas décadas.

Engenheiros, operadores, especialistas em recursos hídricos, gestores comerciais, profissionais de tratamento de água e esgoto e planejadores poderão participar diretamente da definição de soluções para esses empreendimentos.

A infraestrutura digital não conseguirá crescer indefinidamente ignorando a infraestrutura hídrica.

O desafio não é impedir data centers, mas fazê-los usar a água certa

A discussão mais produtiva não está em escolher entre inteligência artificial ou segurança hídrica.

O verdadeiro desafio é definir onde instalar, qual água utilizar, quanto consumir, como medir e como reduzir o impacto.

Data centers localizados de maneira adequada, utilizando circuitos eficientes, água de reúso, monitoramento permanente e metas rigorosas de WUE podem apresentar impactos muito diferentes daqueles implantados sem planejamento hídrico.

Portanto, o consumo de água em data centers deverá ser incorporado ao planejamento das companhias de saneamento, das agências reguladoras, dos órgãos ambientais e dos gestores de recursos hídricos.

O Brasil possui condições para se transformar em importante polo internacional de infraestrutura digital. Porém, essa vantagem somente será sustentável se energia limpa for acompanhada de gestão hídrica inteligente.

E justamente nesse ponto os profissionais de saneamento deixam de atuar apenas nos bastidores.

Eles passam a ocupar posição estratégica na construção da infraestrutura necessária para a economia da inteligência artificial.

Fontes consultadas

Revista TAE — Consumo excessivo de água em datacenters de IA preocupa sustentabilidade hídrica do Brasil
Acessar a reportagem da Revista TAE⁠

International Energy Agency — Energy and AI
Acessar estudo da IEA sobre energia e inteligência artificial⁠

Lawrence Berkeley National Laboratory — Data Center Energy Usage Report
Acessar estudos do Berkeley Lab sobre data centers⁠

Cambridge Prisms: Water — The Cloud’s Thirst: AI Water Footprint in São Paulo
Acessar pesquisa sobre pegada hídrica de IA em São Paulo⁠

ASHRAE — AI Data Center Energy Performance Framework
Acessar recomendações técnicas da ASHRAE⁠

U.S. Department of Energy — Water Efficiency for Data Centers
Acessar referência sobre WUE e eficiência hídrica⁠

Google — Environmental Report
Acessar dados ambientais do Google⁠

Microsoft — Environmental Sustainability Report
Acessar relatório de sustentabilidade da Microsoft⁠

Senado Federal — Debate sobre riscos ambientais dos data centers de IA
Acessar audiência e informações do Senado⁠

Câmara dos Deputados — Projeto de Lei 278/2026, REDATA
Acompanhar a tramitação do PL 278/2026⁠