AGIRF multa Águas de Peixoto por extravasamento de esgoto persistir

Um extravasamento de esgoto que permanece ativo mesmo depois de uma fiscalização deixa de representar apenas uma ocorrência de manutenção. Ele passa a revelar uma questão mais ampla de gestão operacional, capacidade de resposta e controle do sistema.

Foi justamente essa situação que levou a Agência de Regulação e Fiscalização (AGIRF) a aplicar uma multa à Águas de Peixoto, concessionária responsável pelos serviços de saneamento em Peixoto de Azevedo, no Mato Grosso.

Segundo a agência reguladora, pontos de extravasamento de esgoto haviam sido identificados durante ações de fiscalização. A concessionária foi notificada e recebeu prazo para regularizar as ocorrências. Entretanto, quando os fiscais retornaram aos locais, constataram que os problemas permaneciam.

Consequentemente, a AGIRF considerou que houve descumprimento das determinações anteriormente estabelecidas e aplicou a penalidade.

A publicação da agência, datada de 19 de agosto de 2026, não informa o valor da multa. Além disso, determinou que a concessionária adote as providências necessárias para regularizar integralmente os pontos identificados e eliminar definitivamente as ocorrências.

O episódio deixa uma lição importante para todo o setor: no saneamento, reparar rapidamente é importante, mas identificar por que uma ocorrência aconteceu e impedir sua repetição é ainda mais estratégico.

Por que um extravasamento de esgoto merece tanta atenção?

Em termos simples, o extravasamento de esgoto acontece quando o efluente deixa de permanecer confinado no sistema projetado para coletá-lo e transportá-lo.

Isso pode ocorrer, por exemplo, em poços de visita, redes coletoras, estações elevatórias ou outros componentes do sistema.

As causas podem ser diversas. Entre as mais comuns estão obstruções, acúmulo de sólidos, lançamento inadequado de resíduos na rede, infiltração excessiva de águas pluviais, falhas em equipamentos, problemas eletromecânicos, insuficiência hidráulica, deterioração das tubulações e deficiências de manutenção.

Entretanto, não é possível afirmar, com base apenas nas informações públicas divulgadas pela AGIRF, qual dessas causas originou especificamente as ocorrências verificadas em Peixoto de Azevedo.

Essa distinção é fundamental tecnicamente.

Uma fiscalização identifica a manifestação do problema. Já a análise de causa raiz precisa determinar por que o sistema falhou.

O problema pode ser maior do que o ponto onde o esgoto aparece

Um erro comum na gestão de redes é tratar cada extravasamento de esgoto exclusivamente como uma ordem de serviço isolada.

A equipe recebe a ocorrência, desloca-se até o endereço, desobstrui a rede e encerra o atendimento.

Porém, quando o mesmo trecho apresenta reincidência, simplesmente repetir a desobstrução pode significar tratar o sintoma sem eliminar a causa.

Nesse caso, torna-se necessário investigar o histórico operacional daquele setor.

Por exemplo, deve-se avaliar a frequência das ocorrências, idade e material da tubulação, declividade, diâmetro, contribuições indevidas, condições dos poços de visita, existência de raízes, presença de gordura e sólidos, comportamento hidráulico e eventuais conexões de drenagem pluvial.

Além disso, dados históricos das ordens de serviço podem indicar padrões que uma análise pontual não consegue revelar.

O que a regulação nacional sinaliza para as empresas

O episódio também deve ser observado dentro da evolução regulatória do saneamento brasileiro.

A Norma de Referência nº 11/2024 da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico estabelece diretrizes nacionais para as condições gerais da prestação dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

Entre os pontos relevantes está a necessidade de execução de reparos de extravasamento de esgoto dentro dos prazos definidos pelas entidades reguladoras infranacionais.

A mesma norma também estabelece responsabilidades relacionadas à operação e manutenção dos sistemas.

Portanto, a tendência regulatória é clara: não basta ampliar infraestrutura. É necessário demonstrar capacidade de operar, manter, registrar e responder adequadamente às ocorrências.

Além disso, a Norma de Referência nº 9/2024 da ANA estabelece indicadores operacionais relacionados à prestação dos serviços de água e esgoto, incluindo aspectos de manutenção e operação.

Isso aumenta a importância de transformar dados operacionais em instrumentos efetivos de gestão.

Peixoto de Azevedo ainda possui grande desafio de expansão

O caso ganha relevância adicional quando observado o cenário do esgotamento sanitário no município.

Dados do SINISA 2024 compilados pelo Instituto Água e Saneamento indicam que aproximadamente 35,9% da população total de Peixoto de Azevedo possui acesso aos serviços públicos de esgotamento sanitário.

Isso corresponde a cerca de 12 mil habitantes.

O indicador permanece abaixo das médias apresentadas para Mato Grosso e para o Brasil.

Por outro lado, entre o esgoto coletado informado pelo sistema, o tratamento alcança 100%. Considerando a estimativa do esgoto total gerado, aproximadamente 45,9% é coletado e tratado.

Portanto, existe um desafio duplo: expandir a infraestrutura para aumentar o atendimento e, simultaneamente, manter em condições adequadas aquilo que já está em operação.

Universalização sem excelência operacional pode simplesmente aumentar a quantidade de ativos problemáticos no futuro.

Há investimentos e resultados que também precisam ser considerados

Uma análise equilibrada também precisa considerar os avanços registrados no município.

A concessionária informou que tratou mais de 477 milhões de litros de esgoto ao longo de 2025. Segundo informações divulgadas pela empresa, a estação de tratamento possui capacidade operacional informada de 22,5 litros por segundo.

Portanto, a penalidade regulatória não significa que todo o sistema esteja sem funcionamento.

Entretanto, mostra que resultados globais positivos não eliminam a necessidade de controlar ocorrências localizadas.

No saneamento, uma companhia pode apresentar bons indicadores médios e, ainda assim, possuir pontos críticos capazes de gerar impacto ambiental, sanitário, regulatório e reputacional.

É justamente por isso que a gestão precisa chegar ao nível do ativo.

Como reduzir o risco de novos extravasamentos

A principal lição do episódio está na prevenção.

Uma estratégia moderna contra extravasamento de esgoto deve combinar manutenção preventiva, inteligência de dados, inspeção de redes e resposta operacional.

Entre as práticas mais importantes estão:

  • mapear geograficamente todas as ocorrências;
  • identificar trechos com reincidência;
  • criar ranking dos pontos críticos da rede;
  • acompanhar o tempo entre abertura e conclusão das ocorrências;
  • realizar inspeções preventivas em trechos críticos;
  • utilizar inspeção por câmera quando tecnicamente aplicável;
  • avaliar capacidade hidráulica de redes problemáticas;
  • investigar entrada indevida de águas pluviais;
  • controlar gordura, sólidos e resíduos lançados irregularmente;
  • manter bombas e equipamentos eletromecânicos preventivamente;
  • estruturar contingência para estações elevatórias;
  • manter cadastro técnico atualizado e georreferenciado;
  • analisar causa raiz das ocorrências repetitivas.

Além disso, a NR 11 da ANA reforça a importância de cadastros técnicos atualizados, preferencialmente georreferenciados.

Isso parece simples, porém representa uma mudança importante de gestão.

Da manutenção corretiva para a manutenção orientada por risco

Uma companhia madura não deveria esperar o extravasamento de esgoto acontecer para descobrir onde estão seus pontos frágeis.

Ordens de serviço, reclamações, inspeções, idade das redes, materiais, declividade, vazões, intervenções anteriores e reincidências podem alimentar modelos de priorização.

Assim, em vez de enviar equipes somente depois da ocorrência, torna-se possível direcionar manutenção preventiva para os locais de maior risco.

Imagine, por exemplo, um trecho que apresentou seis obstruções em 12 meses.

A sétima ordem de serviço não deveria ser tratada simplesmente como mais uma desobstrução.

Esse histórico deveria acionar uma investigação técnica específica.

Essa é a diferença entre administrar ordens de serviço e administrar ativos.

Indicadores que deveriam chegar diariamente aos gestores

Alguns indicadores podem ajudar a transformar o combate ao extravasamento de esgoto em uma rotina de gestão.

Entre eles estão a quantidade de extravasamentos por extensão de rede, número de reincidências, tempo médio de atendimento, tempo médio de solução definitiva, percentual de ocorrências atendidas dentro do prazo regulatório e quantidade de pontos críticos ainda pendentes.

Também é recomendável acompanhar ocorrências por causa identificada.

Se grande parte estiver relacionada à gordura, por exemplo, talvez seja necessária uma estratégia específica de fiscalização e educação dos usuários.

Se houver concentração em redes antigas, a solução poderá exigir renovação de ativos.

Se as ocorrências aumentarem durante chuvas intensas, deve-se investigar infiltração e conexões indevidas.

Ou seja, o indicador deve levar à decisão.

Fiscalização também contribui para melhorar o saneamento

A atuação regulatória não deve ser interpretada apenas pela ótica da penalização.

Quando tecnicamente estruturada, a fiscalização funciona como uma segunda linha de controle sobre serviços essenciais.

Nesse processo, profissionais de operação, manutenção, engenharia, regulação, fiscalização e atendimento possuem papel fundamental.

São esses profissionais que identificam anomalias, entram em redes e unidades operacionais, analisam dados, executam reparos, operam equipamentos e trabalham diariamente para evitar que falhas atinjam a população.

Por isso, valorizar os profissionais do saneamento também significa fornecer ferramentas, planejamento, treinamento, dados confiáveis e recursos adequados para que possam agir antes que uma ocorrência se transforme em problema regulatório.

A maior lição: corrigir não é suficiente

O episódio de Peixoto de Azevedo deixa uma mensagem relevante para prestadores públicos e privados.

Quando um extravasamento de esgoto é identificado, três perguntas precisam ser respondidas:

O problema foi eliminado?

A causa foi identificada?

Existe risco de acontecer novamente?

Se apenas a primeira pergunta tiver resposta positiva, o trabalho provavelmente ainda não terminou.

A gestão moderna do saneamento precisa migrar progressivamente de uma cultura predominantemente corretiva para uma cultura preventiva e preditiva.

Isso exige cadastro técnico, telemetria onde aplicável, histórico confiável de manutenção, equipes qualificadas, fiscalização eficiente, gestão de ativos e análise de dados.

Afinal, cada ocorrência evitada representa menos risco ambiental, menor exposição regulatória, redução de custos emergenciais e, principalmente, maior segurança para a população.

O extravasamento de esgoto ocorrido em Peixoto de Azevedo, portanto, pode servir como estudo de caso para todo o setor: uma falha operacional deve gerar não apenas uma ordem de serviço, mas aprendizado organizacional.

E é justamente a capacidade de aprender com as falhas que diferencia organizações que apenas reagem aos problemas daquelas que constroem sistemas de saneamento cada vez mais confiáveis.

Fontes

  • AGIRF — Multa por extravasamento de esgoto em Peixoto de Azevedo⁠Attachment.png
  • ANA — Norma de Referência nº 11/2024⁠Attachment.png
  • ANA — Norma de Referência nº 9/2024⁠Attachment.png
  • Instituto Água e Saneamento — Dados de Peixoto de Azevedo⁠Attachment.png
  • Águas de Peixoto de Azevedo — resultados do tratamento em 2025⁠Attachment.png