Dessalinização amplia segurança hídrica no Ceará

A autorização para o início das obras da usina de dessalinização da Praia do Futuro representa uma mudança importante na estratégia de segurança hídrica do Ceará. Após aproximadamente cinco anos de estudos, licenciamentos, revisões de projeto e negociações institucionais, o empreendimento entra na etapa efetiva de construção, com previsão de conclusão no segundo semestre de 2028.

O termo de autorização foi assinado pela Companhia de Água e Esgoto do Ceará, a Cagece, em 16 de julho de 2026. A expectativa é que as obras durem cerca de 24 meses. Quando estiver em operação, a planta poderá produzir até mil litros de água potável por segundo, vazão equivalente a 1 metro cúbico por segundo. 

Em plena capacidade e funcionamento contínuo, esse volume corresponderia a aproximadamente 86,4 milhões de litros por dia ou 31,5 bilhões de litros por ano. Entretanto, o contrato estabelece uma operação flexível: a Cagece poderá solicitar diferentes vazões conforme a necessidade do sistema, respeitando um patamar mínimo de produção de 200 litros por segundo. Isso significa que a usina não necessariamente funcionará sempre na capacidade máxima. 

A dessalinização deverá reforçar em cerca de 12% a oferta de água do Macrossistema de Distribuição de Fortaleza. Além disso, estima-se que até 720 mil pessoas sejam atendidas diretamente, principalmente em bairros da zona leste da capital, enquanto outros municípios da Região Metropolitana poderão ser beneficiados indiretamente pela redução da pressão sobre os reservatórios tradicionais. 

Raio-X da usina de dessalinização

Os principais números do empreendimento ajudam a compreender sua dimensão:

  • Capacidade máxima: 1.000 litros por segundo;
  • Produção diária potencial: 86,4 milhões de litros;
  • População diretamente beneficiada: até 720 mil pessoas;
  • Participação na demanda de Fortaleza: aproximadamente 12%;
  • Prazo estimado de construção: 24 meses;
  • Previsão de entrega: segundo semestre de 2028;
  • Área aproximada da planta: entre 2,4 e 2,5 hectares;
  • Potência instalada prevista: 14 megawatts;
  • Tecnologia principal: osmose reversa;
  • Fator de conversão: aproximadamente 45%;
  • Contrato de PPP: 30 anos;
  • Valor contratual da parceria: cerca de R$ 3,1 bilhões;
  • Investimento inicial de implantação: estimado em R$ 526 milhões, com valores calculados em 2020 e sujeitos a atualização. 

Os dois valores financeiros não devem ser confundidos. Os R$ 526 milhões correspondem à estimativa original de implantação física da usina. Já os R$ 3,1 bilhões representam o valor global da parceria ao longo de três décadas, envolvendo construção, operação, manutenção, disponibilidade da infraestrutura e fornecimento da água produzida.

Portanto, o valor total da PPP não corresponde apenas ao custo da obra. Ele inclui a prestação continuada dos serviços durante todo o período contratual.

Por que a dessalinização ganhou importância no Ceará

O abastecimento de Fortaleza e de sua Região Metropolitana depende de uma infraestrutura complexa formada por reservatórios, canais, adutoras, estações de bombeamento e sistemas integrados. Parte relevante dessa água está ligada ao sistema Jaguaribe-Metropolitano e ao açude Castanhão.

Embora o Ceará tenha desenvolvido uma das estruturas de gestão hídrica mais avançadas do país, o estado continua sujeito à irregularidade das chuvas, às elevadas taxas de evaporação e aos períodos prolongados de estiagem. Nesse contexto, a dessalinização amplia a diversidade da matriz hídrica.

A principal vantagem estratégica está no fato de que a água do mar não depende diretamente do volume acumulado nos açudes. Desse modo, a produção pode ser acionada durante secas, reduções críticas dos reservatórios, falhas em adutoras ou outras situações que comprometam o abastecimento convencional.

A planta também poderá permitir que parte da água armazenada no Castanhão e em outros mananciais seja preservada ou direcionada para municípios que dependem mais intensamente dessas fontes. Assim, o benefício não ficará restrito aos bairros diretamente abastecidos pela água dessalinizada. 

Entretanto, a dessalinização não substitui políticas de redução de perdas, proteção de mananciais, reúso de efluentes, eficiência operacional e consumo responsável. Trata-se de uma fonte complementar, especialmente relevante para situações de escassez e para sistemas costeiros com elevada demanda urbana.

Como funcionará a osmose reversa

A usina utilizará a osmose reversa, tecnologia predominante nas plantas modernas de dessalinização de água do mar. O processo pode ser compreendido em seis etapas principais.

1. Captação da água do mar

A água será captada por meio de uma estrutura submersa. O projeto de referência prevê uma tubulação marítima com aproximadamente 1.266 metros, construída em polietileno de alta densidade e com diâmetro de 1.600 milímetros.

A torre de captação deverá ficar submersa a cerca de 14 metros de profundidade. A estrutura precisa controlar a velocidade de entrada da água e reduzir a possibilidade de sucção de peixes, larvas e outros organismos marinhos. 

2. Pré-tratamento

Antes de chegar às membranas, a água passará por grades, filtros e sistemas de remoção de partículas. O projeto inclui filtração em camadas de cascalho, areia e antracito, além de filtros mais finos.

Essa etapa é fundamental porque algas, areia, matéria orgânica e partículas em suspensão podem entupir ou danificar as membranas. Quanto melhor o pré-tratamento, maior tende a ser a vida útil dos equipamentos e menor a necessidade de limpezas químicas.

3. Bombeamento em alta pressão

Na osmose natural, a água tende a atravessar uma membrana em direção à solução com maior concentração de sais. Na osmose reversa, aplica-se pressão suficiente para inverter esse movimento.

Desse modo, a água do mar é pressionada contra membranas semipermeáveis. As moléculas de água atravessam essas barreiras, enquanto a maior parte dos sais, microrganismos e impurezas permanece retida.

Essa etapa concentra grande parte do consumo energético da dessalinização, pois é necessário vencer a pressão osmótica da água marinha.

4. Separação entre água e concentrado salino

O processo produzirá duas correntes. A primeira será formada pela água com baixa concentração de sais. A segunda será o concentrado salino, também conhecido como salmoura.

O fator de conversão previsto é de aproximadamente 45%. Em termos simples, isso significa que, para cada 100 litros de água do mar captados, cerca de 45 litros poderão se transformar em água dessalinizada. Os demais 55 litros formarão uma corrente mais concentrada em sais. 

5. Remineralização e desinfecção

A água que atravessa as membranas apresenta baixa concentração de minerais e pode ser corrosiva para tubulações. Por isso, antes de entrar no sistema de abastecimento, será necessário realizar o pós-tratamento.

Essa etapa inclui remineralização, correção do pH, desinfecção e ajustes para que a água cumpra os padrões de potabilidade. O projeto prevê ainda controle de cloro, flúor e outras características químicas necessárias ao abastecimento público. 

6. Bombeamento para os reservatórios

Após o tratamento, a água será enviada por adutoras para reservatórios estratégicos da Cagece. Documentos técnicos indicam trechos de aproximadamente 1.500 metros de tubulação com 1.000 milímetros de diâmetro, 5.647 metros com 800 milímetros e 322 metros com 700 milímetros. 

A partir desses pontos, a água será incorporada ao Macrossistema de Distribuição de Fortaleza e misturada à água produzida pelas fontes convencionais.

Energia será um dos principais custos operacionais

O consumo de eletricidade representa um dos maiores desafios da dessalinização. A planta foi projetada com potência instalada de aproximadamente 14 megawatts, embora isso não signifique que toda essa potência será utilizada continuamente.

Estudos internacionais mostram que plantas modernas de osmose reversa podem apresentar consumo total próximo de 3 a 5 quilowatts-hora para cada metro cúbico produzido. O resultado varia conforme a salinidade, a temperatura da água, o pré-tratamento, a eficiência das bombas, a recuperação de energia, a pressão de operação e a distância de bombeamento. 

Considerando apenas uma faixa ilustrativa de 3 a 5 quilowatts-hora por metro cúbico, a operação contínua na capacidade máxima poderia exigir aproximadamente 259 a 432 megawatts-hora por dia. Em um ano, isso representaria entre 94,6 e 157,7 gigawatts-hora.

Esses números são uma projeção técnica baseada em referências internacionais, e não o consumo oficial definitivo da planta cearense. O consumo real dependerá do projeto executivo, do volume solicitado pela Cagece e das condições operacionais.

Para reduzir essa despesa, o projeto prevê sistemas de recuperação de energia formados por trocadores de pressão. Esses equipamentos aproveitam parte da pressão existente na salmoura e a transferem para a água que está entrando no processo, diminuindo a energia exigida pelas bombas de alta pressão.

Segundo o relatório técnico da PPP, estão previstas quatro linhas com 18 trocadores de pressão em cada uma. 

Salmoura exige monitoramento ambiental permanente

A gestão da salmoura é o ponto ambiental mais sensível de uma planta de dessalinização. Como apenas parte da água captada atravessa as membranas, os sais ficam concentrados no volume remanescente.

O projeto prevê um emissário submarino com aproximadamente 714 metros de extensão e diâmetro de 1.200 milímetros. A tubulação deverá possuir difusores para aumentar a mistura do concentrado com a água do mar e acelerar sua diluição. 

A dispersão adequada é essencial para evitar o aumento localizado da salinidade, principalmente próximo ao fundo do oceano. Como a salmoura é mais densa do que a água marinha, ela pode afundar e afetar organismos com menor capacidade de deslocamento caso não seja corretamente diluída.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente alerta que a descarga inadequada do concentrado pode prejudicar ecossistemas costeiros. Além da concentração de sais, a corrente pode conter resíduos de produtos empregados na limpeza das membranas ou no pré-tratamento. 

Por essa razão, a licença ambiental estabeleceu dezenas de condicionantes. A Cagece informou que foram previstas 65 exigências, envolvendo plano ambiental, gerenciamento dos resíduos da construção, proteção da fauna e da flora marinha, controle de ruído, monitoramento da qualidade da água e medidas compensatórias. 

A eficácia do emissário não deverá ser avaliada apenas na fase de licenciamento. Será necessário acompanhar continuamente a salinidade, as correntes marítimas, a temperatura, o oxigênio dissolvido e a resposta dos organismos presentes na área de influência.

Mudança de localização evitou conflito com cabos submarinos

Uma das principais razões para o atraso do empreendimento foi o conflito potencial com os cabos submarinos de telecomunicações instalados na Praia do Futuro.

Fortaleza é um ponto estratégico de conexão entre cabos que ligam o Brasil a outros continentes. Por isso, qualquer obra marítima próxima dessas estruturas exige elevado nível de segurança técnica e institucional.

Após discussões envolvendo Cagece, Agência Nacional de Telecomunicações, Gabinete de Segurança Institucional, Marinha, Secretaria do Patrimônio da União, Ministério das Comunicações e empresas operadoras dos cabos, decidiu-se alterar a localização terrestre da planta.

A mudança formalizada em 2024 garantiu um afastamento superior a 500 metros entre as estruturas de captação e a infraestrutura de telecomunicações. O projeto foi reorganizado para concentrar as unidades terrestres em uma mesma área, reduzindo a necessidade de tubulações intermediárias. 

Embora a alteração tenha permitido compatibilizar duas infraestruturas estratégicas, também exigiu novos estudos, revisão dos projetos, adequações ambientais, cessão de áreas públicas e obtenção de autorizações adicionais.

Por que a obra demorou cinco anos

A assinatura do contrato ocorreu em julho de 2021. Inicialmente, a expectativa era concluir a usina em 2023. Entretanto, o cronograma foi alterado diversas vezes.

Entre os principais fatores estiveram:

  • elaboração e análise do Estudo de Impacto Ambiental;
  • emissão das licenças prévia e de instalação;
  • discussão sobre a distância dos cabos submarinos;
  • mudança da área terrestre da planta;
  • revisão dos projetos básicos e executivos;
  • cessão de terrenos da União;
  • autorizações para utilização da faixa de praia e do espaço marítimo;
  • remanejamento da drenagem pluvial;
  • construção de uma nova areninha;
  • necessidade de licenças e alvarás municipais;
  • autorizações da Marinha para intervenções no mar. 

O histórico demonstra que grandes projetos de infraestrutura hídrica não dependem somente de recursos financeiros e engenharia. Eles exigem coordenação entre diferentes órgãos, compatibilização urbana, avaliação ambiental e gestão de riscos institucionais.

PPP transfere responsabilidades à concessionária

A usina será implantada por meio de uma concessão administrativa com duração de 30 anos. A Sociedade de Propósito Específico Águas de Fortaleza, formada originalmente por Marquise, PB Construções e Abengoa Água, será responsável por projetar, financiar, construir, operar e manter o empreendimento.

A remuneração deverá combinar uma parcela relacionada à disponibilidade da infraestrutura e outra vinculada ao volume efetivamente produzido. Além disso, indicadores de desempenho poderão afetar os pagamentos.

O modelo exige monitoramento automático do volume entregue, medição das pressões e análise contínua da qualidade da água nos pontos de entrega. O Índice de Qualidade da Água e o Índice de Desempenho Geral serão considerados na determinação da contraprestação pública mensal. 

Essa estrutura reduz parte dos riscos de construção e operação para o poder público. Entretanto, exige fiscalização rigorosa, indicadores bem definidos e transparência sobre custos, desempenho energético, qualidade da água e disponibilidade dos equipamentos.

Reequilíbrio financeiro será um tema relevante

O investimento de implantação foi estimado em aproximadamente R$ 526 milhões com base em preços de 2020. Desde então, ocorreram inflação, mudanças cambiais, elevação dos custos de materiais, alterações no projeto e postergação do cronograma.

O presidente da Cagece afirmou que o valor deverá ser atualizado, mas ressaltou que qualquer reequilíbrio precisará ser tecnicamente comprovado. 

Nesse processo, será necessário separar os impactos efetivamente relacionados a fatos extraordinários daqueles que fazem parte dos riscos normalmente assumidos pela concessionária. Também deverão ser analisados os efeitos da alteração de localização, dos novos projetos, do custo das membranas, dos tubos de grande diâmetro, dos equipamentos importados e das condições de financiamento.

Para o setor de saneamento, esse acompanhamento será relevante porque o custo final da água produzida poderá influenciar as despesas da Cagece e, consequentemente, futuras discussões tarifárias.

O que deve ser acompanhado durante as obras

A autorização representa um avanço, mas não encerra os riscos do projeto. Alguns pontos merecem acompanhamento permanente:

Cumprimento do cronograma

As obras deverão envolver escavações, instalação de adutoras, intervenções viárias, construção das unidades de tratamento e implantação das estruturas marítimas. A chegada de tubos, membranas e equipamentos eletromecânicos será decisiva para o cumprimento do prazo.

Impactos urbanos

As adutoras atravessarão áreas urbanizadas de Fortaleza. Portanto, será necessário planejar interdições, desvios, recomposição de pavimentos, controle de poeira, ruído e comunicação com moradores e comerciantes.

Desempenho energético

O consumo específico de energia, medido em quilowatts-hora por metro cúbico, deverá ser um dos principais indicadores operacionais. Pequenas diferenças nesse índice podem representar milhões de reais ao longo da concessão.

Qualidade da água

A água produzida deverá cumprir integralmente os padrões de potabilidade. Além da remoção de sais, será necessário garantir remineralização adequada, estabilidade química e compatibilidade com a água já distribuída.

Proteção marinha

O funcionamento da captação e do emissário deverá ser acompanhado por programas de monitoramento ambiental, especialmente durante períodos de menor dispersão oceânica.

Transparência contratual

Informações sobre contraprestações, volume produzido, disponibilidade da planta, indicadores de desempenho e eventuais reequilíbrios deverão ser divulgadas de forma acessível.

Dessalinização pode mudar o planejamento hídrico brasileiro

A experiência cearense poderá funcionar como referência para outras regiões costeiras que enfrentam escassez de água. Entretanto, sua replicação dependerá das condições locais.

A dessalinização apresenta maior viabilidade em áreas próximas ao litoral, com elevada demanda, poucas fontes convencionais disponíveis, energia competitiva e condições adequadas para dispersão da salmoura. Em municípios distantes do mar, o transporte da água pode elevar significativamente os custos.

Por outro lado, grandes capitais costeiras podem se beneficiar da previsibilidade da produção. Enquanto reservatórios variam conforme as chuvas, uma planta de osmose reversa pode entregar volumes programados, desde que exista energia, manutenção adequada e disponibilidade dos equipamentos.

Ainda assim, a decisão não deve ser tratada como uma escolha isolada entre dessalinizar ou utilizar fontes convencionais. A estratégia mais eficiente tende a combinar redução de perdas, reúso, proteção de mananciais, gestão da demanda, reservação, interligações e dessalinização.

Conclusão

A autorização para iniciar a usina da Praia do Futuro marca a transição de um projeto discutido durante anos para uma obra concreta de segurança hídrica.

Com capacidade de até mil litros por segundo, a planta poderá atender diretamente cerca de 720 mil pessoas, aliviar a demanda sobre os reservatórios e fortalecer a resiliência do abastecimento de Fortaleza e da Região Metropolitana.

Entretanto, o sucesso da dessalinização dependerá de mais do que concluir a construção. Será necessário controlar o consumo de energia, fiscalizar a qualidade da água, monitorar a dispersão da salmoura, garantir transparência na PPP e demonstrar que os benefícios justificam os custos ao longo dos 30 anos de contrato.

Caso esses fatores sejam bem administrados, a Dessal do Ceará poderá consolidar uma nova etapa da infraestrutura hídrica brasileira. Além de ampliar a oferta de água, o empreendimento poderá fornecer dados operacionais fundamentais para avaliar quando, onde e em quais condições a dessalinização se torna uma alternativa sustentável para o saneamento nacional.

Fontes