A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 25 de outubro de 2026, abre uma nova etapa para o saneamento brasileiro. Com 51,79% dos votos válidos, o presidente conquistou mais quatro anos de mandato. Para as empresas de água e esgoto, entretanto, a principal questão não é apenas quem governará o país, mas quais decisões serão tomadas para transformar investimentos, contratos e políticas públicas em serviços efetivamente universalizados até 2033.
O desafio é expressivo. Conforme os dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), referentes a 2024 e apresentados pelo BNDES, 84,1% da população brasileira tinha acesso ao abastecimento de água, 62,3% contava com coleta de esgoto e apenas 51,8% do esgoto gerado recebia tratamento adequado.
Esses indicadores revelam a distância entre a situação nacional e as metas estabelecidas pelo marco legal: atender 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033.
O novo ciclo político começa, portanto, com aproximadamente sete anos restantes para o prazo nacional de universalização.
Mas existe uma questão ainda mais importante: o setor conseguirá acelerar a execução das obras, melhorar a eficiência operacional e ampliar o atendimento sem comprometer a sustentabilidade financeira das companhias e a capacidade de pagamento dos consumidores?
A resposta dependerá de sete decisões estratégicas que deverão orientar o futuro do saneamento brasileiro nos próximos anos.
1. Continuidade dos investimentos: o Novo PAC terá capacidade de acelerar as obras?
A primeira consequência política da reeleição é a perspectiva de continuidade da orientação federal de investimentos em infraestrutura, especialmente por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC).
Essa continuidade, entretanto, não significa que todos os investimentos anunciados estejam automaticamente garantidos. A execução dependerá da programação orçamentária, das condições de financiamento, da maturidade dos projetos e da capacidade de execução dos responsáveis.
Segundo o Ministério das Cidades, as seleções do Novo PAC destinadas ao saneamento somaram R$ 61 bilhões entre 2023 e 2025, incluindo R$ 22,1 bilhões selecionados em 2025.
É um volume relevante de recursos comprometidos com o setor.
Entretanto, investimento selecionado não significa investimento desembolsado. E investimento contratado não significa obra concluída.
Essa diferença deverá ocupar posição central na avaliação das políticas públicas a partir de 2027.
Dados da Casa Civil sobre o componente de abastecimento de água do Novo PAC apresentam uma carteira de R$ 12,5 bilhões em investimentos previstos, dos quais aproximadamente R$ 4,8 bilhões estão associados ao período posterior a 2026.
Em outras palavras, parte da carteira já possui execução planejada para além do atual exercício e atravessará o novo mandato presidencial.
O principal risco não está apenas na falta de dinheiro
Muitas obras de saneamento enfrentam dificuldades anteriores à liberação dos recursos: projetos incompletos, licenciamento ambiental, desapropriações, interferências urbanas, processos licitatórios, dificuldades de contratação e baixa capacidade técnica de execução.
Uma estação de tratamento pode receber autorização de financiamento, mas permanecer sem produzir benefícios caso faltem emissários, interceptores, elevatórias ou ligações prediais.
Da mesma forma, a construção de uma rede de abastecimento não representa universalização efetiva se as residências continuarem sem ligação ou receberem água de maneira intermitente.
Para os gestores, surge uma oportunidade de mudar a forma de acompanhar investimentos.
Em vez de observar exclusivamente o orçamento anual executado, as companhias precisam relacionar cada empreendimento à capacidade operacional efetivamente incorporada ao sistema e à população que passa a ser atendida.
O futuro do saneamento dependerá menos da quantidade de anúncios e mais da capacidade de converter recursos em resultados mensuráveis.
2. Concessões e PPPs: haverá uma nova onda de participação privada?
Uma das grandes dúvidas após as eleições é se a continuidade do governo federal favorecerá ou limitará a expansão das concessões privadas e das parcerias público-privadas (PPPs).
A análise do cenário brasileiro indica que o debate não pode ser reduzido a uma disputa entre empresas públicas e privadas.
A legislação vigente estabelece metas de universalização, exigências de capacidade econômico-financeira e mecanismos de regulação aplicáveis aos diferentes modelos de prestação.
Além disso, os governos estaduais e municipais continuam exercendo papel decisivo na estruturação de concessões, nos arranjos regionalizados e nas decisões sobre a prestação dos serviços.
Não há, até este momento, confirmação de uma mudança geral do marco legal decorrente do resultado eleitoral de 2026.
Portanto, qualquer previsão de interrupção ou aceleração automática de privatizações deve ser tratada como hipótese, não como fato.
O exemplo de Sergipe revela um modelo de divisão de responsabilidades
Em setembro de 2024, a Iguá Saneamento venceu o leilão de concessão parcial dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário de 74 municípios sergipanos.
O projeto, estruturado pelo BNDES, prevê investimentos de aproximadamente R$ 6,3 bilhões, com o objetivo de avançar na universalização até 2033.
O modelo apresenta uma característica importante: a Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso) permanece responsável pela produção de água tratada em grande parte do estado, enquanto a concessionária assume atividades relacionadas à distribuição e ao esgotamento sanitário nos municípios abrangidos.
Esse arranjo demonstra que a participação privada não exige, necessariamente, a transferência integral de todas as etapas da prestação dos serviços.
Entretanto, a divisão também cria desafios.
A qualidade da distribuição depende do volume, da regularidade e das características da água produzida. Falhas de integração podem provocar disputas sobre responsabilidades, custos operacionais e cumprimento de metas.
A principal lição para outros estados é que o desenho contratual precisa ser tão consistente quanto a modelagem financeira.
É necessário definir claramente obrigações de investimento, padrões de qualidade, interfaces operacionais, mecanismos de fiscalização, compartilhamento de dados e critérios de reequilíbrio econômico-financeiro.
O futuro do saneamento poderá envolver novos modelos híbridos, mas seu sucesso dependerá da qualidade dos contratos e da capacidade de fiscalização.
3. Regulação: a ANA poderá exercer influência ainda maior
Enquanto parte do debate público se concentra em investimentos e concessões, uma transformação menos visível já acontece na regulação.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) vem estabelecendo normas de referência que buscam aumentar a padronização regulatória e a comparabilidade entre os diferentes prestadores.
Entre os instrumentos relevantes estão:
- NR 8/2024: metas progressivas de universalização e indicadores de acesso.
- NR 13/2025: estrutura tarifária e tarifa social.
- NR 15/2025: redução progressiva e controle de perdas na distribuição.
- NR 16/2026: contabilidade regulatória dos serviços de água e esgoto.
A NR 16/2026, aprovada em agosto de 2026, estabelece critérios destinados a padronizar informações contábeis, aprimorar o acompanhamento econômico-financeiro e conferir maior confiabilidade à avaliação dos ativos.
A norma prevê prazo de três anos, até agosto de 2029, para a incorporação de suas diretrizes pelas entidades reguladoras infranacionais.
Para as companhias, isso representa uma mudança que vai além das demonstrações financeiras.
A relação entre investimento, custos operacionais, remuneração dos ativos e desempenho poderá passar por processos de acompanhamento mais estruturados.
Consequentemente, áreas de engenharia, contabilidade, patrimônio, planejamento, regulação e operação precisarão trabalhar com informações cada vez mais integradas.
A agenda regulatória de 2027 e 2028 será decisiva
A ANA também está elaborando sua agenda regulatória para o biênio 2027–2028.
A proposta submetida à consulta pública inclui temas associados à regulação de serviços, recursos hídricos e saneamento.
Outro movimento relevante é a discussão sobre diretrizes para revisão tarifária periódica, ordinária e extraordinária, envolvendo custos eficientes, remuneração de investimentos, qualidade dos serviços e equilíbrio econômico-financeiro.
Até a data desta reportagem, propostas em discussão não devem ser confundidas com normas definitivamente aprovadas.
Para os gestores, a recomendação é acompanhar as deliberações regulatórias antes que as exigências se transformem em dificuldades operacionais.
Companhias que anteciparem a organização dos dados terão melhores condições de demonstrar investimentos, justificar custos e responder às exigências dos reguladores.
4. Empresas estaduais: modernizar a gestão ou perder capacidade competitiva?
O período pós-eleitoral poderá ser especialmente relevante para companhias estaduais como Embasa, Copasa, Sanepar, Cagece, Caesb, Cesan e Compesa.
Essas empresas enfrentam desafios distintos, mas compartilham uma questão estratégica: como ampliar investimentos mantendo equilíbrio financeiro, eficiência operacional e qualidade dos serviços?
O modelo institucional de cada companhia dependerá das decisões de seus controladores, contratos, estruturas regionais e exigências regulatórias.
Não é tecnicamente correto afirmar que todas seguirão a mesma trajetória.
Algumas poderão buscar novos financiamentos públicos, outras poderão ampliar parcerias privadas e outras poderão concentrar esforços em modernização operacional e recuperação de receitas.
O cenário reforça a importância de cinco capacidades fundamentais: planejamento de investimentos, redução de perdas, produtividade operacional, gestão comercial e governança.
A experiência da Sabesp traz uma referência importante
A Sabesp concluiu sua desestatização em 2024 e passou a trabalhar com a antecipação da universalização para 2029 nas áreas abrangidas pelo novo contrato de concessão.
A companhia também divulga indicadores específicos para acompanhar a ampliação do acesso, separados por categorias de atendimento urbano, rural e áreas informais, além do tratamento de esgoto.
Os resultados divulgados até setembro de 2026 mostram avanços em determinadas metas, embora a própria empresa informe que os dados dependem de validação pela Arsesp e pela entidade verificadora.
A principal lição não está exclusivamente no modelo de propriedade.
Está na importância de associar investimentos a obrigações verificáveis, com acompanhamento territorial e metas capazes de identificar onde existem atrasos.
Uma companhia pode melhorar seu indicador médio de cobertura enquanto determinados bairros, localidades rurais e comunidades vulneráveis continuam sem atendimento.
Por isso, o futuro do saneamento exige um planejamento que considere não apenas médias estaduais, mas também o déficit de cada território.
O papel das companhias públicas continua estratégico
Empresas públicas que demonstrarem capacidade de investimento, produtividade e qualidade poderão fortalecer sua posição institucional.
Por outro lado, dificuldades persistentes de gestão, endividamento, execução de obras e desempenho comercial poderão aumentar a pressão por mudanças estruturais.
A questão central não deve ser apenas a natureza pública ou privada do prestador, mas sua capacidade comprovada de cumprir contratos, atender os usuários e sustentar financeiramente a expansão dos serviços.
5. Tarifa social e gestão comercial: a transformação pode começar no cadastro
O debate sobre universalização costuma priorizar redes, estações e grandes empreendimentos.
Entretanto, uma mudança relevante para o período posterior às eleições acontece dentro dos sistemas comerciais das companhias.
A Lei nº 14.898/2024 estabeleceu diretrizes nacionais para a Tarifa Social de Água e Esgoto.
Entre seus principais dispositivos está o desconto de 50% sobre a tarifa aplicável ao consumo de até 15 metros cúbicos mensais para famílias elegíveis, respeitadas as condições legais e eventuais regras mais favoráveis.
A identificação de beneficiários deverá ocorrer automaticamente, mediante utilização das bases de dados pertinentes, como CadÚnico e BPC.
A ANA também aprovou a NR 13/2025, que trata da estrutura tarifária e da tarifa social.
Por que isso muda a gestão comercial?
Uma companhia pode possuir milhares de consumidores potencialmente elegíveis que ainda não estão corretamente identificados em seus cadastros.
Essa situação exige integração de bases, atualização cadastral, validação de endereços, identificação de responsáveis pela unidade consumidora e definição de procedimentos para inclusão e manutenção do benefício.
O desafio envolve simultaneamente tecnologia, atendimento, regulação, cobrança e faturamento.
A concessão adequada da tarifa social também exige avaliar os impactos sobre o equilíbrio econômico-financeiro dos serviços, conforme as regras legais, regulatórias e contratuais.
Outra oportunidade está na redução da inadimplência.
Isso não significa que a tarifa social produzirá, automaticamente, aumento da arrecadação. Entretanto, a combinação entre enquadramento correto, comunicação acessível, faturamento confiável e políticas de negociação pode contribuir para uma relação comercial mais sustentável.
O que as companhias podem fazer imediatamente?
O primeiro passo é identificar a quantidade de usuários potencialmente elegíveis, quantos já recebem o benefício e quais obstáculos impedem a correta classificação.
Depois, é necessário acompanhar indicadores como erros de cadastro, reclamações de faturamento, inadimplência, arrecadação por segmento e tempo de atendimento.
Existe uma oportunidade adicional pouco percebida: a ampliação do esgotamento sanitário precisa estar conectada ao planejamento comercial.
Rede construída não significa, necessariamente, esgoto coletado, tratado e faturado.
Sem adesão dos imóveis, execução das ligações, atualização cadastral e orientação adequada aos consumidores, parte do investimento poderá não produzir os resultados ambientais e econômicos esperados.
É justamente nesse ponto que as equipes comerciais se tornam essenciais para a universalização.
6. Redução de perdas: o investimento que pode liberar capacidade sem construir novas estações
Um dos caminhos mais relevantes para o futuro do saneamento brasileiro está na recuperação da água que já é produzida.
A NR 15/2025 da ANA estabelece diretrizes para a gestão de redução progressiva e controle de perdas nos subsistemas de distribuição.
A norma reforça a necessidade de diagnóstico padronizado, planejamento e monitoramento dos resultados.
Na prática, as perdas envolvem duas grandes categorias.
As perdas reais representam volumes de água perdidos fisicamente, principalmente por vazamentos em redes, ramais e reservatórios.
As perdas aparentes estão relacionadas, entre outros fatores, a problemas de medição, falhas cadastrais, erros de faturamento e consumos não autorizados.
A distinção é importante porque as soluções são diferentes.
Para reduzir perdas reais, são necessárias ações como controle de pressão, pesquisa ativa de vazamentos, setorização hidráulica e melhoria da manutenção.
Para enfrentar perdas aparentes, ganham importância a substituição tecnicamente orientada de hidrômetros, o controle de fraudes, a atualização cadastral e a qualidade do processo de leitura e faturamento.
Por que investir em perdas pode ser mais eficiente?
A redução de vazamentos pode diminuir a necessidade de captação, tratamento, bombeamento e transporte de água.
Além disso, permite que parte da capacidade já instalada seja direcionada para áreas com déficit de atendimento.
Entretanto, nem todo metro cúbico recuperado se transforma diretamente em economia financeira.
É necessário considerar custos variáveis de produção, energia, capacidade disponível, comportamento da demanda e custos da intervenção.
O indicador mais importante não é apenas a redução percentual de perdas, mas a relação entre investimento realizado e benefício econômico, hídrico e operacional alcançado.
Nesse contexto, companhias que conseguirem integrar equipes de operação, engenharia e gestão comercial poderão obter resultados mais consistentes do que aquelas que tratam as perdas como responsabilidade de uma única área.
7. Tecnologia e inteligência artificial: a próxima disputa será pela qualidade dos dados
A expansão da infraestrutura brasileira ocorrerá em um ambiente tecnológico diferente daquele encontrado nos ciclos anteriores de investimento.
Hidrômetros inteligentes, sensores, sistemas de supervisão, inteligência artificial, análise preditiva e plataformas digitais de relacionamento já oferecem novas possibilidades de gestão.
Entretanto, digitalizar um processo ineficiente não significa torná-lo eficiente.
A tecnologia só produz valor quando resolve um problema operacional ou comercial claramente identificado.
Singapura mostra como transformar medição em informação
A agência nacional de água de Singapura, PUB, informa que aproximadamente 300 mil hidrômetros inteligentes foram implantados na primeira fase de seu programa de medição.
Os equipamentos registram o consumo automaticamente diversas vezes ao dia e transmitem os dados por rede digital, dispensando a leitura manual tradicional.
Os consumidores também podem acompanhar informações de uso para compreender melhor seus hábitos.
A experiência demonstra uma mudança importante: o hidrômetro deixa de ser exclusivamente um instrumento de faturamento e passa a integrar uma plataforma de gestão de demanda.
No Brasil, essa abordagem pode ser aplicada progressivamente em grandes consumidores, áreas de perdas elevadas, locais de difícil acesso e regiões com maior concentração de reclamações de faturamento.
Entretanto, a implantação exige estudos sobre conectividade, duração das baterias, integração com os sistemas comerciais, segurança da informação e retorno financeiro.
Não seria adequado presumir que o resultado obtido em Singapura será automaticamente reproduzido por uma companhia brasileira.
As condições de rede, topografia, custos e perfil de consumidores são diferentes.
A lição é que a tecnologia precisa ser selecionada a partir de um problema concreto e acompanhada por indicadores capazes de comprovar seu desempenho.
O que o mundo ensina sobre financiamento e cobrança por resultados?
O setor de água e esgoto da Inglaterra e do País de Gales oferece outra experiência relevante.
Em dezembro de 2024, o regulador econômico Ofwat aprovou, no processo de revisão tarifária PR24, um pacote de aproximadamente 104 bilhões de libras para o ciclo regulatório de 2025 a 2030.
O planejamento inclui investimentos em segurança do abastecimento, infraestrutura, qualidade ambiental e redução de descargas poluentes.
Mas existe uma característica importante.
O financiamento está associado a compromissos de desempenho, mecanismos de incentivo e instrumentos regulatórios de responsabilização.
O modelo também procura assegurar que valores cobrados dos consumidores estejam relacionados à execução dos investimentos previstos.
Por outro lado, o caso britânico evidencia dificuldades que não devem ser ignoradas.
O programa foi acompanhado de previsão de aumento nas contas, enquanto diferentes companhias questionaram decisões tarifárias e buscaram revisões.
Isso demonstra que investimentos elevados não eliminam conflitos sobre preços, desempenho e sustentabilidade financeira.
O que pode ser aplicado no Brasil?
A principal contribuição da experiência internacional está na relação entre financiamento, transparência e entrega de resultados.
Projetos brasileiros poderiam fortalecer mecanismos de acompanhamento que relacionem o investimento previsto, o realizado, as metas de qualidade e os benefícios efetivamente recebidos pelos consumidores.
Uma concessionária que cumpre metas precisa apresentar evidências objetivas. Da mesma forma, dificuldades operacionais precisam ser identificadas e tratadas antes de comprometer o cronograma de universalização.
O futuro do saneamento brasileiro dependerá também da capacidade dos reguladores de conciliar investimentos, eficiência, modicidade tarifária e qualidade.
Os impactos econômicos e operacionais depois das eleições
Os próximos quatro anos poderão afetar diretamente o planejamento das companhias.
Na engenharia, a demanda por projetos executivos, expansão de redes, modernização de estações e soluções para áreas de difícil atendimento poderá continuar elevada.
Na operação, o aumento da infraestrutura exigirá manutenção, energia, insumos, equipes qualificadas e maior capacidade de gestão de ativos.
Na gestão financeira, será necessário compatibilizar financiamentos, investimentos, despesas operacionais, fluxo de caixa e recuperação dos valores investidos ao longo dos contratos.
Na área comercial, deverão ganhar relevância a ampliação de ligações, adesão ao esgotamento sanitário, micromedição, tarifa social, recuperação de receitas e melhoria do relacionamento com os clientes.
Na regulação, a qualidade das informações, a comprovação de investimentos e o acompanhamento das metas tendem a se tornar ainda mais importantes.
Existe também um risco que merece atenção: o crescimento do custo operacional associado à infraestrutura construída.
Uma nova estação elevatória, por exemplo, pode ampliar o atendimento, mas também aumentar permanentemente as despesas com energia elétrica, manutenção e pessoal.
Portanto, a análise econômica de um empreendimento precisa considerar seu custo durante toda a vida útil, e não apenas o valor necessário à construção.
Três cenários possíveis para o saneamento entre 2027 e 2030
O resultado eleitoral permite avaliar possibilidades, mas não autoriza apresentar decisões futuras como confirmadas.
Cenário 1 — Continuidade com aceleração
Nesse cenário, a política federal mantém as linhas de financiamento, os governos estaduais avançam na estruturação de projetos e as companhias aumentam a capacidade de execução.
A regulação evolui, os investimentos se transformam em obras concluídas e os indicadores de atendimento apresentam melhora consistente.
É o cenário de maior potencial para aproximar o Brasil das metas de 2033.
Cenário 2 — Continuidade com dificuldades de execução
Nesse caso, programas e financiamentos permanecem disponíveis, mas limitações orçamentárias, dificuldades de contratação, atrasos em licitações e obstáculos operacionais reduzem a velocidade de execução.
O resultado seria um crescimento dos investimentos contratados sem avanço proporcional do atendimento efetivo.
Esse cenário mostra por que o setor não pode medir desempenho apenas pela quantidade de projetos anunciados.
Cenário 3 — Pressões fiscais e mudanças institucionais
Um ambiente de restrições fiscais, aumento do custo de financiamento ou revisões de políticas estaduais poderia levar companhias e governos a reavaliar investimentos, contratos e modelos de prestação.
Nesse cenário, projetos menos estruturados e empresas financeiramente fragilizadas tenderiam a enfrentar dificuldades maiores.
Os três cenários são hipóteses de análise, não previsões confirmadas.
A trajetória efetiva dependerá das decisões políticas, econômicas, regulatórias e empresariais adotadas a partir de agora.
O que gestores de saneamento devem fazer nos próximos 100 dias?
Embora o novo mandato presidencial tenha início em janeiro de 2027, as companhias não precisam aguardar essa data para se preparar.
Uma agenda de gestão pode começar imediatamente.
1. Revisar o plano de universalização. Identificar o déficit de atendimento por município, bairro, setor operacional e tipo de serviço, verificando a compatibilidade entre metas contratuais e cronogramas de investimento.
2. Classificar os investimentos por maturidade. Separar projetos em concepção, elaboração, licenciamento, contratação, execução e operação, identificando impedimentos e responsáveis pela solução.
3. Atualizar o planejamento financeiro. Projetar despesas operacionais decorrentes de novos ativos, necessidades de financiamento, arrecadação esperada e riscos para a sustentabilidade econômico-financeira.
4. Reavaliar as perdas. Priorizar ações que combinem redução de desperdícios, recuperação de receitas, eficiência energética e aumento da disponibilidade hídrica.
5. Verificar a implementação da tarifa social. Avaliar bases cadastrais, elegibilidade, integração tecnológica e conformidade com as regras legais e regulatórias.
6. Fortalecer o acompanhamento regulatório. Preparar informações patrimoniais, contábeis, operacionais e comerciais para as exigências das normas de referência da ANA.
7. Integrar indicadores comerciais e operacionais. Relacionar novas redes, ligações executadas, unidades efetivamente atendidas, faturamento, arrecadação e qualidade do serviço.
8. Acompanhar a agenda pública de 2027. Monitorar o orçamento federal, a carteira do Novo PAC, a agenda regulatória da ANA e as decisões estaduais sobre financiamentos, concessões e parcerias.
Essas medidas permitem identificar riscos com antecedência e direcionar recursos para intervenções com maior potencial de resultado.
Uma oportunidade pouco percebida: valorizar quem transforma investimentos em resultados
A agenda posterior às eleições também poderá ampliar a importância dos profissionais de saneamento.
O crescimento dos investimentos exigirá não apenas novos equipamentos, mas capacidade técnica para projetar, contratar, fiscalizar, operar, manter e avaliar os sistemas.
Engenheiros e técnicos serão fundamentais para assegurar a funcionalidade dos empreendimentos.
Operadores terão papel decisivo na estabilidade dos processos e na qualidade do atendimento.
Equipes de manutenção precisarão aumentar a confiabilidade dos ativos.
Profissionais comerciais serão responsáveis por transformar infraestrutura disponível em ligações ativas, consumos corretamente medidos, faturamento confiável e relacionamento sustentável com os consumidores.
Analistas de tecnologia terão a responsabilidade de integrar informações e desenvolver ferramentas que apoiem decisões.
Reguladores e especialistas jurídicos precisarão transformar exigências legais e contratuais em mecanismos objetivos de acompanhamento.
O maior desafio, portanto, não será apenas contratar profissionais, mas desenvolver competências compatíveis com um setor mais regulado, digitalizado e orientado por desempenho.
Os erros que o setor precisa evitar
A experiência brasileira e internacional permite identificar alguns erros que podem comprometer os próximos anos.
O primeiro é confundir expansão da infraestrutura com atendimento efetivo.
O segundo é priorizar grandes investimentos sem avaliar os custos futuros de operação.
O terceiro é adquirir tecnologias sem estabelecer indicadores de retorno.
O quarto é tratar perdas, faturamento, inadimplência e relacionamento com clientes como problemas isolados.
O quinto é construir planos de universalização sem considerar a capacidade de execução das equipes e dos fornecedores.
Por último, existe o risco de decisões políticas de curto prazo comprometerem investimentos cuja maturação exige vários anos.
O saneamento precisa de continuidade institucional, mas também necessita de fiscalização, revisão de estratégias e responsabilização por resultados.
Conclusão: a eleição terminou, mas a decisão mais importante começa agora
A reeleição presidencial de 2026 define a continuidade do comando político federal, mas não determina, por si só, o sucesso da universalização.
O futuro do saneamento dependerá da capacidade de transformar políticas públicas em projetos executáveis, investimentos em infraestrutura funcional e serviços disponíveis em atendimento efetivo à população.
Entre 2027 e 2030, o Brasil terá uma oportunidade decisiva para acelerar obras, aprimorar a regulação, modernizar companhias e fortalecer modelos sustentáveis de prestação.
Mas o tempo também será um fator de pressão.
Com a aproximação de 2033, cada atraso em licitações, cada empreendimento paralisado, cada rede sem ligação e cada sistema que opera de maneira ineficiente poderão comprometer o cumprimento das metas.
Para os gestores, a principal lição está na necessidade de integrar planejamento, operação, engenharia, finanças e gestão comercial.
Para os profissionais, o novo ciclo exigirá conhecimento técnico, capacidade de adaptação e decisões orientadas por informações confiáveis.
O grande desafio do Brasil depois das eleições não será apenas investir mais em saneamento. Será garantir que cada investimento produza mais acesso, mais eficiência, mais qualidade e resultados duradouros para a população.
Esse será o verdadeiro indicador de sucesso do próximo ciclo político.
Fontes e referências
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Presidente do TSE anuncia reeleição de Lula e faz balanço do 2º turno das Eleições 2026.
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Ofwat approves £104bn upgrade to accelerate delivery of cleaner rivers and seas and secure long-term drinking water supplies for customers.
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