A Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) iniciou, em 19 de outubro de 2026, a utilização de uma esfera inteligente equipada com sensores acústicos e inteligência artificial para realizar a detecção de vazamentos em grandes adutoras sem escavações durante a inspeção e sem interromper o abastecimento.
A primeira operação percorreu aproximadamente 8 quilômetros de tubulação na Região Metropolitana do Recife. O projeto prevê inspecionar cerca de 70 quilômetros de adutoras, com expectativa anunciada pela companhia de recuperar até 65 milhões de litros de água por ano.
Mas existe uma questão ainda mais relevante para profissionais do saneamento: seria possível transformar a inspeção de adutoras em uma atividade preventiva, capaz de evitar perdas significativas antes que elas provoquem rompimentos, desperdício de água e interrupções no fornecimento?
A experiência da Compesa, somada a projetos realizados no Paraná, em São Paulo e no Reino Unido, indica que essa possibilidade está se tornando uma realidade. Entretanto, os resultados dependem de algo que vai muito além da tecnologia: a capacidade de transformar diagnósticos em intervenções e comprovar os volumes efetivamente recuperados.
O que aconteceu: uma esfera percorreu 8 quilômetros dentro de uma adutora
A Compesa colocou em operação o sistema Nautilus, desenvolvido pela empresa espanhola Aganova, especializado na identificação de anomalias em tubulações de grande diâmetro.
O primeiro lançamento ocorreu na Adutora de Duas Unas, na Estação de Tratamento de Água Castelo Branco, pertencente ao Sistema Tapacurá, em São Lourenço da Mata, Pernambuco.
O equipamento percorreu aproximadamente oito quilômetros até a Estação de Tratamento Tapacurá, acompanhando o fluxo da água.
Durante esse deslocamento, a esfera coletou informações acústicas e operacionais que serão utilizadas para identificar possíveis vazamentos ocultos, bolsões de ar e outras anomalias.
Segundo a Compesa, o sistema pode atuar em adutoras com diâmetros superiores a 300 milímetros. Na operação pernambucana, dispositivos instalados ao longo do percurso, aproximadamente a cada quilômetro, auxiliam no acompanhamento e na localização dos eventos detectados.
A primeira etapa contempla três importantes sistemas de abastecimento da Região Metropolitana do Recife:
- Tapacurá;
- Gurjaú;
- Duas Unas.
A iniciativa resulta de uma cooperação entre Compesa e Amazon, com utilização da tecnologia da Aganova. A empresa Effico Saneamento também participa da iniciativa, prestando suporte técnico local, conforme informações divulgadas pelas empresas envolvidas.
De acordo com a Compesa, a inspeção será realizada sem custos para a companhia, mediante financiamento associado a compromissos ambientais e de sustentabilidade da Amazon.
Isso, contudo, não significa que eventuais intervenções hidráulicas, reparos, recomposição de pavimentos e serviços complementares estejam necessariamente incluídos no mesmo financiamento.
A extensão exata dessa cobertura financeira não foi detalhada no comunicado consultado.
Atenção aos números: existem duas projeções diferentes
Um aspecto da apuração merece especial atenção.
Em junho e julho de 2026, Amazon e Aganova divulgaram que a iniciativa no Recife poderia recuperar aproximadamente 165 milhões de litros de água anualmente, a partir da inspeção de cerca de 69 quilômetros de tubulações.
Entretanto, no comunicado oficial de 20 de outubro de 2026, a Compesa informou uma expectativa de recuperação de até 65 milhões de litros por ano, considerando aproximadamente 70 quilômetros de adutoras.
A diferença é relevante.
Convertidas em vazões médias contínuas, as duas projeções representam aproximadamente:
Projeção anual
Volume diário equivalente
Vazão média
65 mil m³/ano
178 m³/dia
2,06 L/s
165 mil m³/ano
452 m³/dia
5,23 L/s
A estimativa divulgada anteriormente é aproximadamente 2,54 vezes maior que a mais recente.
As publicações consultadas não esclareceram a razão dessa mudança. Ela pode decorrer de revisões de escopo, premissas ou metodologia, mas nenhuma dessas explicações pode ser tratada como confirmada.
Ambos os valores são projeções, não resultados efetivamente medidos.
O volume real recuperado dependerá das anomalias identificadas, das vazões dos vazamentos, da execução dos reparos e da verificação hidráulica posterior.
Para o gerenciamento de projetos de perdas, essa diferença reforça uma lição fundamental: uma meta anunciada não deve ser confundida com água efetivamente economizada.
Como funciona a detecção de vazamentos por esfera inteligente?
O Nautilus utiliza um conceito conhecido como inspeção acústica interna em linha.
Diferentemente dos métodos convencionais, que procuram ruídos do lado externo das tubulações, a tecnologia leva os sensores para dentro da própria adutora.
A esfera possui flutuabilidade próxima à da água e é transportada pelo fluxo da tubulação, registrando informações durante o percurso.
O funcionamento pode ser compreendido em cinco etapas.
1. Preparação da inspeção
Inicialmente, os técnicos avaliam o cadastro da tubulação, o diâmetro, o material, a pressão, a vazão, a velocidade de escoamento e a existência de pontos adequados para introdução e retirada do equipamento.
Também são verificadas possíveis restrições internas, válvulas e alterações geométricas capazes de comprometer a navegação.
Essa fase é indispensável para reduzir o risco de retenção do dispositivo.
2. Introdução da esfera
O equipamento é introduzido por um ponto previamente preparado.
Dependendo das características da instalação, podem ser utilizados acessórios e dispositivos específicos para lançamento e recuperação.
Em condições adequadas, o procedimento permite manter a tubulação operando.
3. Identificação dos ruídos
Durante o deslocamento, sensores acústicos registram sinais produzidos pela movimentação da água.
Quando existe um vazamento, a passagem da água por uma abertura pode produzir uma assinatura acústica característica.
O dispositivo também pode registrar sinais associados a bolsões de ar e outras irregularidades.
A interpretação não depende simplesmente da intensidade de um ruído. É necessário diferenciar sinais de vazamentos daqueles provocados por bombas, válvulas, turbulência e condições normais de operação.
4. Localização das anomalias
Dispositivos de sincronização e acompanhamento permitem relacionar os registros acústicos com a posição da esfera.
O fabricante informa capacidade de localização de vazamentos com precisão inferior a um metro em condições adequadas.
Essa é uma característica técnica declarada pelo fornecedor, e não uma garantia de que todas as inspeções apresentarão a mesma precisão.
A exatidão depende das condições hidráulicas, da configuração da rede, do rastreamento e da qualidade dos dados.
5. Análise por inteligência artificial
Os dados coletados são processados por sistemas analíticos capazes de reconhecer padrões e identificar eventos potencialmente anormais.
No projeto do Recife, são utilizados recursos de computação e análise de dados da Amazon Web Services (AWS).
A inteligência artificial auxilia na classificação e interpretação dos registros, mas não elimina a necessidade de validação por especialistas.
Existe também uma distinção importante: acompanhar a posição da esfera durante a inspeção não significa que todos os vazamentos sejam diagnosticados e confirmados instantaneamente.
A produção do relatório técnico pode exigir processamento posterior dos dados.
O resultado esperado é um conjunto de ocorrências georreferenciadas, acompanhado de informações suficientes para orientar verificações e reparos.
Por que a tecnologia pode mudar a gestão de grandes adutoras?
A localização de vazamentos em tubulações de grande diâmetro apresenta dificuldades diferentes daquelas encontradas nas redes de distribuição convencionais.
Muitas adutoras atravessam áreas rurais, terrenos particulares, rodovias, travessias e locais de acesso restrito.
Além disso, parte dos vazamentos não chega à superfície.
A água pode infiltrar-se no solo, alcançar galerias de drenagem, seguir caminhos subterrâneos ou descarregar em áreas distantes do ponto de origem.
Nessas condições, as equipes podem passar muito tempo procurando uma ocorrência sem encontrar qualquer manifestação visível.
O problema se agrava quando o método convencional exige sucessivas escavações ou a paralisação de uma infraestrutura responsável por abastecer milhares de pessoas.
A inspeção interna oferece uma alternativa: investigar grandes extensões de tubulação com menor interferência operacional e direcionar as intervenções para pontos previamente identificados.
Isso não significa eliminar todas as escavações.
Quando o defeito exige reparo externo, a abertura do terreno geralmente continua necessária. A diferença é que ela pode ser realizada em uma localização tecnicamente indicada, reduzindo investigações desnecessárias.
Sanepar: R$ 1,9 milhão investido e vazamentos já encontrados
Uma das experiências brasileiras mais diretamente comparáveis ocorreu na Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar).
Em 2025, a empresa iniciou a inspeção de aproximadamente 110 quilômetros de adutoras do Sistema de Abastecimento Integrado de Curitiba (SAIC), que atende cerca de 4,1 milhões de pessoas em 12 municípios da Região Metropolitana.
A tecnologia utilizada também foi o Nautilus.
Segundo comunicado oficial da Sanepar publicado em setembro de 2025, as equipes inspecionaram 53 quilômetros nos primeiros 45 dias de utilização e vistoriaram pelo menos 13 pontos indicados pelos sensores.
Dois episódios ilustram a aplicação prática.
Em Curitiba, um vazamento oculto foi localizado em uma adutora na Rua Marechal Deodoro. A água escapava para a rede de drenagem pluvial, dificultando sua identificação visual.
Em outra ocorrência, na saída da Estação de Tratamento de Água Iraí, em Pinhais, o equipamento permitiu identificar um vazamento que posteriormente foi corrigido por intervenção programada.
A companhia informou investimento aproximado de R$ 1,9 milhão na contratação do serviço.
O sistema oficial de licitações da Sanepar registra a Aganova Brasil como vencedora da Licitação Eletrônica nº 310/24, pelo valor de R$ 1.949.156,43.
O valor contratado não deve ser interpretado automaticamente como um preço padronizado por quilômetro, pois o escopo inclui atividades técnicas e serviços associados à inspeção.
A principal lição da Sanepar está na combinação entre tecnologia, vistoria de campo e reparo programado.
Os sensores identificaram possíveis ocorrências, mas foram as equipes técnicas que verificaram os pontos e executaram as intervenções.
Esse é o modelo de trabalho que permite transformar uma inspeção especializada em melhoria operacional.
Sabesp: a mesma tecnologia para evitar 210 milhões de litros de perdas
A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) também participa de uma iniciativa envolvendo Amazon, Aganova e Effico Saneamento.
Anunciado em novembro de 2025, o projeto prevê a inspeção de aproximadamente 64 quilômetros de grandes tubulações na Região Metropolitana de São Paulo.
A expectativa divulgada pelos parceiros é evitar o desperdício de cerca de 210 milhões de litros por ano.
O projeto faz parte de uma colaboração anunciada para o período de 2025 a 2035.
Assim como no Recife, a proposta combina sensores acústicos, análise de dados e financiamento associado à sustentabilidade hídrica.
Entretanto, o volume divulgado representa uma expectativa de economia, não uma recuperação anual já comprovada.
A experiência paulista demonstra outra tendência importante: grandes empresas de tecnologia começam a financiar projetos de eficiência hídrica em parceria com operadores de saneamento.
Para as companhias, surge a possibilidade de desenvolver projetos que associem segurança hídrica, redução de perdas e compromissos ambientais de organizações que dependem dos recursos hídricos.
Essas iniciativas, porém, precisam de critérios claros para mensuração, verificação e atribuição dos benefícios ambientais.
Reino Unido: cinco anomalias em uma adutora de 7,9 quilômetros
O benchmarking internacional oferece um caso especialmente interessante.
Em agosto de 2025, a empresa Essex & Suffolk Water enfrentava dificuldades para colocar em operação uma nova adutora de água bruta de aproximadamente 7,9 quilômetros, com diâmetro nominal de 800 milímetros, na região de Langford, no Reino Unido.
A tubulação apresentava falhas repetidas nos testes de pressão.
Mesmo após investigações convencionais, a localização dos defeitos continuava desconhecida.
A solução foi uma inspeção interna realizada pela SUEZ em parceria com a Aganova.
A esfera Nautilus percorreu 7.940 metros sob vazão operacional aproximada de 680 m³/h.
A análise identificou cinco ocorrências: dois vazamentos de maior gravidade, um de gravidade intermediária, um menor e uma anomalia compatível com vazamento incipiente.
Segundo a SUEZ, os dois vazamentos mais significativos representavam uma perda estimada de aproximadamente um milhão de litros por dia.
Com as localizações obtidas, a operadora realizou os reparos necessários.
A tubulação posteriormente cumpriu os requisitos de comissionamento e entrou em serviço.
O aspecto mais relevante desse caso é que a tecnologia foi utilizada antes da operação definitiva do ativo.
A experiência indica uma aplicação ainda pouco explorada: utilizar inspeções internas não apenas para identificar perdas em instalações antigas, mas também para verificar estruturas recém-construídas e reduzir o risco de entrada em operação com defeitos ocultos.
Para gestores de engenharia e fiscalização de obras, trata-se de uma possibilidade relevante, particularmente em grandes adutoras cujo acesso posterior será difícil ou oneroso.
A tecnologia substitui o geofone e os métodos tradicionais?
Não.
A detecção de vazamentos precisa considerar características hidráulicas, extensão, acessibilidade, material da tubulação e custo da investigação.
O geofone eletrônico, a haste de escuta e os correlacionadores acústicos continuam sendo ferramentas importantes, especialmente em redes de distribuição e ramais.
A Copasa apresentou um exemplo recente dessa abordagem.
Em Ubá, Minas Gerais, uma operação iniciada em julho de 2026 identificou e corrigiu mais de 100 ocorrências até setembro, utilizando principalmente técnicas de escuta mecânica.
A companhia também instalou quatro registros de manobra para melhorar a setorização.
A experiência evidencia que a inovação não consiste necessariamente em substituir todos os procedimentos existentes por equipamentos sofisticados.
O objetivo é escolher o método mais adequado para cada problema e integrar as informações produzidas por diferentes tecnologias.
Uma rede de pequenos diâmetros pode apresentar excelente relação entre custo e resultado com pesquisas convencionais e controle de pressão.
Já uma adutora estratégica, com poucos pontos de acesso e elevado impacto sobre o abastecimento, pode justificar uma inspeção interna especializada.
O impacto financeiro vai além do valor da água recuperada
Existe um erro relativamente comum na avaliação econômica dos projetos de redução de perdas: multiplicar o volume recuperado pela tarifa cobrada ao consumidor.
Esse procedimento pode superestimar o benefício financeiro.
Quando um vazamento físico é reparado, o resultado imediato é a diminuição da água perdida.
O benefício econômico depende de como essa recuperação será utilizada.
Se a companhia conseguir reduzir a produção, poderá economizar energia, produtos químicos e outros custos variáveis.
Se estiver operando com capacidade insuficiente para atender à demanda, a água recuperada poderá contribuir para melhorar a continuidade do abastecimento e ampliar a disponibilidade para os consumidores.
Somente quando houver consumo adicional efetivamente faturado será possível reconhecer uma receita incremental correspondente.
Além disso, podem existir benefícios relacionados à redução de intervenções emergenciais, danos ao pavimento, falhas de abastecimento e mobilização de equipes.
Uma avaliação adequada deve considerar:
Benefício econômico líquido = custos evitados + margem incremental comprovada + outros benefícios monetizáveis − custos de inspeção, reparo e manutenção.
Também é importante evitar dupla contagem.
Uma redução nos custos de produção e um aumento de faturamento podem ocorrer simultaneamente, mas devem ser calculados com base em efeitos efetivamente distintos.
O Banco Mundial disponibiliza ferramentas de avaliação econômica e de contratos de desempenho para redução de água não faturada, incluindo metodologias que relacionam diagnóstico, reparo, gestão de pressão e análise financeira.
Essa abordagem ajuda a evitar decisões baseadas exclusivamente na quantidade de vazamentos encontrados.
O que muda para a gestão comercial e o atendimento?
Embora o Nautilus seja uma tecnologia de natureza predominantemente operacional, seus resultados podem produzir consequências para a área comercial.
O primeiro impacto possível está na continuidade do abastecimento.
Quando uma companhia perde capacidade de distribuição por vazamentos em grandes adutoras, podem ocorrer redução de pressão, intermitência e dificuldades de atendimento em localidades dependentes daquela infraestrutura.
A recuperação de vazões pode melhorar essas condições, desde que não existam outros gargalos no sistema.
O segundo impacto está na previsibilidade das intervenções.
Uma ocorrência identificada antecipadamente pode permitir programação de equipes, materiais, manobras hidráulicas e comunicação prévia aos clientes.
Isso tende a ser menos prejudicial do que um rompimento inesperado que exige manutenção emergencial.
O terceiro impacto envolve os indicadores comerciais.
Aumento de disponibilidade hídrica não significa automaticamente crescimento de faturamento. Entretanto, em áreas com demanda reprimida, a melhoria da regularidade pode favorecer o consumo atendido e medido.
Para avaliar esse efeito, é necessário acompanhar informações como continuidade, pressão, volume disponibilizado, micromedição, consumo faturado e reclamações.
A integração entre operação e comercial é fundamental para demonstrar se o investimento realmente melhorou a experiência do cliente.
A nova regulação brasileira reforça a necessidade de medir resultados
A gestão de perdas ganhou uma referência regulatória importante com a Norma de Referência ANA nº 15/2025, aprovada pela Resolução ANA nº 275, de 18 de dezembro de 2025.
A norma estabelece diretrizes para redução progressiva e controle de perdas nos subsistemas de distribuição de água potável.
Entre seus elementos estão o diagnóstico padronizado, a elaboração de planos de gestão, o acompanhamento de perdas reais e aparentes e a utilização de indicadores.
A norma também contempla a possibilidade de adoção de tecnologias inovadoras, incluindo sensores, telemetria, modelos de previsão de vazamentos e ferramentas de georreferenciamento.
Outro ponto relevante é a exigência de justificativas técnico-econômicas e cronogramas físico-financeiros para as ações previstas nos planos.
A comprovação de observância da norma pelas entidades reguladoras infranacionais possui regras e prazos específicos, com início de verificação previsto para 20 de maio de 2028, nos termos estabelecidos no regulamento.
Há, contudo, uma distinção importante para as adutoras: a norma trata dos subsistemas de distribuição, incluindo adução posterior à produção de água. Por isso, o enquadramento de determinado trecho depende de sua posição dentro do sistema de abastecimento.
Não seria tecnicamente adequado considerar todas as perdas identificadas em qualquer adutora como integrantes, automaticamente, do indicador de perdas na distribuição.
A tecnologia permite identificar ocorrências; a regulação exige organização, indicadores, rastreabilidade e resultados demonstráveis.
Como uma companhia pode aplicar essa experiência?
A adoção de uma tecnologia como o Nautilus não precisa começar pela contratação imediata de dezenas de quilômetros de inspeção.
O processo pode ser estruturado em seis etapas.
1. Selecionar as adutoras prioritárias. Identificar os trechos com maior criticidade para o abastecimento, histórico de falhas, diferenças de vazão, dificuldade de acesso e elevado custo de paralisação.
2. Estabelecer uma linha de base hidráulica. Levantar vazões, pressões, volumes e condições operacionais antes da inspeção. Sem referência confiável, será difícil demonstrar a economia posteriormente.
3. Verificar a viabilidade técnica. Conferir pontos de lançamento e retirada, válvulas, velocidades, condições de pressão, mudanças de diâmetro e riscos de retenção da esfera.
4. Executar uma inspeção-piloto. Selecionar um trecho representativo e exigir relatório técnico com localização, classificação, evidências e nível de confiança das ocorrências.
5. Confirmar e reparar os defeitos. Integrar o diagnóstico à programação de manutenção, priorizando vazamentos conforme risco, volume estimado, impacto operacional e viabilidade do reparo.
6. Medir os resultados. Comparar o comportamento hidráulico antes e depois, controlando variações de demanda, pressão, produção e operação, para estimar a recuperação efetivamente atribuível à intervenção.
A companhia também pode acompanhar o custo por quilômetro inspecionado, a proporção de ocorrências confirmadas, o tempo entre detecção e reparo e o custo por metro cúbico efetivamente recuperado.
Esses indicadores ajudam a decidir se a tecnologia merece expansão.
O que pode dar errado?
Apesar dos benefícios, a inspeção interna apresenta limitações que precisam ser consideradas.
A primeira é a possibilidade de restrições hidráulicas ou geométricas impedirem o deslocamento adequado do equipamento.
A segunda é a dificuldade de interpretação de ruídos em determinadas condições operacionais. Nem toda anomalia acústica representa um vazamento confirmado.
A terceira é a necessidade de garantir recuperação segura da esfera. O planejamento deve contemplar procedimentos de contingência caso o dispositivo fique retido.
A quarta está relacionada aos reparos. Uma inspeção pode identificar diversos problemas, mas seus benefícios serão limitados se a companhia não possuir orçamento, materiais ou equipes para solucioná-los.
A quinta envolve o risco de superestimar a economia de água, utilizando vazões presumidas sem verificação posterior.
Também é necessário tratar com cautela eventuais indícios de ligações irregulares. Uma assinatura acústica anormal pode justificar investigação, mas não constitui, isoladamente, prova de fraude.
Por fim, a introdução de equipamentos em tubulações de água potável exige avaliação de compatibilidade sanitária, limpeza, segurança operacional e procedimentos definidos pela companhia.
A próxima fronteira: inspecionar para evitar falhas, não apenas localizar vazamentos
Em setembro de 2026, a Aganova anunciou uma nova geração do Nautilus, com recursos adicionais para avaliação das condições de grandes tubulações.
Segundo o fornecedor, a evolução tecnológica utiliza conhecimentos obtidos em mais de 4.500 quilômetros de inspeções realizadas internacionalmente.
A proposta é ampliar a utilização dos dados coletados, avançando da localização de vazamentos para uma avaliação mais abrangente da condição dos ativos.
Isso representa uma oportunidade estratégica.
Uma companhia que identifica repetidas anomalias em determinada adutora pode utilizar essas informações para avaliar se deve continuar realizando reparos localizados, reforçar o monitoramento ou estudar a substituição de segmentos.
Entretanto, a detecção acústica não deve ser confundida com uma avaliação completa de integridade estrutural.
O diagnóstico de corrosão, espessura de parede, resistência mecânica e vida útil remanescente pode exigir métodos e informações complementares.
O avanço está na possibilidade de combinar diferentes dados para apoiar decisões de manutenção preventiva e renovação de infraestrutura.
Cinco lições para os profissionais de saneamento
A experiência da Compesa e os casos de outras operadoras permitem identificar cinco aprendizados relevantes.
A primeira lição é que perdas ocultas precisam ser investigadas antes de se tornarem visíveis. Esperar a água aparecer na superfície pode significar conviver por longos períodos com desperdícios que poderiam ser identificados antecipadamente.
A segunda é que uma boa inspeção começa no conhecimento da infraestrutura. Cadastro técnico, hidráulica, planejamento de campo e procedimentos de segurança continuam indispensáveis, mesmo com equipamentos dotados de inteligência artificial.
A terceira é que localizar não significa recuperar. O verdadeiro resultado de um projeto depende dos reparos executados e dos volumes comprovadamente economizados.
A quarta é que nenhuma tecnologia resolve todos os problemas. Métodos convencionais, sensores internos, telemetria, gestão de pressão e manutenção devem funcionar como instrumentos complementares.
A quinta é que a maior transformação acontece quando operação, engenharia, manutenção, comercial e gestão financeira utilizam as mesmas informações para tomar decisões.
A esfera inteligente pode produzir dados extraordinariamente úteis. Mas são os profissionais que interpretam os resultados, avaliam riscos, definem prioridades e executam as mudanças necessárias.
Conclusão: a inovação será medida pela água recuperada
A iniciativa da Compesa representa um avanço relevante na aplicação da detecção de vazamentos em grandes adutoras brasileiras.
A possibilidade de investigar quilômetros de tubulação sem escavações exploratórias extensivas e sem interromper o fornecimento durante a inspeção pode ampliar a eficiência da manutenção e melhorar o conhecimento sobre a infraestrutura.
As experiências da Sanepar, da Sabesp e de operadoras internacionais demonstram que a tecnologia já possui aplicações concretas, embora os resultados de cada projeto dependam das condições locais.
A questão decisiva não será quantos quilômetros a Compesa conseguirá inspecionar, mas quantas ocorrências serão confirmadas, quais reparos serão executados e quanto de água deixará efetivamente de ser perdido.
É nesse ponto que a inovação precisa produzir resultados mensuráveis.
O futuro da gestão de perdas não estará apenas em localizar vazamentos com maior precisão, mas em antecipar falhas, priorizar intervenções e demonstrar, com dados confiáveis, o benefício de cada decisão.
Para os profissionais de saneamento, a principal mensagem é clara: a tecnologia amplia a capacidade de diagnóstico, mas a eficiência continua dependendo da qualidade da engenharia, da operação e da gestão.
Fontes e referências
1. Compesa — Companhia Pernambucana de Saneamento
Compesa adota tecnologia inovadora para combater perdas de água em grandes adutoras.
20 de outubro de 2026.
Consultar publicação oficial
2. Amazon Brasil
Amazon e Aganova usam IA para reduzir desperdício de 165 milhões de litros de água por ano no Recife.
8 de julho de 2026.
Consultar publicação
3. Aganova
Amazon and Aganova to use AI to stop 165 million litres of water waste in Recife.
29 de junho de 2026.
Consultar publicação
4. Aganova
Nautilus: In-Line Water Leak Detection for Large Pipelines.
Documentação técnica do fabricante, sem data de publicação identificada.
Consultar tecnologia
5. Sanepar — Companhia de Saneamento do Paraná
Sanepar usa esferas inteligentes para inspecionar redes sem interromper distribuição de água.
4 de setembro de 2025.
Consultar notícia oficial
6. Sanepar — Sistema de Licitações
Licitação Eletrônica nº 310/24 — Inspeção não destrutiva em adutoras do SAIC.
Processo concluído; consulta em 21 de outubro de 2026.
Consultar processo e valores
7. Aganova
Amazon and Sabesp partner with Aganova to tackle water losses across São Paulo.
17 de novembro de 2025.
Consultar publicação
8. SUEZ — Reino Unido
Advanced Leakage Detection Helps Essex and Suffolk Water New Pipeline.
Estudo de caso referente à inspeção realizada em 27 de agosto de 2025.
Consultar estudo de caso
9. Copasa — Companhia de Saneamento de Minas Gerais
Copasa intensifica ações de combate a perdas de água no sistema de abastecimento de Ubá.
1º de outubro de 2026.
Consultar notícia oficial
10. ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
Resolução ANA nº 275/2025 — Norma de Referência nº 15/2025: gestão de redução progressiva e controle de perdas.
18 de dezembro de 2025.
Consultar norma oficial
11. Banco Mundial — PPP Reference Center
Performance-Based Contracting Tools for Non-Revenue Water Reduction.
Recursos técnicos e modelos de avaliação econômica, sem data de publicação identificada.
Consultar ferramentas
12. SUEZ — Reino Unido
Aganova launches new Nautilus sphere for pipeline condition assessment.
29 de setembro de 2026.
Consultar publicação



