Apresentação do hackathon de saneamento promovido por Águas de Teresina e Águas do Piauí, com participantes reunidos em sala de conferências

Hackathon de saneamento revela 5 soluções no Piauí

Imagem de capa: Águas de Teresina / Divulgação.

Cinco projetos de inovação foram selecionados entre 17 propostas inscritas em um hackathon de saneamento promovido pelas concessionárias Águas de Teresina e Águas do Piauí. As soluções envolvem inteligência artificial, abastecimento por caminhões-pipa, monitoramento de estações de tratamento de esgoto, previsão de disponibilidade hídrica e identificação de comunidades vulneráveis.

Anunciados em 8 de outubro de 2026, os projetos foram desenvolvidos por estudantes de instituições de ensino de Teresina, Parnaíba e Picos. As equipes avançaram para a fase de mentoria e desenvolvimento de protótipos, com apresentação final prevista para 19 de outubro.

A notícia chama atenção por um aspecto que vai além da competição: os cinco projetos procuram resolver problemas que fazem parte da rotina de companhias de saneamento em todo o Brasil.

Distribuir água emergencialmente com mais eficiência, antecipar falhas, acompanhar a qualidade de efluentes e transformar reclamações em ações operacionais são desafios que afetam custos, produtividade, segurança ambiental e satisfação dos clientes.

Mas existe uma questão estratégica: como transformar uma boa ideia desenvolvida em um hackathon em uma solução realmente utilizada por operadores, técnicos e gestores?

A experiência de outras companhias brasileiras e de operadores internacionais mostra que a resposta envolve muito mais do que tecnologia.

O que aconteceu no hackathon de saneamento do Piauí?

O Hackathon – O Piauí que queremos é uma iniciativa promovida por Águas de Teresina e Águas do Piauí, em parceria com o Grupo Cidade Verde e a Programe Studio.

O programa integra o movimento Saneamento Salva, do Instituto Aegea, que busca ampliar a compreensão sobre a relação entre saneamento, saúde, educação, sustentabilidade e desenvolvimento social.

Das 17 propostas inscritas, cinco avançaram para a etapa final, correspondendo a aproximadamente 29,4% dos projetos apresentados.

A avaliação considerou a definição do problema, a solução proposta, a transformação pretendida e o potencial de impacto nos diferentes pilares do saneamento.

Os finalistas receberão acompanhamento de tutores e acesso à plataforma Programe Studio, que utiliza inteligência artificial para apoiar a criação de sistemas e protótipos por meio de comandos em linguagem natural.

Os três primeiros colocados receberão vouchers de R$ 3 mil, R$ 1,5 mil e R$ 1 mil, respectivamente.

É importante diferenciar premiação de investimento em inovação. Os valores anunciados são incentivos aos participantes, não representam necessariamente recursos disponíveis para implantação operacional dos projetos.

Até a publicação da notícia analisada, não haviam sido apresentados resultados de testes operacionais, economias comprovadas ou contratos de implantação das cinco soluções.

Portanto, seus benefícios devem ser compreendidos como possibilidades a serem verificadas tecnicamente.

Conheça os cinco projetos e suas aplicações no saneamento

1. Pipa Inteligente: como melhorar o abastecimento emergencial de água

Desenvolvido por estudantes do PIT, em Teresina, o Pipa Inteligente propõe organizar o abastecimento por caminhões-pipa utilizando critérios como população atendida, nível dos reservatórios e quantidade de dias sem água.

A plataforma também prevê a otimização das rotas de distribuição.

O problema é conhecido por operadores que trabalham em regiões sujeitas à escassez hídrica, interrupções prolongadas ou dificuldades de abastecimento por rede.

Sem informações integradas, a programação dos caminhões pode depender de solicitações isoladas, planilhas, contatos telefônicos e decisões descentralizadas.

Isso dificulta a priorização dos atendimentos e o acompanhamento da distribuição.

Como a solução poderia funcionar na prática?

Um sistema dessa natureza poderia combinar dados geográficos, volume disponível, demanda estimada, capacidade dos veículos e localização das comunidades.

A partir dessas informações, seria possível propor rotas e prioridades de abastecimento.

Em um cenário hipotético, duas comunidades poderiam estar há três dias sem água. Entretanto, uma delas poderia possuir maior população e menor reserva domiciliar disponível.

O sistema ajudaria a identificar a situação mais crítica, sem desconsiderar critérios de vulnerabilidade social, serviços essenciais e atendimento mínimo.

Para os gestores, os indicadores relevantes seriam quilômetros percorridos por metro cúbico entregue, custo por viagem, cumprimento dos atendimentos programados e tempo de espera das comunidades.

Há, porém, uma condição indispensável: a otimização logística não pode comprometer a qualidade da água transportada, as exigências sanitárias ou os critérios públicos de prioridade.

2. Inteligência Preditiva: antecipar problemas no abastecimento subterrâneo

Outro projeto apresentado pelo PIT propõe uma plataforma de inteligência preditiva para acompanhar o abastecimento por águas subterrâneas e apoiar decisões antes que situações críticas ocorram.

A proposta é relevante porque muitos sistemas de abastecimento dependem parcial ou integralmente de poços.

Nesses sistemas, os problemas nem sempre aparecem de forma repentina.

Uma redução gradual da vazão, alterações do nível dinâmico, aumento do consumo específico de energia ou mudanças na qualidade da água podem indicar necessidade de investigação.

A inteligência preditiva procura identificar padrões nos dados históricos para antecipar situações que merecem atenção.

Por exemplo, a combinação entre redução progressiva da vazão e aumento do rebaixamento do nível durante o bombeamento pode indicar alterações nas condições de exploração do poço, entre outras causas possíveis.

Entretanto, essa interpretação depende de informações sobre características hidrogeológicas, regime de operação, manutenção, sazonalidade e condições dos equipamentos.

A principal oportunidade não está simplesmente em prever uma falha, mas em permitir uma intervenção planejada antes que ela prejudique o abastecimento.

Uma plataforma dessa natureza poderia utilizar informações de vazão, pressão, níveis estático e dinâmico, horas de funcionamento, consumo energético e histórico de intervenções.

Os benefícios potenciais incluem melhor programação da manutenção, identificação antecipada de anomalias e redução de interrupções evitáveis.

A ferramenta, contudo, não substitui medições de campo, avaliações hidrogeológicas, análises laboratoriais, critérios de exploração sustentável ou exigências de outorga.

3. Sentinela ETE: monitoramento contínuo do tratamento de esgoto

O Sentinela ETE, também desenvolvido por estudantes do PIT, propõe um sistema de baixo custo para monitoramento contínuo do efluente na saída de estações de tratamento de esgoto.

Entre as cinco iniciativas, essa apresenta relação particularmente direta com os desafios de controle operacional e conformidade ambiental.

Em muitas estações, o acompanhamento da qualidade do efluente depende de coletas periódicas e análises laboratoriais.

Esses procedimentos são fundamentais, mas podem não identificar imediatamente determinados eventos ocorridos entre duas campanhas de amostragem.

Sensores instalados em pontos estratégicos podem contribuir para reduzir essa lacuna.

Dependendo da tecnologia e do objetivo de monitoramento, poderiam ser acompanhados parâmetros como pH, temperatura, condutividade e turbidez.

Alterações nesses parâmetros podem funcionar como sinais de alerta para investigação da operação.

Entretanto, existe uma distinção técnica essencial.

Monitoramento contínuo por sensores não significa, automaticamente, comprovação de atendimento aos padrões de lançamento de efluentes.

Parâmetros como demanda bioquímica de oxigênio (DBO), nutrientes e indicadores microbiológicos podem exigir métodos específicos, análises laboratoriais e procedimentos de validação.

Mesmo quando existe correlação entre uma leitura instrumental e determinado parâmetro de qualidade, essa relação precisa ser demonstrada nas condições reais da estação.

Um sistema de baixo custo deve ser avaliado quanto à precisão, calibração, estabilidade dos sensores, incrustações, interferências, disponibilidade de comunicação e manutenção.

Além disso, o operador precisa saber como agir quando um alerta é gerado.

Não basta identificar uma anomalia: é necessário estabelecer procedimentos de resposta.

A oportunidade é especialmente interessante para estações menores, desde que o custo de implantação, operação e manutenção seja compatível com o benefício obtido.

4. Score de Vulnerabilidade Sanitária: identificar onde investir primeiro

O SVS – Score de Vulnerabilidade Sanitária foi desenvolvido por estudantes da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), em Parnaíba.

O projeto propõe utilizar inteligência artificial para integrar informações de saneamento, saúde, educação e renda, identificando bairros e comunidades com maior vulnerabilidade sanitária.

A proposta aborda um problema estratégico: a priorização dos investimentos.

Companhias e municípios trabalham com recursos limitados e precisam decidir onde expandir redes, implantar ligações, melhorar o abastecimento e desenvolver ações socioambientais.

A simples quantidade de domicílios sem atendimento não representa, isoladamente, toda a dimensão da vulnerabilidade.

Uma comunidade pode apresentar cobertura reduzida de esgotamento sanitário, renda baixa, dificuldades de acesso a serviços públicos e maior exposição a riscos ambientais.

A combinação desses fatores pode apoiar decisões mais sensíveis às necessidades da população.

O score poderia contribuir para a elaboração de mapas temáticos, identificação de territórios prioritários e planejamento de intervenções.

Entretanto, sua utilização exige critérios transparentes.

Os profissionais responsáveis precisam conhecer quais variáveis integram o indicador, como cada uma é ponderada e quais limitações existem nas bases de dados.

A presença de inteligência artificial não elimina vieses, dados desatualizados ou problemas de interpretação.

Um bairro classificado como prioritário por um algoritmo não deve receber automaticamente uma decisão de investimento sem análise técnica e social complementar.

Outro ponto relevante é a proteção de dados pessoais, especialmente quando informações relacionadas à saúde são utilizadas.

Sempre que possível, o planejamento territorial deve trabalhar com dados agregados, finalidades definidas e mecanismos apropriados de segurança.

5. SISAN: integrar moradores, equipes técnicas e gestores

O quinto projeto é o SISAN – Sistema Integrado de Saneamento, desenvolvido por estudantes do Instituto Federal do Piauí (IFPI), em Picos.

A solução propõe conectar moradores, equipes técnicas e gestores para registrar, acompanhar e solucionar ocorrências como vazamentos de água e esgoto a céu aberto.

Embora o conceito de atendimento digital já esteja presente em muitas companhias, o diferencial potencial está na integração entre a comunicação do cidadão e a execução dos serviços.

Em uma operação fragmentada, uma reclamação pode ser registrada em um sistema de atendimento, transferida para outro ambiente e posteriormente transformada em ordem de serviço.

Se não houver integração, podem ocorrer duplicidades, atrasos e dificuldades para acompanhar o histórico da ocorrência.

Uma plataforma como o SISAN poderia permitir o registro georreferenciado, classificação do problema, encaminhamento à equipe responsável e atualização do andamento.

O cliente também poderia acompanhar o tratamento da solicitação.

Entretanto, a solução precisaria ser integrada aos sistemas comerciais, operacionais e de gestão de serviços já utilizados pela empresa.

Criar um novo aplicativo sem integração pode apenas acrescentar outra etapa ao processo.

O ganho real deve ser medido pela redução do tempo de atendimento, melhor qualidade das informações, diminuição de retrabalho e maior capacidade de resposta.

Por que o hackathon de saneamento merece atenção dos gestores?

Os cinco projetos possuem características distintas, mas compartilham um princípio: transformar informações dispersas em decisões melhores.

No abastecimento emergencial, a prioridade é logística.

Na exploração de águas subterrâneas, o desafio é antecipar riscos.

Nas estações de tratamento, o objetivo é detectar alterações operacionais.

No planejamento territorial, a oportunidade está em identificar necessidades.

No atendimento ao cliente, o foco é transformar uma ocorrência em solução.

Essa diversidade demonstra que a inovação no saneamento não está limitada a grandes obras, equipamentos sofisticados ou investimentos elevados.

Parte das oportunidades está na organização de processos existentes e no melhor aproveitamento de dados que as empresas já produzem.

O desafio é transformar essas oportunidades em resultados mensuráveis.

Para isso, as companhias precisam aproximar profissionais de tecnologia dos responsáveis pela operação, manutenção, gestão comercial, planejamento e atendimento.

Um aplicativo que funciona adequadamente durante uma apresentação pode enfrentar dificuldades quando utilizado por equipes em campo, com conectividade limitada, informações incompletas e múltiplas prioridades operacionais.

Por esse motivo, a participação dos profissionais que conhecem a rotina dos sistemas é indispensável desde as primeiras etapas do desenvolvimento.

Como outras companhias brasileiras estão trabalhando com inovação

Sanepar Labs: desafios reais antes da busca por tecnologia

A Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) oferece um exemplo diretamente relacionado ao modelo adotado no Piauí.

Em junho de 2025, a empresa lançou o Sanepar Labs, programa de inovação aberta desenvolvido em parceria com a Hotmilk, ecossistema de inovação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Segundo a companhia, o programa nasceu de um levantamento interno que identificou mais de 70 dificuldades enfrentadas por suas áreas técnicas.

A partir desse diagnóstico, foram definidos desafios considerados estratégicos.

Entre eles estavam soluções não destrutivas para redes de água e esgoto, alternativas para redes coletoras em imóveis com soleira negativa, tratamento de águas subterrâneas e otimização do uso de produtos químicos.

Em setembro de 2025, a Sanepar anunciou cinco empresas selecionadas na primeira chamada.

As organizações avançaram para uma fase de imersão técnica e mentoria, destinada ao aprofundamento das propostas e à avaliação de possíveis formas de relacionamento com a companhia.

A principal diferença em relação a um hackathon estudantil está no estágio de maturidade das soluções.

Enquanto o programa piauiense busca desenvolver ideias e protótipos, o Sanepar Labs também contempla empresas com tecnologias mais próximas da aplicação comercial.

A principal lição é que a inovação deve começar com um problema operacional claramente definido, e não com a escolha antecipada de uma tecnologia.

Aegea: inovação também nasce dos profissionais das companhias

A experiência do grupo Aegea mostra outra possibilidade: mobilizar colaboradores que já conhecem os processos internos.

Em iniciativa divulgada pelo AegeaHub, seu primeiro hackathon reuniu propostas voltadas a desafios de diferentes áreas da operação.

Entre os projetos destacados esteve o AEPerdas, relacionado à confiabilidade das informações operacionais, à crítica de leitura, ao histórico de dados e à análise georreferenciada.

A proposta buscava melhorar a consistência dos registros utilizados na apuração de volumes micromedidos e no faturamento.

O exemplo é relevante porque evidencia a relação entre inovação tecnológica e gestão comercial.

Uma base de dados inconsistente pode prejudicar análises de consumo, identificação de perdas aparentes, faturamento e decisões de investimento.

Entretanto, a publicação consultada descreve a proposta desenvolvida no evento; não constitui, isoladamente, comprovação de ganhos financeiros ou implantação em escala.

O aprendizado para outras companhias está no aproveitamento do conhecimento das equipes.

Profissionais de leitura, faturamento, cadastro, manutenção e operação frequentemente identificam dificuldades que não aparecem com a mesma clareza nos indicadores gerenciais.

O hackathon de saneamento pode funcionar como um mecanismo para transformar essas observações em propostas estruturadas.

ANA: programas de inovação podem ter etapas de validação e escala

A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) também possui experiências relacionadas à seleção de soluções inovadoras.

Em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), a ANA estruturou o Desafio Saneamento do Futuro: Rios sem Plásticos.

O modelo previa a seleção de nove propostas em estágio de protótipo e uma etapa posterior destinada a três iniciativas, com foco na ampliação de escala e aproximação do mercado.

O programa estabeleceu critérios que consideravam potencial de impacto, viabilidade econômica, maturidade tecnológica, inovação e capacidade de execução.

Em setembro de 2026, a ANA também anunciou a aprovação de sua Política de Inovação, voltada ao fortalecimento da pesquisa, do desenvolvimento tecnológico, da governança de dados e das parcerias institucionais.

Essas experiências mostram que a inovação pode ser organizada em etapas, com critérios técnicos, recursos e mecanismos de acompanhamento.

Para os gestores, a mensagem é clara: concursos e hackathons podem identificar soluções promissoras, mas precisam de mecanismos posteriores de validação para gerar benefícios duradouros.

O que o mundo está fazendo: experiências do Reino Unido e de Singapura

Reino Unido: inovação com financiamento e colaboração entre operadores

No Reino Unido, a agência reguladora Ofwat desenvolve o Water Innovation Fund, programa destinado a estimular soluções para desafios enfrentados pelas empresas de água e esgoto da Inglaterra e do País de Gales.

Em maio de 2026, a Ofwat anunciou 19 projetos vencedores da sexta edição do Water Breakthrough Challenge, contemplados com um total de 58 milhões de libras.

As iniciativas incluem tecnologias para monitoramento ambiental, infraestrutura e tratamento, desenvolvidas em colaboração com universidades, empresas e outras organizações.

O fundo possui previsão de 600 milhões de libras para o período de 2020 a 2030.

A comparação com o hackathon de saneamento do Piauí não deve ser feita diretamente pelo valor dos recursos, pois os programas possuem dimensões e objetivos diferentes.

O ponto mais importante é o modelo de desenvolvimento.

No caso britânico, a colaboração entre organizações permite reunir conhecimentos complementares, compartilhar riscos e testar soluções que poderiam ser complexas para uma empresa desenvolver isoladamente.

Entretanto, os valores concedidos representam financiamento a projetos e não devem ser interpretados como economias já realizadas.

A experiência evidencia a necessidade de acompanhar a implantação e a disseminação efetiva das tecnologias financiadas.

Singapura: testar antes de adotar em larga escala

A agência nacional de água de Singapura, PUB, desenvolve o Global Innovation Challenge, programa que convida empresas, pesquisadores e inovadores a apresentar soluções para problemas operacionais.

Na divulgação de setembro de 2025, a agência informou que as quatro edições anteriores haviam reunido mais de 230 propostas provenientes de 28 países.

Desse conjunto, oito projetos foram identificados como tendo potencial de integração às operações da agência.

Entre os desafios da quinta edição estavam métodos de reparo interno de tubulações, impressão tridimensional para componentes e identificação antecipada de fragilidades em tubulações de instalações de dessalinização.

A PUB informou também que sua rede de abastecimento possuía aproximadamente 6 mil quilômetros e utilizava 1.500 sensores permanentes de detecção de vazamentos.

O programa oferece oportunidades de testes em instalações operacionais, suporte de especialistas e possibilidade de financiamento de até 500 mil dólares de Singapura por projeto, conforme as condições aplicáveis.

Um exemplo divulgado pela agência envolve o uso de sinais de telecomunicações para estimar intensidade de chuva, tecnologia submetida a avaliações comparativas com medições convencionais.

A principal contribuição do modelo internacional está na valorização do ambiente real de testes.

Uma tecnologia promissora precisa demonstrar desempenho nas condições efetivas de operação antes de ser incorporada definitivamente aos processos da concessionária.

O mesmo princípio se aplica aos cinco projetos piauienses.

Impactos operacionais, financeiros e comerciais

O valor de uma solução tecnológica para o saneamento depende de sua capacidade de melhorar indicadores concretos.

No campo operacional, as oportunidades incluem reduzir deslocamentos desnecessários, antecipar anomalias, organizar a manutenção e melhorar a distribuição das equipes.

Na gestão financeira, os benefícios potenciais podem envolver diminuição de custos logísticos, redução de retrabalho, melhor aproveitamento dos ativos e prevenção de despesas associadas a falhas operacionais.

Entretanto, essas economias precisam ser demonstradas.

Uma avaliação financeira adequada deve considerar o custo total de propriedade da solução, incluindo desenvolvimento, equipamentos, licenças, hospedagem, conectividade, manutenção, segurança da informação, integração e treinamento.

Na gestão comercial, ferramentas como o SISAN e plataformas preditivas podem contribuir para melhorar o tratamento de reclamações e reduzir a diferença entre o problema percebido pelo cliente e a informação disponível para a empresa.

Há também oportunidades para melhorar o cadastro técnico, a classificação de ocorrências, a atualização de serviços executados e a comunicação sobre interrupções.

Um vazamento informado pelo cidadão, por exemplo, pode gerar informações úteis para a manutenção e, posteriormente, para análises de recorrência e planejamento de substituição de redes.

Esse valor só se concretiza quando os dados são confiáveis e permanecem disponíveis para as áreas responsáveis.

A inovação deixa de ser apenas digitalização do atendimento e passa a contribuir para a gestão dos ativos.

Como transformar um projeto de hackathon em uma solução operacional?

O principal desafio começa após a apresentação final.

Um protótipo pode demonstrar que determinada ideia é tecnicamente possível, mas ainda precisa comprovar que funciona de forma segura, econômica e sustentável em condições reais.

Um caminho recomendado para companhias interessadas em iniciativas semelhantes envolve seis etapas:

  1. Definir o problema: estabelecer claramente qual dificuldade será resolvida, quem é responsável por ela e qual indicador será melhorado.
  2. Registrar a situação inicial: levantar custos, tempos, volumes, ocorrências e outras informações que permitam comparar os resultados antes e depois.
  3. Realizar uma prova de conceito: verificar se a tecnologia consegue executar a função proposta em ambiente controlado.
  4. Desenvolver um piloto operacional: testar a solução em uma área, unidade ou processo com participação efetiva das equipes responsáveis.
  5. Avaliar o desempenho: comparar resultados, calcular custos, identificar dificuldades e verificar requisitos técnicos, jurídicos, ambientais e de segurança.
  6. Decidir sobre a expansão: ampliar a aplicação somente quando os benefícios forem suficientemente demonstrados e houver capacidade de sustentação.

Para um projeto como o Sentinela ETE, por exemplo, um piloto poderia avaliar a disponibilidade dos sensores, a frequência de alarmes indevidos e a correspondência entre medições automáticas e resultados laboratoriais.

No Pipa Inteligente, seria possível comparar indicadores logísticos e de atendimento antes e depois da utilização da plataforma.

Já o SISAN poderia ser avaliado pela proporção de ocorrências corretamente classificadas, pelo tempo de encaminhamento, pela resolução dentro dos prazos e pela satisfação dos clientes.

O objetivo não seria provar que a tecnologia funciona em qualquer situação, mas identificar onde ela efetivamente agrega valor.

Regulação, qualidade ambiental e proteção de dados

A inovação tecnológica no saneamento também precisa observar o ambiente regulatório.

A Norma de Referência ANA nº 9/2024, aprovada pela Resolução ANA nº 211/2024, estabelece indicadores operacionais da prestação dos serviços públicos de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

O avanço da gestão baseada em indicadores torna ainda mais importante a confiabilidade dos dados produzidos pelas companhias.

No monitoramento de esgoto, os projetos devem observar os padrões ambientais aplicáveis, as condições de licenciamento e as exigências de automonitoramento.

Em setembro de 2026, o Conselho Nacional do Meio Ambiente aprovou uma atualização das regras nacionais sobre lançamento de efluentes, contemplando alterações no controle de matéria orgânica e nutrientes e no monitoramento ambiental.

A proposta aprovada prevê alterações na Resolução Conama nº 357/2005 e revogação da Resolução nº 430/2011. A aplicação efetiva das novas disposições, entretanto, depende da verificação do ato oficialmente publicado, sua vigência e eventuais regras de transição.

Para sistemas digitais que utilizam dados de clientes, localização ou informações socioeconômicas, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) também deve ser observada.

O Score de Vulnerabilidade Sanitária, por exemplo, precisa assegurar critérios adequados de tratamento de informações, especialmente quando houver dados relacionados à saúde.

Além disso, decisões automatizadas não devem dispensar avaliação humana quando envolverem consequências relevantes para comunidades e usuários.

O que pode dar errado na inovação do saneamento?

Existem riscos que merecem atenção antes de investir em novas plataformas.

O primeiro é desenvolver uma solução para um problema insuficientemente compreendido.

Quando isso acontece, o produto pode apresentar funcionalidades interessantes, mas não resolver a principal dificuldade operacional.

O segundo risco é a baixa qualidade dos dados.

Modelos preditivos podem produzir estimativas incorretas quando recebem informações incompletas, inconsistentes ou não representativas das condições reais.

O terceiro problema é a ausência de integração com os sistemas existentes.

Uma aplicação isolada pode gerar novos registros, duplicar tarefas e aumentar o esforço necessário para consolidar informações.

Também existem riscos relacionados à dependência de fornecedores, segurança cibernética, propriedade intelectual e falta de planejamento para manutenção.

No caso dos sistemas desenvolvidos com apoio de inteligência artificial, é necessário verificar documentação, controle de acesso, qualidade do código, proteção dos dados e possibilidade de continuidade tecnológica.

Outro erro recorrente é considerar o encerramento do evento como conclusão do processo de inovação.

Uma ideia premiada não é necessariamente uma tecnologia validada. E uma tecnologia validada não é, automaticamente, economicamente viável para implantação em escala.

Essa distinção protege empresas, gestores, investidores e os próprios desenvolvedores.

Lições para profissionais de saneamento

O hackathon de saneamento do Piauí oferece aprendizados que podem ser aproveitados por profissionais de diferentes áreas.

Para quem atua na operação, a principal oportunidade está em transformar dificuldades recorrentes em problemas técnicos estruturados, com dados e critérios de avaliação.

Para engenheiros e especialistas em manutenção, o desafio é identificar quais variáveis realmente ajudam a antecipar anomalias e orientar intervenções.

Para profissionais comerciais, a inovação pode começar na análise de reclamações, inconsistências cadastrais, solicitações repetidas e processos que exigem retrabalho.

Para analistas de tecnologia, o desenvolvimento precisa considerar as condições reais de uso, a integração entre sistemas e a segurança das informações.

Para gestores, a responsabilidade é criar condições para que boas propostas avancem sem comprometer a eficiência, o orçamento ou a segurança operacional.

Um dos aprendizados mais relevantes é que a inovação pode nascer de uma pergunta simples feita por um profissional experiente: por que determinada atividade continua sendo executada dessa maneira?

Quando essa pergunta é acompanhada de conhecimento técnico, dados confiáveis e disposição para testar alternativas, podem surgir oportunidades relevantes.

Não é necessário começar com um grande programa corporativo.

Uma equipe pode identificar um processo problemático, estabelecer indicadores, desenvolver uma solução piloto e demonstrar sua utilidade.

O mais importante é criar um ambiente em que as ideias sejam avaliadas pela capacidade de resolver problemas reais.

Conclusão: a inovação precisa chegar à operação

A seleção de cinco projetos no hackathon de saneamento do Piauí mostra que instituições de ensino podem contribuir para enfrentar desafios diretamente relacionados ao cotidiano das concessionárias.

As propostas envolvem abastecimento emergencial, monitoramento ambiental, recursos hídricos, planejamento territorial e relacionamento com os clientes.

Todas possuem potencial de aplicação. Nenhuma, entretanto, deve ser considerada um resultado operacional comprovado antes da realização dos testes necessários.

As experiências da Sanepar, da ANA, da Ofwat e da PUB mostram caminhos complementares para desenvolver inovação: identificar problemas, mobilizar diferentes competências, estruturar critérios, financiar etapas e validar soluções em ambiente real.

Para o setor brasileiro, a oportunidade é estabelecer uma conexão mais permanente entre instituições de ensino, empresas de tecnologia, concessionárias e profissionais de campo.

Essa aproximação pode acelerar o desenvolvimento de ferramentas úteis, mas depende de continuidade, disciplina técnica e governança.

O verdadeiro indicador de sucesso de um hackathon de saneamento não é apenas a quantidade de propostas apresentadas ou o número de premiações concedidas.

É a capacidade de transformar conhecimento em melhorias verificáveis para a operação, a gestão e a população atendida.

O futuro da inovação no saneamento será definido menos pela quantidade de ideias apresentadas e mais pela capacidade das companhias de transformar boas ideias em resultados concretos.

Fontes e referências

Águas de Teresina — Aegea — Hackathon seleciona cinco projetos para criar soluções inovadoras para o saneamento. 8 de outubro de 2026.
https://www.aguasdeteresina.com.br/hackathon-seleciona-cinco-projetos-para-criar-solucoes-inovadoras-para-o-saneamento/

Águas de Teresina — Aegea — Hackathon Viva Piauí abre inscrições para estudantes e busca soluções inovadoras para o saneamento. 17 de setembro de 2026.
https://www.aguasdeteresina.com.br/hackathon-viva-piaui-abre-inscricoes-para-estudantes-e-busca-solucoes-inovadoras-para-o-saneamento/

Sanepar — Primeiro edital de chamamento público para soluções inovadoras em saneamento é lançado pela Sanepar. 27 de junho de 2025.
https://www.sanepar.com.br/noticias/primeiro-edital-de-chamamento-publico-para-solucoes-inovadoras-em-saneamento-e-lancado-pela

Sanepar — Conheça as empresas selecionadas no primeiro edital de chamamento público do Sanepar Labs 2025. 18 de setembro de 2025.
https://www.sanepar.com.br/noticias/conheca-empresas-selecionadas-no-primeiro-edital-de-chamamento-publico-do-sanepar-labs-2025

Aegea — Ae Blog — Inovação em foco: AegeaHub realiza seu primeiro hackathon.
https://aegea.blog.br/inovacao-em-foco-aegeahub-realiza-seu-primeiro-hackathon-2/

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA — Desafio Saneamento do Futuro: Rios sem Plásticos anuncia vencedores da primeira etapa. 2023.
https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias/desafio-saneamento-do-futuro-rios-sem-plasticos-anuncia-vencedores-da-primeira-etapa/

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA — ANA aprova Política de Inovação e amplia estrutura para desenvolver soluções tecnológicas para a gestão das águas. 16 de setembro de 2026.
https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias-periodo-eleitoral-2026/ana-aprova-politica-de-inovacao-e-amplia-estrutura-para-desenvolver-solucoes-tecnologicas-para-a-gestao-das-aguas/

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA — Resolução ANA nº 211/2024 — Norma de Referência nº 9/2024: indicadores operacionais dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário. 19 de setembro de 2024.
https://www.gov.br/ana/pt-br/legislacao/resolucoes/resolucoes-regulatorias/2024/211

Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima — Conama aprova normas sobre reúso de água, aquicultura e lançamento de efluentes. 11 de setembro de 2026.
https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias-defeso-eleitoral/conama-aprova-normas-sobre-reuso-de-agua-aquicultura-e-lancamento-de-efluentes

Autoridade Nacional de Proteção de Dados — ANPD — Guia Orientativo sobre Segurança da Informação para Agentes de Tratamento de Pequeno Porte. 2024.
https://www.gov.br/anpd/pt-br/centrais-de-conteudo/materiais-educativos-e-publicacoes/guia-orientativo-sobre-seguranca-da-informacao-para-agentes-de-tratamento-de-pequeno-porte

Ofwat — Water Services Regulation Authority — Water-purifying mushrooms, 3D printed infrastructure and AI-enabled microphones to monitor river life among winners of £58 million Water Breakthrough Challenge. 19 de maio de 2026.
https://www.ofwat.gov.uk/water-purifying-mushrooms-3d-printed-infrastructure-and-ai-enabled-microphones-to-monitor-river-life-among-winners-of-58-million-water-breakthrough-challenge/

PUB — Singapore’s National Water Agency — Global Innovation Challenge returns for fifth year. 22 de setembro de 2025.
https://www.pub.gov.sg/Resources/News-Room/PressReleases/2025/09/Global-Innovation-Challenge-returns-for-fifth-year

PUB — Singapore’s National Water Agency — Global Innovation Challenge — Funding and Opportunities.
https://www.pub.gov.sg/Industry/Events-and-Programmes/Global-Innovation-Challenge/Funding-and-Opportunities

Ministério das Cidades — SINISA — Resultados SINISA 2025 — Ano de referência 2024. 23 de dezembro de 2025 (atualização em julho de 2026).
https://www.gov.br/cidades/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/saneamento/sinisa/resultados-sinisa/resultados-sinisa-2025

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