A medição de vazão acaba de ganhar uma inovação que merece a atenção das empresas de saneamento. Em 8 de outubro de 2026, a multinacional Emerson anunciou o Rosemount 8795, um sensor eletromagnético desenvolvido para sistemas de resfriamento de data centers, com uma característica especialmente relevante: a possibilidade de medir vazões com exatidão declarada de 0,5% mesmo em instalações sem trechos retos de tubulação, desde que atendidas condições técnicas específicas.
O lançamento acontece em um momento de crescimento acelerado da infraestrutura digital. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo mundial de eletricidade dos data centers alcançou aproximadamente 485 TWh em 2025 e poderá chegar a 950 TWh em 2030, conforme projeção publicada em abril de 2026.
Mas a relevância da novidade ultrapassa o setor de tecnologia. Em companhias de água e esgoto, a confiabilidade da medição interfere diretamente no balanço hídrico, na identificação de perdas, na operação de bombas, no consumo de energia, na gestão de grandes consumidores e até na credibilidade dos indicadores regulatórios.
A principal questão não é se o novo equipamento deve ser instalado nas redes de saneamento, mas o que sua tecnologia revela sobre problemas históricos da macromedição. A inovação também evidencia uma mudança de abordagem: a medição deixa de ser tratada apenas como registro de volume e passa a integrar estratégias de confiabilidade operacional, diagnóstico de falhas e decisões em tempo real.
O que a Emerson lançou e por que a tecnologia chama atenção
O Rosemount 8795 é um sensor magnético de vazão projetado especialmente para circuitos hidráulicos de resfriamento, utilizados para retirar o calor produzido por servidores e equipamentos eletrônicos. Esses circuitos podem trabalhar continuamente, transportando água refrigerada ou misturas de água e glicol, um composto empregado para adequar as propriedades térmicas e de proteção do fluido.
A confiabilidade é crítica. Uma deficiência na circulação pode comprometer a transferência de calor, reduzir a eficiência dos equipamentos e, em situações extremas, provocar interrupções na infraestrutura digital. De acordo com a documentação divulgada pela Emerson, o lançamento apresenta características importantes:
- Exatidão declarada de 0,5% em configurações sem trecho reto de tubulação, mediante software específico, transmissor compatível e condições de instalação aplicáveis.
- Exatidão de 0,2% ± 2 mm/s, em condições de instalação com trechos retos adequados, conforme a especificação anunciada.
- Repetibilidade de 0,1%, indicador relacionado à consistência de medições sucessivas.
- Aplicação em tubulações de 2 a 18 polegadas, aproximadamente DN 50 a DN 450.
- Revestimento interno de politetrafluoretileno (PTFE) e eletrodos de aço inoxidável.
- Operação sem partes móveis e integração com sistemas digitais de supervisão.
O equipamento pode trabalhar com o transmissor Rosemount 9732, integrante de uma nova geração de instrumentos da fabricante. Convém distinguir as funções: o sensor identifica o comportamento eletromagnético associado ao escoamento, enquanto o transmissor processa os sinais e disponibiliza as informações para os sistemas de automação.
As funcionalidades efetivamente disponíveis dependem da combinação selecionada e de sua configuração. A Emerson também informa que o conjunto pode oferecer recursos de diagnóstico, verificação e comunicação, incluindo saídas analógicas e protocolo Modbus, conforme a configuração.
O diferencial mais relevante está na tentativa de reduzir uma limitação histórica da instrumentação: a necessidade de condições hidráulicas adequadas para obter medições confiáveis.
Como funciona a medição de vazão eletromagnética
O princípio é conhecido na engenharia hidráulica, mas merece explicação porque ajuda a compreender tanto as oportunidades quanto as limitações da novidade. O medidor eletromagnético utiliza a Lei de Faraday, segundo a qual um condutor em movimento dentro de um campo magnético pode produzir uma diferença de potencial elétrico.
No equipamento, o campo magnético atravessa a seção da tubulação. Quando um líquido suficientemente condutivo passa por esse campo, surge uma tensão elétrica captada por eletrodos. Essa tensão está relacionada à velocidade média do fluido. Conhecendo a área interna da tubulação, o instrumento calcula a vazão volumétrica.
Uma das vantagens desse princípio é a ausência de componentes mecânicos que precisem girar ou se movimentar para registrar o escoamento. Isso reduz determinados mecanismos de desgaste e torna os medidores eletromagnéticos amplamente relevantes para aplicações industriais e hidráulicas.
Entretanto, existe uma condição fundamental: o líquido precisa apresentar condutividade elétrica suficiente. No caso do Rosemount 8795, a Emerson informa uma condutividade mínima de 5 µS/cm para a aplicação especificada. Portanto, fluidos de baixíssima condutividade podem exigir outra tecnologia de medição.
Além disso, ausência de partes móveis não significa ausência de manutenção, imunidade a incrustações ou funcionamento correto em qualquer condição hidráulica. A confiabilidade permanece associada à instalação, à integridade dos eletrodos, às condições do fluido, à calibração e à verificação periódica do instrumento.
Por que a tubulação curta representa um problema tão importante?
Uma das dificuldades recorrentes da medição de vazão é encontrar condições ideais para instalar equipamentos em sistemas existentes. Estações elevatórias, casas de bombas, galerias técnicas e unidades industriais frequentemente possuem tubulações com curvas, válvulas, reduções de diâmetro, derivações e conexões muito próximas.
Esses componentes podem modificar o perfil de velocidades do fluido. Em um trecho hidráulico adequado, o escoamento apresenta características que favorecem a medição. Entretanto, após determinadas interferências, podem surgir assimetrias e movimentos secundários que alteram a distribuição de velocidades.
O instrumento pode continuar apresentando leituras aparentemente estáveis, mas com um desvio sistemático em relação à vazão real. É justamente aqui que aparece uma oportunidade tecnológica.
A Emerson informa que, com o software Short Run Installation e transmissores compatíveis, o Rosemount 8795 pode compensar determinados efeitos de instalações sem trecho reto, considerando características da perturbação hidráulica e o posicionamento dos eletrodos. O anúncio apresenta exatidão de 0,5% para as condições especificadas.
Em configurações convencionais com cinco diâmetros de tubulação a montante e dois a jusante, a fabricante declara exatidão de 0,2% ± 2 mm/s. Esses números precisam ser interpretados corretamente. A especificação de 0,2% possui também um componente expresso em velocidade, que ganha maior importância em determinadas condições de baixa vazão.
Além disso, a condição de instalação com zero diâmetro reto não representa autorização para instalar o medidor em qualquer posição ou após qualquer perturbação hidráulica. A aplicação precisa respeitar os limites definidos pelo fabricante.
Outro cuidado é não confundir exatidão com repetibilidade. Um instrumento pode repetir consistentemente uma leitura e ainda apresentar erro sistemático. Para o saneamento, essa distinção tem consequências financeiras e operacionais.
O que essa inovação revela sobre a macromedição no saneamento
A macromedição corresponde ao registro de grandes volumes de água em pontos estratégicos, como saídas de estações de tratamento, adutoras, reservatórios e entradas de setores de distribuição. Ela é indispensável para conhecer a quantidade de água disponibilizada aos sistemas.
Quando uma companhia compara o volume recebido por um setor com o consumo autorizado e outros componentes do balanço hídrico, consegue estimar perdas e direcionar investigações. Entretanto, esse processo depende da qualidade dos dados. Um macromedidor que apresenta erro pode comprometer os resultados sem produzir qualquer alerta evidente.
Considere um exemplo hipotético. Uma adutora opera continuamente com vazão real de 100 litros por segundo. Se o instrumento apresentar um erro sistemático de 1%, a diferença corresponderá a um litro por segundo. Isso representa 86,4 mil litros por dia ou 31.536 metros cúbicos em um ano.
O exemplo não representa perda física efetiva de água. Demonstra o volume que poderia ser registrado incorretamente em uma condição hipotética de funcionamento contínuo. Essa diferença poderia distorcer indicadores, produzir diagnósticos inadequados e levar uma equipe a investigar vazamentos que não existem na magnitude calculada.
Por outro lado, um erro de medição também pode ocultar perdas reais. Em contratos de fornecimento de água entre operadores, a consequência pode alcançar a apuração de volumes e os valores financeiros envolvidos. Medir incorretamente não é apenas um problema de instrumentação. É um risco para a gestão do negócio.
A regulação brasileira já reconhece a importância da medição
A publicação da Norma de Referência ANA nº 15/2025, aprovada pela Resolução ANA nº 275, de 18 de dezembro de 2025, reforçou a necessidade de diagnóstico, planejamento e acompanhamento das perdas de água na distribuição.
A norma estabelece diretrizes para o balanço hídrico padronizado e inclui, entre os indicadores de diagnóstico, o índice de macromedição relativo ao volume disponibilizado de água. Também reconhece tecnologias inovadoras, incluindo sistemas de telemetria, sensores de pressão e vazão, ferramentas de análise e medição inteligente, como possibilidades a serem consideradas nos planos de gestão de perdas.
A consequência prática é relevante. Não basta ampliar o número de instrumentos instalados. É necessário assegurar que os volumes registrados sejam adequados para subsidiar os indicadores e as decisões de gestão.
Um sistema com elevada cobertura de macromedição pode continuar apresentando problemas se houver instrumentos mal dimensionados, falhas de comunicação, dados inconsistentes ou ausência de verificações metrológicas. Por outro lado, a norma não determina a aquisição do Rosemount 8795 nem comprova sua adequação aos requisitos da prestação de serviços públicos. Essa avaliação exige análise técnica e regulatória específica.
Como companhias brasileiras estão enfrentando o desafio
As experiências nacionais demonstram que a evolução da medição está cada vez mais associada à integração entre sensores, automação e capacidade de resposta operacional.
Sanepar: monitoramento em mais de 900 equipamentos
Em 5 de outubro de 2026, a Sanepar divulgou uma iniciativa de telemetria que alcança mais de 900 equipamentos em 96 municípios da região Noroeste do Paraná. Os sensores coletam informações sobre variáveis como pressão, níveis de reservatórios e funcionamento de equipamentos. Os dados são disponibilizados em dispositivos móveis e centros de controle operacional.
Na estação de tratamento de água de Umuarama, por exemplo, as equipes conseguem acompanhar a vazão de chegada e identificar desvios operacionais. A companhia relata situações em que alertas automáticos são enviados aos profissionais antes mesmo da abertura de chamados.
O aprendizado está na combinação de três componentes: medição, transmissão e capacidade de intervenção. Um sensor pode informar uma anomalia. Uma operação bem estruturada consegue transformar essa informação em resposta. A experiência não representa aplicação confirmada do Rosemount 8795, mas demonstra como a confiabilidade das medições influencia sistemas de monitoramento semelhantes.
Águas de Palhoça: macromedidores eletromagnéticos e controle de pressão
Outro exemplo diretamente relacionado à macromedição está em Santa Catarina. Em agosto de 2025, a concessionária Águas de Palhoça, integrante da Aegea, anunciou investimento estimado em pouco mais de R$ 2 milhões para instalar sete macromedidores e três válvulas redutoras de pressão.
Os medidores eletromagnéticos foram previstos para pontos de entrada de água no sistema, permitindo acompanhar volumes recebidos e apoiar a gestão hidráulica. As válvulas redutoras de pressão, por sua vez, integram a estratégia de estabilização das pressões. A iniciativa também prevê supervisão remota pelo Centro de Controle Operacional.
O caso apresenta uma aplicação concreta da combinação entre macromedição, controle hidráulico e telemetria. Contudo, é necessário separar objetivos de resultados. O comunicado de lançamento descreve investimento, equipamentos e benefícios esperados. Ele não constitui, isoladamente, comprovação de quanto a instalação efetivamente reduziu as perdas após a entrada em operação.
Para outras concessionárias, a experiência reforça que investir na medição pode ser necessário, mas a economia depende de ações operacionais decorrentes dos dados produzidos.
Iguá: da medição à identificação automática de anomalias
A Iguá Saneamento também apresenta iniciativas de análise avançada de dados hidráulicos. Em suas informações institucionais sobre inovação, a companhia descreve a utilização de software com inteligência artificial e aprendizado de máquina para identificar anomalias operacionais.
A solução combina informações de telemetria e macromedição para detectar desvios, vazamentos e possíveis falhas. A empresa relata ganhos operacionais e redução do tempo de resposta, embora a descrição consultada não apresente uma quantificação que permita comparar diretamente o desempenho com outras soluções.
A contribuição desse modelo está em demonstrar uma evolução importante: a medição passa a alimentar sistemas que interpretam padrões e priorizam intervenções. Não se trata apenas de registrar vazões, mas de identificar quando determinado comportamento deixa de ser compatível com a condição esperada.
O que o mundo está fazendo: Singapura conecta água de reúso e tecnologia
Enquanto o Brasil amplia sua infraestrutura de telemetria e macromedição, Singapura oferece um exemplo complementar: a gestão integrada da água utilizada por grandes consumidores tecnológicos. Em março de 2024, a agência nacional de águas de Singapura, PUB, reconheceu a Amazon Web Services (AWS Singapore) por iniciativas de eficiência hídrica.
Segundo a PUB, todos os data centers da AWS em Singapura utilizavam NEWater, água recuperada submetida a tratamento avançado. Em uma das instalações, a empresa também adotou tecnologia adicional de reciclagem de efluentes para ampliar o aproveitamento da água. A agência informou que essa unidade estava entre os 10% de melhor desempenho em eficiência hídrica de seu segmento.
O exemplo é especialmente relevante porque demonstra que a gestão da água em data centers precisa considerar a origem do recurso, sua circulação interna e as possibilidades de reaproveitamento. A NEWater é produzida por processos avançados que incluem tecnologias de membranas, osmose reversa e desinfecção ultravioleta.
Embora o caso não comprove o uso do Rosemount 8795, evidencia uma oportunidade para as companhias de saneamento: fornecer água de reúso com qualidade controlada, medição confiável e contratos compatíveis com operações industriais de alta exigência. O potencial econômico depende da disponibilidade hídrica, dos custos de tratamento e distribuição, das exigências de qualidade e da viabilidade de cada empreendimento.
Um detalhe pouco percebido: vazão não é consumo de água
Esta é uma das distinções mais importantes para os profissionais que avaliam sistemas de resfriamento. Em um circuito fechado, a mesma água pode circular repetidamente, transferindo calor entre equipamentos e trocadores térmicos. Um medidor instalado nessa tubulação registra o volume que atravessa o ponto de medição durante determinado período.
Isso não significa que toda a água medida tenha sido captada da natureza ou consumida pelo empreendimento. Uma instalação pode apresentar volumes elevados de recirculação e, ao mesmo tempo, uma necessidade proporcionalmente menor de reposição.
Para conhecer o consumo efetivo, é necessário analisar a arquitetura do sistema, incluindo volumes de reposição, descarte, evaporação e eventuais outras saídas. Nos circuitos com torres de resfriamento evaporativas, parte da água é perdida por evaporação, enquanto outra parcela pode ser descartada para controlar a concentração de sais.
Portanto, instrumentos de medição em pontos diferentes respondem a perguntas diferentes. A vazão de circulação contribui para avaliar o desempenho térmico e hidráulico. A medição de reposição e das saídas relevantes ajuda a construir o balanço de água.
O Departamento de Energia dos Estados Unidos utiliza o indicador Water Usage Effectiveness (WUE), calculado pela relação entre o uso anual de água da instalação e a energia anual consumida pelos equipamentos de tecnologia da informação, expressa em litros por kWh.
Um medidor de vazão instalado no circuito de recirculação, isoladamente, não permite calcular corretamente o WUE. Essa distinção possui paralelo direto com o saneamento: o volume bombeado em determinado trecho de um sistema público não deve ser confundido automaticamente com volume entregue, consumido ou faturado. A interpretação depende dos limites físicos do sistema e do balanço de entradas e saídas.
Impactos operacionais, financeiros e comerciais
A evolução da medição de vazão pode beneficiar várias áreas de uma companhia, mas os efeitos dependem da qualidade da implementação.
Na operação, instrumentos confiáveis ajudam a acompanhar o desempenho de estações elevatórias, identificar comportamentos anormais, verificar condições de bombeamento e avaliar mudanças na distribuição. Dados de vazão combinados com pressão, níveis e estados operacionais permitem diagnósticos mais completos.
Na manutenção, recursos de autodiagnóstico podem ajudar a identificar falhas elétricas, degradação de sinais e comportamentos incompatíveis com o funcionamento esperado. Entretanto, a existência de diagnósticos embarcados não elimina verificações independentes nem garante a detecção de todas as falhas possíveis.
Na gestão financeira, a qualidade dos volumes registrados influencia indicadores de eficiência, análises de perdas e decisões de investimento. Também pode contribuir para evitar intervenções baseadas em leituras incorretas.
Na área comercial, medições confiáveis são particularmente relevantes para grandes consumidores, contratos de fornecimento em atacado e situações que dependem da apuração de volumes transferidos entre sistemas. Nesses casos, os requisitos de medição devem estar alinhados aos instrumentos contratuais e às exigências metrológicas aplicáveis. Uma medição tecnicamente sofisticada não substitui, por si só, a conformidade necessária para faturamento ou transferência de custódia.
Na regulação, registros rastreáveis, procedimentos de verificação e critérios de qualidade da informação fortalecem a consistência dos indicadores apresentados aos reguladores. Assim, a medição deixa de ser apenas um equipamento de campo e passa a constituir parte da infraestrutura de governança operacional.
O que pode dar errado na adoção de novas tecnologias
A chegada de uma solução inovadora pode estimular a substituição de equipamentos, mas decisões precipitadas apresentam riscos. O primeiro é a aplicação fora do escopo original. O Rosemount 8795 foi desenvolvido para circuitos hidráulicos de resfriamento, especialmente água e misturas de água com glicol.
Nas fontes técnicas consultadas, não foi identificada comprovação específica de desempenho desse modelo em redes públicas de distribuição, esgoto bruto ou aplicações de faturamento de água potável no Brasil. Isso não impede estudos de viabilidade, mas exige ensaios e validação.
O segundo risco é ignorar características do fluido. Esgotos com sólidos, produtos químicos, água com diferentes níveis de condutividade ou condições agressivas podem impor exigências distintas de revestimento, eletrodos, manutenção e instalação.
O terceiro envolve a hidráulica. Tubulações parcialmente cheias, presença de ar, transientes, vibrações e condições de fluxo inadequadas podem comprometer a leitura de instrumentos. A promessa de exatidão em trechos curtos não elimina essas preocupações.
Há também riscos digitais. Quanto maior a integração entre instrumentação, telemetria e sistemas de supervisão, maior a necessidade de governança de acessos, proteção das comunicações, tratamento de alarmes e preservação dos históricos operacionais.
Por fim, existe o risco econômico. A compra de instrumentos mais avançados não garante retorno financeiro quando não existe processo definido para utilizar seus dados. O investimento precisa ser avaliado considerando aquisição, instalação, eventuais interrupções, integração, treinamento, manutenção, verificações metrológicas e vida útil.
A Emerson não divulgou, no anúncio analisado, preço de aquisição ou estudo independente de retorno financeiro do Rosemount 8795.
Como aplicar os aprendizados na empresa
A principal contribuição da novidade não depende da adoção imediata de determinado fabricante. Existe uma metodologia que pode ser aplicada por diferentes operadores de água e esgoto.
Sete ações para melhorar a gestão da medição de vazão
- Inventariar os macromedidores críticos. Identificar localização, diâmetro, tecnologia, faixa operacional, estado de conservação, histórico de manutenção e finalidade da medição.
- Avaliar as condições de instalação. Verificar trechos retos, interferências hidráulicas, possibilidade de tubulação parcialmente cheia, condições de aterramento e requisitos de cada fabricante.
- Classificar os instrumentos por risco. Priorizar pontos em que erros podem afetar balanços hídricos, contratos, controle de processos ou a segurança operacional.
- Comparar tecnologias disponíveis. Analisar medidores eletromagnéticos convencionais, soluções com compensação para trechos curtos e equipamentos ultrassônicos, inclusive alternativas não intrusivas quando tecnicamente adequadas.
- Estruturar verificações e rastreabilidade. Definir procedimentos de calibração ou verificação, registros históricos, critérios de aceitação e medidas corretivas para leituras suspeitas.
- Integrar medição e análise operacional. Utilizar vazão, pressão, níveis, consumo energético e dados cadastrais para produzir alarmes relevantes e investigar desvios.
- Medir resultados antes e depois. Avaliar qualidade dos dados, redução de falhas, tempo de diagnóstico, custos de manutenção e efeitos efetivamente demonstrados sobre os processos.
Uma abordagem particularmente útil é iniciar por uma instalação piloto. Por exemplo, uma companhia pode selecionar um ponto de macromedição que apresente limitações hidráulicas conhecidas e realizar uma comparação controlada entre soluções tecnicamente adequadas.
O estudo deve utilizar método de referência compatível, condições de operação representativas e critérios previamente definidos. Dessa forma, torna-se possível verificar se determinada tecnologia oferece ganho suficiente para justificar sua adoção.
A oportunidade para gestores de grandes consumidores
O crescimento dos data centers também pode criar uma demanda especializada para as companhias de saneamento. Esses empreendimentos podem necessitar de fornecimento com elevada previsibilidade, qualidade de água compatível com processos industriais e instrumentos confiáveis para acompanhamento do consumo.
Dependendo da arquitetura térmica adotada, algumas instalações poderão utilizar circuitos com maior necessidade de reposição de água, enquanto outras adotarão soluções com menor dependência de consumo hídrico local. Não existe, portanto, um consumo único que possa ser atribuído a todos os data centers.
A oportunidade comercial está em compreender cada configuração. Uma concessionária pode avaliar a capacidade de atendimento, possíveis fontes alternativas, infraestrutura necessária, requisitos de qualidade e viabilidade de fornecimento de água de reúso.
Também pode estruturar indicadores contratuais e mecanismos de monitoramento que atendam às necessidades do empreendimento sem prejudicar a segurança hídrica dos demais usuários. Nesse contexto, a área comercial precisa trabalhar de forma integrada com engenharia, operação, planejamento e regulação.
A capacidade de negociar volumes não é suficiente quando o atendimento depende de condições hidráulicas, disponibilidade de água e exigências técnicas específicas.
O futuro da medição de vazão será definido pelos dados
O Rosemount 8795 também ajuda a compreender uma tendência mais ampla: a evolução dos instrumentos de campo para componentes de sistemas digitais integrados. Tradicionalmente, muitos medidores foram utilizados principalmente para registrar volumes e alimentar relatórios.
Agora, cresce a possibilidade de associar a medição a funções de diagnóstico, acompanhamento de integridade e análise contínua. Esse movimento abre espaço para estratégias de manutenção baseadas na condição dos equipamentos.
Em vez de depender exclusivamente de intervalos fixos de inspeção, as equipes podem incorporar informações de funcionamento, históricos de falhas e indicadores de desempenho para direcionar avaliações. Isso não significa abandonar os programas de manutenção preventiva. Significa utilizar evidências adicionais para melhorar a priorização das atividades.
A medição de vazão também pode ganhar importância em aplicações de modelagem hidráulica e inteligência artificial, nas quais a qualidade dos dados de entrada influencia a confiabilidade das análises. Um algoritmo avançado não consegue compensar automaticamente todas as deficiências de um sistema de medição.
Quando a informação de origem está errada, a tecnologia pode produzir análises sofisticadas a partir de premissas incorretas. Por essa razão, a modernização digital deve começar pela compreensão dos instrumentos, dos processos e dos dados disponíveis.
Lições para quem trabalha no saneamento
O lançamento da Emerson não deve ser interpretado como uma solução pronta para todos os desafios da macromedição brasileira. Seu valor para o setor está, sobretudo, na demonstração de que limitações consideradas tradicionais continuam sendo objeto de desenvolvimento tecnológico.
A medição em tubulações curtas, a ampliação dos recursos de diagnóstico e a integração digital representam caminhos que merecem acompanhamento técnico.
Para engenheiros e projetistas, a novidade reforça a importância de especificar instrumentos considerando as condições hidráulicas reais. Para operadores, destaca a necessidade de reconhecer leituras inconsistentes e relacioná-las ao comportamento das instalações.
Para equipes de manutenção, evidencia o valor de conhecer as condições metrológicas e eletrônicas dos ativos. Para profissionais de tecnologia, demonstra que a qualidade dos dados precisa ser tratada desde a origem.
Para gestores comerciais, mostra como a medição confiável influencia contratos, apuração de volumes e relacionamentos com grandes consumidores. E, para dirigentes, traz uma mensagem estratégica: a aquisição de tecnologia deve estar vinculada a resultados operacionais demonstráveis.
O profissional capaz de combinar conhecimento hidráulico, instrumentação, análise de dados e visão de negócio terá papel cada vez mais relevante na modernização das companhias.
Conclusão: a medição precisa deixar de ser invisível na gestão
A inovação apresentada pela Emerson em outubro de 2026 não resolve automaticamente os problemas de perdas, eficiência e confiabilidade das companhias de saneamento. Também não há evidência suficiente, nas fontes analisadas, para afirmar que o Rosemount 8795 já representa uma alternativa validada para todas as condições encontradas em sistemas públicos de água e esgoto.
Entretanto, o lançamento apresenta uma lição importante. A qualidade da informação operacional começa muito antes de chegar aos painéis de indicadores e aos sistemas de inteligência artificial.
Ela começa na escolha do instrumento, no projeto da instalação, na interpretação do comportamento hidráulico, na configuração do sistema e no trabalho das equipes que garantem a confiabilidade das medições.
Uma companhia pode investir em automação, softwares e análises avançadas e continuar tomando decisões equivocadas quando os dados utilizados não representam adequadamente a realidade.
Por isso, a evolução da medição de vazão precisa ser acompanhada por uma evolução da gestão dos dados e dos processos. O futuro não pertence necessariamente às empresas que comprarem os medidores mais sofisticados, mas às que souberem demonstrar a qualidade de suas informações e transformá-las em decisões melhores.
Essa é a contribuição mais importante do lançamento para o saneamento: lembrar que eficiência operacional, controle de perdas, sustentabilidade e resultado financeiro começam por conhecer, com confiança, o que realmente acontece dentro dos sistemas.
Fontes e referências
Emerson
Emerson’s New Flow Measurement Solution Improves Data Center Reliability, Efficiency and Uptime
8 de outubro de 2026
https://www.emerson.com/en/corporate/news/2026/emersons-new-flow-measurement-improves-data-center-reliability
Emerson
Rosemount 8795 Magnetic Flow Sensor
Página técnica oficial
https://www.emerson.com/en/measurement-instrumentation/products/rosemount-8795-magnetic-flow-meter-sensors
Water Online
Emerson’s New Flow Measurement Solution Improves Data Center Reliability, Efficiency and Uptime
8 de outubro de 2026
https://www.wateronline.com/doc/emerson-s-new-flow-measurement-solution-improves-data-center-reliability-efficiency-and-uptime-0001
Agência Internacional de Energia (IEA)
Key Questions on Energy and AI
16 de abril de 2026
https://www.iea.org/reports/key-questions-on-energy-and-ai
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
Resolução ANA nº 275/2025 e Norma de Referência nº 15/2025
18 de dezembro de 2025
https://www.gov.br/ana/pt-br/legislacao/resolucoes/resolucoes-regulatorias/2025/275/
Sanepar
Sanepar usa sensores inteligentes, celulares e tablets para monitoramento operacional em tempo real
5 de outubro de 2026
https://www.sanepar.com.br/noticias/sanepar-usa-sensores-inteligentes-celulares-e-tablets-para-monitoramento-operacional-em-tempo-real
Águas de Palhoça
Águas de Palhoça avança na modernização do sistema com instalação de macromedidores e válvulas redutoras de pressão
6 de agosto de 2025
https://www.aguaspalhoca.com.br/aguas-de-palhoca-avanca-na-modernizacao-do-sistema-com-instalacao-de-macromedidores-e-valvulas-redutoras-de-pressao/
Iguá Saneamento
Compromisso em cada gota
Página institucional
https://igua.com.br/castilho/compromisso
PUB — Singapore’s National Water Agency
PUB celebrates winners of three water-efficiency awards
26 de março de 2024
https://www.pub.gov.sg/Resources/News-Room/PressReleases/2024/03/PUB-celebrates-winners-of-three-water-efficiency-awards
PUB — Singapore’s National Water Agency
NEWater
Página institucional
https://www.pub.gov.sg/Public/WaterLoop/OurWaterStory/NEWater
Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE)
Cooling Water Efficiency Opportunities for Federal Data Centers
Federal Energy Management Program
https://www.energy.gov/cmei/femp/cooling-water-efficiency-opportunities-federal-data-centers



