A privatização da Copasa entrou em uma nova etapa após o Governo de Minas Gerais manter aproximadamente 5% do capital da companhia. A participação foi preservada com a expectativa de que as ações possam se valorizar à medida que a nova gestão avance em eficiência operacional, investimentos e execução de obras.
Segundo declaração do governador de Minas Gerais, Mateus Simões, a intenção é vender essa participação somente quando o preço estiver mais elevado. A estratégia, portanto, transforma o Estado em acionista minoritário de uma empresa que deixou de controlar, mas cuja valorização futura ainda poderá gerar receita pública.
Entretanto, o sucesso dessa decisão não depende apenas do comportamento das ações na bolsa. Além disso, será influenciado pela capacidade da companhia de cumprir metas regulatórias, renovar contratos municipais, reduzir perdas, melhorar o atendimento e executar os investimentos necessários para a universalização do saneamento.
Como ficou a composição acionária da Copasa
A operação de desestatização foi concluída em junho de 2026. Depois da venda das ações anteriormente controladas pelo Estado, a composição acionária passou a apresentar a Equatorial, por meio da Gerais Saneamento, com 30% do capital da empresa.
Os fundos administrados pela Perfin passaram a reunir aproximadamente 20,11% das ações. Por sua vez, o Estado de Minas Gerais permaneceu com 5,03%, enquanto outros acionistas ficaram com cerca de 44,58%. A companhia também mantinha aproximadamente 0,28% das ações em tesouraria.
Dessa maneira, a privatização da Copasa não resultou na concentração da maioria absoluta das ações em um único investidor. A companhia passou a funcionar sob uma estrutura de capital mais distribuída, embora a Equatorial tenha assumido a posição de investidor de referência.
A participação do Estado inclui uma ação preferencial especial, conhecida como golden share. Esse instrumento assegura poder de veto sobre determinadas decisões estratégicas previstas no estatuto social. Contudo, a golden share não representa controle da operação cotidiana nem permite interferência direta em todas as decisões empresariais.
Por que Minas manteve aproximadamente 5%
A manutenção da participação acionária representa uma aposta na valorização futura da empresa. Na avaliação apresentada pelo governador, a nova estrutura poderá proporcionar ganho de escala, maior velocidade na contratação de obras e melhoria da eficiência operacional.
Caso essa expectativa se confirme, o Estado poderá vender suas ações por um valor superior ao que receberia se tivesse vendido toda a participação durante a oferta pública.
Por outro lado, essa estratégia também envolve riscos. O preço de uma ação é influenciado pelos resultados financeiros, pelas expectativas do mercado, pelas condições econômicas, pelas decisões regulatórias e pela capacidade da companhia de cumprir seus contratos.
Portanto, afirmar que a venda ocorrerá quando o preço estiver alto não significa que exista uma data ou um valor previamente garantido. A eventual valorização dependerá dos resultados efetivamente entregues após a privatização da Copasa.
Quanto a operação movimentou
De acordo com o Governo de Minas, a operação de desestatização movimentou aproximadamente R$ 8,3 bilhões. Parte relevante dos recursos está relacionada à estratégia estadual de adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados, o Propag.
O programa permite a renegociação das dívidas estaduais com a União e prevê mecanismos para amortizar parte do saldo devedor. Entre esses mecanismos estão a transferência ou monetização de ativos, participações societárias e outros direitos pertencentes aos estados.
A legislação aprovada em Minas determinou que os recursos da privatização da Copasa sejam direcionados à amortização da dívida estadual ou ao cumprimento de obrigações relacionadas ao Propag. Também foi prevista a destinação de parte dos valores para um fundo estadual de saneamento básico.
Consequentemente, a operação possui duas dimensões. A primeira está relacionada ao futuro da prestação dos serviços de água e esgoto. A segunda envolve a situação fiscal do Estado e a reorganização de sua dívida com a União.
Tarifas não são definidas livremente pela companhia
Um dos principais questionamentos relacionados à privatização da Copasa envolve o possível impacto sobre as tarifas de água e esgoto. No entanto, a mudança de controle não permite que a companhia aumente os preços de forma livre ou unilateral.
As tarifas continuam submetidas às regras da Agência Reguladora de Serviços de Abastecimento de Água e de Esgotamento Sanitário de Minas Gerais, a Arsae-MG, nos municípios regulados pela agência.
A regulação tarifária considera custos operacionais eficientes, investimentos reconhecidos, base de ativos, qualidade dos serviços, produtividade e remuneração adequada do capital. Além disso, são realizados reajustes anuais e revisões tarifárias periódicas.
Isso significa que a privatização da Copasa pode alterar a estrutura administrativa e operacional da empresa, porém não elimina o controle regulatório. Da mesma forma, investimentos maiores não são automaticamente transferidos para a tarifa. Eles precisam seguir os critérios de reconhecimento definidos pela agência reguladora.
Por outro lado, uma operação mais eficiente pode reduzir desperdícios, melhorar a produtividade e limitar pressões tarifárias. Entretanto, uma expansão acelerada de investimentos também pode influenciar os custos reconhecidos nas futuras revisões.
Execução de obras será o principal teste
A capacidade de executar obras aparece como um dos pontos mais importantes da nova fase da companhia. Conforme a avaliação apresentada pelo governador, a Copasa possuía situação econômica saudável, mas enfrentava dificuldades para contratar, fiscalizar e concluir empreendimentos com a velocidade necessária.
Esse problema não é exclusivo de Minas Gerais. Atualmente, o setor de saneamento brasileiro enfrenta forte demanda por empresas de engenharia, fornecedores de equipamentos, especialistas em automação, projetistas e prestadores capacitados.
Além disso, grandes programas de investimento realizados por companhias como Sabesp, Aegea, Iguá, BRK e outras operadoras aumentam a disputa por mão de obra, equipamentos e empresas especializadas.
Assim, a privatização da Copasa somente será considerada bem-sucedida do ponto de vista operacional caso consiga transformar capacidade financeira em obras concluídas. Para isso, será necessário desenvolver projetos executivos, obter licenças, contratar fornecedores, desapropriar áreas, acompanhar cronogramas e fiscalizar a qualidade dos serviços.
Portanto, o principal indicador não será apenas o volume de investimentos anunciado. O desempenho deverá ser medido pela quantidade de sistemas entregues, pelo aumento da cobertura, pela regularidade do abastecimento e pela melhoria efetivamente percebida pela população.
Municípios pequenos exigem atenção especial
Outro desafio está relacionado à manutenção dos serviços nos municípios de menor porte. Muitas dessas operações apresentam baixa densidade populacional, grande dispersão territorial e arrecadação insuficiente para financiar toda a infraestrutura necessária.
Historicamente, companhias estaduais utilizam mecanismos de subsídio cruzado. Nesse modelo, sistemas maiores e mais rentáveis ajudam a financiar a prestação dos serviços em municípios pequenos ou deficitários.
Com a privatização da Copasa, será necessário acompanhar como esse equilíbrio será preservado. A legislação estadual manteve obrigações relacionadas às metas de universalização e incluiu áreas rurais e núcleos urbanos informais consolidados.
Ainda assim, os contratos precisam estabelecer metas claras, fontes de financiamento e mecanismos de fiscalização. Caso contrário, municípios menos atrativos economicamente poderão enfrentar maior dificuldade para viabilizar investimentos.
Para os gestores municipais, a recomendação técnica é acompanhar indicadores como cobertura de água, coleta e tratamento de esgoto, perdas na distribuição, continuidade do abastecimento, qualidade da água, tempo de atendimento e volume anual de investimentos.
Combate às perdas e fraudes pode elevar a eficiência
A redução das perdas de água deverá ocupar posição central na nova fase operacional. Perdas elevadas aumentam os custos de captação, tratamento, bombeamento e distribuição. Além disso, reduzem a quantidade de água disponível para faturamento.
Por isso, espera-se maior utilização de setorização, controle de pressão, pesquisa de vazamentos, telemetria, automação e substituição de redes antigas. Da mesma forma, poderá ocorrer ampliação das ações contra fraudes, ligações clandestinas e irregularidades cadastrais.
O combate às fraudes pode aumentar a receita sem exigir crescimento equivalente da produção de água. Entretanto, as ações precisam respeitar os direitos dos usuários, as normas regulatórias e os procedimentos de notificação.
Consequentemente, a privatização da Copasa poderá acelerar o uso de tecnologias comerciais e operacionais. Entre elas estão medição inteligente, análise de dados, inteligência artificial, fiscalização digital e integração entre cadastro, faturamento e operação.
O que os profissionais do saneamento devem acompanhar
Para os profissionais do setor, o desempenho da companhia deverá ser avaliado por indicadores objetivos. A valorização das ações, embora relevante para o Estado, não pode ser o único parâmetro de sucesso.
Entre os principais pontos de acompanhamento estão:
- volume de investimentos executados, e não apenas anunciados;
- cumprimento dos cronogramas de obras;
- evolução das perdas reais e aparentes;
- continuidade e regularidade do abastecimento;
- expansão da coleta e do tratamento de esgoto;
- produtividade das equipes próprias e contratadas;
- qualidade da fiscalização dos contratos;
- tempo médio de atendimento ao cliente;
- quantidade de reclamações e penalidades regulatórias;
- renovação dos contratos com os municípios;
- impacto dos investimentos sobre as tarifas;
- atendimento às áreas rurais e localidades deficitárias.
Além disso, será importante verificar se a nova administração consegue integrar eficiência financeira, qualidade operacional e responsabilidade social. A geração de lucro é necessária para sustentar os investimentos. Entretanto, o serviço de saneamento possui caráter essencial e precisa permanecer acessível, contínuo e adequado.
Valorização dependerá de resultados concretos
A decisão de conservar 5,03% das ações pode produzir ganhos adicionais para Minas Gerais caso a empresa aumente sua eficiência e seu valor de mercado. Entretanto, também mantém o Estado exposto às variações do preço das ações.
Portanto, uma futura venda deverá considerar não somente a cotação de um determinado dia, mas também o potencial de geração de caixa, os investimentos contratados, a situação regulatória e as perspectivas de longo prazo.
A privatização da Copasa inicia, assim, um período de acompanhamento intenso. O investidor de referência terá de demonstrar capacidade para acelerar obras, melhorar processos e cumprir metas. Ao mesmo tempo, reguladores e municípios precisarão fiscalizar tarifas, qualidade e atendimento.
Em síntese, a valorização esperada pelo Governo de Minas dependerá da transformação das promessas em entregas. Caso a companhia amplie a cobertura, reduza perdas, melhore o atendimento e execute seus projetos dentro dos prazos, a participação mantida pelo Estado poderá se tornar mais valiosa.
Porém, se os investimentos atrasarem, os contratos municipais enfrentarem dificuldades ou a qualidade dos serviços cair, a expectativa de valorização poderá não se confirmar. Dessa forma, o verdadeiro resultado da privatização da Copasa será definido nos sistemas de abastecimento, nas estações de tratamento, nas redes de esgoto e, principalmente, na qualidade do serviço recebido pela população.
Fontes
- Exame — Governador explica a manutenção de 5% da Copasa
- Copasa RI — Composição acionária da companhia
- Governo de Minas — Documentos oficiais da oferta pública
- Agência Minas — Conclusão do processo de desestatização
- Assembleia Legislativa de Minas Gerais — Aprovação da privatização
- Arsae-MG — Regulação e revisão tarifária da Copasa



