A Região Metropolitana de São Paulo passou a operar com uma janela menor de redução da pressão da água. O período diário caiu de dez para oito horas e passou a ocorrer das 22h às 6h. A mudança foi anunciada após uma melhora pontual nas condições do Sistema Cantareira. Entretanto, o cenário ainda exige cautela, monitoramento e controle permanente das perdas.

Anteriormente, a medida era aplicada das 19h às 5h. Portanto, três horas do início da noite voltaram a operar fora da janela de restrição. Segundo as informações divulgadas, a alteração ocorreu após a passagem da Faixa de Atuação 3 para a Faixa de Atuação 2 da curva de contingência utilizada pelas autoridades paulistas.
Resposta direta: o que mudou no abastecimento?
A redução da pressão da água passou a ser realizada durante oito horas diárias, das 22h às 6h. A medida continua em vigor na Região Metropolitana de São Paulo, mas com duração duas horas menor.
A mudança não significa que o Sistema Cantareira tenha retornado à normalidade. Em 1º de agosto de 2026, o reservatório apresentava 36,6% de armazenamento, segundo os dados divulgados pelo Governo de São Paulo. Além disso, embora as chuvas recentes tenham ajudado, o nível permanece em uma condição que exige acompanhamento técnico.
Na semana de 20 a 26 de julho, foram registrados 31,6 milímetros de chuva na região do sistema. Esse volume ficou 177% acima do previsto pelos modelos meteorológicos citados pelo governo. Portanto, houve melhora suficiente para aliviar a medida, mas não para encerrá-la.
Por que a redução passou de dez para oito horas?
A duração da redução da pressão da água está relacionada às faixas de contingência estabelecidas pela Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo, a Arsesp.
A Deliberação Arsesp nº 1.813/2026 determina a aplicação da Gestão de Demanda Noturna durante oito horas na Faixa de Atuação 2. Já na Faixa de Atuação 3, a duração prevista é de dez horas.
Consequentemente, quando os indicadores técnicos permitiram a mudança para a Faixa 2, a janela de controle pôde ser reduzida. A mesma regulamentação prevê medidas progressivamente mais severas nas faixas seguintes, com períodos de 12, 14 e 16 horas. O rodízio aparece somente na Faixa de Atuação 7, considerada a situação mais crítica.
Como a redução da pressão economiza água?
A redução da pressão da água atua principalmente sobre as perdas reais, também chamadas de perdas físicas. Essas perdas correspondem à água que escapa por vazamentos em redes, ramais, conexões, válvulas, reservatórios e outras estruturas do sistema de distribuição.
Quando existe um vazamento, a quantidade de água perdida depende, entre outros fatores, da pressão disponível naquele ponto. Assim, quanto maior for a pressão, maior poderá ser a vazão que sai pela abertura existente.
Além disso, pressões excessivas e variações bruscas submetem as tubulações e conexões a esforços maiores. Com o tempo, essas condições podem contribuir para o surgimento de novos vazamentos ou para o agravamento de falhas já existentes.
Estudos técnicos sobre redes de distribuição reconhecem a gestão de pressão como uma estratégia relevante para controlar vazamentos. No entanto, a pressão não pode ser simplesmente reduzida ao menor nível possível. Ela precisa continuar suficiente para que a água alcance os pontos críticos da rede.
Redução de pressão não é o mesmo que rodízio
A redução da pressão da água não deve ser confundida automaticamente com rodízio ou racionamento.
Na gestão de pressão, o sistema continua operando, porém com a pressão controlada durante determinados horários. Em condições adequadas, a água permanece disponível, embora possa chegar com vazão menor a alguns imóveis.
Já no rodízio, setores inteiros podem ter o fornecimento interrompido de forma programada e alternada. Por isso, a medida representa um estágio mais grave da contingência.
A própria regulamentação da Arsesp define a Gestão de Demanda Noturna como uma ação excepcional, corretiva e de alto impacto, direcionada à redução das perdas, à diminuição das captações e à preservação da disponibilidade hídrica.
Entretanto, a experiência do usuário pode variar. Imóveis localizados em áreas elevadas, pontas de rede ou regiões hidráulicas mais desfavoráveis podem perceber vazão muito baixa. Edificações sem reservação adequada também ficam mais expostas aos efeitos da medida.
O que significa pressão em metros de coluna d’água?
A pressão das redes de abastecimento costuma ser medida em metros de coluna d’água, representados pela sigla mca.
De maneira simples, 10 mca correspondem à pressão exercida por uma coluna de água com dez metros de altura. Essa unidade permite que as equipes operacionais avaliem se a pressão é suficiente para atender os imóveis e, ao mesmo tempo, se não está excessivamente elevada.
Em condições normais, a regulamentação da Arsesp considera adequada a faixa de 10 a 50 mca, medida no cavalete do usuário. A pressão mais baixa que esse intervalo pode caracterizar descontinuidade ou atendimento inadequado, dependendo das condições e das exceções regulatórias aplicáveis.
Quais parâmetros precisam ser mantidos?
Durante a Gestão de Demanda Noturna, existem parâmetros específicos para a operação.
Nas Faixas de Atuação 2 e 3, a prestadora deve assegurar pelo menos duas horas diárias com pressão de 10 mca no ponto crítico. Além disso, fora do período definido para a gestão noturna, deve ser mantida pressão mínima de 3,2 mca.
O ponto crítico é o local da área de controle que apresenta a menor pressão ou maior vulnerabilidade às oscilações hidráulicas. Normalmente, ele está associado a regiões elevadas, extremidades de rede ou áreas distantes dos principais pontos de alimentação.
A regulamentação também permite considerar o tempo necessário para que uma alteração realizada em uma válvula, estação elevatória ou reservatório se propague pela rede. Entretanto, esse tempo precisa ser controlado, registrado e tecnicamente justificado.
Como a operação é realizada na prática?
Uma redução da pressão da água tecnicamente estruturada não deve depender apenas do fechamento manual e generalizado de registros.
A operação normalmente envolve:
Setorização hidráulica
A rede é dividida em áreas menores e controláveis. Dessa maneira, torna-se possível ajustar a pressão conforme as características de cada região.
Válvulas redutoras de pressão
As válvulas redutoras, conhecidas como VRPs, controlam a pressão de saída. Os ajustes podem ser fixos, programados por horário ou comandados remotamente.
Telemetria e supervisão
Sensores enviam informações de pressão, vazão, nível de reservatórios e funcionamento dos equipamentos para os centros de controle operacional.
Distritos de Medição e Controle
Os Distritos de Medição e Controle permitem acompanhar o volume que entra em determinado setor, o consumo registrado e a vazão mínima noturna. Assim, facilitam a identificação de possíveis perdas.
Modelagem hidráulica
Os modelos simulam o comportamento da rede antes da alteração dos parâmetros. Consequentemente, ajudam a prever quais áreas podem apresentar pressão insuficiente.
A Arsesp também exige registros operacionais de reservatórios, estações elevatórias, boosters, válvulas e outros dispositivos envolvidos na medida.
Qual é o risco para a qualidade da água?
A redução da pressão da água precisa preservar pressão positiva em toda a rede. Isso significa que a pressão interna deve permanecer superior à pressão externa.
Caso ocorra pressão negativa, existe risco de entrada de água do solo ou de materiais externos por rachaduras, juntas defeituosas e conexões irregulares. Por essa razão, a segurança hidráulica também está relacionada à segurança sanitária.
A Deliberação Arsesp nº 1.813 determina que sejam adotados protocolos de purga e desinfecção depois dos ciclos de redução. A purga permite renovar a água e remover materiais que possam ter sido mobilizados durante as alterações de fluxo e pressão.
Além disso, a recomposição deve ocorrer gradualmente. A abertura muito rápida de válvulas pode provocar transientes hidráulicos, popularmente associados ao golpe de aríete. Essas oscilações aumentam o esforço sobre as tubulações e podem causar rompimentos.
Economia de 183 bilhões de litros precisa ser detalhada
De acordo com o Governo de São Paulo, a Gestão de Demanda Noturna, iniciada em agosto de 2025, já teria proporcionado uma economia acumulada de 183 bilhões de litros de água. O resultado mostra o potencial da redução da pressão da água em uma rede metropolitana de grande porte.
Entretanto, para a gestão profissional do saneamento, o volume total não deve ser analisado isoladamente. Também precisam ser divulgados:
- A metodologia utilizada para calcular a economia;
- O volume produzido antes e depois da medida;
- A variação do consumo dos usuários;
- A pressão média dos setores;
- A vazão mínima noturna;
- O número de vazamentos reparados;
- As mudanças climáticas e sazonais do período.
Essa separação permite identificar quanto da economia decorreu diretamente da gestão de pressão e quanto resultou da redução do consumo, do reparo de vazamentos ou de outras ações operacionais.
Por que o Cantareira continua preocupando?
A diminuição da janela não significa o encerramento do risco hídrico.
Em 30 de junho de 2026, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico informou que o Cantareira passaria a operar em julho na Faixa 3 — Alerta. Naquele momento, o sistema registrava 39,87% de seu volume útil.
Na Faixa de Alerta, a Sabesp fica autorizada a retirar até 27 metros cúbicos por segundo. Em condições de normalidade, a retirada pode chegar a 33 metros cúbicos por segundo. Portanto, a regra limita a captação para preservar o armazenamento.
O período seco se estende de junho até novembro. Assim, mesmo com chuvas acima do previsto em determinados dias, a tendência dos meses seguintes ainda precisa ser observada.
O Cantareira é formado por cinco reservatórios interligados: Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro. Juntos, eles possuem volume útil total de aproximadamente 981,56 bilhões de litros. O sistema atende cerca de metade da população da Região Metropolitana de São Paulo e também contribui para as bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí.
Impactos para as áreas operacionais e comerciais
A redução da pressão da água exige integração entre produção, adução, distribuição, manutenção, controle de perdas, qualidade da água, atendimento e comunicação.
Na operação, devem ser acompanhados:
- Pressão mínima no ponto crítico;
- Pressão máxima nas áreas mais baixas;
- Vazão mínima noturna;
- Níveis dos reservatórios;
- Funcionamento de boosters e elevatórias;
- Tempo de recuperação após as 6h;
- Quantidade de vazamentos e rompimentos.
Na área comercial, as reclamações precisam ser georreferenciadas. Dessa forma, torna-se possível identificar bairros, ruas e setores que apresentam recorrência de falta d’água durante ou depois da janela.
O atendimento também deve diferenciar uma reclamação provocada pela medida de uma ocorrência causada por vazamento, falha de válvula, reservatório vazio, problema interno no imóvel ou deficiência operacional localizada.
Principais lições para gestores de saneamento
A experiência paulista demonstra que a redução da pressão da água pode contribuir para a segurança hídrica. Entretanto, ela não substitui investimentos estruturais.
A medida precisa caminhar junto com:
- Pesquisa ativa de vazamentos;
- Renovação de redes antigas;
- Setorização hidráulica;
- Macromedição;
- Telemetria;
- Automação de válvulas;
- Combate às perdas aparentes;
- Regularização de ligações;
- Atualização do cadastro técnico;
- Ampliação da capacidade de reservação.
Além disso, a pressão não deve ser reduzida de maneira uniforme em toda a rede. Cada setor possui topografia, consumo, materiais, diâmetros e condições hidráulicas diferentes.
Portanto, quanto maior for a qualidade dos dados, mais eficiente será a redução da pressão da água. A finalidade deve ser reduzir perdas sem transformar a medida preventiva em desabastecimento recorrente.
O que os usuários precisam observar?
O novo horário da medida é das 22h às 6h. Durante esse período, imóveis mais vulneráveis hidraulicamente podem perceber menor vazão.
A reservação domiciliar adequada reduz parte dos impactos, desde que a caixa-d’água esteja corretamente dimensionada, protegida e higienizada. Entretanto, a reservação interna não deve ser usada para ocultar problemas recorrentes de continuidade.
Caso a falta de água permaneça fora do horário informado, a ocorrência precisa ser registrada nos canais oficiais da prestadora. O registro ajuda a separar os efeitos esperados da redução da pressão da água de falhas localizadas que exigem investigação e correção.
Perguntas frequentes
A redução da pressão significa que faltará água?
Não necessariamente. O objetivo é manter o sistema funcionando com pressão menor. Contudo, imóveis situados em áreas hidráulicas desfavoráveis podem perceber vazão reduzida ou ausência temporária.
O novo horário vale durante todo o dia?
Não. A janela divulgada é das 22h às 6h, totalizando oito horas.
A medida já pode ser encerrada?
O encerramento dependerá da evolução dos mananciais, das chuvas, das vazões afluentes, do consumo e das decisões da Arsesp. A melhora atual permitiu apenas reduzir a duração.
Conclusão
A redução da pressão da água para oito horas representa um alívio em comparação com o período anterior de dez horas. No entanto, a mudança não caracteriza normalização do Sistema Cantareira.
A estratégia continua sendo necessária para reduzir perdas, diminuir as captações e preservar os reservatórios durante o período seco. Ao mesmo tempo, deve ser acompanhada por controle regulatório, monitoramento dos pontos críticos, proteção da qualidade da água e comunicação transparente.
Para as companhias de saneamento, o principal aprendizado está na integração entre gestão de pressão, combate a vazamentos, automação e análise de dados. Quando esses elementos funcionam de forma coordenada, a rede ganha eficiência e resiliência. Caso contrário, a pressão reduzida pode ser percebida apenas como falta d’água.
Fontes
- CNN Brasil — Redução da pressão de água em SP passa de 10 para 8 horas
- Arsesp — Deliberação nº 1.813, de 17 de junho de 2026
- Arsesp — Deliberação nº 1.621, de 10 de dezembro de 2024
- ANA — Sistema Cantareira passa à Faixa de Alerta em julho
- Sabesp — Portal dos Mananciais
- IWA Publishing — Estudos sobre gestão de pressão e controle de vazamentos



