Cidade do Cabo transforma esgoto tratado em fonte estratégica de água
Cidade do Cabo acaba de dar um passo que merece atenção de qualquer profissional responsável pelo planejamento de sistemas de abastecimento: em 25 de setembro de 2026, a cidade abriu oficialmente a licitação para escolher o parceiro privado que financiará, projetará, construirá, operará e manterá o Faure New Water Scheme, projeto de reúso potável cuja primeira etapa deverá produzir até 70 milhões de litros de água por dia. A capacidade final prevista chega a 100 milhões de litros diários. A expectativa atual é de produção da primeira água em 2031.
O projeto é importante não apenas pelo volume. Faure representa uma mudança de paradigma: em vez de considerar o efluente tratado apenas como algo a ser devolvido ao ambiente, Cidade do Cabo pretende incorporá-lo estruturalmente ao seu sistema de abastecimento.
Mais do que uma nova estação, portanto, trata-se de uma nova fonte hídrica.
E há um segundo aspecto especialmente interessante para o Brasil: a cidade decidiu estruturar o empreendimento por meio de uma parceria público-privada baseada na entrega de água em quantidade e qualidade contratadas, mantendo o ativo sob propriedade municipal e a responsabilidade pública pela segurança da água.
É justamente a combinação entre tecnologia avançada, contrato de desempenho, segurança sanitária e planejamento hídrico de longo prazo que transforma Faure em um caso relevante para gestores de saneamento.
O que aconteceu
A Cidade do Cabo abriu a primeira etapa da concorrência nº 081S/2026/27, um Request for Qualification — RFQ, destinado a selecionar consórcios com capacidade técnica, financeira e operacional para participar do projeto.
Os grupos pré-qualificados deverão avançar posteriormente para a etapa de propostas. O Request for Proposals está previsto para o segundo semestre de 2027.
O futuro parceiro assumirá cinco responsabilidades integradas:
- financiamento;
- projeto;
- construção;
- operação;
- manutenção.
A lógica contratual é particularmente relevante. No modelo estudado pela cidade, o parceiro privado financia inicialmente a implantação e recebe posteriormente um pagamento associado à prestação do serviço. A infraestrutura continua pertencendo ao município. A documentação da viabilidade ainda estabelece que o pagamento deverá incorporar custos de construção, financiamento e operação, com o desempenho condicionado aos requisitos previstos no contrato.
Isso aproxima o Faure New Water Scheme de um conceito que poderá ganhar espaço no saneamento: contratar disponibilidade e desempenho de uma fonte de água, e não simplesmente contratar uma obra.
O reúso potável nasceu de uma crise que quase fechou as torneiras
É impossível compreender o projeto sem lembrar o que ocorreu em Cidade do Cabo.
Entre 2015 e 2017, a região enfrentou uma seca severa de três anos. O risco de chegar ao chamado “Day Zero”, quando grande parte das torneiras da cidade precisaria ser desligada, tornou-se concreto em 2018.
A cidade conseguiu evitar o cenário extremo combinando redução de consumo, gestão operacional e medidas emergenciais. Segundo sua Estratégia de Água, o consumo caiu mais de 40% durante a crise.
A consequência mais profunda, entretanto, veio depois.
Cidade do Cabo concluiu que depender predominantemente de reservatórios alimentados pela chuva representava um risco estratégico. Assim surgiu uma política de diversificação que combina águas subterrâneas, aumento da oferta superficial, gestão da vegetação invasora, dessalinização e reúso potável.
O New Water Programme pretende disponibilizar uma capacidade adicional de pico de aproximadamente 300 milhões de litros por dia até 2036, reduzindo a dependência do regime pluviométrico.
Essa talvez seja a primeira grande lição do caso: segurança hídrica não significa apenas possuir reservatórios grandes. Significa possuir fontes diferentes, com riscos diferentes.
Como funcionará o Faure New Water Scheme
O projeto começa na estação de tratamento de esgoto de Zandvliet.
A instalação passou por uma ampliação de aproximadamente R 2 bilhões, concluída em 2024, que elevou sua capacidade de 72 milhões para 90 milhões de litros por dia e incorporou tratamento com membranas. A melhoria da qualidade do efluente é fundamental porque Zandvliet será a fonte de água do sistema de reúso.
A partir daí, o efluente já tratado passará por uma nova sequência de processos.
O estudo de viabilidade mais recente prevê instalações tanto em Zandvliet quanto no complexo da estação de tratamento de água de Faure. O projeto deverá começar produzindo 70 milhões de litros por dia e poderá chegar posteriormente a 100 milhões. O estudo indica ainda mistura da água purificada com água superficial antes de sua passagem pela estação convencional de Faure, com proporção máxima prevista de reúso de até 33% no desenho apresentado em 2025.
Ou seja: não se trata simplesmente de lançar efluente tratado diretamente na rede.
Existem barreiras sucessivas.
O tratamento avançado é o coração do reúso potável
Documentos técnicos publicados pela Cidade do Cabo descrevem uma rota de purificação avançada baseada em múltiplas barreiras.
Entre os processos previstos ou estudados estão ozonização, carvão biologicamente ativado, carvão ativado granular, ultrafiltração, oxidação avançada por radiação ultravioleta e desinfecção.
Cada etapa possui uma função específica.
A ozonização atua sobre microrganismos e compostos orgânicos complexos. O carvão biologicamente ativado auxilia na degradação de matéria orgânica biodegradável. O carvão ativado granular adsorve diversos micropoluentes. A ultrafiltração cria uma barreira física extremamente fina. Finalmente, processos avançados de oxidação aumentam a capacidade de destruição de compostos orgânicos residuais.
O conceito central é importante: a segurança não depende de uma única tecnologia funcionar perfeitamente.
Ela resulta da redundância de barreiras.
Se um determinado contaminante não for suficientemente removido em uma etapa, outra deverá atuar posteriormente.
A Organização Mundial da Saúde recomenda exatamente uma abordagem preventiva e baseada em risco para projetos de reúso potável, incluindo controle da fonte, tratamento por múltiplas barreiras, monitoramento, planos de segurança da água e capacidade técnica adequada do operador.
Faure escolheu um caminho diferente da osmose reversa
Um dos aspectos tecnicamente mais interessantes está na comparação com outros grandes projetos internacionais.
Singapore NEWater e o Groundwater Replenishment System de Orange County, na Califórnia, utilizam osmose reversa em seus processos avançados. No sistema norte-americano, por exemplo, o tratamento inclui microfiltração, osmose reversa e radiação ultravioleta associada ao peróxido de hidrogênio.
Cidade do Cabo estudou outra rota.
A documentação técnica da cidade explica que uma alternativa baseada predominantemente em carbono foi considerada mais adequada para Faure, entre outros motivos, porque a osmose reversa produziria uma corrente concentrada de rejeitos — a salmoura — cuja destinação em grandes volumes adicionaria custos e impactos ambientais.
Essa diferença contém uma excelente lição profissional.
Tecnologia de ponta não significa necessariamente copiar a tecnologia utilizada pelo projeto mais famoso do mundo.
A solução deve considerar qualidade do afluente, contaminantes, energia, disposição de rejeitos, localização, capacidade operacional, custo do ciclo de vida e riscos ambientais.
O contrato também é uma inovação
A tecnologia talvez seja o aspecto mais visível de Faure, mas o desenho financeiro merece praticamente a mesma atenção.
Durante os estudos, Cidade do Cabo concluiu que conseguiria tecnicamente implantar o empreendimento por meios próprios, porém o volume de investimentos simultâneos pressionaria sua capacidade financeira.
A PPP surgiu como alternativa para trazer capital privado e distribuir despesas ao longo do período contratual.
O modelo prevê que a cidade seja a compradora da água produzida.
Isso cria uma relação parecida com um contrato de off-take: o parceiro entrega determinada quantidade de água atendendo aos parâmetros estabelecidos, e o poder público remunera o serviço.
A propriedade do ativo permanece municipal.
Há também um detalhe particularmente relevante: segundo o material de viabilidade divulgado ao público, o primeiro pagamento somente ocorre quando o projeto estiver plenamente operacional.
Para gestores de contratos, a mudança conceitual é enorme.
Em uma contratação convencional, parte relevante do risco pode permanecer com o contratante após a conclusão das obras.
Em uma PPP corretamente estruturada, projeto, construção, financiamento, desempenho e operação passam a estar economicamente conectados.
Se equipamentos mal dimensionados elevarem o custo de operação, por exemplo, o mesmo parceiro que participou do projeto poderá conviver com a consequência durante anos.
É o princípio do custo do ciclo de vida substituindo a lógica do menor custo de implantação.
Quanto custará?
Aqui é necessário cuidado porque diferentes documentos apresentam valores de momentos e escopos distintos.
O relatório de infraestrutura municipal publicado em 2025 apresentava valor de capital de aproximadamente R 2,83 bilhões para o Faure New Water Scheme. Um relatório de mercado da GreenCape publicado em 2026 menciona aproximadamente R 3,2 bilhões de CAPEX associado ao projeto após a aprovação para avançar com a PPP.
A diferença reforça por que esses números não devem ser tratados como valor final da contratação.
A concorrência aberta em setembro de 2026 ainda está em fase de qualificação e a própria nota oficial não divulgou um preço final contratado. Portanto, o valor definitivo dependerá da estrutura financeira, propostas recebidas, riscos transferidos, prazo contratual, especificações e resultado da competição.
Para profissionais de planejamento, essa distinção é fundamental: CAPEX estimado não equivale ao custo total de uma PPP.
Financiamento, energia, reagentes, membranas, reposições, pessoal, manutenção, seguros, monitoramento, contingências e retorno sobre capital precisam entrar na conta.
O mundo já provou que reúso potável pode funcionar
Faure não está sendo desenvolvido em um vazio tecnológico.
Há décadas de experiências internacionais.
Em Windhoek, na Namíbia, o reúso potável direto começou ainda em 1968, colocando a cidade entre as pioneiras mundiais na transformação de águas residuárias em fonte para abastecimento humano.
Singapura transformou o NEWater em um dos pilares de sua segurança hídrica. O processo utiliza membranas e desinfecção ultravioleta, e parte da água é introduzida em reservatórios para posterior tratamento nas estações convencionais. A PUB informa que o NEWater é acompanhado por um programa robusto de monitoramento de aproximadamente 300 parâmetros.
Na Califórnia, o Groundwater Replenishment System de Orange County consegue produzir até 130 milhões de galões por dia — cerca de 492 mil m³/dia —, volume suficiente, segundo o operador, para atender às necessidades de aproximadamente um milhão de pessoas.
Perth adotou outra configuração: a água reciclada purificada é injetada em aquíferos profundos. A capacidade de recarga foi ampliada para 28 bilhões de litros por ano, depois de anos de testes, estudos regulatórios e programas de aceitação pública.
Os quatro casos possuem desenhos diferentes, mas repetem princípios semelhantes: múltiplas barreiras, monitoramento intensivo, desenvolvimento institucional, comunicação pública e incorporação do reúso ao planejamento de longo prazo.
E o Brasil?
O Brasil possui experiência relevante em reúso, mas predominantemente não potável.
O melhor exemplo em escala é o Aquapolo, na Região Metropolitana de São Paulo, empreendimento da GS Inima Industrial em parceria com a Sabesp.
A instalação utiliza efluente secundário da ETE ABC como matéria-prima e possui capacidade instalada para produzir até 1.000 litros por segundo de água reciclada, destinada principalmente ao uso industrial no Polo Petroquímico de Capuava e região. O sistema emprega tecnologias como ultrafiltração e osmose reversa.
Em Campinas, a SANASA também opera a EPAR Capivari II, com tratamento que inclui remoção de nutrientes e membranas filtrantes. A água produzida é destinada a aplicações não potáveis, como usos industriais, lavagem, irrigação e combate a incêndios.
São experiências importantes porque demonstram capacidade brasileira de operar tecnologias sofisticadas de recuperação de água.
Mas existe uma diferença essencial.
Aquapolo e Capivari II não colocam essa água diretamente no sistema público de abastecimento humano.
E é justamente aí que Faure provoca uma reflexão maior para o setor brasileiro.
O desafio regulatório brasileiro
No Brasil, a regulação federal do reúso historicamente se concentrou no reúso direto não potável.
A Resolução CNRH nº 54/2005 estabeleceu modalidades e critérios gerais para esse tipo de aplicação. Em 2025 e 2026, documentos do Governo Federal mostram que CNRH e CONAMA continuaram discutindo atualização e harmonização dessa estrutura normativa.
Paralelamente, a água destinada ao consumo humano precisa cumprir o padrão de potabilidade e os procedimentos de controle e vigilância estabelecidos pelo Ministério da Saúde. A norma federal vigente está estruturada no Anexo XX da Portaria de Consolidação GM/MS nº 5/2017, atualizado pelas Portarias GM/MS nº 888 e nº 2.472, de 2021.
Assim, uma iniciativa brasileira de reúso potável em escala comparável ao Faure não dependeria apenas de tecnologia.
Seria necessário construir uma arquitetura regulatória envolvendo saúde pública, prestador, agência reguladora, órgão ambiental, gestor de recursos hídricos, vigilância sanitária e provavelmente regras específicas de licenciamento, monitoramento e gestão de riscos.
Essa talvez seja uma das maiores barreiras nacionais — e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de desenvolvimento regulatório.
O monitoramento começa antes da estação
Outro aprendizado de Faure está no conceito de controle da fonte.
Quando o esgoto passa a ser matéria-prima para água destinada ao abastecimento humano, controlar apenas a saída da planta deixa de ser suficiente.
Passa a ser necessário conhecer melhor o que entra na rede coletora.
Indústrias, hospitais, oficinas, laboratórios e outras atividades podem lançar compostos diferentes daqueles normalmente associados ao esgoto doméstico.
Por isso, o painel independente de especialistas contratado pela Cidade do Cabo vem avaliando não apenas o projeto da planta, mas também estratégias de controle da bacia de contribuição, qualidade da água desde a origem, protocolos de comissionamento, plano de segurança da água, monitoramento em linha e análises independentes de laboratório.
Na prática, o reúso potável aproxima as equipes de esgoto e abastecimento de uma forma que raramente ocorre na operação convencional.
O desempenho da coleta passa a influenciar a produção de água.
O controle de efluentes industriais torna-se parte da segurança do abastecimento.
A operação da ETE interfere diretamente no desempenho da futura planta de purificação.
Essa integração organizacional pode ser tão difícil quanto o desafio tecnológico.
A aceitação do cliente também precisa ser projetada
Existe ainda uma barreira que nenhuma membrana consegue remover: a rejeição social.
Projetos de reúso potável podem ser tecnicamente seguros e ainda assim fracassar se a população não confiar no sistema.
Cidade do Cabo começou a trabalhar nisso muito antes da construção da planta.
Operou uma instalação demonstrativa, realizou testes, envolveu centenas de representantes de diferentes segmentos e criou estruturas independentes de aconselhamento técnico. A experiência acumulada foi utilizada para aperfeiçoar protocolos, projeto e comunicação.
Perth seguiu caminho semelhante. Antes da implantação em escala plena, realizou um projeto demonstrativo de três anos destinado não apenas a comprovar a viabilidade técnica, mas também a construir estrutura regulatória e avaliar a aceitação da comunidade.
É uma lição particularmente importante para áreas comerciais e de atendimento das companhias.
Em projetos dessa natureza, comunicação não é campanha publicitária posterior à engenharia.
Ela faz parte da própria engenharia de implantação.
O que gestores de saneamento devem observar
Faure oferece aprendizados que vão muito além do reúso de água:
- Diversificar mananciais reduz risco sistêmico. Aquíferos, reúso, reservatórios, gestão de demanda e dessalinização possuem estruturas de risco diferentes.
- A qualidade do esgoto tratado passa a ter valor econômico. Quanto melhor o tratamento anterior, menor tende a ser o esforço exigido na purificação seguinte.
- Projetos devem ser pensados pelo ciclo de vida. Energia, químicos, resíduos, reposição de equipamentos e manutenção podem importar mais do que o CAPEX inicial.
- Contratos podem comprar desempenho em vez de obras. O modelo de Faure conecta financiamento, construção e operação ao resultado final: água disponível dentro do padrão definido.
- Monitoramento precisa ser preventivo. Esperar o laboratório identificar um problema na saída da planta é insuficiente para sistemas de alto risco sanitário.
- Operação exige profissionais altamente especializados. Instrumentação, química, microbiologia, automação, manutenção, segurança da água e análise de dados passam a trabalhar de maneira integrada.
- Aceitação pública deve começar anos antes da operação. Transparência, demonstração, publicação de dados e fiscalização independente são componentes do projeto.
O que pode dar errado
Nenhuma tecnologia elimina riscos.
Uma estação de reúso potável pode enfrentar aumento do consumo de energia, degradação de membranas, variação abrupta na qualidade do afluente, falhas de sensores, perda de eficiência de carvão ativado, problemas de dosagem química, contaminação industrial no sistema de esgoto ou erros humanos.
Há também riscos contratuais.
Uma PPP mal estruturada pode transferir riscos que o privado não consegue controlar, gerar preços excessivos, reduzir competição ou criar disputas sobre disponibilidade e qualidade.
Por outro lado, manter riscos excessivos com o poder público reduz justamente o benefício esperado da parceria.
A definição de indicadores, disponibilidade mínima, parâmetros de qualidade, critérios de indisponibilidade, mecanismos de abatimento de pagamento, protocolos de emergência e responsabilidades por mudanças regulatórias será decisiva.
Para profissionais de contratos e regulação, Faure será quase tão interessante quanto para engenheiros de tratamento.
A grande oportunidade para o Brasil pode estar no esgoto que já é tratado
O Brasil deverá investir volumes elevados na ampliação da coleta e do tratamento de esgoto nas próximas décadas.
Isso abre uma discussão estratégica.
Uma ETE deve continuar sendo concebida exclusivamente para tratar e devolver água ao meio ambiente?
Ou algumas instalações, especialmente em regiões metropolitanas e áreas com escassez hídrica, deveriam começar a ser planejadas como fábricas de recursos, capazes de gerar água de reúso, energia, nutrientes e outros produtos?
Aquapolo já demonstrou parte desse potencial no mercado industrial.
Faure leva a discussão um passo adiante ao inserir o reúso potável diretamente na estratégia de abastecimento urbano.
Isso muda a forma como se enxerga o esgoto.
O efluente deixa de representar apenas uma obrigação ambiental e passa a ser também uma reserva hídrica relativamente previsível, produzida todos os dias dentro da própria cidade.
Conclusão: Faure não é apenas uma estação de tratamento
O maior aprendizado de Cidade do Cabo talvez não esteja em uma membrana, um reator ou uma modalidade de PPP.
Está na mudança de lógica.
Depois de quase chegar ao Day Zero, a cidade passou a tratar segurança hídrica como gestão de portfólio: reservatórios continuam importantes, mas deixaram de representar a única resposta.
Água subterrânea, gestão de demanda, recuperação ambiental, dessalinização e reúso potável passaram a compor um sistema diversificado.
Faure representa essa estratégia em escala concreta.
O projeto conecta uma ETE modernizada, purificação avançada, tratamento convencional, monitoramento de alta frequência, especialistas independentes, participação pública, financiamento privado e responsabilidade pública pela água distribuída.
Para o setor brasileiro, a questão mais interessante talvez não seja saber se o mesmo projeto deve ser copiado.
É outra:
quantas cidades brasileiras continuarão tratando milhões de metros cúbicos de esgoto, devolvendo essa água ao ambiente e captando novamente água cada vez mais distante, quando parte desse recurso poderá tecnicamente voltar ao próprio sistema?
Responder essa pergunta exigirá engenharia.
Mas também exigirá regulação, contratos, análise econômica, comunicação, gestão de riscos e profissionais preparados para operar um saneamento em que a fronteira entre água e esgoto ficará cada vez menor.
É exatamente por isso que o Faure New Water Scheme merece ser acompanhado.
Fontes e referências
City of Cape Town
City begins procurement for Faure New Water Scheme — 25 de setembro de 2026.
Acessar publicação oficial
City of Cape Town
Faure New Water Scheme Feasibility Study — 2025.
Acessar estudo de viabilidade
City of Cape Town
Summary handbook on the Faure New Water Scheme feasibility study report — 2025.
Acessar resumo oficial do estudo
City of Cape Town
Cape Town’s water supply remains stable, but City prepares for a more uncertain future — 19 de agosto de 2026.
Acessar publicação
City of Cape Town
Water reuse — Faure New Water Scheme.
Acessar página técnica
City of Cape Town
Zandvliet WWTW produces significantly improved treated effluent quality — 18 de fevereiro de 2025.
Acessar publicação
City of Cape Town
Cape Town Water Strategy.
Acessar estratégia oficial
World Health Organization — WHO
Potable reuse: Guidance for producing safe drinking-water — 2017.
Acessar orientação da OMS
PUB — Singapore’s National Water Agency
NEWater.
Acessar página técnica do NEWater
Orange County Water District — OCWD
Groundwater Replenishment System.
Acessar página oficial do GWRS
Water Corporation — Western Australia
Groundwater Replenishment.
Acessar projeto de Perth
Aquapolo Ambiental
Sobre o Aquapolo e reciclagem de água.
Acessar página oficial
SANASA — Campinas
Tratamento de esgoto e EPAR Capivari II.
Acessar página institucional
Ministério da Saúde
Portaria GM/MS nº 888/2021 — padrão de potabilidade da água para consumo humano.
Acessar norma
CNRH / Governo Federal
Documentação sobre revisão das normas de reúso direto não potável de água — 2025/2026.
Acessar documentação oficial



